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Wendell Berry – A cobra

No final de outubroencontrei no chão da florestauma pequena cobra cujas costastinham o padrão da escuridãodas folhas mortas em que ela estava deitada.Seu corpo fora engrossado por um ratoou um pequeno pássaro. Ela estava fria,tão entorpecida com a barriga cheiae o ar do outono que mal se dava ao trabalho de mexer a língua.Eu a…
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William Butler Yeats – A Segunda Vinda

Girando em círculos sempre maioresJá não ouve o falcão ao falcoeiro;Tudo desaba; o próprio centro hesita;Livre, a anarquia reina sobre o mundo,Livre a maré sanguinolenta: em tudoSe afogam os rituais da inocência;Os melhores vacilam e os pioresÀ intensidade passional se entregam. Na certa algo de novo se anuncia,Eis que a Segunda Vinda se anuncia,A Segunda…
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Györy Somlyó – Fábula da dupla-hélice

Filho dos meus paispai do meu filhogeraram-mee procrieicriaram-mee crieiherdeie legueisepultei eserei sepultadoatinjo aos poucoso atingívelna corrente de cristalou nas ligações alcalinasda vida singularfeita de duaso tempocondecora-mecom todas as distinçõesatando-mecom todas as valênciasMas minhas célulasnem suspeitamaté onde podematravés delaschegar as célulaspelos obscurosdegraus restantesda escada de caracolou escada de Jacóna abóboda celesteou cavidade cranianado ácido desoxi—ribonucléico. Trad.:…
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Cassiano Ricardo – O Cacto

This is cactus land.Here the stone imagesare raised…T. S. ELIOT Vamos, todos, brincar de cactona areia da nossa tristeza.Uma folha sobre outra,em caminho do céu intacto. Uns nos ombros dos outros,um braço a nascer de outro braço,uma folha sobre outra,formaremos um grande cacto. De cada braço, já no espaço,nascerá mais um braço, e desteoutros braços,…
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Ellen Bass – Ode à repetição

Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente…
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Giacomo Leopardi – O Infinito

Sempre me foi cara esta colina ermaE esta sebe, que de muitos ladosExclui a visão do último horizonte.Mas sentado, contemplando, infindáveisEspaços além dela, e sobre-humanosSilêncios, e a mais profunda calmaEu no pensar imagino; e por poucoNão se amedronta o coração. E o VentoOuvindo sussurrar entre essas plantas,Aquele infinito silêncio a esta vozVou comparando: e lembra-me…
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Marie Howe – O que os vivos fazem

Johnny, a pia da cozinha está entupida há dias, algum utensílio provavelmente caiu lá embaixo. E o Drano não está resolvendo mas cheira perigosamente, e a louça incrustada se amontoou esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Este é o dia a dia de que falávamos. Estamos no inverno de novo: o céu é…
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Giuseppe Ungaretti – De uma Estrela à Outra

Daquela estrela à outraA noite se encarceraEm turbinosa vazia desmesura, Daquela solidão de estrelaÀquela solidão de estrela Trad: Haroldo de Campos REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016 Da quella stella all’altra Da quella stella all’altraSi carcera la notteIn turbinante vuota dismisura, Da quella solitudine di stellaA quella solitudine di stella.
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Ted Kooser – Voo noturno

Sobre nós, estrelas. Sob nós, constelações.A cinco bilhões de milhas de distância, uma galáxia morrecomo um floco de neve desfazendo-se na água. Abaixo de nós,algum fazendeiro, sentindo o calafrio dessa morte distante,acende suas luzes de quintal, deslocando seu celeiro e galpãode volta para o pequeno sistema sob seus cuidados.Por toda a noite, as cidades, como…
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Salvatore Quasimodo – E de repente é noite

Cada um está só no coração da terratraspassado por um raio de sol:e de repente é noite. Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti REPUBLICAÇÃO. Poema publicado no blog originalmente em 17/02/2016. Ed è subito sera Ognuno sta solo sul cuor della terratrafitto da un raggio di sole:ed è subito sera