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Carlos Drummond de Andrade – O Retrato Malsim

O inimigo maduro a cada manhã se vai formandono espelho de onde deserta a mocidade.Onde estava ele, talvez escondido em castelos escoceses,em cacheados cabelos de primeira comunhão?Onde, que lentamente grava sua presençapor cima de outra, hoje desintegrada? Ah, sim: estava na rigidez das horas de tenência orgulhosa,no morrer em pensamento quando a vida queria viver.Estava…
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Eavan Boland – Atlântida – Um soneto perdido

Como foi que isso aconteceu, eu me perguntava,que uma cidade inteira – arcos, pilares, colunatas,sem falar em veículos e animais – tivesse,um belo dia, afundado? Quer dizer, eu dizia a mim mesma, o mundo era pequeno naquela época.Uma grande cidade certamente teria feito falta?Sinto falta da nossa velha cidade — pimenta-branca, morcela branca, você e…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – Fundo do Mar

No fundo do mar há brancos pavores,Onde as plantas são animaisE os animais são flores. Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchas redondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruído vibram os espaços. Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Mas por mais bela que seja…
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Czesław Miłosz – Encontro

Ao amanhecer, cruzávamos os campos congelados em uma carroça.Uma asa vermelha se ergueu da escuridão. E subitamente uma lebre atravessou a estrada.Um de nós apontou para ela com a mão. Isso foi há muito tempo. Hoje, nenhum deles vive, Nem a lebre, nem o homem que fez o gesto. Oh, meu amor, onde estão, para…
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José Paulo Paes – Epitáfio para um banqueiro

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 01/12/2017
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Mary Oliver – Encontrando a raposa

Quando encontrei a raposa hoje – um ourotão vivo em seus olhos –nenhuma de nósse moveu, embora apenas uma de nós tenha sido imediatamente tomadade admiração. Suas patas estavamapoiadas em seu movimentode brusca parada, suas orelhas, para frente apontadas,a fim de ouvir como minha língua poderia ser,mas eu não dissenada, não havia palavra para a…
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Lucrécio – Da Natureza das Coisas (de rerum natura) (excerto)

Coisa nenhuma subsiste, mas tudo flui.Fragmento ajusta-se a fragmento e as coisas assim crescemAté que as conhecemos e nomeamos.Fundem-se, e já não são as coisas que conhecêramos. Formados dos átomos que caem velozes ou lentosVejo os sóis, vejo os sistemas se ordenarem;É sólido que a natureza está em nós até maisDo que nossa consciência sobre…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – A serenata de Hofstetter

A serenata de Hofstetter(Máire Ní Chuilleanáin1 1944-1990) Senti a corrente de ar há pouco, enquanto digitava os números –a data de sua morte, ocorrida há vinte e cinco anos;estamos em maio, mas a noite clara está ficando mais fria,o denso fardo se abriu e a dor se disseminouao longo desses anos desconhecidos para ela2, e…
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Kerry Hardie – Navio da morte

para minha mãeObservando-a, pela primeira vez,virar-se para preparar o seu barco, minha mãe;quando ficou claro que você tinha outros assuntos agora —os assuntos do seu futuro —fui inundada pela raiva.Foi uma primeira sondagem,um olhar lançado sobre velas, remos, mastros,como aquele olhar experiente que muitas vezes viperscrutando a mesa farta.Como pode você planejar partir assimquando finalmente…
