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David Whyte – O verdadeiro amor

Há fé em amar ferozmenteaquele que é seu por direito,especialmente se você esperou por anos e especialmentese parte de você nunca acreditouque poderia merecer esta amada mão acenandoestendida para você desta forma. Estou pensando na fé agorae nos testamentos da solidãoe naquilo de que nos sentimosdignos neste mundo. Anos atrás, nas Hébridas,eu me lembro de…
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Heinrich Heine – Morfina

É grande a semelhança desses doisjovens e belos vultos, muito emboraum pareça mais pálido e severoou, posso até dizer, bem mais distintodo que o outro, o que, terno, me abraçava.Havia em seu sorriso tanto afeto,carinho e, nos seus olhos,tanta paz!Ornada de papoulas, sua frontetocava a minha, às vezes – e seu raroodor me dissipava a…
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Lucille Clifton – o que eu sei é isso

o que eu sei é isso:minha mãe enlouqueceuna casa dos meus paispor falta de carinho o que eu sei é isso:os dias de algumas mulheressão desperdiçadosnas cozinhas de suas vidasé por isso que eu sei:os deusessão homens Trad.: Nelson Santander this is what i know this is what i know my mother went mad in…
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Carlos Drummond de Andrade – Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.Cantaremos o medo, que esteriliza os abraços,não cantaremos o ódio porque esse não existe,existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,cantaremos o medo dos ditadores,…
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Czesław Miłosz – Dádiva

Um dia tão feliz.O nevoeiro cedo dissipou-se, e eu trabalhei no jardim.Os Beija-Flores se detinham sobre as flores de madressilva.Não havia nada na terra que eu quisesse possuir.Eu não conhecia ninguém que valesse a pena invejar.Qualquer mal que eu tivesse sofrido, esqueci.Pensar que uma vez eu fui o mesmo homem não me envergonhava.Em meu corpo…
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Carlos Drummond de Andrade – O Medo

Em verdade temos medo.Nascemos escuro.As existências são poucas:Carteiro, ditador, soldado.Nosso destino, incompleto. E fomos educados para o medo.Cheiramos flores de medo.Vestimos panos de medo.De medo, vermelhos riosvadeamos. Somos apenas uns homense a natureza traiu-nos.Há as árvores, as fábricas,Doenças galopantes, fomes. Refugiamo-nos no amor,este célebre sentimento,e o amor faltou: chovia,ventava, fazia frio em São Paulo. Fazia…
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Linda Pastan – Estou aprendendo a abandonar este mundo

Estou aprendendo a abandonar este mundoantes que ele possa me abandonar.Já renunciei à luae à neve, fechando minhas persianascontra as reivindicações do branco.E o mundo levoumeu pai, meus amigos.Abandonei as linhas melódicas das colinas,mudando para uma paisagem plana, dissonante.E toda noite abandono meu corpo,membro por membro, seguindoatravés dos ossos, em direção ao coração.Mas a manhã…
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Rainer Maria Rilke – Morgue

Estão prontos, ali, como a esperarque um gesto só, ainda que tardio,possa reconciliar com tanto frioos corpos e um ao outro harmonizar; como se algo faltasse para o fim.Que nome no seu bolso já vaziohá por achar? Alguém procura, enfim,enxugar dos seus lábios o fastio: em vão; eles só ficam mais polidos.A barba está mais…
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Dan Gerber – Cinema Paradiso

No final de novembropalavras apareceram na ponta da minha canetacomo a resposta a uma pergunta queeu ainda não havia feito.Uma tornou-se um condor; outra,uma nuvem,enquanto uma terceira palavra, espinhosidade,ganhou vida no sonho de um cardo.O que é mais real,a neve ou a bola de neve,a palavra ou as letras que acompõe?Eu empacotei a neve, uma…
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Ruy Proença – Tiranias

antigamentediziam: cuidado,as paredes têm ouvidos entãofalávamos baixonos policiávamos hojeas coisas mudaram:os ouvidos têm paredes de nadaadiantagritar REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 29/05/2016 Conheça outros livros de Ruy Proença clicando aqui