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Ellen Bass – Ode ao deus dos ateus

O deus dos ateus não irá queimá-lo na fogueiraou arrancar suas unhas. Tampouco o fará clamar ou se curvar, abrir a própria pele com espinhos,ou adquirir folhas de ouro e vitrais.Não insistirá que você jejue ou distorçaa forma de sua fome sexual.Não há guerras travadas nem mulheres apedrejadas em nome dele.Você não precisa encobrir o…
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Ellen Bass – Manhã

depois de Gwendolyn Brooks Na manhã de sua morte ela acordou agressiva, alguma força dormente revivera,insistente. Pela última vezcoloquei minha mãe sentada, desloquei a massa soltado seu corpo apoiando-o contra mim. Suas pernasressequidas penduradas junto às minhas, triunfosde vontade, todas as manhãs ela seobrigava a borrifar-se com perfume barato,içar os seios oscilantes para dentrodo sutiã,…
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Ellen Bass – Pleasantville, New Jersey, 1955

Eu nunca tinha visto um arco-íris ou colhidoum tomate de um tomateiro. Nunca havia atravessado um pomarou uma floresta. A única árvore que eu conheciacrescia em um quadrado de terra recortadodo asfalto, a amoreiraque meu pai estava matando lentamente, enfiandopregos de cobre em seu tronco.Mas em uma tarde quente de verãominha mãe me deixou arrastar…
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Ellen Bass – O começo do fim

Quando era jovem e casada, eu beijeioutro homem. À tarde, eu segurava o telefonegrande e antiquado, sua voz penetrando meu corpo,escorrendo pelos escuros corredores do desejo.E enquanto minha bebê engatinhava aos meus pés,mordendo um rolo de fita adesiva, eu tilintava minhas chaves,ou o que eu pudesse alcançar para mante-la quieta.Eu lhe dizia que iria a…
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Ellen Bass – Mais

Minha sogra não consegue mais cortar as unhas dos pésnem enxergar para arrancar os pelos do queixo.Ainda lhe resta o suficiente de sua mente para estar cientedo quanto ela está esmaecendo a cada dia.Pra quê? ela diz e rediz.Mas quando lhe pergunto se já está farta de tudo,ela responde que não, que quer outros dias.Ela…
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Ellen Bass – A manhã seguinte

Você está na pia da cozinha, derramando água ferventesobre o assado francês, um aroma oleoso subindo com a fumaça.E quando eu entro, você sequer levanta os olhos.Você está correndo para embalar seu almoço, encaixandoas tampas nos pequenos recipientes plásticos, enquanto liga para sua mãepara dizer-lhe que vai leva-la ao médico.Não vejo um traço do pequeno…
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Ellen Bass – Ode à repetição

Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente…
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Ellen Bass – Borboleta morta

Durante meses, minha filha carregou uma borboleta-monarca morta em um pequeno recipiente.Em sua mochila, o inseto ia e vinha da escolapara a casa de sua única amiga. À mesa de jantar,ele se acomodava, como um convidado, ao lado da carne assada.Ela o levava para a cama, apoiando-o em seu travesseiro. Foi no ano em que…
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Ellen Bass – Esperando pela chuva

É de manhã, enfim. Esta solidãoparece mais normal na luz, mais como meu reflexono espelho. Minha filha no pronto-socorro outra vez.Algo que ela comeu? Algum aromatizante que alguém borrifou no ar?Eles estão tentando me matar, ela diz,como se fosse uma piada. Lucréciome ajudou a passar a noite. Ele me disse que o mundo é um…
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Ellen Bass – Nudez

A primeira vez que vi o pênis do meu namoradopensei que o pau estaria coberto de pelos, como o monte gramado do meu próprio sexo.Minha avó arrancou as últimas penas do frango castrado, de sua pele escorregadia, folículos,pequenas protuberâncias em forma de crateras. Certa vez, torci o pescoço de um passarinho que havia caído do…