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Ellen Bass – O começo do fim

Quando era jovem e casada, eu beijeioutro homem. À tarde, eu segurava o telefonegrande e antiquado, sua voz penetrando meu corpo,escorrendo pelos escuros corredores do desejo.E enquanto minha bebê engatinhava aos meus pés,mordendo um rolo de fita adesiva, eu tilintava minhas chaves,ou o que eu pudesse alcançar para mante-la quieta.Eu lhe dizia que iria a…
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Ellen Bass – Mais

Minha sogra não consegue mais cortar as unhas dos pésnem enxergar para arrancar os pelos do queixo.Ainda lhe resta o suficiente de sua mente para estar cientedo quanto ela está esmaecendo a cada dia.Pra quê? ela diz e rediz.Mas quando lhe pergunto se já está farta de tudo,ela responde que não, que quer outros dias.Ela…
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Ellen Bass – A manhã seguinte

Você está na pia da cozinha, derramando água ferventesobre o assado francês, um aroma oleoso subindo com a fumaça.E quando eu entro, você sequer levanta os olhos.Você está correndo para embalar seu almoço, encaixandoas tampas nos pequenos recipientes plásticos, enquanto liga para sua mãepara dizer-lhe que vai leva-la ao médico.Não vejo um traço do pequeno…
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Ellen Bass – Ode à repetição

Gosto de fazer a mesma caminhadapela vasta extensão da Woodrow* até o oceanoe na maioria das vezes viro à esquerda em direção ao farol.O mar é sempre diferente. Em alguns dias oníricos,ondas que mal ondulam, apenas uma extensa ondulaçãosem nenhuma pressa de chegar. Em outros, a rebentação está bêbada,colidindo contra os rochedos como um acidente…
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Ellen Bass – Borboleta morta

Durante meses, minha filha carregou uma borboleta-monarca morta em um pequeno recipiente.Em sua mochila, o inseto ia e vinha da escolapara a casa de sua única amiga. À mesa de jantar,ele se acomodava, como um convidado, ao lado da carne assada.Ela o levava para a cama, apoiando-o em seu travesseiro. Foi no ano em que…
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Ellen Bass – Esperando pela chuva

É de manhã, enfim. Esta solidãoparece mais normal na luz, mais como meu reflexono espelho. Minha filha no pronto-socorro outra vez.Algo que ela comeu? Algum aromatizante que alguém borrifou no ar?Eles estão tentando me matar, ela diz,como se fosse uma piada. Lucréciome ajudou a passar a noite. Ele me disse que o mundo é um…
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Ellen Bass – Nudez

A primeira vez que vi o pênis do meu namoradopensei que o pau estaria coberto de pelos, como o monte gramado do meu próprio sexo.Minha avó arrancou as últimas penas do frango castrado, de sua pele escorregadia, folículos,pequenas protuberâncias em forma de crateras. Certa vez, torci o pescoço de um passarinho que havia caído do…
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Ellen Bass – Os anéis de Saturno

Ontem à noite vi pela primeira vez os os anéis de Saturno, aquele brilhante cinturãode cristais de gelo e poeira. Espelhospastoreando a luz, coletando-acomo pólen ou manáou baldes de água doce e cristalinaextraída das profundezas de um antigo poço.O brilho jorrou através de minhas pupilasneste corpo pequeno e transitório,meu cérebro rugoso em seu crânio de…
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Ellen Bass – Relaxe

Coisas ruins vão acontecer.Em seus tomates crescerá um fungoe seu gato será atropelado.Alguém deixará a sacola com o sorvetederretendo no carro e jogaráseu suéter de cashmere azul na secadora.Seu marido vai dormircom uma garota da idade de sua filha, os seios transbordandoda blusa. Ou sua esposa se lembrará que é lésbicae o trocará pela vizinha.…
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Ellen Bass – Tingindo o cabelo dela

Minha filha senta-se no quintal em minha velha camisolaenquanto eu manejo os produtos químicos nas raízes,grata por ter uma desculpa para toca-la.No último sol do entardecer, seus cabelos bebemdo profundo tom de páprica. Ela está segura. É fimde agosto, findaram-se os damascos, manchas escurasonde eles caíram ao longo do caminho.Ela parte amanhã, de voltaa uma…