Ellen Bass – Tingindo o cabelo dela

Minha filha senta-se no quintal em minha velha camisola
enquanto eu manejo os produtos químicos nas raízes,
grata por ter uma desculpa para toca-la.
No último sol do entardecer, seus cabelos bebem
do profundo tom de páprica. Ela está segura. É fim
de agosto, findaram-se os damascos, manchas escuras
onde eles caíram ao longo do caminho.
Ela parte amanhã, de volta
a uma vida tão perigosa que preciso exilar meu coração.
Mesmo agora, com meus dedos metidos em seus cabelos,
há um postigo entre nós, como o vidro
que separa os cativos dos visitantes.
Oh amor, o terror, disse Anne Sexton.
Toda tristeza é algo que uma vez lhe trouxe alegria.
No inverno passado, quando não tive notícias dela por meses,
retirei todas as fotos de seus álbuns baratos
onde o ácido estava corroendo as imagens.
Todos os dias eu gostaria que minha mãe estivesse viva
para me confortar. Sou grata por meus desejos não terem nenhum poder.
Como ela poderia suportar me ver ser
batizada nessas águas escuras, coração espalhado
pela superfície como fragmentos da lua.
Coração arrastado por um cavalo pelas ruas.
Coração alongado como os pescoços das mulheres Kayan,
uma argola de bronze após a outra, adicionadas lentamente ao longo dos anos,
comprimindo as costelas, esmagando a espinha.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Dyeing Her Hair”. In:_____The Missoury Review. EUA: Department of English of University of Missouri-Columbia, Vol. 32.2, Summer 2009

Miniantologia Poética – 11

Dyeing Her Hair

My daughter sits in the yard in my old nightgown
while I work the chemicals down to the roots,
grateful to have an excuse to touch her.
In the last sun of the afternoon, her hair drinks in
the deep paprika hue. She’s safe. It’s the end
of August, the apricots finished, dark stains
where they fell on the path.
She leaves tomorrow, returning
to a life so dangerous I have to exile my heart.
Even now, with my fingers deep in her hair,
there’s a window between us, like the glass
that separates inmates and visitors.
Oh love, the terror, Anne Sexton said it.
Every sorrow is something that once brought you joy.
Last winter, when I hadn’t heard from her for months,
I took all the photos out of their cheap albums
where acid was eating the image away.
Every day I wish my mother were alive
to comfort me. I’m grateful my wishes have no power.
How could she bear to watch me
baptized in these dark waters, heart strewn
on the surface like shards of moon.
Heart dragged by a horse through the streets.
Heart stretched like the necks of Kayan women,
one brass coil after another added slowly through the years,
compressing the ribs, crushing bone.

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