Ellen Bass – O começo do fim

Quando era jovem e casada, eu beijei
outro homem. À tarde, eu segurava o telefone
grande e antiquado, sua voz penetrando meu corpo,
escorrendo pelos escuros corredores do desejo.
E enquanto minha bebê engatinhava aos meus pés,
mordendo um rolo de fita adesiva, eu tilintava minhas chaves,
ou o que eu pudesse alcançar para mante-la quieta.
Eu lhe dizia que iria a qualquer lugar com ele:
uma praia no Taiti, uma cabine telefônica em Detroit.
Pensei ser a babá que entrara pela
porta da frente. Ouvi a geladeira abrir-se,
o som de sucção do lacre sendo puxado.
Ela estava procurando a Coca-Cola que eu lhe comprava
toda semana, entre o arsenal de vitaminas do meu
marido, os brotos de alfafa, o alho picado
e o azeite que ele misturava ao suco de laranja
para limpar o fígado, afastando as pilhas
de rissoles de lentilhas moídas e os molhos para salada
que ele perfilava como os sete pilares da fé.
Quando ouvi os passos no corredor, eu me virei —
e lá estava ele, parado na porta,
perplexo, como um animal resgatado
da extinção. Papai, disse minha bebê,
mordiscando a lombada de um novo livro de poemas.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “The Beginning of the End”. In:_____Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014.

Miniantologia Poética – 20

The Beginning of the End

When I was young and married, I kissed
another man. Afternoons, I’d hold the big
old-fashioned phone, his voice entering my body,
slipping through the dark passages of desire.
And while my baby crawled at my feet,
teething on a roll of Scotch tape, I’d jingle my keys,
whatever I could reach to keep her quiet.
I told him I’d go anywhere with him:
a beach on Tahiti, a phone booth in Detroit.
I thought it was the babysitter who walked in
the front door. I heard the refrigerator open,
the sucking sound of the seal pulled apart.
She was looking for the one Coke I bought her
each week among the armada of my husband’s
vitamins, his alfalfa sprouts, the chopped garlic
and olive oil he mixed in his orange juice
to cleanse his liver, shuffling aside the stacks
of crushed-lentil patties and the salad dressings
he lined up like the seven pillars of faith.
When I heard footsteps in the hall, I turned—
and there he was, standing in the doorway,
bewildered, like an animal brought back
from extinction. Papa, my baby said,
chewing on the spine of a new book of poems.

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