Ellen Bass – A manhã seguinte

Você está na pia da cozinha, derramando água fervente
sobre o assado francês, um aroma oleoso subindo com a fumaça.
E quando eu entro, você sequer levanta os olhos.
Você está correndo para embalar seu almoço, encaixando
as tampas nos pequenos recipientes plásticos, enquanto liga para sua mãe
para dizer-lhe que vai leva-la ao médico.
Não vejo um traço do pequeno pedaço de céu
que adentramos ontem à noite — um quimono de seda
flutuando em charcos de cetim e carpas de cobre, estrelas caindo
na água. Por acaso não abrimos
caminho por entre as fissuras na rocha do cotidiano
e não sulcamos a grama do pasto do prazer?
Se a alma não é um recipiente separado
que carregamos de uma forma para outra forma,
mas mais como o sopro de vida de Aristóteles —
é o trabalho do corpo que a mantém inteira —
então ontem à noite, querida, nossas almas estiveram ocupadas.
Mas esta manhã é como se você estivesse usando uma peruca,
disfarçada para que eu não a reconheça
ou talvez para que você não se reconheça
naquele animal que ardeu
em puro desejo. Não sei
como você faz isso. Eu quero me jogar
nos azulejos da cozinha e abrir minha garganta.
Quero jogar meu cabelo para trás
e sapatear nas paredes. Quero fazer tudo
de novo — mergulhar de volta naquela escaramuça,
naquela crua e radiante bagunça.
Mas você está rabiscando uma lista de compras
porque as crianças virão para o final de semana
e você vai fazer os seus bolinhos especiais de siri
que me arruinaram para todos os outros bolinhos de siri,
para sempre.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “The Morning After”. In:_____Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014.

Miniantologia Poética – 18

The morning after

You stand at the counter, pouring boiling water
over the French roast, oily perfume rising in smoke.
And when I enter, you don’t look up.
You’re hurrying to pack your lunch, snapping
the lids on little plastic boxes while you call your mother
to tell her you’ll take her to the doctor.
I can’t see a trace of the little slice of heaven
we slipped into last night—a silk kimono
floating satin ponds and copper koi, stars falling
to the water. Didn’t we shoulder
our way through the cleft in the rock of the everyday
and tear up the grass in the pasture of pleasure?
If the soul isn’t a separate vessel
we carry from form to form,
but more like Aristotle’s breath of life—
the work of the body that keeps it whole—
then last night, darling, our souls were busy.
But this morning it’s like you’re wearing a bad wig,
disguised so I won’t recognize you
or maybe so you won’t know yourself
as that animal burned down
to pure desire. I don’t know
how you do it. I want to throw myself
onto the kitchen tile and bare my throat.
I want to slick back my hair
and tap-dance up the wall. I want to do it all
all over again—dive back into that brawl,
that raw and radiant free-for-all.
But you are scribbling a shopping list
because the kids are coming for the weekend
and you’re going to make your special crab cakes
that have ruined me for all other crab cakes
forever.

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