Ellen Bass – Nudez

A primeira vez que vi o pênis do meu namorado
pensei que o pau estaria coberto de pelos,

como o monte gramado do meu próprio sexo.
Minha avó arrancou as últimas penas

do frango castrado, de sua pele escorregadia, folículos,
pequenas protuberâncias em forma de crateras. Certa vez, torci

o pescoço de um passarinho que havia caído do ninho,
um fragmento de casca colado em sua penugem. A nudez

do recém-nascido, manchado de sangue e vérnix,
esparramado como um sapo na barriga afundada da mãe,

o rijo e retorcido cordão pulsando. A nudez
do corpo de minha mãe esfriando, o sangue recuando

de seus leitos ungueais, dedos tornando-se marfim. Após a morte,
a mandíbula se abre, expondo a língua nua, ressecada

e espinhosa como o caule de um cacto. Quando a Torá
é levantada da arca, é uma honra desnudar

sua coroa e couraça prateadas, capa e manto de veludo.
Após a leitura do dia, é uma honra trajar

a Palavra nua novamente. Laura raspou a cabeça
para não ter que ver seus cabelos caírem presos

aos dentes do pente, uma poça no travesseiro.
Manet pintou O Piquenique no Bosque1, cerejas

e peras amarelas caindo da cesta.
Os dois homens estão vestidos, completos com gravatas

e paletós, a mulher está nua. Nos anos setenta,
Marabel Morgan aconselhou as esposas

a receberem seus maridos na porta envoltas
em plástico filme. Conheci uma mulher que gostava

de limpar a casa nua. Se alguém tocasse a campainha,
mesmo que fossem Testemunhas de Jeová em camisas brancas

e sapatos pretos com cadarços, ela atendia assim.
Era a casa dela, ela disse. Meu marido era

o terapeuta do marido dela. Quando ele
se suicidou, meu marido desistiu do consultório.

Isso foi há muito tempo, meu ex-marido também está morto.
Quando éramos casados, ele queria que eu dormisse nua.

Expliquei-lhe que meus ombros ficavam frios. Ele então pegou
minha camisola de flanela e a recortou abaixo das axilas.

Nós rimos tanto que você poderia pensar
que ficaríamos juntos. Certa vez, cruzei com uma mulher

caminhando nas colinas de Santa Cruz, nua,
exceto pelos tênis brancos. Quando meus filhos

eram pequenos, eles adoravam ficar nus. Meu filho
se levantava em sua cadeira na mesa de jantar, seu pequeno pênis

posicionado acima do prato. Eu estava em um hotel no Missouri
zapeando os canais na TV. Metade dos programas

era de mulheres exibindo seus seios, metendo-se
à frente das câmeras ou de quatro,

sendo fodidas por trás. A outra metade era de
fundamentalistas protestando contra elas. Adoro

deitar-me ao lado do corpo nu de Janet. Seu calor
é a coisa mais próxima do sol que eu conheço.

Anos atrás, nós rolamos nuas pelas
dunas do Vale da Morte. Os cones

perfeitos de seus seios, polvilhados com grãos de areia.
Quando a filha de Eleanor não conseguiu se recuperar,

seu coração foi arrancado do peito, hospedado
nu no ar, e implantado em um empresário

chileno. Anos mais tarde, quando eles se conheceram
e se abraçaram, ela sentiu o coração da filha

batendo contra seu peito. A nudez das casas
quando os moradores se mudam, sombras quadradas

nos espaços que os quadros ocupavam, moedas empoeiradas,
clipes de papel, carcaças de insetos. Sacramento,

terra vermelho-castanha sem brotos de arroz ou nogueiras,
esperando nua pela próxima safra de shopping centers.

Fome nua. Medo nu. Quando você olha para um rosto
e percebe a necessidade, nua como um fruto despelado. A nua oração

em que você não acredita, mas ora mesmo assim
porque não pode evita-lo, nua, estúpida

em sua esperança. Sua filha está dançando nua em uma gaiola,
as coxas nuas que outrora foram empurradas para fora entre

suas coxas nuas agora envolvem um poste de prata
enquanto os homens seguram suas vontades nuas em suas palmas

nuas para fugir de suas dores nuas. Contudo, você não consegue parar
de pensar nos dedos dos pés nus dela da primeira vez que a

levou para a praia.

Trad.: Nelson Santander

BASS, Ellen. “Nakedness”. In:_____Like a Beggar. EUA: Copper Canyon Press, March 25, 2014.

N. do T.:

  1. Le déjeuner sur l’herbe

Miniantologia Poética – 14

Nakedness

The first time I saw my boyfriend’s penis,
I thought the shaft would be covered with hair,

like the grassy knoll of my own sex.
My grandmother plucked the last feathers

off the capon, its skin slippery, follicles
little crater-shaped bumps. I once wrung

the neck of a baby bird fallen from its nest,
a shard of shell stuck to its down. Nakedness

of the newborn, smeared with vernix and blood,
splayed like a frog on the sunken belly of the mother,

the tough, swirled cord pulsing. Nakedness
of my mother’s body cooling, blood receding

from her nail beds, fingers turning ivory. After death,
the jaw falls open, exposing the naked tongue, dry

and prickled as a cactus paddle. When the Torah
is lifted from the ark, it’s an honor to take off

its silver crown and breastplate, velvet cloak and robe.
After the day’s portion is read, it’s an honor to dress

the naked Word again. Laura shaved her head
so she wouldn’t have to watch her hair fall prey

to the teeth of the comb, a pool on her pillow.
Manet painted Luncheon on the Grass, cherries

and yellow pears tumbling from the basket.
The two men are dressed, complete with ties

and coats, the woman is naked. In the seventies
Marabel Morgan advised wives

to greet their husbands at the door bound
in Saran Wrap. I knew a woman who liked

to clean house naked. If someone rang the bell,
even a pair of Jehovah’s Witnesses in white shirts

and black laced shoes, she answered it like that.
It was her house, she said. My husband was

her husband’s therapist. When her husband
killed himself, my husband quit his practice.

That was long ago, my ex-husband’s dead, too.
When we were married he wanted me to sleep naked.

I said my shoulders got cold. So he took my
flannel nightgown and cut it off under the armpits.

We laughed so hard you’d have thought
we’d stay together. Once I passed a woman

hiking in the hills of Santa Cruz, naked
except for white athletic shoes. When my children

were small they loved to be naked. My son
stood on his chair at the dinner table, his tiny penis

poised above his plate. I was in a hotel in Missouri
flipping through the stations on TV. Half the shows

were women flashing their breasts, jamming
themselves in front of the camera or on all fours

being fucked from behind. The other half were
fundamentalists ranting against them. I love to lie

down next to Janet’s naked body. Her heat
is the closest thing I know to the sun.

So many years ago we rolled naked
down the dunes in Death Valley. The perfect

cones of her breasts, dusted with grains of sand.
When Eleanor’s daughter could not recover,

her heart was lifted out of her chest, cupped
naked in the air, and planted in a Chilean

businessman. Years later, when they met
and embraced, she felt her daughter’s heart

beating against her breast. The nakedness of houses
when people have moved out, square shadows

where pictures once hung, dusty pennies,
paperclips, insect carcasses. Sacramento

red-brown dirt without rice shoots or walnut trees,
waiting naked for the next crop of shopping malls.

Naked hunger. Naked fear. When you look into a face
and see the need, naked as peeled fruit. Naked prayer

you don’t believe in, but pray anyway
because you can’t help it, naked, stupid

in your hope. Your daughter is dancing in a cage,
her naked thighs that once pushed out between

your naked thighs now wrap around a silver pole
while men hold their naked hunger in their naked

palms to escape their naked pain. But you can’t stop
thinking about her naked toes the first time you

took her to the sea.

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