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Miquel Martí i Pol – Tua Solidão

Enquanto puderes, não desperdicestua solidão, dedicando-a a uma absurdabusca do nada, nem te persigasobsessivamente por escuros corredores.Assustado pela luz dos preceitos.Sai sob o sol pleno e observaas coisas difíceis.Considera que o jogo desmedido das palavrasnão te servirá de nada se não te apoiaresnaquilo que te rodeia. Há as pedrase as árvores e as pessoas e…
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Edith Södergran – Nada

Fique tranquilo, meu filho, não há nada,e tudo é como parece: a floresta, a fumaçae os trilhos que desaparecem.Em algum lugar afastado, em países distantes,existe um céu mais azul e uma parede coberta de rosasou uma palmeira e um vento suave —e isso é tudo.Não há nada além de neve no ramo do pinheiro.Não há…
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Joan Margarit – Quando se perde o sinal

À noite, em um pequeno aeroporto,vês um avião decolando.O sinal vai se perdendo.Sem nenhuma piedade por quem tens sido,pois a piedade é demasiado efêmera enão há tempo para edificar nada sobre ela,sentes-te convencido de que vives,embora sem esperanças, uns anosque são os mais felizes de tua vida.Há uma outra poesia, haverá sempre,como há outra música.…
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Thomas Lux – “Ti amo Coração”

“Ti amo Coração”, um poema de Thomas Lux que retrata um homem que arrisca a própria vida para declarar seu amor em público, explorando o caráter tolo, ardente e perigoso da paixão como expressão extrema e abençoada do sentimento amoroso.
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Nuno Júdice – Fotografia

Naquilo a que o jornal chama um nu sulfuroso deatget (1925) a mulher está de gatas em cima da cama,e olha para trás, de esguelha, como se quisessemostrar-se ao fotógrafo, por um lado, e esconder-sede nós, por outro. Mas quando a olhamos, adivinha-seum sorriso que, não se sabe porquê, se esbate comessa espécie de névoa…
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Thom Gunn – O atiçador

Quarenta e oito anos atrás —Já se passaram mesmo quarenta e oito anosDesde então?— eles forçaram a portaQue ela havia barricadoCom o peso de uma escrivaninha inteiraPara que ninguém descobrisse, como eles descobriram,o que ela havia bloqueado. Ela havia bloqueado a portaPara manter as crianças do lado de fora.Em seu roupão vermelho,Ela fizera anotações, ocupada…
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Werner Aspenström – Domingo

Pela simples razão de que nunca mais voltaráhoje é um dia memorável.O sol nasceu no leste e se pôs no oeste,deixou o céu para as estrelase uma nave espacial nadando no espaço.O rádio falava e cantava através da janela abertaatrás dos pelargônios vermelhos imutáveis.Uma mulher colhia cachos de groselha com uma tesourae os levava para…
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James Tate – A promoção

Eu fui um cachorro em minha vida passada, um cachorromuito bom, e, por isso, fui promovido a ser humano.Eu gostava de ser um cachorro. Trabalhava para um fazendeiro pobre,protegendo e pastoreando suas ovelhas. Lobos e coiotestentavam passar por mim quase todas as noites, e nemuma vez perdi uma ovelha. O fazendeiro me recompensavacom comida boa,…
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Andreia C. Faria – Descarnação

Até aos trinta anos tensa cara que Deus te deu. Depoistens a cara que mereces. É uma promessade ironia, uma sentença sem recurso. É-te assim dito:estás entregue ao labor íntimodo que comes, ao número de horas que dormes,àquilo que fazes e sobretudoàquilo em que pensas. Deus(perdoa-lhe a fraqueza)tolera-nos enquanto somos jovens,ampara-nos, alisa-nosa fronte após um…
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Filodemo de Gádara – Estação da Rosa Silvestre

É a estação da rosa silvestre e da hortelã, Sosylos,a estação do grão-de-bico e dos primeiros cortes dos brotos,dos lambaris e dos queijos salgados, da alface-crespaem cujas novas folhas a luz transfunde um brilho quase esquecido. Ainda assim,reparaste como neste ano algo mudou?Como não fazemos mais nossas caminhadas matinaisao longo da costa recém-povoada, nossos piqueniquessob…