Stanley Plumly – Jesus chorou

A frase mais curta, creio, no Novo Testamento.
Fala da ressurreição de Lázaro, e não menos,
da crucificação do próprio Jesus, quando os fariseus
compreendem o poder de uma voz que podia invocar os mortos.
Jesus parece ter-se identificado com esse irmão de Marta
e Maria, com toda comunidade em pranto.
Tirai a pedra. Lázaro, vem para fora. E aquele que estava
morto saiu, mãos e os pés atados por faixas;
o rosto envolto num sudário. Desatai-o
e deixai-o ir.


Então por que choro agora sem cessar, eu
que não quero ser chamado para fora, muito menos envolto
em branco? Creio na morte, creio na última árvore que verei,
talvez com vento nela justo no instante em que muda de cor.
Creio no pranto dos meus amigos e na terrível tristeza
de minha mulher – mas por que, deste lado das coisas, com a morte ainda
apenas um pequeno segredo movendo-se dentro de mim, estou tão ferido
de autopiedade, como se, um por um, tudo o que eu tocasse desaparecesse,
como se tudo o que olho com profundidade se tornasse, de repente, invisível?

Será a solidão, o corpo ausente, a mesa, a cadeira
e a tigela onde flutuavam flores indiferentes?
De modo que tudo o que resta seja o que a alma é – uma substituta?
Quando estava vivo, lembro de me sentir às vezes fora
de mim, como se já houvesse partido para outro lugar e,
por um instante, estivesse em dois lugares ao mesmo tempo, lugar nenhum
e um lugar sem mim: um momento, suponho, tão solitário que bastaria
para fazê-lo chorar – não tanto na hora, mas depois,
quando a ausência permaneceu em você e se tornou você.

Trad.: Nelson Santander

Jesus Wept

The shortest sentence, I believe, in the New Testament.
Having to do with the raising of  Lazarus, and no less
the crucifixion of  Jesus himself once the Pharisees
realize the power of a voice that can call forth the dead.
Jesus seems to be identifying with this brother of Martha
and Mary, with in fact the whole weeping community.
Take away the stone, Lazarus come forth, and he that was
dead came forth, bound hand and foot with graveclothes;
and his face was bound about with a napkin. Loose him
and let him go.


Then why am I now weeping all the time,
who does not want to be called forth, let alone wrapped
in white? I believe in death, I believe in the last tree I will
ever see, perhaps with wind in it just as it’s turning color.
I believe in my friends’ weeping and in the terrible sorrow
of my wife, but why, on this side of things, with death still
only a small secret moving inside me, am I so hurt with pity
for myself, as if, one by one, anything I touch will disappear,
whatever I see deeply will suddenly become invisible to me?

Is it the loneliness, the body gone, the table and the chair
and the bowl that had the heartless flowers floating in it?
So that all that is left is whatever a soul is as your stand-in?
When I was alive I remember feeling myself  beside myself
sometimes, as if I’d already passed to somewhere else and
for that moment was in two places at once, no place and
a place without me: a moment, I suppose, so lonely it was
enough to make you weep, though not so much then but
later when the absence stayed with you and became you.

Stanley Plumly – Lázaro ao amanhecer

Toda a vida somos dois – e um nos é tirado.
O ar e o fogo insuficientes,
a alegria insuficiente, as trevas
do quarto se acumulam na janela
até voarem, asa sobre asa sobre asa aberta
contra a vidraça, abrindo e fechando,
osso, sangue, punho. Mas nada acontece
além da exaustão e do testemunho do olhar,
o romper do dia em nuvens rubro-dourada

com os objetos que flutuavam no escuro
escoando de volta à origem, flutuando de volta
à tensão superficial das coisas, esses objetos
atingidos como a luz que, de súbito, irrompe
– depois desliza em relevo pela sala,
o jardim de sombras da janela regressando uma
última vez, mais uma, das folhas. Despertando agora,
a porta entreaberta, aberta, a cegueira
no vão, um silêncio a ser preenchido.

Um homem adoeceu de uma doença fatal.
Tudo o que queria era deitar-se,
deixar que a luz o desfizesse em poeira.
Envolveu-se, em pensamento, em sua própria
ausência. Não queria ouvir a chuva,
com seu significado, nem o instante após
a chuva, nem o som de Jesus chorando, nem
o sonho, que é memória, ainda que
jazesse há muito, frio, com a cabeça contra a pedra.

Vemos o vento passar de árvore em árvore,
milhares de folhas verdes individuais,
prateadas e fluidas nas superfícies,
a longa narrativa vazia do vento.
O vento é o vazio e a plenitude
num só sopro, e a suspensão desse sopro,
inquietude e quietude do espírito.
Vemos nosso rosto morto no vidro cinzento ao lado,
e vemos que já é tarde demais,

que a nudez ensanguentada da morte, vestida de branco, é fumaça,
o pai parado no vão da porta, branco,
a quem vemos em parte, como a manhã
que se forma, aos poucos, nos degraus
de retidão, um tipo de amanhecer crepuscular.
Nada é dito, embora ele saiba que o amamos.
Nada é dito, embora saibamos que ele nos ama.
O anseio – essa doença do coração – é
invisível, incurável, interminável.

Trad.: Nelson Santander

Lazarus at Dawn

Your whole life you are two with one taken
away. The inadequate air and fire,
the inadequate joy, the darknesses
of the room so gathered at the window
as to fly, wing on wing on wing open
against the glass, opening and closing,
bone, blood and wrist. But nothing happens
but exhaustion and evidence of the eyes,
the red-gold cloud-break morning beginning

with the objects that floated in the dark
draining back to the source, floating back to
the surface tension of things, those objects
struck the way the first light starts suddenly,
then slowly in relief across the room,
the window’s shadow garden come back one
last time once more from the leaves. Waking now,
the door half-open, open, the doorway’s
blindness or blackness silence to be filled.

A man was sick, a sickness unto death.
All he wanted to do was to lie down,
let the light pick him apart like the dust.
He wrapped himself, in his mind, in his own
absence. He did not want to hear the rain,
with its meaning, nor the moment after
rain, nor the sound of Jesus weeping, nor
the dreaming, which is memory, though he
lay a long time cold, head against the stone.

You see the wind passing from tree to tree,
thousands of green individual leaves
silver and fluid at the surfaces,
the long nothing narrative of the wind.
The wind is the emptiness and fullness
in one breath, and the holding of that breath,
restlessness and stillness of the spirit.
You see your dead face in the gray glass close,
and see that it is already too late,

that death’s blood nakedness clothed white is smoke,
the father standing in the doorway white,
whom you see in part, the way the morning
gathering is part in the slow degrees
of rectitude, a kind of twilight dawn.
Nothing is said, though he knows you love him.
Nothing is said, though you know he loves you.
Longing, as a sickness of the heart, is
invisible, incurable, endless.

Ferreira Gullar – Filhos

A meu filho Marcos

Daqui escutei
quando eles
chegaram rindo
e correndo
entraram
na sala
e logo
invadiram também
o escritório
(onde eu trabalhava)
num alvoroço
e rindo e correndo
se foram
com sua alegria
se foram
Só então
me perguntei
por que
não lhes dera
maior
atenção
se há tantos
e tantos
anos
não os via crianças
já que
agora
estão os três
com mais
de trinta anos.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016

Luís Filipe Parrado – Depois do amor

Depois do amor

De mais nada posso falar:
só deste cheiro a fruta espessa, crua,
que de ti me fica nos dedos,
na polpa, entre a pele e as unhas,
mesmo depois do sabonete e da água corrente.

Arnaldo Antunes – Casulo

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REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 27/03/2016

Garous Abdolmalekian – Molde

Molde

Teu vestido agitando ao vento.
Esta
é a única bandeira que adoro.

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês vertida do persa por Idra Novey and Ahmad Nadalizadeh

Pattern

Your dress waving in the wind.
This
is the only flag I love.

trans. Idra Novey and Ahmad Nadalizadeh

Jorge Luis Borges – Everness

Só uma coisa há. É o esquecimento.
Deus, que salva o metal, salva a escória
E cifra na sua profética memória
as luas que serão e que hão sido.

Já tudo está. Os mil reflexos,
Que entre os dois crepúsculos do dia
Teu rosto foi deixando nos espelhos
e os que irá deixando ainda.

E tudo é uma parte do diverso
Cristal dessa memória, o universo;
Não têm fim seus árduos corredores

E as portas se fecham a teu passo,
Só do outro lado do ocaso
Verás os Arquétipos e Esplendores.

Trad.: Héctor Zanetti

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/03/2016

Everness

Sólo una cosa no hay. Es el olvido.
Dios, que salva el metal, salva la escoria
Y cifra en su profética memoria
Las lunas que serán y que han sido.

Ya todo está. Los miles de reflejos,
Que entre los dos crepúsculos del día
Tu rostro fue dejando en los espejos
Y los que irá dejando todavía.

Y todo es una parte del diverso
Cristal de esa memoria, el universo;
No tienen fin sus arduos corredores

Y las puertas se cierran a tu paso,
Sólo del otro lado del ocaso
Verás los Arquetipos y Esplendores.

Hayan Charara — Mais velho

O solo, úmido de chuva, é mais velho que a grama que brota.
E, sombreando as pontas verdes do relvado, os carvalhos
de galhos frágeis que nunca caem
sobre o carteiro cruzando o gramado, são mais velhos
que a casa, e a casa,
em um bairro que já foi floresta, é mais velha que as crianças
que se recusam a comer vagem —
elas adoram doces, mas menos do que amam a mãe.
A menina é mais velha que o menino,
o menino é mais velho que o gato,
que não sabe dizer o que sabe
sobre idade, odeia os cactos no peitoril da janela —
conquistador noturno, ele arranha e arranha,
e quebra, depois marcha
em direção ao quarto, atravessa meu ventre e se detém
sobre meu peito — seu hálito quente e nariz úmido
jovens como a lua nova, pouco mais que crescente esta noite,
vinte e dois anos após sua morte. Oh,
mãe, sou mais velho agora do que a senhora jamais seria.

Trad.: Nelson Santander

Older

The dirt, damp with rain, is older than the sprouting grass.
And shadowing the grassy spikes, the oak trees
with brittle limbs that never fall
on the mailman walking across the lawn are older
than the house, and the house,
in a neighborhood once a forest, is older than the boy and girl
refusing to eat green beans—
they love candy, but less than they love their mother.
The girl is older than the boy,
the boy older than the cat, and the cat,
which cannot communicate what it knows
about age, hates the cactuses on the windowsill—
a conqueror in the night, he paws and paws,
and breaks, then marches
into the bedroom, across my stomach, and halts
on my chest—his warm breath and wet nose
young as the new moon, barely a crescent tonight,
twenty-two years after you died. O,
mother, I am older now than you ever would be.

Jorge Luis Borges – Cosmogonia

Nem treva nem caos. A treva
Requer olhos que vêem, como o som.
E o silêncio requer o ouvido,
O espelho, a forma que o povoa.
Nem o espaço nem o tempo. Nem sequer
Uma divindade que premedita
O silêncio anterior à primeira
Noite do tempo, que será infinita.
O grande rio de Heráclito o Escuro
Seu irrevogável curso não há empreendido,
Que do passado flui para o futuro,
Que do esquecimento flui para o esquecimento.
Algo que já padece. Algo que implora.
Depois a história universal. Agora.

Trad.: Héctor Zanetti

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/03/2016

Cosmogonia

Ni tiniebla ni caos. La tiniebla
Requiere ojos que ven, como el sonido
Y el silencio requieren el oído,
Y el espejo, la forma que lo puebla.
Ni el espacio ni el tiempo. Ni siquiera
Una divinidad que premedita
El silencio anterior a la primera
Noche del tiempo, que será infinita.
El gran río de Heráclito el Oscuro
Su irrevocable curso no ha emprendido,
Que del pasado fluye hacia el futuro,
Que del olvido fluye hacia el olvido.
Algo que ya padece. Algo que implora.
Después la historia universal. Ahora.

Kathy Fagan – Minha mãe

Minha mãe

não é um fantasma. Ela não me visita nem me assombra.
Gostaria de sonhar com ela, mas não sonho.

Em vez disso, ela me deixa coisas: um colar de contas
verdes de Mardi Gras no estacionamento,

uma moeda Mizpah dourada, uma mandala brilhante
que se perdeu de seu brinco. Coisas que uma pega pegaria

eu pego, sabendo inquestionavelmente
que são presentes dela; a alquimia, toda minha,

como se fôssemos meninas no shopping,
nos cobrindo de bijuterias baratas,

dizendo: Isso ficou lindo em você!
Nossos rostos em tão radiante harmonia

entre os metais espelhados que eu
já não sei qual de nós está viva.

Trad.: Nelson Santander

My Mother

is not a ghost. She doesn’t visit or haunt me.
I’d like to dream of her but do not.

Instead she leaves me things: a string of green
Mardi Gras beads in the parking lot,

a goldtone Mizpah coin, a shiny mandala
freed of its earring. Things a magpie might pick

up, I pick up, knowing unquestionably
they are gifts from her, the alchemy all mine,

as if we were girls together at the mall,
festooning ourselves in jewelry, the kind that’s 2

for 5, saying, That looks so good on you!
Our faces in such bright agreement

among the reflective metals, I
can no longer tell which one of us is alive.