Anna Kamieńska – Uma prece que será atendida

Senhor, permite que eu sofra muito
e depois morra

Permite que eu atravesse o silêncio
sem deixar rastro nem sequer o medo

Faz com que o mundo siga seu curso
que o oceano beije a areia como antes

Que a relva permaneça verde
para que as rãs nela se escondam

para que alguém afunde o rosto ali
e soluce seu amor

Faz o dia nascer luminoso
como se a dor já não existisse

E que meu poema permaneça límpido como uma
vidraça roçada pela cabeça de uma vespa

Trad.: Nelson Santander, do polonês a partir da versão para o inglês feita por Thomas P. Krzeszowski e Desmond Graham

A Prayer That Will Be Answered

Lord let me suffer much
and then die

Let me walk through silence
and leave nothing behind not even fear

Make the world continue
let the ocean kiss the sand just as before

Let the grass stay green
so that frogs can hide in it

so that someone can bury his face in it
and sob out his love

Make the day rise brightly
as if there were no more pain

And let my poem stand clear as a windowpane
bumped by a bumblebee’s head

William Blake – O Ti(y)gre (em 4 traduções)

O TYGRE – Trad. Augusto de Campos

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

Em que céu se foi forjar
o fogo do teu olhar?
Em que asas veio a chamma?
Que mão colheu esta flamma?

Que força fez retorcer
em nervos todo o teu ser?
E o som do teu coração
de aço, que cor, que ação?

Teu cérebro, quem o malha?
Que martelo? Que fornalha
o moldou? Que mão, que garra
seu terror mortal amarra?

Quando as lanças das estrelas
cortaram os céus, ao vê-las,
quem as fez sorriu talvez?
Quem fez a ovelha te fez?

Tygre! Tygre! Brilho, brasa
que a furna noturna abrasa,
que olho ou mão armaria
tua feroz symmetrya?

O TYGRE – Trad. José Paulo Paes

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas de noite inflama,
Que olho ou mão imortal podia
Traçar-te a horrível simetria?

Em que abismo ou céu longe ardeu
O fogo dos olhos teus?
Com que asas atreveu ao vôo?
Que mão ousou pegar o fogo?

Que arte & braço pôde então
Torcer-te as fibras do coração?
Quando ele já estava batendo,
Que mão & que pés horrendos?

Que cadeia? que martelo,
Que fornalha teve o teu cérebro?
Que bigorna? que tenaz
Pegou-te os horrores mortais?

Quando os astros alancearam
O céu e em pranto o banharam,
Sorriu ele ao ver seu feito?
Fez-te quem fez o Cordeiro?

Tygre, Tygre, viva chama
Que as florestas da noite inflama,
Que olho ou mão imortal ousaria
Traçar-te a horrível simetria?

O TIGRE – Trad. Ivo Barroso

Tigre! Tigre! tocha tesa
Na selva da noite acesa,
Que mão de imortal mestria
Traçou tua simetria?

Em que abismos ou que céus
O fogo há dos olhos teus?
Em que asa se inspira a trama
Da mão que te deu tal chama?

Que artes ou forças tamanhas
Entrançaram-te as entranhas?
E ao bater teu coração,
Pés de horror? de horror a mão?

Que malho foi? que limalha?
De teu cérebro a fornalha?
Qual bigorna? que tenazes
No terror mortal que trazes?

Quando os astros dispararam
Seus raios e os céus choraram,
Riu-se ao ver sua obra quem
Fez a ovelha e a ti também?

Tigre! Tigre! tocha tesa
Na selva da noite acesa,
Que mão de imortal mestria
Traçou tua simetria?

O TIGRE – Trad. Renato Suttana

Tigre! Tigre! clarão feroz
nas florestas da noite atroz,
que mão, que olho imortal teria
forjado a tua simetria?

Em que funduras, em que céus
o fogo ardeu dos olhos teus?
Em que asa ousou ele aspirar?
Que mão ousou o fogo atear?

Que ombro, que arte deu tal torção
às fibras do teu coração?
E, o teu coração já batendo,
que horrenda mão? que pé horrendo?

E qual martelo? E qual corrente?
Em que forja esteve tua mente?
Qual bigorna? Que ousado ater
seus terrores ousou conter?

Quando os astros se desarmaram
e o céu de lágrimas rociaram,
riu-se ao ver sua obra talvez?
Fez o Cordeiro quem te fez?

Tigre! Tigre! clarão feroz
nas florestas da noite atroz,
que mão, que olho imortal teria
forjado a tua simetria?

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 02/04/2016

The Tyger

Tyger Tyger, burning bright,
In the forests of the night;
What immortal hand or eye,
Could frame thy fearful symmetry?

In what distant deeps or skies.
Burnt the fire of thine eyes?
On what wings dare he aspire?
What the hand, dare seize the fire?

And what shoulder, & what art,
Could twist the sinews of thy heart?
And when thy heart began to beat,
What dread hand? & what dread feet?

What the hammer? what the chain,
In what furnace was thy brain?
What the anvil? what dread grasp,
Dare its deadly terrors clasp!

When the stars threw down their spears
And water’d heaven with their tears:
Did he smile his work to see?
Did he who made the Lamb make thee?

Tyger Tyger burning bright,
In the forests of the night:
What immortal hand or eye,
Dare frame thy fearful symmetry?

Barbara Crooker – Às vezes, sou arrancada de mim mesma

Às vezes, sou arrancada de mim mesma,

como nesta manhã, quando os gansos selvagens chegaram grasnando,
batendo suas dobradiças enferrujadas, e algo em sua jornada
pelo céu me fez pensar na minha vida, nos lugares
da ruptura, nos da tristeza, e naqueles onde o luto
me consumiu até a última gota. E então os gansos apareceram,
o líder recuando quando cansado, outro assumindo seu posto.
A esperança voa em asas. Veja as árvores. Douram-se
por um breve instante, depois se despem, novembro após novembro.
Nos meses frios, resistem, enfrentando o pior
que o tempo oferece. E ainda assim, em abril, em maio,
lançam folhas verdes, ainda tímidas. Os gansos planam sobre os milharais,
e pousam na lagoa entre caniços e juncos.
Você não precisa ser sábio. Até um ganso sabe onde
se abrigar, onde o milho ainda repousa entre o restolho e os talos secos.
Tudo o que fazemos é passar por aqui, da melhor maneira possível.
Eles costuram o céu, e ele volta a ser inteiro.

Trad.: Nelson Santander

Sometimes, I Am Startled Out of Myself

like this morning, when the wild geese came squawking,
flapping their rusty hinges, and something about their trek
across the sky made me think about my life, the places
of brokenness, the places of sorrow, the places where grief
has strung me out to dry. And then the geese come calling,
the leader falling back when tired, another taking her place.
Hope is borne on wings. Look at the trees. They turn to gold
for a brief while, then lose it all each November.
Through the cold months, they stand, take the worst
weather has to offer. And still, they put out shy green leaves
come April, come May. The geese glide over the cornfields,
land on the pond with its sedges and reeds.
You do not have to be wise. Even a goose knows how to find
shelter, where the corn still lies in the stubble and dried stalks.
All we do is pass through here, the best way we can.
They stitch up the sky, and it is whole again.

Rainer Maria Rilke – A Pantera (em 3 traduções)

A PANTERA – trad. Augusto de Campos

(No Jardim des Plantes, Paris)

De tanto olhar as grades seu olhar
esmoreceu e nada mais aferra.
Como se houvesse só grades na terra:
grades, apenas grades para olhar.

A onda andante e flexível do seu vulto
em círculos concêntricos decresce,
dança de força em torno a um ponto oculto
no qual um grande impulso se arrefece.

De vez em quando o fecho da pupila
se abre em silêncio. Uma imagem, então,
na tensa paz dos músculos se instila
para morrer no coração.

A PANTERA – Trad. Geir Campos

(No Jardin des Plantes, Paris)

Varando a grade, a nada mais se agarra
o olhar tomado de um torpor profundo:
para ela é como se houvesse mil barras
e, atrás dessas mil barras, nenhum mundo.

Seu firme andar de passos gráceis, dentro
dum círculo talvez muito apertado,
é uma dança de força em cujo centro
ergue-se um grande anseio atordoado.

De raro em raro, só, o véu das pupilas
abre-se sem ruído — e deixa entrar
a imagem, que sobe, pelas tranqüilas
patas, ao coração, para aí ficar.

A PANTERA – Trad. José Paulo Paes

(No Jardin des Plantes, Paris)

Seu olhar, de tanto percorrer as grades,
está fatigado, já nada retém.
É como se existisse uma infinidade
de grades e mundo nenhum mais além.

O seu passo elástico e macio, dentro
do círculo menor, a cada volta urde
como que uma dança de força: no centro
delas, uma vontade maior se aturde.

Certas vezes, a cortina das pupilas
ergue-se em silêncio. – Uma imagem então
penetra, a calma dos membros tensos trilha –
e se apaga quando chega ao coração

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 02/04/2016

Der Panther

Im Jardin des Plantes, Paris

Sein Blick ist vom Vorübergehn der Stäbe
so müd geworden,dass er nichts mehr hält.
Ihm ist, als ob es tausend Stäbe gäbe
und hinter tausend Stäben keine Welt.

Der weiche Gang geschmeidig starker Schritte,
der sich im allerkleinsten Kreise dreht,
ist wie ein Tanz von Kraft um eine Mitte,
in der betäubt ein grosser Wille steht.

Nur manchmal schiebt der Vorhang der Pupille
sich lautlos auf -. Dann geht ein Bild hinein,
geht durch der Glieder angespannte Stille –
und hört im Herzen auf zu sein.

Alan Dugan – Análise marxista do quinto trabalho de Hércules

Os estábulos de Augias estavam tão atolados em bosta de cavalo
que os nobres da cidade vieram zombar de Hércules
quando lhe mandaram limpá-los com as próprias mãos.
Queriam vê-lo de joelhos, imundo,
só cu e cotovelos num vaivém interminável por anos.
Em vez disso, ele arrancou um rio de seu leito a montante
e soltou as águas bravias rugindo pelo lugar
e lavou tudo, tudo,
e digo tudo mesmo –
a bosta, os cavalos,
os estábulos, e também os nobres,
que estavam lá, parados, prontos para fodê-Lo,
Hércules, Domador de Rios. Conclusão:
Condições revoltantes exigem soluções revolucionárias.

Trad.: Nelson Santander

Marxist Analysis of the Fifth Labor of Hercules

The Augean stables were so full of horseshit
that the Augean nobles came to laugh at Hercules
when he was told to muck them out by hand.
They hoped to see him filthy on his knees,
all asshole and elbows going fast for years.
Instead he wrenched a river from its bed upstream
and set wild water roaring through the place
and washed it all away, all
the horseshit, and I mean all
the horseshit – the horseshit, the horses,
the stables, and the nobles too,
standing around ready to bugger Him,
Hercules, Wrestler of Rivers. Conclusion:
Revolting conditions elicit revolutionary solutions.

Konstantinos Kaváfis – O Prazo de Nero

Não ficou perturbado Nero quando ouviu
do Oráculo de Delfos o prenúncio:
“Teme ao ano septuagésimo terceiro.”
Tinha tempo bastante a desfrutar.
Só contava trinta anos. Muito dilatado
era o prazo que o Deus lhe concedia
para cuidar-se dos riscos do futuro.

Agora vai voltar a Roma um tanto fatigado
da magnífica fadiga que se traz de uma viagem
toda feita de dias de prazer –
nos jardins, nos teatros, nos ginásios…
Ah tardes das cidades da Acaia…
Ah a volúpia de corpos desnudos, sobretudo…

Isto com Nero. Na Espanha todavia, Galba
secretamete congrega suas tropas e as exercita,
Galba, um velho: setenta e três anos de idade.

Trad. José Paulo Paes

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 29/03/2016

Carol Ann Duffy – Aliança

Quando a retirei de seu dedo
e a coloquei no meu,
casei-me com sua ausência;
os anos entre sua partida e a minha.
O pequeno o no amor e na dor.

Trad.: Nelson Santander

Wedding Ring

When I eased it from her finger
and onto my own,
I married her absence;
the years between her passing and mine.
The small o in love and loss.

Ana Martins Marques – Há estes dias em que pressentimos na casa…

Há estes dias em que pressentimos na casa
a ruína da casa
e no corpo
a morte do corpo
e no amor
o fim do amor
estes dias
em que tomar o ônibus é no entanto perdê-lo
e chegar a tempo é já chegar demasiado tarde
não são coisas que se expliquem
apenas são dias em que de repente sabemos
o que sempre soubemos e todos sabem
que a madeira é apenas o que vem logo antes
da cinza
e por mais vidas que tenha
cada gato
é o cadáver de um gato

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 29/03/2016

Anthony Abbott – Luz do entardecer

As árvores se despem devagar, do alto.
Braços nus se arqueiam bronzeados contra o céu. É
o por do sol. Saias alaranjadas giram na terrível luz
que morre. O chão está coberto de ouro.

Capturo a cena com o obturador do olhar —
capturo, prendo, marco — este azul, estes vermelhos
e os verdes que resistem — ferrugens no chão.
Curvo-me, recolho e detenho uma folha seca.

Ela se esfarela na mão, e vejo uma imagem
do jornal matinal ganhar voz como se viva.
Cinco crianças turcas mortas em um terremoto
jazem no chão, como se dormissem.

A mãe grita sobre delas, a boca dilacerada de horror,
enquanto no Kentucky e Ohio outras mães choram
em lenços limpos e brancos, enquanto o Toque do Silêncio
toca e bandeiras são postas em seus colos vazios.

Chapéus não bastam. Nunca é a hora certa.
A beleza está sempre quase partindo. Este vestido,
esta inclinação de cabeça, este toque, este cacho de cabelo,
esta barba grisalha, aquele olhar sobre o ombro.

Somos levados tão de repente que a respiração se vai
num branco espanto. Se eu soubesse não é
o bastante. Diga agora. Diga agora. Diga agora.
Antes que o obturador clique mais uma vez e se feche.

Trad.: Nelson Santander

Evening Light

The trees undress slowly from the top.
Bare arms arc brownly into the sky. It is
sunset. Orange skirts swirl in an awful
dying light. The ground is littered gold.

I stop the scene with the shutter of my eye—
stop and hold and mark—this blue, these reds
and holding greens—those rusts upon the ground.
I stoop and pick and hold this one dry leaf.

It crumbles in my hand, and I see a picture
from the morning paper speak as if alive.
Five Turkish children killed by earthquake
lie upon the ground, seemingly asleep.

The mother screams above, mouth horror ravaged,
while in Kentucky and Ohio other mothers weep
into clean white handkerchiefs as taps are played
and flags are placed into their hollow laps.

Hats do not suffice. The time is never right.
Beauty is always almost gone. This dress, this
cock of the head, this touch, this curl of hair,
this graying beard, that look over the shoulder.

We are taken so suddenly, the breath goes
in white astonishment. If I had known is not
enough. Say it now. Say it now. Say it now.
Before the shutter clicks once more and closes.

Moshé Ibn Ezra – São Túmulos de Tempos Antigos, Velhos

São túmulos de tempos antigos, velhos.
Neles há gente que dorme um sono eterno.
Nem ódio, nem inveja há no seu interior,
nem amor, nem zangas de vizinhos.
Os meus pensamentos não podem, quando os veem,
distinguir entre servos e senhores.

Versão de Francisco José Viegas, tradução do hebraico de Maria José Cano.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 28/03/2016