Linda Hogan – Noite ártica, luzes cruzando o céu

Estamos entrelaçados,
corpo a corpo, célula a célula,
um braço sobre o outro.
O mundo é um leito para a noite fria,
um gato aninhado na dobra de um joelho,
um cachorro aos nossos pés,
minha mão na sua, estamos abraçados
na presença animal, calidez,
o mar lá fora ressoando
ondas de inverno, uma chegando após a outra
do mistério distante,
onde, no fundo do mar,
habitam outros seres
que criam sua própria luz,
este mundo todo um único pulsar.

Trad.: Nelson Santander

Arctic Night, Lights Across the Sky

We are curved together,
body to body, cell to cell,
arm over another.
The world is the bed for the cold night,
one cat curled in the bend of a knee,
dog at the feet,
my hand in yours, we are embraced
in animal presence, warmth,
the sea outside sounding
winter waves, one arriving after another
from the mystery far out
where in the depths of the sea
are other beings
that create their own light,
this world all one heartbeat.

Jaime Sabines – Sobre a Morte do Major Sabines

Primeira Parte

I

Deixa-me repousar,
relaxar os músculos do coração
e colocar a alma para dormir
para poder falar,
para poder recordar estes dias,
os mais longos dos tempos.

Mal convalescemos da aflição
e estamos fracos, assustados,
despertando duas ou três vezes do nosso escasso sonho
para ver-te na noite e saber que respiras.
Precisamos despertar para estar mais despertos
deste pesadelo repleto de gente e de ruídos.

Tu eras o tronco invulnerável e nós os galhos,
é por isso que este machado nos sacode.
Diante de tua morte nunca paramos
para refletir sobre a morte,
nem te vimos nunca senão com força e alegria.
Não sabemos bem, mas de repente chega
um aviso incessante,
uma desprendida espada da boca de Deus
que cai e cai e cai lentamente.
E aqui estamos, tremendo de medo,
sufocando com nosso pranto reprimido,
apertando nossa garganta, o medo.
Começamos a andar e não paramos
jamais de andar, depois da meia noite,
no corredor daquele sanatório silencioso
onde há uma enfermeira acordada de plantão.
Esperar que morresses era morrer lentamente,
pingar do tubo da morte,
morrer aos poucos, aos pedaços.

Não houve hora mais interminável do que quando não estavas dormindo,
nem túnel mais espesso de horror e de miséria
do que aquele que se encheu de teus lamentos,
de teu pobre corpo ferido.

II

Do mar, também do mar,
do tecido envolvente do mar,
dos golpes do mar e de sua boca,
de sua vagina escura,
de seu vômito,
de sua pureza sombria e profunda,
vem a morte, Deus, o aguaceiro
golpeando as persianas,
a noite, o vento.

Da terra também,
das raízes agudas das casas,
das bases descalças e ensanguentadas das árvores,
de algumas rochas antigas que não podem ser removidas,
de tristes atoleiros, ataúdes de água,
de troncos caídos em que agora dorme o raio,
e do capim, que é a sombra dos ramos do céu,
vem Deus, o maneta de cem mãos,
cego de muitos olhos,
dulcíssimo, impotente
(Omniausente, cheio de amor,
o velho surdo, sem filhos,
derrama seu coração no cálice de seu ventre).

Dos ossos também,
do mais puro sal do sangue,
do ácido mais fiel,
da alma mais profunda e verdadeira,
do alimento mais inspirado,
do fígado e do pranto,
vem as ondas tensas da morte,
o frio suor da esperança,
e vem Deus sorrindo.

Caminham os livros para a fogueira.
Sobe o pano: aparece o mar.

(Eu não sou o autor do mar).

III

Sete quedas sofreu a espiga em minha mão
antes que minha fome a encontrasse,
sete vezes mil eu morri
e estou sorridente como no primeiro dia.
Ninguém dirá: ele não sabia da vida
mais do que os bois, nem menos do que as andorinhas.
Sempre fui homem, amigo fiel do cão,
desmemoriado filho de Deus,
irmão do vento.
Fodam-se as lágrimas!, eu disse,
e me pus a chorar
como alguém dando à luz.
Estou descalço, gosto de passear a água e as pedras,
as mulheres, o tempo,
gosto de passear a erva que crescerá sobre meu túmulo
(se é que terei um túmulo algum dia).
Gosto do minha roseira de cera
no jardim que a noite visita.
Gosto de meus avós de palha de milho
e gosto dos meus sapatos vazios
esperando por mim como o dia de amanhã.
Foda-se a morte!, eu disse,
sombra do meu sonho,
perversão dos anjos,
e me entreguei à morte
como uma pedra ao rio,
como um disparo nos pássaros voando.

IV

Vamos falar sobre o Príncipe Câncer,
Senhor dos Pulmões, Varão da Próstata,
que se diverte atirando dardos
nos ovários de seda, nas vaginas murchas,
nas virilhas multitudinárias.

Meu pai tem o mais belo nódulo de câncer
na base do pescoço, sob a clavícula,
tubérculo do bom Deus,
ampulheta da boa morte,
e eu mando à merda todos os sóis do mundo.
O Senhor Câncer, O Senhor Sacana,
é só um instrumento nas mãos escuras
daqueles doces personagens que criam a vida.

Nas quatro gavetas do arquivo de madeira
eu guardo os nomes que amo,
as roupas dos fantasmas da família,
as palavras que assombram
e minhas peles sucessivas.

Também estão os rostos de algumas mulheres
os olhos amados e solitários
e o beijo casto da cópula.
E das gavetas saem meus filhos.
Bem haja a sombra da árvore
que atinge a terra,
porque é a luz que chega!

V

Das nove em diante,
vendo televisão e conversando
estou esperando a morte do meu pai.
Há três meses, esperando.
No trabalho e na embriaguez,
na cama sem ninguém e no quarto das crianças,
em sua dor tão plena e fecunda,
sua insônia, sua queixa e seu protesto,
no tanque de oxigênio e nos dentes
do dia que amanhece, buscando a esperança.

Olhando o seu cadáver nos ossos
que são agora meu pai,
e introduzindo agulhas nas escassas veias,
tentando enfiar-lhe vida,
soprar-lhe na boca o ar…

(Envergonho-me de mim
por tentar escrever estas coisas.
Maldito o que crê que isto é um poema!)

O que eu quero dizer é que não sou enfermeiro,
cafetão da morte,
orador de cemitérios, gigolô,
menino de recados de Deus, sacerdote das aflições.
O que eu quero dizer é que a mim me sobra ar…

VI

Enterramos-te ontem.
Ontem te enterramos.
Cobrimos-te de terra ontem.
Ficaste na terra ontem.
Estás rodeado de terra
desde ontem.
Acima e abaixo e dos lados
por teus pés e tua cabeça
está a terra desde ontem.
Metemos-te na terra,
cercamos-te com terra ontem.
Pertences à terra
desde ontem.
Ontem te enterramos
na terra, ontem.

VII

Mãe generosa
de todos os mortos,
mãe terra, mãe,
vagina do frio,
braços da intempérie,
colo do vento,
ninho da noite,
mãe da morte,
recolhe-o, abriga-o,
desnuda-o, toma-o,
guarda-o, termina-o.

VIII

Não poderás morrer.
Debaixo da terra
não poderás morrer.
Sem água e sem ar
não poderás morrer.

Sem açúcar, sem leite,
sem feijão, sem carne,
sem farinha, sem figos,
não poderás morrer.
Sem mulher e sem filhos
não poderás morrer.
Debaixo da vida
não poderás morrer
Em teu tanque de terra
não poderás morrer.
Em teu caixão de defunto
não poderás morrer.

Em tuas veias sem sangue
não poderás morrer.

Em teu peito vazio
não poderás morrer.
Em tua boca sem fogo
não poderás morrer.
Em teus olhos sem ninguém
não poderás morrer.
Em tua carne sem pranto
não poderás morrer.
Não poderás morrer.
Não poderás morrer.
Não poderás morrer.

Enterramos teu terno,
teus sapatos, o câncer;
não poderás morrer.
Teu silêncio enterramos.
Teu corpo com cadeados.
Teus finos cabelos grisalhos,
tua dor enclausurada.
Não poderás morrer.

IX

Tu foste não sei para onde.
Teu quarto espera por ti.
Mamãe, Juan e Jorge
estamos todos esperando por ti.
Deram-nos abraços
de condolência, e recebemos
cartas, telegramas, noticias
de que te enterramos,
mas tua neta mais nova
te procura no quarto,
e todos, sem dize-lo,
estamos esperando por ti.

X

És um interminável pesadelo,
um filme estúpido de terror,
um túnel sem fim
cheio de pedras e poças.
Que tempo maldito este,
que revolve as horas e os anos,
o sonho e a consciência,
o olho aberto e o morrer lentamente!

XI

Recém-nascido no leito de morte,
criatura de paz, imóvel, terno,
Neném do sol de rosto negro,
embalado no berço do silêncio,
amamentando-se da escuridão, boca vazia,
olhar apagado, coração deserto.

Pulmão sem ar, meu filho, meu velho,
céu enterrado, primavera aérea,
tornar-me-ei um pranto clandestino
para direcionar meus olhos para teu peito.

XII

Morrer é retirar-se, por-se de lado,
ocultar-se por um tempo, ficar quieto,
atravessar o ar de costa a costa a nado
e estar em todo lugar mas discreto.

Morrer é esquecer, ser esquecido,
refugiar-se nu no discreto
calor de Deus, e em seu obstruído
punho, crescer como um feto.

Morrer é se acender em decúbito frontal
e olhar para o osso e a cal e a fumaça
e tornar-se terra num esforço laboral.

Apagar-se é morrer, devagar e depressa,
capturar a eternidade por missão
e espalhar a alma na carcaça.

XIII

Meu pai, meu senhor, irmão meu,
amigo de minha alma, terno e forte,
recupera teu velho corpo, velho meu,
recupera teu corpo da morte.

Recupera teu coração como um rio,
tua fronte limpa que era meu consolo,
teu braço como um árvore no frio,
recupera todo teu corpo do solo.

Amo teus cabelos brancos, teu maxilar austero,
tua boca firme e tua visão alerta,
teu peito vasto e sólido e certeiro.

Eu te chamo, derrubo tua porta aberta.
Parece que sou eu que me dilacero:
Meu pai, desperta!

XIV

Não se quebrou o copo em que bebeste,
nem a taça, nem o tubo, nem teu prato.
Não se queimou a cama em que morreste,
nem sacrificamos um gato.

Tudo sobrevive a ti. Tudo permanece
apesar de tua morte e de minha mágoa.
É como se a vida nos descompusesse
como o câncer sobre tua espádua.

Te enterramos, te choramos, te morremos,
Estás bem morto e bem fodido e sem sementes
enquanto pensamos no que não fizemos

e queremos ter-te mesmo que estejas doente.
Nada do que eras, foste e fomos
a não ser de teu inferno habitantes.

XV

Meu pai por trinta ou quarenta anos,
meu melhor amigo o tempo todo,
guardião de meus medos, minha força,
fala nítida, coração resoluto,

morreste quando menos falta fazias,
quando mais falta me fazes, pai, avô,
filho e irmão meu, esponja do meu sangue,
lenço dos meus olhos, travesseiro dos meus sonhos.

Morreste e me mataste um pouco.
Porque não estás, já não seremos nunca
completos, em um lugar, de alguma maneira.

Algo está faltando ao mundo, e tu achaste por bem
empobrece-lo ainda mais e, por conta própria,
fazer tua gente triste e teu Deus feliz.

XVI

(27 de novembro)

É possível que abras os olhos e nos veja agora?
Poderás nos ouvir?
Poderás estender tuas mãos por um momento?

Estamos aqui, ao teu lado. Teu aniversário
é nossa festa, meu velho.
Tua esposa e teus filhos, tuas noras e teus netos
viemos todos abraçar-te, meu velho.
Tens que estar ouvindo!
Não comeces a chorar como nós,
porque tua morte não é senão um pretexto
para chorar por todos,
pelos que estão vivendo.
Um muro caído nos separa,
somente o corpo de Deus, somente teu corpo.

XVII

Acostumei-me a conservar-te, carregar-te comigo
como alguém carrega seu braço, seu corpo, sua cabeça.
Não eras distinto de mim, nem eras parecido.
Eras, quando estou triste, minha tristeza.

Eras, quando eu caía, meu abismo,
quando levantava, minha fortaleza.
Eras brisa e suor e cataclismo
e eras o pão quente sobre a mesa.

Amputado de ti, homem semifeito
ou sombra de ti, apenas tua cria,
de alma desmantelada, aberto o peito,

ofereço um crucifixo à tua agonia:
dou-te um pau, uma pedra, um feto,
meus filhos, minha angústia e meus dias.

Parte Final

I

Enquanto as crianças crescem, tu, com todos os mortos,
pouco a pouco te acabas.
Estive te observando durante as noites
por cima do mármore, em tua pequena casa.
Um dia já sem olhos, sem nariz, sem orelhas,
outro dia sem garganta,
a pele de tua fronte rompendo-se, afundando,
colhendo sombriamente o trigo de teus cabelos grisalhos.
Todo teu ser imerso em umidade e gases
produzindo teus restos, tua desordem, tua alma,
tua carne cada vez mais como teu terno,
mais madeira teus ossos, e mais ossos as tábuas.
Terra molhada onde havia tua boca,
ar putrefato, luz aniquilada,
o silêncio abarcando todo teu ser,
germinando borbulhas sob as plantas aquáticas.
(Sete palmos acima da terra, flores dominicais
querem te dar um beijo e não te dão nada).

II

Enquanto as crianças crescem e as horas nos falam,
tu, subterraneamente, lentamente, te extingues.
Lume enterrado e solitário, pavio da sombra,
veio de horror para quem te escava.

É tão fácil dizer “meu pai”
e tão difícil encontrar-te, larva
de Deus, semente de esperança!

Às vezes quero chorar e não quero
porque me traspassas
como um desabamento, porque te moves
como um vento formidável, como um calafrio
sob os lençóis,
como uma lerda larva ao largo da alma.

Se ao menos pudesse dizer: “papai, cebola,
pó, cansaço, nada, nada, nada”!
Se com um gole eu pudesse tragar-te!
Se, com esta dor, apunhalar-te!
Se, com este desvelo de memórias
– ferida aberta, vômito de sangue –
agarrar-te a face!

Eu sei que nem você nem eu,
nem um par de válvulas,
nem um bezerro de cobre, nem um par de asas
sustendo a morte, nem a espuma
em que naufraga o mar, nem – não – as praias,
a areia, a pedra, submissa ao vento e à água,
nem a árvore que é o avô de sua sombra,
nem nosso sol, enteado de seus ramos,
nem a fruta madura, incandescente,
nem a raiz de pérolas e de escamas,
nem teu tio, nem teu tetraneto, nem teus soluços,
nem minha loucura, e nem tuas costas
saberão do tempo sombrio que nos permeia
das veias mornas aos cabelos brancos.

(Tempo vazio, frasco de vinagre,
caracol recordando a ressaca)

Eis que tudo vem, tudo vai,
tudo, tudo chega ao fim.
Mas tu? Eu? Nós?
Para que nós levantamos nossas vozes?
De que serviu o amor?
Qual era a muralha
que detinha a morte? Onde estava
a negra criança que te velava?

Anjos degolados coloquei aos pés do teu caixão,
e cobri-te de terra, pedras, lágrimas,
para que não partas, para que não partas.

III

O mundo segue em frente, o tempo não para,
máscaras vem e vão.
Amanhece a dor um dia após o outro,
nos rodeamos de amigos e fantasmas,
às vezes parece que um arame extrai
o sangue, que uma flor rebenta,
que o coração dá frutos, e o cansaço
canta.

Embriagados, fartando-se de mulher e de bebida,
esperando crescer como as plantas,
fixo, imóvel, girando
na chama invisível.
Enquanto você, o forte, o generoso,
o despojado de mentiras e infâmias,
guerreiro da paz, juiz de vitórias
– cedro do Líbano, carvalhal de Chiapas –
te ocultas na terra, regressas
à tua raiz escura e desolada.

IV

Um ano ou dois ou três,
o que te importa?
O que é o tempo na morte? Que sino
incessante, silencioso, soa e soa?
Que subterrânea voz não pronunciada?
Que grito submerso, naufragando, interminável,
dos dentes de trás, na garganta
aérea, flutuante, detém as escamas?

Viver para isso? Para sentir os braços
e as pernas e a face penhorados,
arrendados à cova, os sucos
enlaçados nas cascas?
Para espremer os olhos noite
após noite no tremor escuro da cama,
redemoinho de imóveis transparências,
declínio da náusea?

Morrer para isso?
Para inventar a alma,
a veste de Deus, a eternidade, a água
do aguaceiro da morte, a esperança?
Morrer para pescar?
Para capturar a aranha com sua teia?

Estás em uma praia de algodões
e teus moais de sombras sobem e descem.

V

Minha mãe solitária, afundada em sua velhice,
sem dor e sem lamúria,
ferida por tua morte e por tua vida.

Foi isto o que deixaste. Tua paixão altiva,
Teu estro firme, teu labor sombrio.
Árvore frutífera a um passo da lenha,
seu curvo sonho que te ressuscita.
Foi isto o que deixaste. O que deixaste e não querias.

Passou o vendaval. Tudo o que restou da casa
foram o poço destampado e a base em ruínas.
E chorar é em vão. E se golpeias
as paredes de Deus, e se arrancas
os próprios cabelos ou tua camisa,
ninguém te ouve jamais, ninguém te olha.
Ninguém, nada regressa. Não retorna
o pó de ouro da vida.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 18/10/2018

Algo Sobre la Muerte de Mayor Sabines

Primera parte

I

Déjame reposar,
aflojar los músculos del corazón
y poner a dormitar el alma
para poder hablar,
para poder recordar estos días,
los más largos del tiempo.

Convalecemos de la angustia apenas
y estamos débiles, asustadizos,
despertando dos o tres veces de nuestro escaso sueño
para verte en la noche y saber que respiras.
Necesitamos despertar para estar más despiertos
en esta pesadilla llena de gentes y de ruidos.

Tú eres el tronco invulnerable y nosotros las ramas,
por eso es que este hachazo nos sacude.
Nunca frente a tu muerte nos paramos
a pensar en la muerte,
ni te hemos visto nunca sino como la fuerza y la alegría.
No lo sabemos bien, pero de pronto llega
un incesante aviso,
una escapada espada de la boca de Dios
que cae y cae y cae lentamente.
Y he aquí que temblamos de miedo,
que nos ahoga el llanto contenido,
que nos aprieta la garganta el miedo.
Nos echamos a andar y no paramos
de andar jamás, después de medianoche,
en ese pasillo del sanatorio silencioso
donde hay una enfermera despierta de ángel.
Esperar que murieras era morir despacio,
estar goteando del tubo de la muerte,
morir poco, a pedazos.

No ha habido hora más larga que cuando no dormías,
ni túnel más espeso de horror y de miseria
que el que llenaban tus lamentos,
tu pobre cuerpo herido.

II

Del mar, también del mar,
de la tela del mar que nos envuelve,
de los golpes del mar y de su boca,
de su vagina obscura,
de su vómito,
de su pureza tétrica y profunda,
vienen la muerte, Dios, el aguacero
golpeando las persianas,
la noche, el viento.

De la tierra también,
de las raíces agudas de las casas,
del pie desnudo y sangrante de los árboles,
de algunas rocas viejas que no pueden moverse,
de lamentables charcos, ataúdes del agua,
de troncos derribados en que ahora duerme el rayo,
y de la yerba, que es la sombra de las ramas del cielo,
viene Dios, el manco de cien manos,
ciego de tantos ojos,
dulcísimo, impotente.
(Omniausente, lleno de amor,
el viejo sordo, sin hijos,
derrama su corazón en la copa de su vientre).

De los huesos también,
de la sal más entera de la sangre,
del ácido más fiel,
del alma más profunda y verdadera,
del alimento más entusiasmado,
del hígado y del llanto,
viene el oleaje tenso de la muerte,
el frío sudor de la esperanza,
y viene Dios riendo.

Caminan los libros a la hoguera.
Se levanta el telón: aparece el mar.

(Yo no soy el autor del mar).

III

Siete caídas sufrió el elote de mi mano
antes de que mi hambre lo encontrara,
siete veces mil veces he muerto
y estoy risueño como en el primer día.
Nadie dirá: no supo de la vida
más que los bueyes, ni menos que las golondrinas.
Yo siempre he sido el hombre, amigo fiel del perro,
hijo de Dios desmemoriado,
hermano del viento.
¡A la chingada las lágrimas!, dije,
y me puse a llorar
como se ponen a parir.
Estoy descalzo, me gusta pisar el agua y las piedras,
las mujeres, el tiempo,
me gusta pisar la yerba que crecerá sobre mi tumba
(si es que tengo una tumba algún día).
Me gusta mi rosal de cera
en el jardín que la noche visita.
Me gustan mis abuelos de totomoste
y me gustan mis zapatos vacíos
esperándome como el día de mañana.
¡A la chingada la muerte!, dije,
sombra de mi sueño,
perversión de los ángeles,
y me entregué a morir
como una piedra al río,
como un disparo al vuelo de los pájaros.

IV

Vamos a hablar del Príncipe Cáncer,
Señor de los Pulmones, Varón de la Próstata,
que se divierte arrojando dardos
a los ovarios tersos, a las vaginas mustias,
a las ingles multitudinarias.

Mi padre tiene el ganglio más hermoso del cáncer
en la raíz del cuello, sobre la subclavia,
tubérculo del bueno de Dios,
ampolleta de la buena muerte,
y yo mando a la chingada a todos los soles del mundo.
El Señor Cáncer, El Señor Pendejo,
es sólo un instrumento en las manos obscuras
de los dulces personajes que hacen la vida.

En las cuatro gavetas del archivero de madera
guardo los nombres queridos,
la ropa de los fantasmas familiares,
las palabras que rondan
y mis pieles sucesivas.

También están los rostros de algunas mujeres
los ojos amados y solos
y el beso casto del coito.
Y de las gavetas salen mis hijos.
¡Bien haya la sombra del árbol
llegando a la tierra,
porque es la luz que llega!

V

De las nueve de la noche en adelante,
viendo televisión y conversando
estoy esperando la muerte de mi padre.
Desde hace tres meses, esperando.
En el trabajo y en la borrachera,
en la cama sin nadie y en el cuarto de niños,
en su dolor tan lleno y derramado,
su no dormir, su queja y su protesta,
en el tanque de oxígeno y las muelas
del día que amanece, buscando la esperanza.

Mirando su cadáver en los huesos
que es ahora mi padre,
e introduciendo agujas en las escasas venas,
tratando de meterle la vida,
de soplarle en la boca el aire…

(Me avergüenzo de mí hasta los pelos
por tratar de escribir estas cosas.
¡Maldito el que crea que esto es un poema!)

Quiero decir que no soy enfermero,
padrote de la muerte,
orador de panteones, alcahuete,
pinche de Dios, sacerdote de las penas.
Quiero decir que a mí me sobra el aire…

VI

Te enterramos ayer.
Ayer te enterramos.
Te echamos tierra ayer.
Quedaste en la tierra ayer.
Estás rodeado de tierra
desde ayer.
Arriba y abajo y a los lados
por tus pies y por tu cabeza
está la tierra desde ayer.
Te metimos en la tierra,
te tapamos con tierra ayer.
Perteneces a la tierra
desde ayer.
Ayer te enterramos
en la tierra, ayer.

VII

Madre generosa
de todos los muertos,
madre tierra, madre,
vagina del frío,
brazos de intemperie,
regazo del viento,
nido de la noche,
madre de la muerte,
recógelo, abrígalo,
desnúdalo, tómalo,
guárdalo, acábalo.

VIII

No podrás morir.
Debajo de la tierra
no podrás morir.
Sin agua y sin aire
no podrás morir.

Sin azúcar, sin leche,
sin frijoles, sin carne,
sin harina, sin higos,
no podrás morir.
Sin mujer y sin hijos
no podrás morir.
Debajo de la vida
no podrás morir.
En tu tanque de tierra
no podrás morir.
En tu caja de muerto
no podrás morir.

En tus venas sin sangre
no podrás morir.

En tu pecho vacío
no podrás morir.
En tu boca sin fuego
no podrás morir.
En tus ojos sin nadie
no podrás morir.
En tu carne sin llanto
no podrás morir.
No podrás morir.
No podrás morir.
No podrás morir.

Enterramos tu traje,
tus zapatos, el cáncer;
no podrás morir.
Tu silencio enterramos.
Tu cuerpo con candados.
Tus canas finas,
tu dolor clausurado.
No podrás morir.

IX

Te fuiste no sé a dónde.
Te espera tu cuarto.
Mi mamá, Juan y Jorge
te estamos esperando.
Nos han dado abrazos
de condolencia, y recibimos
cartas, telegramas, noticias
de que te enterramos,
pero tu nieta más pequeña
te busca en el cuarto,
y todos, sin decirlo,
te estamos esperando.

X

Es un mal sueño largo,
una tonta película de espanto,
un túnel que no acaba
lleno de piedras y de charcos.
¡Qué tiempo éste, maldito,
que revuelve las horas y los años,
el sueño y la conciencia,
el ojo abierto y el morir despacio!

XI

Recién parido en el lecho de la muerte,
criatura de la paz, inmóvil, tierno,
recién niño del sol de rostro negro,
arrullado en la cuna del silencio,
mamando obscuridad, boca vacía,
ojo apagado, corazón desierto.

Pulmón sin aire, niño mío, viejo,
cielo enterrado y manantial aéreo
voy a volverme un llanto subterráneo
para echarte mis ojos en tu pecho.

XII

Morir es retirarse, hacerse a un lado,
ocultarse un momento, estarse quieto,
pasar el aire de una orilla a nado
y estar en todas partes en secreto.

Morir es olvidar, ser olvidado,
refugiarse desnudo en el discreto
calor de Dios, y en su cerrado
puño, crecer igual que un feto.

Morir es encenderse bocabajo
hacia el humo y el hueso y la caliza
y hacerse tierra y tierra con trabajo.

Apagarse es morir, lento y aprisa
tomar la eternidad como a destajo
y repartir el alma en la ceniza.

XIII

Padre mío, señor mío, hermano mío,
amigo de mi alma, tierno y fuerte,
saca tu cuerpo viejo, viejo mío,
saca tu cuerpo de la muerte.

Saca tu corazón igual que un río,
tu frente limpia en que aprendí a quererte,
tu brazo como un árbol en el frío
saca todo tu cuerpo de la muerte.

Amo tus canas, tu mentón austero,
tu boca firme y tu mirada abierta,
tu pecho vasto y sólido y certero.

Estoy llamando, tirándote la puerta.
Parece que yo soy el que me muero:
¡padre mío, despierta!

XIV

No se ha roto ese vaso en que bebiste,
ni la taza, ni el tubo, ni tu plato.
Ni se quemó la cama en que moriste,
ni sacrificamos un gato.

Te sobrevive todo. Todo existe
a pesar de tu muerte y de mi flato.
Parece que la vida nos embiste
igual que el cáncer sobre tu omoplato.

Te enterramos, te lloramos, te morimos,
te estás bien muerto y bien jodido y yermo
mientras pensamos en lo que no hicimos

y queremos tenerte aunque sea enfermo.
Nada de lo que fuiste, fuiste y fuimos
a no ser habitantes de tu infierno.

XV

Papá por treinta o por cuarenta años,
amigo de mi vida todo el tiempo,
protector de mi miedo, brazo mío,
palabra clara, corazón resuelto,

te has muerto cuando menos falta hacías,
cuando más falta me haces, padre, abuelo,
hijo y hermano mío, esponja de mi sangre,
pañuelo de mis ojos, almohada de mi sueño.

Te has muerto y me has matado un poco.
Porque no estás, ya no estaremos nunca
completos, en un sitio, de algún modo.

Algo le falta al mundo, y tú te has puesto
a empobrecerlo más, y a hacer a solas
tus gentes tristes y tu Dios contento.

XVI

(Noviembre 27)

¿Será posible que abras los ojos y nos veas ahora?
¿Podrás oírnos?
¿Podrás sacar tus manos un momento?

Estamos a tu lado. Es nuestra fiesta,
tu cumpleaños, viejo.
Tu mujer y tus hijos, tus nueras y tus nietos
venimos a abrazarte, todos, viejo.
¡Tienes que estar oyendo!
No vayas a llorar como nosotros
porque tu muerte no es sino un pretexto
para llorar por todos,
por los que están viviendo.
Una pared caída nos separa,
sólo el cuerpo de Dios, sólo su cuerpo.

XVII

Me acostumbré a guardarte, a llevarte lo mismo
que lleva uno su brazo, su cuerpo, su cabeza.
No eras distinto a mí, ni eras lo mismo.
Eras, cuando estoy triste, mi tristeza.

Eras, cuando caía, eras mi abismo,
cuando me levantaba, mi fortaleza.
Eras brisa y sudor y cataclismo
y eras el pan caliente sobre la mesa.

Amputado de ti, a medias hecho
hombre o sombra de ti, sólo tu hijo,
desmantelada el alma, abierto el pecho,

ofrezco a tu dolor un crucifijo:
te doy un palo, una piedra, un helecho,
mis hijos y mis días, y me aflijo.

Parte Final

I

Mientras los niños crecen, tú, con todos los muertos,
poco a poco te acabas.
Yo te he ido mirando a través de las noches
por encima del mármol, en tu pequeña casa.
Un día ya sin ojos, sin nariz, sin orejas,
otro día sin garganta,
la piel sobre tu frente agrietándose, hundiéndose,
tronchando obscuramente el trigal de tus canas.
Todo tú sumergido en humedad y gases
haciendo tus desechos, tu desorden, tu alma,
cada vez más igual tu carne que tu traje,
más madera tus huesos y más huesos las tablas.
Tierra mojada donde había tu boca,
aire podrido, luz aniquilada,
el silencio tendido a todo tu tamaño
germinando burbujas bajo las hojas de agua.
(Flores dominicales a dos metros arriba
te quieren pasar besos y no te pasan nada.)

II

Mientras los niños crecen y las horas nos hablan
tú, subterráneamente, lentamente, te apagas.
Lumbre enterrada y sola, pabilo de la sombra,
veta de horror para el que te escarba.

¡Es tan fácil decirte “padre mío”
y es tan difícil encontrarte, larva
de Dios, semilla de esperanza!

Quiero llorar a veces, y no quiero
llorar porque me pasas
como un derrumbe, porque pasas
como un viento tremendo, como un escalofrío
debajo de las sábanas,
como un gusano lento a lo largo del alma.

¡Si sólo se pudiera decir: “papá, cebolla,
polvo, cansancio, nada, nada, nada”!
¡Si con un trago te tragara!
¡Si con este dolor te apuñalara!
¡Si con este desvelo de memorias
—herida abierta, vómito de sangre—
te agarrara la cara!

Yo sé que tú ni yo,
ni un par de valvas,
ni un becerro de cobre, ni unas alas
sosteniendo la muerte, ni la espuma
en que naufraga el mar, ni —no— las playas,
la arena, la sumisa piedra con viento y agua,
ni el árbol que es abuelo de su sombra,
ni nuestro sol, hijastro de sus ramas,
ni la fruta madura, incandescente,
ni la raíz de perlas y de escamas,
ni tu tío, ni tu chozno, ni tu hipo,
ni mi locura, y ni tus espaldas,
sabrán del tiempo obscuro que nos corre
desde las venas tibias a las canas.

(Tiempo vacío, ampolla de vinagre,
caracol recordando la resaca.)

He aquí que todo viene, todo pasa,
todo, todo se acaba.
¿Pero tú? ¿pero yo? ¿pero nosotros?
¿para qué levantamos la palabra?
¿de qué sirvió el amor?
¿cuál era la muralla
que detenía la muerte? ¿dónde estaba
el niño negro de tu guarda?

Ángeles degollados puse al pie de tu caja,
y te eché encima tierra, piedras, lágrimas,
para que ya no salgas, para que no salgas.

III

Sigue el mundo su paso, rueda el tiempo
y van y vienen máscaras.
Amanece el dolor un día tras otro,
nos rodeamos de amigos y fantasmas,
parece a veces que un alambre estira
la sangre, que una flor estalla,
que el corazón da frutas, y el cansancio
canta.

Embrocados, bebiendo en la mujer y el trago,
apostando a crecer como las plantas,
fijos, inmóviles, girando
en la invisible llama.
Y mientras tú, el fuerte, el generoso,
el limpio de mentiras y de infamias,
guerrero de la paz, juez de victorias
—cedro del Líbano, robledal de Chiapas—
te ocultas en la tierra, te remontas
a tu raíz obscura y desolada.

IV

Un año o dos o tres,
te da lo mismo.
¿Cuál reloj en la muerte?, ¿qué campana
incesante, silenciosa, llama y llama?
¿qué subterránea voz no pronunciada?
¿qué grito hundido, hundiéndose, infinito
de los dientes atrás, en la garganta
aérea, flotante, pare escamas?

¿Para esto vivir? ¿para sentir prestados
los brazos y las piernas y la cara,
arrendados al hoyo, entretenidos
los jugos en la cáscara?
¿para exprimir los ojos noche
a noche en el temblor obscuro de la cama,
remolino de quietas transparencias,
descendimiento de la náusea?

¿Para esto morir?
¿para inventar el alma,
el vestido de Dios, la eternidad, el agua
del aguacero de la muerte, la esperanza?
¿morir para pescar?
¿para atrapar con su red a la araña?

Estás sobre la playa de algodones
y tu maea de sombras sube y baja.

V

Mi madre sola, en su vejez hundida,
sin dolor y sin lástima,
herida de tu muerte y de tu vida.

Esto dejaste. Su pasión enhiesta,
su celo firme, su labor sombría.
Árbol frutal a un paso de la leña,
su curvo sueño que te resucita.
Esto dejaste. Esto dejaste y no querías.

Pasó el viento. Quedaron de la casa
el pozo abierto y la raíz en ruinas.
Y es en vano llorar. Y si golpeas
las paredes de Dios, y si te arrancas
el pelo o la camisa,
nadie te oye jamás, nadie te mira.
No vuelve nadie, nada. No retorna
el polvo de oro de la vida.

Diane Seuss – [Todas as coisas agora me lembram]

Todas as coisas agora me lembram de como o amor costumava ser. Taboas dilatadas em lugares
solitários. Condicionador viscoso em meus cabelos. Sólidos livros. Suas variegadas lombadas.
Turbilhão de palavras como um coquetel agitado, umbigo em torvelinho, pulsante asterisco.
O passado é isto: ter sido jovem e desejosa e não ser mais.
No futuro, as taboas explodirão sem mim. Oro para que elas
não passem despercebidas. Quem irá cavalgar os cavalos do cemitério? Loiras e incorrigíveis medeixas
soprando em seus olhos. Quando eu caminhava pelos cemitérios comentando
sobre os nomes estranhos. O presente: seguir um caminho sem amor é cortejar
um vazio roxo-azulado, como uma gruta ou uma boate. Ou a caverna onde cadáveres
são armazenados no inverno, quando uma pá não consegue romper o solo congelado.
Eu já vi tais lugares. Já estive sozinha neles. Som de água marulhando.
Animais chamando uns aos outros. Eco da minha própria respiração. Fumaça saindo
da minha boca no frio. Memória, um intruso em um canto que quer matar,
pedra pesada na mão. E a poesia. Este poema agora. Este caso de uma noite.

Trad.: Nelson Santander

[All things now remind me]

All things now remind me of what love used to be. Swollen cattails in lonely
places. Gluey conditioner in my hair. Firm books. Their variegated spines.
Swirl of words like a stirred cocktail, whirled umbilicus, pulsing asterisk.
The past is this: to have been young and desirous and to be those things
no more. In the future the cattails will explode without me. I pray they will
not go unseen. Who will ride the cemetery horses? Incorrigible blond forelocks
blowing in their eyes. Back when I walked through cemeteries commenting
on the strange names. The present tense: to take a loveless path is to court
a purple-blue emptiness, like a disco or a grotto. Or the cave where dead bodies
are stored in the winter, when a shovel can’t break through frozen ground.
I have seen such spaces. I have been alone in them. Sound of water lapping.
Animals calling to each other. Echo of my own breath. Smoke pouring
from my mouth in the cold. Memory, interloper in the corner who means to kill,
heavy rock in its hand. And poetry. This poem right now. This one-night stand.

Ada Limón – Notas sobre o Subterrâneo

Notas sobre o Subterrâneo

— Para o Parque Nacional Mammoth Cave

Colossal caverna, diga-me, úmido calcário, rocha de arenito,
      asa de morcego, cego e translúcido camarão-das-cavernas,

esta queda livre para além do desconhecido,
                            como se guardam segredos por tanto tempo?

Por toda minha vida vivi sobre o solo,
            rodas de carro sobre pistas pavimentadas, raízes rompendo o                              concreto,
mas ainda não compreendi a trama do propósito desta vida.

Não tanto viver, mas um pairar sem sentido.

O que é ser sempre noite? Sem lua, somente alguns círculos
      iluminados em suas múltiplas entradas. Escuridão infinita, ainda assim o tempo
deve entrar em você. Como um trem, como um rio verde?

Diga-me, o que é ser uma coisa enraizada na sombra?
      Ser a coisa que não é tocada pela luz (não, não é isso)
e nem mesmo precisar da luz? Eu invejo; invejo isso.

O desejo é uma coisa complicada, o fervor dos quereres do corpo,
            mais elogios, mais mãos para afastar as facas.

Eu fui aquela que ansiou e ansiou até não poder mais           enxergar
      além da minha própria avareza. Há uma nação inteira de nós.

Para me perdoar, eu arrolo a terra como testemunha.

Para você, seu Frozen Niagara, seu Fat Man’s Misery1,
            você, com suas 400 milhas de cavernas interligadas que levam
apenas a mais de você mesma, diga-me,

o que é ficar quieto, e ainda assim respirar?

            Soberana dos subterrâneos, permita-me
falar tanto com os mortos quanto com os vivos, como você faz. Falar
com a terra arruinada, as estalactites, o morcego oriental de             pata pequena,

para honrar isso: a duração dos dias. Falar com o núcleo
      que cria e engole, falar não só para o que
grita, mas para o que está embaixo, sem pedir nada.

Estou na entrada da caverna. Estou disposta a rastejar.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: 1. Frozen Niagara e Fat Man’s Misery são duas formações geológicas existentes no Mammoth Cave National Park, localizado no estado de Kentucky, nos Estados Unidos. O Frozen Niagara é uma cascata congelada de calcita, que se assemelha à famosa cachoeira canadense. A formação é composta de depósitos minerais brancos e é um espetáculo incrível para os visitantes que percorrem o Mammoth Cave. O Fat Man’s Misery, por sua vez, é um trecho de passagem estreita e sinuosa da caverna, onde o teto e o chão parecem se encontrar em alguns pontos. Diz a lenda que a passagem recebeu este nome porque um homem muito acima do peso teria ficado preso lá e precisou ser lubrificado com óleo para conseguir sair. A passagem é um dos pontos mais emocionantes e desafiadores para os visitantes que exploram a caverna.

Notes on the below

—For Mammoth Cave National Park

Humongous cavern, tell me, wet limestone, sandstone caprock,
      bat-wing, sightless translucent cave shrimp,

this endless plummet into more of the unknown,
                            how one keeps secrets for so long.

All my life, I’ve lived above the ground,
            car wheels over paved roads, roots breaking through                              concrete,
and still I’ve not understood the reel of this life’s purpose.

Not so much living, but a hovering without sense.

What’s it like to be always night? No moon, but a few lit up
      circles at your many openings. Endless dark, still time
must enter you. Like a train, like a green river?

Tell me what it is to be the thing rooted in shadow.
      To be the thing not touched by light (no that’s not it)
to not even need the light? I envy; I envy that.

Desire is a tricky thing, the boiling of the body’s wants,
            more praise, more hands holding the knives away.

I’ve been the one who has craved and craved until I could not            see
      beyond my own greed. There’s a whole nation of us.

To forgive myself, I point to the earth as witness.

To you, your Frozen Niagara, your Fat Man’s Misery,
            you with your 400 miles of interlocking caves that lead
only to more of you, tell me,

what it is to be quiet, and yet still breathing.

            Ruler of the Underlying, let me
speak to both the dead and the living as you do. Speak
to the ruined earth, the stalactites, the eastern small-footed             bat,

to honor this: the length of days. To speak to the core
      that creates and swallows, to speak not always to what’s
shouting, but to what’s underneath asking for nothing.

I am at the mouth of the cave. I am willing to crawl.

Joan Margarit – A moça do semáforo

Tens a mesma idade que eu tinha
quando comecei a sonhar em encontrar-te.
Ignorava então, assim como tu ignoras,
que o amor se transforma na arma carregada
de solidão e melancolia
que aponta agora para ti em meus olhos.
Tu és a moça que busquei
durante tanto tempo, quando ainda não existias.
E eu o homem a quem, um dia,
desejarás que oriente teus passos.
Mas estarei tão distante de ti então
quanto estás agora de mim neste semáforo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 14/10/2018

Joan Margarit – La muchacha del semáforo

Tienes la misma edad que yo tenía
cuando empecé a soñar con encontrarte.
Entonces ignoraba, igual que tú lo ignoras,
que el amor se transforma en el arma cargada
de soledad y de melancolía
que ahora está apuntándote en mis ojos.
Tú eres la muchacha que busqué
durante tanto tiempo cuando aún no existías.
Y yo el hombre hacia quien querrás
alguna vez encaminar tus pasos.
Pero estaré tan lejos de ti entonces
como lo estás ahora de mí en este semáforo.

Matthew Rohrer – Não há absolutamente nada mais solitário

Não há absolutamente nada mais solitário
do que o pequeno Mars Rover,
sempre em funcionamento, escavando
rochas, tão longe da Bond street
sob a chuva suave. Será que
ele emite pequenos bipes? Se sim,
ele é ainda mais solitário. Ele dispara laser
na poeira. Ele engasga. Algo
brilhante na areia revela-se ser dele.

Trad.: Nelson Santander

There Is Absolutely Nothing Lonelier

There is absolutely nothing lonelier
than the little Mars rover
never shutting down, digging up
rocks, so far away from Bond street
in a light rain. I wonder
if he makes little beeps? If so
he is lonelier still. He fires a laser
into the dust. He coughs. A shiny
thing in the sand turns out to be his.

Alfonsina Storni – Leva-me

Quero esquecer que vivo: leva-me a algum lugar;
Ata-me a tua alma; a alva a brilhar.

Colhe-me entre tuas mãos como em um branco casulo
E mostra-me aos deuses com glória e com orgulho.

Leva-me! É uma noite muito escura e sombria!…
A morte caça pelo mundo tal qual harpia.

Faz-me esquecer o peso que carrego nos ombros
Essa carga pesada de pesados escombros.

Liberta-me! Em tuas mãos quero pesar menos
Do que pesam – luzes – os pensamentos serenos.

Mais leve do que o ar, mais leve que o próprio ar
Como bolha de espuma que sobe ao clarear.

Espuma, brisa, aroma, casulo, flor, fragrância:
Leva-me para sempre, sem rumo nem distância.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 12/10/2018

Llévame

Quiero olvidar que vivo: llévame a donde sea;
Enrédame en tu alma; la aurora centellea.

Tómame entre tus manos como blanco capullo
Y muéstrame a los dioses con gloria y con orgullo.

¡Llévame! Está la noche muy negra y muy sombría!…
La muerte por los mundos anda de cacería.

Hazme olvidar lo mucho que me pesa en los hombros
Esta carga pesada de pesados escombros.

¡Libértame! En tus manos yo quiero pesar menos
De lo que pesan — luces — los pensamientos buenos.

Liviana más que el aire, más que el aire liviana;
Como globo de espuma que asciende en la mañana.

Espuma, brisa, aroma, capullo, flor, fragancia:
Llévame para siempre sin rumbo ni distancia.

Stanley Kunitz – Cometa de Halley

A srta. Murphy, da primeira série,
escreveu o nome dele no quadro negro
com giz e nos contou que ele
viajava rugindo pelas trajetórias de tempestades
da Via Láctea a uma velocidade aterrorizante,
e que se ele desviasse do seu curso
e colidisse com a terra
não haveria aula no dia seguinte.
Um pregador das colinas, de barba ruiva
e com uma expressão selvagem nos olhos
estava na praça pública,
perto do playground,
proclamando que Deus o havia enviado
para salvar todos nós,
até mesmo as criancinhas.
“Arrependei-vos, pecadores!” ele gritava,
acenando com sua placa escrita à mão.
Durante o jantar, senti-me triste ao pensar
que aquela provavelmente seria
a última refeição que compartilharia
com minha mãe e minhas irmãs;
mas também me sentia excitado
e mal toquei no meu prato.
Então, mamãe me repreendeu
e me mandou para o meu quarto mais cedo.
A família inteira dorme,
menos eu. Eles não me ouviram sair furtivamente
para o corredor das escadas e subir
os degraus para o ar fresco da noite.
Procure por mim, padre, no telhado
do edifício de tijolos vermelhos
ao pé da Green Street —
é onde moramos, no último andar.
Eu sou o menino de roupão de flanela
deitado nesta cama de cascalho áspero
olhando para o céu estrelado,
esperando o fim do mundo.

Trad.: Nelson Santander

Halley’s Comet

Miss Murphy in first grade
wrote its name in chalk
across the board and told us
it was roaring down the stormtracks
of the Milky Way at frightful speed
and if it wandered off its course
and smashed into the earth
there’d be no school tomorrow.
A red-bearded preacher from the hills
with a wild look in his eyes
stood in the public square
at the playground’s edge
proclaiming he was sent by God
to save every one of us,
even the little children.
“Repent, ye sinners!” he shouted,
waving his hand-lettered sign.
At supper I felt sad to think
that it was probably
the last meal I’d share
with my mother and my sisters;
but I felt excited too
and scarcely touched my plate.
So mother scolded me
and sent me early to my room.
The whole family’s asleep
except for me. They never heard me steal
into the stairwell hall and climb
the ladder to the fresh night air.
Look for me, Father, on the roof
of the red brick building
at the foot of Green Street—
that’s where we live, you know, on the top floor.
I’m the boy in the white flannel gown
sprawled on this coarse gravel bed
searching the starry sky,
waiting for the world to end.

Angela Figuera Aymerich – Princípio e Fim (na morte de minha mãe)

Já tenho minhas raízes debaixo da terra.
Já um pouco morta contigo, mãe,
há algo da minha vida que se decompõe
contigo, com teus ossos delicados,
com tuas veias azuis, com teu ventre
que côncavo sofreu, dando-me forma.
Na ignorância, mãe, não no pecado
mostraste-me como a vida brota.
Como a carne floresce e se divide
no centro sagrado da mulher.
Pequena e frágil foste. Pesava-te
um filho atrás do outro no regaço
com um humilde assombro de perceber-te
permanentemente cheia e frutificada.
E eu saí de ti com outra força.
Com uma ardente audácia de perguntas
que tu jamais havias formulado
quando a vida te era dada em júbilo
ou te assediava em duro sofrimento.
Que nem sequer estavam na terrível
angústia suplicante dos teus olhos
que só me pediam uma trégua,
um alívio impossível
para essa dor, para esse medo infinito
de bicho na armadilha sem saída
com que a morte, mãe, se te incutia.
Eu te vi partir. Sem te deteres.
Sem ajudar-te. Ninguém pode faze-lo
nessa hora. Todos vamos sozinhos
à nossa própria destruição. Não pude,
não pude acompanhar-te, minha mãe,
dar-te segurança em tua jornada
nem sorrir-te do outro lado
da pesada porta silente
que um dia se nos abre bruscamente,
sempre para fora, nunca como via de retorno.
E tive que soltar, fria, indefesa,
tua mão que à minha se aferrava
ansiosa por um calor e uma esperança
que haviam desertado de teu sangue.
Eu sei que confiavas, supondo
em mim uma vaga onipotência, algo
capaz de te sustentar. E eu somente
sentia uma dulcíssima ternura,
uma tremenda compaixão inútil
por teu absoluto, imenso desamparo.
E nada pude fazer. Nem sequer
ficar junto a ti. Afastaste-te de mim
de forma terrível. Separada.
Alheia. Quase hostil em teu mistério.
Indecifrável em tua quietude. Agora
aquilo de mim que estava em tuas entranhas,
que foi o meu princípio e persistia
em tua secreta intimidade, apodrece
contigo – minha raiz – ou talvez viva
como um caule profundo, recatado,
na terra que fecundas enquanto me esperas.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução. Poema publicado na página originalmente em 06/10/1967

Principio Y Fin (En la muerte de mi Madre)

Ya tengo mi raíz bajo la tierra.
Un poco muerta ya contigo, madre,
hay algo de mi vida que se pudre
contigo, con tus huesos delicados,
con tus azules venas, con tu vientre
que cóncavo sufrió dándome forma.
En la ignorancia, madre, no en pecado
me hiciste tú como la vida brota.
Como la carne crece y se divide
en el sagrado centro de la hembra.
Pequeña y débil fuiste. Te pesaba
un hijo tras de otro en el regazo
con un humilde asombro de mirarte
continuamente llena y frutecida.
Y yo salí de ti con otra fuerza.
Con una ardiente audacia de preguntas
que tú jamás te habías formulado
cuando la vida se te daba en júbilo
o te acosaba en duro sufrimiento.
Que no estaban siquiera en la terrible
angustia suplicante de tus ojos
que sólo me pedían una tregua,
un imposible alivio
a ese dolor, a ese infinito miedo
de bestezuela en cepo sin huida
con que la muerte, madre, te llegaba.
Yo te veía ir. Sin retenerte.
Sin ayudarte. Nadie puede hacerlo
en esa hora. Todos vamos solos
a nuestra propia destrucción. No pude,
no pude acompañarte, madre mía,
poner seguridad en tu camino
ni sonreírte desde el otro lado
de la pesada puerta silenciosa
que un día se nos abre bruscamente,
siempre hacia afuera, nunca hacia el retorno.
Y tuve que soltar, fría, indefensa,
tu mano que a la mía se acogía
mendiga de un calor y una esperanza
que habían desertado de tu sangre.
Yo sé que confiabas, suponiendo
en mí una vaga omnipotencia, un algo
capaz de sostenerte. Y yo tan solo
sentía una blandísima ternura,
una tremenda compasión inútil
por tu absoluto, enorme desamparo.
Y nada pude hacer. Ni tan siquiera
quedarme junto a ti. Te me pusiste
horriblemente lejos. Separada.
Ajena. Casi hostil en tu misterio.
Indescifrable en tu quietud. Ahora
eso de mí que estaba en tus entrañas,
que fue principio mío y persistía
en tu secreta intimidad, se pudre
contigo –mi raíz– o acaso vive
como un tallo profundo, recatado,
en tierra que tú abonas aguardándome.

Izumi Shikibu – [Venha logo]

Venha logo — assim
que se abrirem essas pétalas,
elas cairão.
Este mundo existe como
a luz do orvalho nas flores.

Trad.: Nelson Santander (a partir da versão do poema em inglês vertida por Jane Hirshfield e Mariko Aratani)

N. do T.: Izumi Shikibu foi uma poetisa japonesa que viveu no final do período Heian, entre os séculos X e XI. Ela é considerada uma das principais escritoras de waka de sua época, e é especialmente conhecida por suas obras de amor e sensualidade. O waka é uma forma poética tradicional japonesa caracterizada por um padrão estrutural específico, que consiste em 31 sílabas organizadas em um esquema de 5-7-5-7-7 (que procurei manter em minha tradução). Além da estrutura métrica, a poesia waka tem algumas características temáticas e estilísticas. É uma poesia que frequentemente usa uma linguagem simples e direta, buscando expressar emoções e sentimentos de forma concisa e poética. Os temas recorrentes incluem a natureza, a beleza das estações do ano, o amor e a tristeza.

Come quickly — as soon as
these blossoms open,
they fall.
This world exists
as a sheen of dew on flowers.

Translated by Jane Hirshfield, com Mariko Aratani