E. C. Belli – Revelação

Eu escapei do granito fosco
e alcancei seu rosto caçando
em algum tipo de território inóspito.
Que estranho campo de jogo é este
que deixa seu oponente derrotado
e desesperançado assim. É da alegria que precisamos
para temperar toda essa revelação da verdade.
Talvez mentiras sejam o melhor caminho.
Talvez mentiras não sejam realmente tão ruins
quanto parecem ser. Penso que honestidade
é apenas uma palavra diferente para carnificina.

Trad.: Nelson Santander

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Revelation

I escaped the dull granite
and reached your face by hunting
some kind of wilderness.
What a strange playing field it is–
leaving your opponent undone,
hopeless like that. It’s glee we need
to temper all this truth-telling.
Perhaps lies are the better way.
Perhaps lies aren’t really as bad as they are
made out to be. I think honesty
is just a different word for carnage.

Mark Strand – A história

É a velha história: queixas sobre a lua
afundando no mar, sobre as estrelas desvanecendo na primeira luz,
sobre o gramado molhado de orvalho, o frio e prateado gramado.

E por aí vai: um homem olha para a própria sombra
e afirma serem as cinzas de si mesmo se desprendendo, diz que seus dias
são os verdadeiros buracos negros no espaço. Mas nada disso é verdade.

Você sabe a que me refiro: é sobre os minutos morrendo,
e as horas, e os anos; é a história que conto
sobre mim, sobre você, sobre todos.

Trad.: Nelson Santander

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The Story

It is the old story: complaints about the moon
sinking into the sea, about stars in the first light fading,
about the lawn wet with dew, the lawn silver, the lawn cold.

It goes on and on: a man stares at his shadow
and says it’s the ash of himself falling away, says his days
are the real black holes in space. But none of it’s true.

You know the one I mean: it’s the one about the minutes dying,
and the hours, and the years; it’s the story I tell
about myself, about you, about everyone.

Joshua Poteat – Ferrotipia

Trad.: Nelson Santander

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TINTYPE


Whole forests went to sea

disguised as ships.



Whole seas went to forest



disguised as time.


Jim Harrison – Transformação

Nenhum lugar é o mesmo de ontem.
Nenhum de nós é o mesmo de ontem.
Por fim, morremos pela exaustão da transformação.
Este júbilo celular em declínio é compartilhado
pelo vento, insetos, aves, ursos e rios,
e talvez pelos buracos negros no espaço galáctico
onde nossas almas serão todas reunidas em um invisível
dedal de antimatéria. Mas não vamos nos precipitar.
Sim, as árvores se desgastam à medida que crescem as papadas
sob meu queixo, as mãos enrugadas que tentaram estrangular
um agressor de esposas na cidade de Nova York, em 1957.
Giramos com a terra, recuperando o fôlego
como alguém diferente, nossos cérebros macios e mal treinados,
exceto para observar-nos desaparecer na distância.
Ainda assim, amamos fazer música desse enigma.

Trad.: Nelson Santander

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Becoming

Nowhere is it the same place as yesterday.
None of us is the same person as yesterday.
We finally die from the exhaustion of becoming.
This downward cellular jubilance is shared
by the wind, bugs, birds, bears and rivers,
and perhaps the black holes in galactic space
where our souls will all be gathered in an invisible
thimble of antimatter. But we’re getting ahead of ourselves.
Yes, trees wear out as the wattles under my chin
grow, the wrinkled hands that tried to strangle
a wife beater in New York City in 1957.
We whirl with the earth, catching our breath
as someone else, our soft brains ill-trained
except to watch ourselves disappear into the distance.
Still, we love to make music of this puzzle.

Ian Hamilton – Última Valsa

De onde estamos quase conseguimos identificar
Os rostos destas pessoas que não conhecemos:
Um semi-círculo sombreado
Ao redor do enorme aparelho de TV doado
Que domina nossa ala.

A ‘Última Valsa’ espalha-se sobre eles
Iluminando
Amistosos, exaustos sorrisos. E nós,
Como se nos importássemos, também sorrimos.

Para cada alma perdida, nesta hora tardia,
Um sedado espasmo de felicidade.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 19/05/2019

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Last Waltz

From where we sit, we can just about identify
The faces of these people we don’t know:
A shadowed semi-circle
Ranged around the huge, donated television set
That dominates the ward.

The ‘Last Waltz’ floods over them
Illuminating
Fond, exhausted smiles. And we,
As if we cared, are smiling too.

To each lost soul, at this late hour
A medicated pang of happiness.

Laura Gilpin – Canção Noturna

E quando ela
acordou de repente
no quarto vazio
gritando mãe, mãe,

a lua, observando
à distância, ergueu-se
sobre a sua cama
e lá permaneceu,
até que ela
adormecesse.

Trad.: Nelson Santander

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Night Song

And when she
woke suddenly
in the empty room
crying mother, mother,

the moon, watching
at a distance, rose
over her bed
and stayed there
until she was
asleep.

Timothy Joshua – A distância

Você está tão distante, 
que meu sol se tornou sua lua.
E como estrelas continuam a roubar nossa luz,
não posso deixar de me perguntar se os céus que
compartilhamos ainda são os mesmos.

Trad.: Nelson Santander

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Long distance

You are so far away,
that my sun has become your moon.
And as stars continue to steal our light,
I cannot help but wonder if the skies that we
share are still the same.

Joan Margarit – Monumentos

O vazio que sentes, cada vez com mais força,
é o dos traidores.
Também os monumentos, por dentro, são vazios,
com as entranhas cheias de ferrugem e de morte:
escuros e corroídos pela história,
é tão sinistro seu interior
como arrogante o gesto que no ar
desenha a personagem.
À medida que os amigos nos traem
– e a morte é também uma traição –
nos vamos convertendo em monumentos.
Por fora, ainda resta um resquício de eloquência,
sobretudo ao falar com alguém jovem,
mas a voz ressoa no vazio,
perdida entre os vergalhões de uma oculta estrutura
que se desgasta em finas camadas de ferrugem.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/05/2019

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Joan Margarit – Monumentos

El vacío que sientes cada vez con más fuerza
es el de los traidores.
También los monumentos, por dentro, están vacíos,
con las entrañas llenas de óxido y de muerte:
oscuros y podridos por la historia,
es tan siniestro su interior
como arrogante el gesto que en el aire
dibuja el personaje.
Según van traicionando los amigos
—y la muerte es también una traición—
nos vamos convirtiendo en monumentos.
Por fuera queda un resto de elocuencia,
sobre todo al hablar con alguien joven,
pero la voz resuena en el vacío,
perdida entre los hierros de un oculto entramado
que se deshoja en leves capas de óxido.

Sharon Olds – Poema tardio para meu pai

De repente, você me veio à mente
como uma criança naquela casa, os cômodos escuros
e a lareira acesa com o homem diante dela,
silente. Você se movia pelo ar pesado
em sua beleza física, um menino de sete anos,
indefeso, esperto, havia coisas que o homem
fazia perto de você, e ele era seu pai,
o molde que o formou. Lá embaixo, no
porão, os barris de maçãs doces,
colhidas no topo da árvore, apodreciam e
apodreciam, e além da porta do porão
o riacho fluía e fluía, e algo não
foi dado a você, ou algo com que
você nasceu lhe foi tirado, de modo que
mesmo aos 30 e 40 anos você aplicava o
remédio oleoso nos lábios
todas as noites, a poção para ajuda-lo
a cair inconsciente. Sempre pensei que o
problema era o que você fez conosco
quando adulto, mas então me lembrei daquela
criança sendo formada diante do fogo, dos
ossos delicados dentro de sua alma,
quebrados como ramos verdes, os pequenos
tendões que mantêm o coração no lugar
rompidos. E o que fizeram com você,
você não fez comigo. Quando o amo agora,
gosto de pensar que estou dando meu amor
diretamente àquele menino na sala escaldante,
como se pudesse alcançá-lo a tempo.

Trad.: Nelson Santander

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Late Poem to My Father

Suddenly I thought of you
as a child in that house, the unlit rooms
and the hot fireplace with the man in front of it,
silent. You moved through the heavy air
in your physical beauty, a boy of seven,
helpless, smart, there were things the man
did near you, and he was your father,
the mold by which you were made. Down in the
cellar, the barrels of sweet apples,
picked at their peak from the tree, rotted and
rotted, and past the cellar door
the creek ran and ran, and something was
not given to you, or something was
taken from you that you were born with, so that
even at 30 and 40 you set the
oily medicine to your lips
every night, the poison to help you
drop down unconscious. I always thought the
point was what you did to us
as a grown man, but then I remembered that
child being formed in front of the fire, the
tiny bones inside his soul
twisted in greenstick fractures, the small
tendons that hold the heart in place
snapped. And what they did to you
you did not do to me. When I love you now,
I like to think I am giving my love
drectly to that boy in the fiery room,
as if it could reach him in time.

Ian Hamilton – Lamento

Fiz o que pude. Meus garotos correm soltos agora.
Eles buscam oportunidades enquanto a mãe deles apodrece aqui.
E rua acima, o homem,
Meu único homem, que me tocou em todos os lugares,
Desmancha-se sob a terra.

Sou triste, obtusa, velha e alienada.
À noite, sinto minhas mãos vagando sobre mim,
Sondando meus seios, meus joelhos,
As dobras do meu ventre,
Vez ou outra pressionando e às vezes,
Em sua fome, dilacerando-me.
Vivo só.

Meus garotos correm, deixando a mãe deles como se fosse um calhau
Rolando no recreio depois que tocou o sinal.
Acumulo poeira e quase desejo a sepultura.
Ter bichinhos habitando em mim já seria algo.
Mas aqui, aos oito novamente, observo os brotos desabrochando
Além deste quintal.
Eu sei como me comportar.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 07/05/2019

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Complaint

I’ve done what i could. My boys run wild now.
They seek their chances while their mother rots here.
And up the road, the man,
My one man, who touched me everywhere,
Falls to bits under the ground.

I am dumpy, obtuse, old and out of it.
At night, i can feel my hands prowl over me,
Lightly probing at my breasts, my knees,
The folds of my belly,
Now and then pressing and sometimes,
In their hunger, tearing me.
I live alone.

My boys run, leaving their mother as they would a stone
That rolls on in the playground after the bell has gone.
I gather dust and i could almost love the grave.
To have small beasts room in me would be something.
But here, at eight again, i watch the blossoms break
Beyond this gravel yard.
I know how to behave.