Ángel González – O amanhã é um mar profundo que precisamos atravessar a nado

Queria ser alga, alga enredada
na parte suave de tuas coxas.
Sopro de brisa nas tuas bochechas.
Leve areia sob tua pegada.

Queria ser água, água salgada
quando corres nua no litoral.
Sol cortando em sombra tua banal
Silhueta virgem recém-molhada.

Tudo quisera ser, indefinido,
ao teu redor: vista, luz, ambiente
gaivota, céu, navio, vela, vento…

A concha que aproximas ao ouvido,
para poder unir, timidamente,
com o rumor do mar, meu sentimento.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 25/07/2019

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Mañana es un mar hondo que hay que cruzar a nado

Alga quisiera ser, alga enredada,
en lo más suave de tu pantorrilla.
Soplo de brisa contra tu mejilla.
Arena leve bajo tu pisada.

Agua quisiera ser, agua salada
cuando corres desnuda hacia la orilla.
Sol recortando en sombra tu sencilla
silueta virgen de recién bañada.

Todo quisiera ser, indefinido,
en torno a ti: paisaje, luz, ambiente,
gaviota, cielo, nave, vela, viento…

Caracola que acercas a tu oído,
para poder reunir, tímidamente,
con el rumor del mar, mi sentimiento.

Joan Margarit – Astapovo

De madrugada, quando só se ouvem
relógios no escuro,
eu o imagino, com seus oitenta anos,
fugindo em um trem russo que ia ao sul
de lugar nenhum, para onde os velhos sonham ir.
Tolstói temia aquele inverno
que o acompanhou durante a velhice
até o leito de morte ferroviário,
na noite em que o telégrafo
transmitiu a mais breve e cruel
de todas as suas mensagens.
Quis correr mais rápido que o frio,
mas seu trem foi coberto para sempre
pelos flocos de neve que caíam
na gare de Astapovo.
Iniciei minha fuga muito antes,
pois aprendi com Tolstói
que é preciso entrar na última estação
em alta velocidade. Assim a morte,
sem tempo para nos avisar com sinais,
agitando uma lanterna nos linhas,
com um golpe certeiro,
muda a direção dos trilhos.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 19/07/2019

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Joan Margarit – Astápovo

De madrugada, cuando sólo se oyen
relojes en lo oscuro,
me lo imagino, a sus ochenta años,
huyendo en un tren ruso que iba al sur
de ningún sitio, adonde los viejos quieren ir.
Tolstoi temía aquel invierno
que le siguió durante su vejez
hasta el lecho de muerte ferroviario,
la noche en que el teclado del telégrafo
transmitió el más breve y cruel
de todos sus relatos.
Quiso correr más rápido que el frío,
pero su tren quedó cubierto para siempre
por los copos de nieve que caían
en la estación de Astápovo.
Yo he empezado la fuga mucho antes,
porque aprendí de Tolstoi
que hay que entrar en la última estación
a gran velocidad. Así la muerte,
sin tiempo de avisarnos con señales
agitando un farol desde las vías,
de un golpe seco, cambia las agujas.

Patrick Philips – Matinê

Após a biópsia,
após a cintilografia óssea,
após a consulta e o choro,

por algumas horas ninguém conseguia encontrá-los,
nem mesmo minha irmã,
porque acontece que

eles tinham ido ao cinema.
Passava uma tragédia,
um épico,

mas no fim eles foram de comédia,
com suas cocas
e pipocas,

a velha mulher sussurrando tudo duas vezes,
o velho marido
cobrindo o ouvido com a mão,

enquanto o sol poente iluminava um pomar
atrás do shopping center,
e eles se sentavam no escuro, de mãos dadas.

Trad.: Nelson Santander

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Matinee

After the biopsy,
after the bone scan,
after the consult and the crying,

for a few hours no one could find them,
not even my sister,
because it turns out

they’d gone to the movies.
Something tragic was playing,
something epic,

and so they went to the comedy
with their popcorn
and their cokes,

the old wife whispering everything twice,
the old husband
cupping a palm to his ear,

as the late sun lit up an orchard
behind the strip mall,
and they sat in the dark holding hands.

Vladimir Holan – A Neve

A neve começou a cair à meia-noite. E não há dúvida
de que o melhor para o homem é estar sentado na cozinha,
ainda que seja a da insônia.
Ali faz calor, preparas-te algo, bebes vinho
e contemplas pela vidraça a eternidade familiar.
Por que te angustiarias querendo saber se nascimento e morte são apenas dois pontos,
sabendo que a vida não é uma linha reta?
Por que te torturarias ao ver o calendário
e te inquietarias querendo saber o que está em jogo?
Por que admitirias que não tens dinheiro sequer
para comprar um par de sapatos para Saskia?
E por que haverias de vangloriar-se
de que sofres mais que os outros?

Mesmo que não houvesse silêncio na terra,
Esta neve já o teria criado em seu sonho.
Estás só. Nenhum gesto. Nada a ostentar.

Trad.: Nelson Santander a partir de versão do poema em espanhol traduzido por Josef Forbelski

REPUBLICAÇÃO, com pequenas alterações na tradução: poema publicado na página originalmente em 22/01/2019

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Vladimir Holan – La Nieve

La nieve empezó a caer a medianoche. Y no hay duda
de que como mejor está el hombre es sentado en la cocina,
aunque sea la del insomnio.
Allí se está caliente, te preparas cualquier cosa, bebes vino
y contemplas por la ventana la eternidad familiar.
Por qué ibas a atormentarte queriendo saber si nacimiento y muerte son sólo dos puntos,
sabiendo que la vida no es una línea recta…
Por qué te ibas a torturar al ver el calendario
y a inquietarte queriendo saber qué valor hay en juego.
¿Y por qué ibas a confesarte que no tienes dinero
para comprarle unos zapatos a Saskia?
¿Y por qué ibas a jactarte
de que sufres más que los otros?

Aunque no hubiese silencio en la tierra
este nevar ya lo habría creado en su sueño.
Estás solo. Ni un gesto. Nada de ostentación.

Tung-Hui Hu – Como cuidar?

Naquele mês, eu me perguntava onde eles se reuniam,
antes dos hospitais, antes da ala oncológica,
dos cuidados intensivos, das urgências.

Naquele tempo, tudo era urgente, amarrar
mãos e pés, imobilizar o corpo
antes que pudesse se transformar em cadáver. Agora
é mais fácil, olhar fotografias em vez disso,

uma dele em sua camisa de trabalho, colarinho desgastado,
esticada sobre suas costelas. Outra, de sua filha,
que ajeita sua cabeça raspada em um travesseiro como se
arrumasse flores. Prática para a vida,

caminhar pelos corredores, ler gráficos,
raios X, examinar a cavidade de um tronco contra
a luz, pegar um suco na cafeteria,
sorvê-lo, expeli-lo para fora de mim,

era como estar em um transatlântico, a mesma
lentidão para se mover, a mesma distância da terra,
onde os homens sofrem, onde os homens vivem.

Trad.: Nelson Santander

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How to Care?

That month, I wondered where they gathered
before hospitals, before the oncology ward,
intensive care, urgent care.

Back then it was all urgent, binding
hands and feet, immobilizing the body
before it could pass into cadaver. Now
it is easier, to look at photographs instead,

one of him in his work shirt, collar fraying,
stretched across his ribs. Another, his daughter,
who sets his shaven head upon a pillow as if
arranging flowers. Practice for the living,

walking through hallways, reading charts,
X-rays, seeing the hollows of a torso held
to the light, getting juice from the cafeteria,
swallowing it, passing it out of me,

it was like being on an ocean liner, the same
slowness to move, the same distance from land,
where men are hurting, men are living.

Louise Dupré – [cada poema é um outono]

cada poema é um outono
mais

não o das belas frases
só o outono
desgrenhado nas folhagens

semelhantes aos cabelos dos feiticeiros
que entretem
as crianças nas varandas

escreves
para atrair o sol
para a lentidão de um bordo

antes que a noite venha
devorá-lo

tudo se torna imagem
na tua corrida contra a treva

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Ian Hamilton – Admissão

Os lábios rachados do porteiro noturno uniformizado
Murmuram horrivelmente contra o vidro embaçado
De nossa ambulância escura.
Nossa aflição
Inspira um único olhar marcial de desdém
E logo ele nos indica o caminho, para a “Pátria”.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 18/04/2019

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Admission

The chapped lips of the uniformed night-porter
Mumble horribly against the misted glass
Of our black ambulance.
Our plight
Inspires a single, soldierly, contemptuous stare
And then he waves us on, to Blighty.

Vicente Gaos – Esquecei

Esquece, homem…

Esquece que és cinzas
e em cinzas te tornarás.

Esquece esta quarta-feira
e o in pulvis reverteris.

Pois embora sejas cinza e pó,
há vida, amor, beleza ao redor.

É verdade: beleza, amor, vida,
fugazes flores de um dia.

Mas flores, sim. Enquanto durar
a magia verdadeira de seu perfume,

esquece o pó e a morte.
É melhor não lembrar

do que, com ou sem memória,
baterá algum dia à tua porta.

Por ora, fecha-a. Abre a varanda,
que te penetre e embriague o sol.

Olha-o bem: fecha as pálpebras,
e que o sol te salve do caos.

No final, verás que tanto faz
viver e morrer, seja domingo

ou quarta-feira. Quando chegar
fria e borralheira a morte,

acolhe-a satisfeito, tranquilo,
com a certeza de haver vivido.

Com a lembrança de uma vida
que ignorou a profecia

funeral, que não se perdeu
em medo e dúvida de Deus.

Quando sentires o gosto amargo
da cinza na boca, sorve-o,

apura-o. Quando a morte chegar,
abre a porta e deita-te, dorme.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 01/04/2019

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Olvidaos

Olvida, hombre…

Olvida que eres ceniza
y has de convertirte en ceniza.

Olvídate de ese miércoles
y del in pulvis reverteris.

Pues aunque seas ceniza y polvo,
hay vida, amor, belleza en torno.

Es verdad: belleza, amor, vida,
fugitivas flores de un día.

Pero flores, sí. Mientras dure
la magia cierta de su perfume,

olvidate del polvo y la muerte.
Más vale que no recuerdes

lo que con memoria o sin ella
llamará algún día a tu puerta.

Ahora ciérrala. Abre el balcón
que te penetre y embriague el sol.

Míralo bien: cierra los párpados,
y que el sol te salve del caos.

Al final verás que es lo mismo
vivir y morir, el domingo

que el miércoles. Cuando llegue
cenicienta y fría la muerte,

acógela conforme, tranquilo,
seguro de haber vivido.

Con la memoria de una vida
que desoyó la profecía

funeral, que no se perdió
en el miedo y duda de Dios.

Cuando sientas el gusto amargo
de la ceniza en la boca, trágalo,

apúralo. Al llegar la muerte,
abre la puerta y tiéndete, duérmete.

Helena Zelic – Bem-vinda

em uma casa desconhecida
é preciso observar os movimentos das coisas:

o gás se vem da rua ou botijão
as árduas relações entre tomadas e eletrodomésticos
botões de liga e desliga
a política da limpeza
se toda sujeira é política.
as cores das chaves, as trancas trocadas
encaixar, tirar e encaixar de novo
na busca do que é espontâneo.
entrar na casa como se sempre fosse.
sair como quem volta ao pôr do sol.

conhecer as gavetas, os tacos soltos
os insetos que invadem o verão
a hora da caminhonete de frutas
o dia do lixo para fora
a vizinha, e a outra, e a outra.
as vizinhas são sempre muitas.

compreender a linguagem do cão
quando pede, quando avisa,
quando, cão, espanta os gatos do telhado.
aí descobres que há gatos no telhado
e os barulhos deixam de assustar.

em uma casa desconhecida
tudo o que se move é sinal
conversa intermediada
entre objetos e combinados.
em uma casa desconhecida
é preciso chegar manso
e apoderar-se.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 31/03/2019

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Raymond Carver – Esta manhã

Esta manhã foi especial. Um pouco de neve
cobria o chão. O sol flutuava num claro
céu azul. O mar estava azul, e verde-azulado,
até onde o olho podia enxergar.
Calmo. Quase sem ondas. Eu me vesti
e saí para caminhar – decidido a não voltar
até receber o que a Natureza tivesse a oferecer.
Passei perto de algumas árvores velhas, curvadas.
Atravessei um campo com pedras espalhadas
onde a neve se acumulara. Segui em frente
até chegar ao penhasco.
De onde fitei o mar, o céu e
as gaivotas revoando sobre a areia branca,
lá embaixo. Tudo adorável. Tudo banhado numa pura
luz fria. Mas, como sempre, meus pensamentos
começaram a vagar. Tive de me esforçar
para ver só o que estava vendo,
e nada mais. Tive que dizer a mim mesmo que aquilo
era o que importava, não o resto. (E de fato consegui,
por um ou dois minutos!) Por um ou dois minutos
consegui afastar as velhas ruminações
sobre o que é certe e o que é errado – deveres,
doces memórias, ideias de morte, como lidar
com minha ex-mulher. Todas as coisas
que eu esperava esquecer esta manhã.
As coisa com que vivo todos os dias. Tudo
o que superei para poder continuar vivo.
Mas, por um ou dois minutos, eu realmente esqueci
de mim e de tudo o mais. Sei que esqueci.
Pois quando me virei já não sabia
onde estava. Até que alguns pássaros emergiram
das árvores retorcidas – e voaram
na direção em que eu precisava seguir.

Trad.: Cide Piquet

REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 25/03/2019

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Raymond Carver – This morning

This morning was something. A little snow
lay on the ground. The sun floated in a clear
blue sky. The sea was blue, and blue-green,
as far as the eye could see.
Scarcely a ripple. Calm. I dressed and went
for a walk — determined not to return
until I took in what Nature had to offer.
I passed close to some old, bent-over trees.
Crossed a field strewn with rocks
where snow had drifted. Kept going
until I reached the bluff.
Where I gazed at the sea, and the sky, and
the gulls wheeling over the white beach
far below. All lovely. All bathed in a pure
cold light. But, as usual, my thoughts
began to wander. I had to will
myself to see what I was seeing
and nothing else. I had to tell myself this is what
mattered, not the other. (And I did see it,
for a minute or two!) For a minute or two
it crowded out the usual musings on
what was right, and what was wrong — duty,
tender memories, thoughts of death, how I should treat
with my former wife. All the things
I hoped would go away this morning.
The stuff I live with every day. What
I’ve trampled on in order to stay alive.
But for a minute or two I did forget
myself and everything else. I know I did.
For when I turned back i didn’t know
where I was. Until some birds rose up
from the gnarled trees. And flew
in the direction I needed to be going.