Cassiano Ricardo – Vociferação

  I

 Homem
 em Adão.
 Homem
em Cristo.
 Homem
 em globo.

  II

como salvar
  Deus?
nós faremos
  d’Ele
novamente o
 Autor de
 tudo:
do peixe, da
 ave, da
  cobra,
 da maçã,
do sapo, do
 rouxinol
 do sol.

 O
obrigaremos
  contudo
a suar san-
gue conosco,
  na guerra,
  na fome
  na peste
  na
  terra suja;

a engolir
    fogo
  como nós,
   no circo
  queimando
    boca
e estômago.

  Um Deus
que nos
   socorra.
Que não fuja;
  que morra
em nós.
   Quando
  qualquer
   de nós
  morra.

À semelhança
de qualquer
   de nós.

Deus mal-me-
  quer
Deus bem-me-
  quer

)horizontal
 vertical(

 no leito
na forca
  ou num
batiscafo.

  III

 Um Deus
de cabeça
 pra baixo

  Morcego
pendurado
  no teto
da igreja.

 Um Deus
antiazul.

 

Cassiano Ricardo – Gramática Visual de Cristo

1

“Cristo, terá sido
em vão teu sacri-
fício?
vê, o sangue escorre,
acre, no massacre
das ruas.”

Cristo espalmou a
mão
cobrindo os olhos
horizontalmente
pra não ver
a destruição
do ser

2

“Cristo,
vê os pequeninos
que tanto amaste
agora garotos
nos becos
como ratos dentro
de sapatos
rotos.”

Cristo escondeu,
de novo, a face,
como se chorasse
não querendo
que o vissem
chorar.

Gramática visual
a de Cristo;
“Não ver
é não ser visto.“

3

“Cristo,
ouve a imprecação
que sai da boca
dos famintos,
dos nus,
caídos na sarjeta
fria por onde
ninguém passa
mesmo por graça.”

Cristo se mantém
mudo
cotovelo ossudo
posto
em ângulo agudo
ocultando as rugas
do rosto.

Mudo, dizia tudo
cobrindo o olhar
verde
(Ver – ser cúmplice
Não ver – igual
a não ser visto.
Gramática visual
de Cristo)

4

Como se dissesse:
“Pudesse, arranca-
ria os olhos pelo
vídeo
(como Édipo)
à hora dos robôs
regougando
invadirem a furna-
urna-noturna
prá morte dupla:
(o suicídio/
deicídio)

“Que restará
do ‘amai-vos
uns aos outros’?
Só os laivos nos
lábios
dos que se beijam
hoje
de coração trocado.”

“Desço a persiana
da pálpebra
mas fica incendia-
do em mim o olho
d’alva interior
vendo tudo,”

“Deus e o Homem
comidos pelo fogo
de fulgorídeo
no mesmo ato
exato,
execrando.”

5

Nisto Cristo
parou de falar
vendando o rosto
e a barba
já hirsuta
braço em ângulo
agudo
sobre o olhar
verde.

Já fora do ar.

Cassiano Ricardo – Etc.

Existe tudo porque existo.
Há porque vemos.
(Fernando Pessoa)

 

Para que o mundo exista, existimos.
Pois seja.

Sem os nossos olhos, sem o que somos,
que adiantaria haver mundo?
Seria a árvore dos dourados pomos, etc.

O que é ignorado não existe.
O que é eterno também não existe.
A eternidade é uma forma de não existência.

Ao menos para nós o mundo não existiria
se não fosse existirmos.
Para mim, por exemplo, o mundo existe
porque ora estou alegre, ora sou triste.
Mas no fim vem a morte e… nos leva.
O seu poder é bem maior que o nosso;
porque é o da treva, e o nosso, esse não passa
de só dar existência ao que claramente já existe,
ao que só existe em razão dos nossos frágeis sentidos.
Que podemos ouvir, olhar, tocar, etc.

Agora mesmo, não faz senão um minuto,
no banco do jardim… que foi? Um homem suicidou-se.
O dedo lhe está preso, ainda, no gatilho,
rígido como uma hora certa. Sem nenhum
arrependimento.

Muita gente reunida em redor do seu corpo.
Muitos rostos examinando o seu rosto.

Mas ele suicidou-se, apenas? Não é, isso, bem menos
do que ele fez?

Ele desceu violentamente a cortina da noite
sobre nossos rostos, que só continuam vivos
para nós.

O seu corpo ali está, presente a todos,
mas nós — que somos todos — já estamos ausentes.

Ele nos suprimiu.
Ele nos destruiu também, simbolicamente.
Que destruir a si mesmo importou, para ele,
em destruir o mundo físico,
que só existia em razão dos seus frágeis sentidos
principalmente em razão dos seus olhos, etc.
Como dizer-se apenas: suicidou-se?

Ele desceu violentamente a cortina da noite.
Jogou ao chão a sua própria estátua.
Não aceitou a explicação da vida.
Fez qualquer coisa de mais belo e mais monstruoso.
Pois nem Deus (e Deus é Deus)
conseguirá, jamais, fazer o que ele fez: suicidar-se.

Ah, ele conserva ainda
na mão a arma com que apagou o sol e as estrelas.

Como dizer-se apenas: suicidou-se?

Agora virá a mulher e essa mulher o abraçará loucamente.
A esposa, e um anjo, a filha, lhe dirão palavras estranguladas.

Virá a ambulância. Alguém já chamou a polícia,
e haverá autópsia, etc.

Jorge Luis Borges – Remorso por qualquer morte

Livre da memória e da esperança,
Ilimitado, abstrato, quase futuro,
O morto não é um morto: é a morte.
Como o Deus dos místicos,
A quem se devem negar todos os predicados,
O morto, onipresentemente alheio,
Não é senão a perdição e a ausência do mundo.
Tudo lhe roubamos,
Não lhe deixamos nem uma cor, nem uma sílaba:
Aqui está o pátio que seus olhos já não compartilham,
Ali a calçada onde espreitava suas esperanças.
Até o que pensamos talvez o pensasse ele também;
Repartimos, como ladrões,
O tesouro das noites e dos dias.

Trad.: Nelson Santander

Remordimiento por cualquier muerte

Libre de la memoria y de la esperanza,
Ilimitado, abstracto, casi futuro,
El muerto no es un muerto: es la muerte.
Como el Dios de los místicos,
De quien deben negarse todos los predicados,
El muerto ubicuamente ajeno
No es sino la perdición y ausencia del mundo.
Todo se lo robamos,
No le dejamos ni un color ni una sílaba:
Aquí está el patio que ya no comparten sus ojos,
Allí la acera donde acechó sus esperanzas.
Hasta lo que pensamos podría estarlo pensando él también;
Nos hemos repartido como ladrones
El caudal de las noches y de los días.

John Donne – Em despedida: proibindo o pranto

Como esses santos homens que se apagam
Sussurrando aos espíritos: “Que vão…”,
Enquanto alguns dos amigos amargos
Dizem: “Ainda respira.” E outros: “Não.” —

Nos dissolvamos sem fazer ruído.
Sem tempestades de ais, sem rios de pranto,
Fora profanação nossa ao ouvido
Dos leigos descerrar todo este encanto.

O terremoto traz terror e morte
E o que ele faz expõe a toda a gente,
Mas a trepidação do firmamento,
Embora ainda maior, é inocente.

O amor desses amantes sublunares
(Cuja alma é só sentidos) não resiste
A ausência, que transforma em singulares
Os elementos em que ele consiste.

Mas a nós (por uma afeição tão alta,
Que nem sabemos do que seja feita,
Interassegurado o pensamento)
Mãos, olhos, lábios não nos fazem falta.

As duas almas, que são uma só,
Embora eu deva ir, não sofrerão
Um rompimento, mas uma expansão,
Como ouro reduzido a aéreo pó.

Se são duas, o são similarmente
Às duas duras pernas do compasso:
Tua alma é a perna fixa, em aparente
Inércia, mas se move a cada passo

Da outra, e se no centro quieta jaz,
Quando se distancia aquela, essa
Se inclina atentamente e vai-lhe atrás,
E se endireita quando ela regressa.

Assim serás para mim que pareço
Como a outra perna obliquamente andar.
Tua firmeza faz-me, circular,
Encontrar meu final em meu começo.

Tradução: Augusto de Campos

Cassiano Ricardo – Missa de Corpo Presente

O seu corpo tão alvo, o seu corpo presente
é a coisa mais ausente, é uma ilusão
pensar que a rosa ou o fruto já colhidos
ainda soluçam desprendidos da haste.

O seu corpo é já um fruto neutro e frio.
Não obstante jovem, tem a mesma idade
de todos os que morreram antes, ou mesmo
na mais remota origem babilônica.

Todos os mortos tem a mesma idade.
Que me adiante chorar sobre a argila ainda tenra,
que esfriou não faz, senão, apenas um minuto?
Todo cadáver é uma coisa já longínqua.

Embora tenha esfriado apenas há um minuto
é algo que regressou súbita e automaticamente
à noite que existiu antes de Deus.
Todo cadáver é anterior ao sol e a Deus.

Mas por que sofro tanto? Não será justamente
por estar sendo vista, ser um corpo presente
aquela que voltou ao nunca ter nascido
e me deixou ausente, eternamente?

Aquela que voltou à fonte, ao horizonte
de quando antes de tudo e me deixou ausente
para que eu vá matando em mim sua presença
até morrê-la quanto o dia morre a estrela?

Se eu fosse Júpiter me converteria
em chuva de ouro sobre sua imagem.
Se eu fosse Glauco me transformaria
num peixe azul no índico da imemória.

De “João Torto e a Fábula”, nova edição, 1963, Livraria José Olympio Editora

Ricardo Reis – Odes: 153 – Como este infante que alourado dorme

Como este infante que alourado dorme
  Fui. Hoje sei que há morte,
Lídia, há largas taças por encher
  Nosso amor que nos tarda.
  Qualquer que seja o amor ou a taça, cedo
   Cessa. Receia, e apressa.

Ricardo Reis – Odes: 144 – Uns, com os olhos postos no passado,

Uns, com os olhos postos no passado,
Vêem o que não vêem; outros, fitos
Os mesmos olhos no futuro, vêem
O que não pode ver-se.

Porque tão longe ir pôr o que está perto —
A segurança nossa? Este é o dia,
Esta é a hora, este o momento, isto
É quem somos, e é tudo.

Perene flui a interminável hora
Que nos confessa nulos. No mesmo hausto
Em que vivemos, morreremos. Colhe
O dia, porque és ele.

Ricardo Reis – Odes: 105 – Quando, Lídia, vier o nosso Outono

Quando, Lídia, vier o nosso outono
Com o inverno que há nele, reservemos
Um pensamento, não para a futura
  Primavera, que é de outrem,
Nem para o estio, de quem somos mortos,
Senão para o que fica do que passa –
O amarelo atual que as folhas vivem
  E as torna diferentes.

Ricardo Reis – Odes: 80 – A nada imploram tuas mãos já coisas,

A nada imploram tuas mãos já coisas,
Nem convencem teus lábios já parados,
  No abafo subterrâneo
  Da húmida imposta terra.
Só talvez o sorriso com que amavas
Te embalsama remota, e nas memórias
  Te ergue qual eras, hoje
  Cortiço apodrecido.
E o nome inútil que teu corpo morto
Usou, vivo, na terra, como uma alma,
  Não lembra. A ode grava,
  Anónimo, um sorriso.