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Paul Tran – A caverna

Alguém que estava na abertura teve a ideia de entrar. Ir além do ponto onde a luz ou a linguagem poderiam ir. À medida que ele seguia a ideia, luz e linguagem o acompanhavam como dois lobos — ofegantes, ouvindo o próprio resfolegar. Um aroma informe no ar úmido… Prossiga, disse a ideia. Alguém prosseguiu.…
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Maya Angelou – Uma verdade corajosa e surpreendente

Nós, este povo, em um pequeno e solitário planetaViajando através do espaço acidentalPassando por estrelas distantes, cruzando o caminho de indiferentes sóisPara um destino onde todos os sinais nos advertem queÉ possível e imperativo que aprendamosUma verdade corajosa e surpreendente E quando chegarmos a isso, Ao dia da pacificaçãoQuando libertarmos nossos dedosDos punhos da hostilidadeE…
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Eavan Boland – O barógrafo

Encontrei-o no cais,um retângulo de madeira,um barógrafo, a pena de sua haste rabiscando o papel. Eu o trouxe para casa para serum registro dos ventos,da pressão crescente, apto a escrever a sina barométricado nosso cotidianoem um mundo onde carrinhos de livros levados pelo vento junto ao rioprometiam palavras selvagensmas obedeciam ao censor. Os Bancos em…
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Anna Belle Kaufman – Frio conforto

Quando minha mãe morreu,um dos seus bolos de mel permaneceu no freezer.Eu não poderia suportar o seu desaparecimento,então, abandonado, ele esperou em sua caverna de gelo atrás das bandejas de metal por mais dois anos. No meu quadragésimo primeiro aniversário,retirei-o de lá,uma ressurreição retangular,e sopesei o fardo morto na palma da mão. Antes que ele…
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Stephen Dunn – Felicidade

Felicidade Um estado em que não se deve ousar entrar com a esperança de lá permanecer, areia movediça nos pântanos, e todos os caminhos que conduzem a um castelo que não existe. Mas lá está ele, como prometido, com sua ponte perfeita sobre os crocodilos, e suas portas perpetuamente abertas. Trad.: Nelson Santander Happiness A…
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Ana Martins Marques – A porta de saída

“Eu vou morrer, masisso é tudo o que farei pela Morte”Edna St. Vincent Millay, Objeção de consciência “Alô, iniludível” Manuel Bandeira, Consoada A porta de saída Mas não serei eua colocar-lhe a mesa– quando chegarencontrará a casa como sempreem desordemcheia de livros e discoscom plantas e gatos ao sole os papéis em órbitaem torno da camae…
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David Mourão-Ferreira – E por vezes

E por vezes as noites duram meses E por vezes os meses oceanos E por vezes os braços que apertamos nunca mais são os mesmos. E por vezes encontramos de nós em poucos meses o que a noite nos fez em muitos anos E por vezes fingimos que lembramos E por vezes lembramos que por…
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José Miguel Silva – Desculpas não faltam

Uma casa junto ao Vouga,rio de água suficiente,onde apenas se mergulhaaté à cintura, a pequena hortade Virgílio, o amor robustecidopor nenhuma esperançae tantos livros para ler– que desculpa vou agora darpara não ser feliz?
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Germana Zanettini – bem-me-quer

bem-me-quer e quando a morteme desfolharnum sopro de outonoe súbito cessar o peito virarei pó e voltareipólenno vento
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Wendell Berry – O desejo de ser generoso

Tudo a que sirvo morrerá, todos os meus deleites,a carne acesa de minha carne, jardim e campo,os lírios silenciosos que se encontram na floresta, as florestas, a colina, a terra toda, tudoarderá na maldade humana, ou encolherána própria velhice. Que o mundo me proporcioneo sono das trevas sem estrelas, para que eu possa conhecerminha pequena…