É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os dióspiros ardendo na sombra.
Quem assim tem o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia.
Ela guardou canções, tomavam pouco espaço E as capas lhe eram belas: Uma que apanhou sol e de matizes baços; Uma cheia de círculos de jarra d´água; Uma colada, num “acesso de ordem” dela, E colorida, pela filha – aguar- daram assim, até que em sua viuvez as Achou, procurando algo, e pôs-se dessa vez a
Reaprender como cada acorde, obediente E franco, introduziu Palavras se espalhando com hífens, e o alento Infalível da juventude, a tomar vulto Como uma árvore na primavera – daí o Frescor entoado, que jazia oculto, E a certeza do tempo armazenado, igual À vez em que as tocou primeiro – e o principal:
O clarão dessa tão falada luz, o amor, Rompeu, mostrou enfim, Vogando no alto, o seu nascente resplendor, Sempre anunciando resolver e saciar, Pôr as coisas em ordem todo o tempo. Assim, Empilhá-las de volta ali, chorar, Foi duro, sem admitir, de forma inglória, Que nunca fora assim, e não seria agora.
Trad.: Alípio Correia de Franca Neto
Love song in age
She kept her songs, they took so little space, The covers pleased her: One bleached from lying in a sunny place, One marked in circles by a vase of water, One mended, when a tidy fit had seized her, And coloured, by her daughter – So they had waited, till in widowhood She found them, looking for something else, and stood
Relearning how each frank submissive chord Had ushered in Word after sprawling hyphenated word, And the unfailing sense of being young Spread out like a spring-woken tree, wherein That hidden freshness sung, That certainty of time laid up in store As when she played them first. But, even more,
The glare of that much-mentioned brilliance, love, Broke out, to show Its bright incipience sailing above, Still promising to solve, and satisfy, And set unchangeably in order. So To pile them back, to cry, Was hard, without lamely admitting how It had not done so then, and could not now.
Como você sabe, meu pequeno, a ciência é o estudo da natureza e do comportamento do universo. Ela se baseia na observação, na experimentação e na medição, e na formulação de leis para descrever os fatos revelados.
Nos velhos tempos, dizem, os homens já vinham equipados com cérebros projetados para seguir cárneas-feras em uma corrida, para se lançarem cegamente no desconhecido, e depois encontrarem o caminho de volta para casa mesmo quando perdidos e tendo que carregar um antílope morto entre eles. Ou, em dias ruins de caça, nada.
As mulheres, que não precisavam correr até a presa, tinham cérebros que detectavam marcos e traçavam caminhos entre eles a partir do espinheiro e através dos cascalhos e olhavam embaixo do tronco de uma árvore meio caída, porque às vezes havia cogumelos.
Antes do tacape, ou do cutelo de sílex, a primeira de todas as ferramentas foi a tipoia de bebê para manter nossas mãos livres e algo onde colocar os frutos silvestres e os cogumelos, as raízes e as folhas boas, as sementes e as lagartas. Depois, um pilão de pedra para rachar, esmagar, moer ou triturar.
E às vezes os homens caçavam as feras nas florestas profundas, e nunca mais voltavam.
Alguns cogumelos irão matá-lo enquanto outros revelarão deuses para você e alguns alimentarão a fome em nossas barrigas. Identifique. Outros nos matarão se os comermos crus, e ainda nos matarão se os cozinharmos apenas uma vez, mas se os fervermos em água de nascente, e despejarmos a água, e fervermos novamente, e despejarmos a água, só então poderemos come-los com segurança. Observe.
Observe o parto, meça o inchaço das barrigas e o formato dos seios, e através da experiência descubra como trazer bebês ao mundo com segurança.
Observe tudo.
Como as coletoras de cogumelos percorreram os seus caminhos e observaram o mundo, e compreenderam o que observaram. E como algumas delas prosperaram e lamberam os lábios, enquanto outras apertaram seus estômagos e sucumbiram. Assim foram elaboradas e transmitidas as leis sobre o que é seguro. Formule.
As ferramentas que fabricamos para edificar nossas vidas: nossas roupas, nossa comida, nosso caminho para casa… tudo isso se baseou na observação, na experimentação, na medição, na verdade.
E a ciência, você se lembra, é o estudo da natureza e do comportamento do universo, baseado na observação, no experimento, e medição, e na formulação de leis para descrever esses fatos.
A corrida continua. Um dos primeiros cientistas desenhou feras nas paredes das cavernas para mostrar aos seus filhos, agora todos gordos de cogumelos e frutos silvestres, o que seria seguro caçar.
Os homens continuam correndo atrás de feras.
As cientistas caminham mais lentamente até o topo da colina, descem até a beira da água e passam pelo lugar onde corre a argila vermelha. Elas carregam seus bebês nas tipoias que teceram, liberando suas mãos para colher os cogumelos.
Trad.: Nelson Santander
The mushroom hunters
Science, as you know, my little one, is the study of the nature and behaviour of the universe. It’s based on observation, on experiment, and measurement, and the formulation of laws to describe the facts revealed.
In the old times, they say, the men came already fitted with brains designed to follow flesh-beasts at a run, to hurdle blindly into the unknown, and then to find their way back home when lost with a slain antelope to carry between them. Or, on bad hunting days, nothing.
The women, who did not need to run down prey, had brains that spotted landmarks and made paths between them left at the thorn bush and across the scree and look down in the bole of the half-fallen tree, because sometimes there are mushrooms.
Before the flint club, or flint butcher’s tools, The first tool of all was a sling for the baby to keep our hands free and something to put the berries and the mushrooms in, the roots and the good leaves, the seeds and the crawlers. Then a flint pestle to smash, to crush, to grind or break.
And sometimes men chased the beasts into the deep woods, and never came back.
Some mushrooms will kill you, while some will show you gods and some will feed the hunger in our bellies. Identify. Others will kill us if we eat them raw, and kill us again if we cook them once, but if we boil them up in spring water, and pour the water away, and then boil them once more, and pour the water away, only then can we eat them safely. Observe.
Observe childbirth, measure the swell of bellies and the shape of breasts, and through experience discover how to bring babies safely into the world.
Observe everything.
And the mushroom hunters walk the ways they walk and watch the world, and see what they observe. And some of them would thrive and lick their lips, While others clutched their stomachs and expired. So laws are made and handed down on what is safe. Formulate.
The tools we make to build our lives: our clothes, our food, our path home… all these things we base on observation, on experiment, on measurement, on truth.
And science, you remember, is the study of the nature and behaviour of the universe, based on observation, experiment, and measurement, and the formulation of laws to describe these facts.
The race continues. An early scientist drew beasts upon the walls of caves to show her children, now all fat on mushrooms and on berries, what would be safe to hunt.
The men go running on after beasts.
The scientists walk more slowly, over to the brow of the hill and down to the water’s edge and past the place where the red clay runs. They are carrying their babies in the slings they made, freeing their hands to pick the mushrooms.
Nem essa violência com a qual desejo ter sempre razão. Nem tampouco crer que a felicidade tem uma relação, sutil, com a mentira. Nem chegar a ter o coração tão sujo como o meu, apesar de ter sido a guerra que o sujou. Minha paz deve ser uma falsa paz. Tampouco não abjurar a luxúria e a vaidade. Como podemos ser vaidosos, os velhos? Essa é a nossa derrota. Um campo de batalha onde, ao anoitecer, estou cercado pelos mortos enquanto ouço vozes distantes de jovens celebrando o que hoje, para eles, é ainda a vitória.
Trad.: Nelson Santander
Nada enaltece a un viejo
Ni esa violencia con la que deseo tener siempre razón. Ni tampoco creer que la felicidad tiene una relación, sutil, con la mentira. Ni llegar a tener tan sucio el corazón como los míos, a pesar de que a ellos los ensució la guerra. Mi paz debe ser una paz falsa. Tampoco no abjurar de la lujuria ni de la vanidad. ¿Cómo podemos ser vanidosos, los viejos? Esa es nuestra derrota. Un campo de batalla donde, al oscurecer, me rodean los muertos mientras oigo lejanas voces de gente joven celebrando lo que hoy, para ellos, es aún la victoria.
Os violinos de Verlaine.
Os sonhados caminhos da tarde, de don Antonio.*
Um velho cheiro de campo.
Um velho cheiro de lápis e cadernos.
O céu cinzento.
O vento entre as árvores.
A carícia das primeiras chuvas.
A tristeza sem causa.
A solidão sonora.
A noite, cada vez mais escura e prolongada.
Um cigarro que, subitamente, tem o sabor do primeiro cigarro.
Uma velha canção que te devolve os teus quinze anos.
Toda tua vida em imagens, que surgem atropeladamente como
em um filme mal editado…
Los violines de Verlaine.
Los soñados caminos de la tarde, de don Antonio.
Un viejo olor a campo.
Un viejo olor a lápices y a cuadernos.
El cielo gris.
El viento entre los árboles.
La caricia de las primeras lluvias.
La tristeza sin causa.
La soledad sonora.
La noche, cada vez más oscura y más larga.
Un cigarrillo que de pronto te sabe al primer cigarrillo.
Una antigua canción que te devuelve tus quince años.
Toda tu vida en imágenes, que acuden atropelladamente como
en una película mal montada…
1. Quanto veneno você está disposto a consumir para o sucesso do livre mercado e do comércio internacional? Por favor, indique seus venenos preferidos.
2. Em nome do bem, quanto mal você está disposto a praticar? Preencha os campos abaixo com os nomes de suas maldades e atos de ódio favoritos.
3. Que sacrifícios você está disposto a fazer pela cultura e pela civilização? Por favor, liste os monumentos, santuários e obras de arte que você destruiria de bom grado.
4. Em nome do patriotismo e de nossa bandeira, quanto de nossa amada terra você está disposto a profanar? Liste nos espaços a seguir as montanhas, rios, cidades e fazendas sem as quais você poderia passar mais facilmente.
5. Descreva sucintamente as ideias, ideais ou esperanças, as fontes de energia, as questões de segurança pelas quais você mataria uma criança. Indique, por favor, as crianças que você estaria disposto a matar.
Trad.: Nelson Santander
Questionnaire
1. How much poison are you willing to eat for the success of the free market and global trade? Please name your preferred poisons.
2. For the sake of goodness, how much evil are you willing to do? Fill in the following blanks with the names of your favorite evils and acts of hatred.
3. What sacrifices are you prepared to make for culture and civilization? Please list the monuments, shrines, and works of art you would most willingly destroy.
4. In the name of patriotism and the flag, how much of our beloved land are you willing to desecrate? List in the following spaces the mountains, rivers, towns, farms you could most readily do without.
5. State briefly the ideas, ideals, or hopes, the energy sources, the kinds of security, for which you would kill a child. Name, please, the children whom you would be willing to kill.
Na rua, em frente a uma escola, o que as crianças aprenderam as possui. Garotos gritam enquanto apedrejam um enxame de abelhas que tenta se reunir entre a janela do refeitório e uma grade de ferro. Os garotos arremessam pedras furiosas despedaçando as janelas. As abelhas, zumbindo sua raiva, demoram a atacar. Então, um dos meninos é picado em uma destruição mais rápida e os inspetores escolares aparecem com longas varas de madeira estendidas diante deles eles avançam sobre a colmeia destruindo os salões de cera quase concluídos esmagando os novos túneis enquanto o mel fresco escorre pelos cabos de suas vassouras e os pés dos moleques se tornam peritos em destruição, pisoteando as aturdidas abelhas restantes na terra.
Curiosas e afastadas quatro garotinhas assistem a tudo fascinadas aprendendo uma secreta lição e tentando entender elas mesmas a destruição. Uma delas grita: “Ei, as abelhas não estavam causando nenhum problema!” e atravessa as ruínas que zumbem debilmente para espreitar o vazio recanto raspado “Nós poderíamos ter estudado a fabricação do mel!”
Trad.: Nelson Santander
The bees
In the street outside a school what the children learn possesses them. Little boys yell as they stone a flock of bees trying to swarm between the lunchroom window and an iron grate. The boys sling furious rocks smashing the windows. The bees, buzzing their anger, are slow to attack. Then one boy is stung into quicker destruction and the school guards come long wooden sticks held out before them they advance upon the hive beating the almost finished rooms of wax apart mashing the new tunnels in while fresh honey drips down their broomsticks and the little boy feet becoming expert in destruction trample the remaining and bewildered bees into the earth.
Curious and apart four little girls look on in fascination learning a secret lesson and trying to understand their own destruction. One girl cries out “Hey, the bees weren’t making any trouble!” and she steps across the feebly buzzing ruins to peer up at the empty, grated nook “We could have studied honey-making!”
Mas você pode ter a figueira e suas folhas fartas como mãos de palhaço enluvadas de verde. Você pode ter o toque de um único dedo de onze anos de idade em seu rosto, acordando-a à uma da madrugada para dizer que o hamster reapareceu. Você pode ter o ronronar do gato e o olhar comovente do cachorro preto, o olhar que diz: se eu pudesse morderia toda dor até que ela a abandonasse, e quando fosse agosto você poderia tê-la em agosto e em abundância. Você pode ter amor, embora frequentemente ele seja misterioso como a espuma branca que borbulha no topo da panela sobre o feijão vermelho até que você perceba que o gêmeo da espuma é o sangue. Você pode ter a pele no centro entre as pernas de um homem, tão sólida, tão parecido com um boneco. Você pode ter uma vida intelectual, brilhando ocasionalmente em vestes sacerdotais, nunca admitindo a mesquinhez, jamais se rebaixando para subornar o guarda taciturno que lhe avisará sobre todas as estreitas estradas da fronteira. Você pode, às vezes, falar uma língua estrangeira, o que pode significar algo. Você pode visitar a lápide onde seu pai chorou abertamente. Você não pode trazer os mortos de volta, mas pode ter as palavras perdoar e esquecer de mãos dadas como se fossem passar a vida toda juntas. E você pode ser grata pela maquiagem, pelo jeito que ela beija seu rosto, parte tempero, parte amnésia, grata por Mozart, suas muitas notas correndo umas com as outras em direção à alegria, pelas toalhas absorvendo as gotas em sua pele limpa, e pela sede mais profunda, pelo maracujá, pela saliva. Você pode ter o sonho, o sonho do Egito, os cavalos do Egito e você cavalgando na areia escaldante. Você pode ter o seu avô sentado ao lado da sua cama, pelo menos por algum tempo, você pode ter nuvens e cartas, o salto de distâncias, e comida indiana com um molho amarelo como o nascer do sol. Você não pode contar com a graça de ser a escolhida no meio da multidão mas eis aqui sua amiga para ensinar-lhe salto em altura, sobre como se lançar sobre o sarrafo, de costas, até que você aprenda sobre o amor, sobre a doce rendição, e aqui estão os caramujos, ônibus que se ajoelham, fazendas na mente tão reais como a África. E quando a maturidade a desapontar, você ainda pode invocar a lembrança do cisne negro na lagoa de sua infância, do pão de centeio com manteiga de amendoim e bananas que sua avó lhe dava enquanto o resto da família dormia. Há a voz que você ainda pode invocar à vontade, como a de sua mãe, ela sempre irá sussurrar, você não pode ter tudo, mas tem isso.
Trad.: Nelson Santander
You can’t have it all
But you can have the fig tree and its fat leaves like clown hands gloved with green. You can have the touch of a single eleven-year-old finger on your cheek, waking you at one a.m. to say the hamster is back. You can have the purr of the cat and the soulful look of the black dog, the look that says, If I could I would bite every sorrow until it fled, and when it is August, you can have it August and abundantly so. You can have love, though often it will be mysterious, like the white foam that bubbles up at the top of the bean pot over the red kidneys until you realize foam’s twin is blood. You can have the skin at the center between a man’s legs, so solid, so doll-like. You can have the life of the mind, glowing occasionally in priestly vestments, never admitting pettiness, never stooping to bribe the sullen guard who’ll tell you all roads narrow at the border. You can speak a foreign language, sometimes, and it can mean something. You can visit the marker on the grave where your father wept openly. You can’t bring back the dead, but you can have the words forgive and forget hold hands as if they meant to spend a lifetime together. And you can be grateful for makeup, the way it kisses your face, half spice, half amnesia, grateful for Mozart, his many notes racing one another towards joy, for towels sucking up the drops on your clean skin, and for deeper thirsts, for passion fruit, for saliva. You can have the dream, the dream of Egypt, the horses of Egypt and you riding in the hot sand. You can have your grandfather sitting on the side of your bed, at least for a while, you can have clouds and letters, the leaping of distances, and Indian food with yellow sauce like sunrise. You can’t count on grace to pick you out of a crowd but here is your friend to teach you how to high jump, how to throw yourself over the bar, backwards, until you learn about love, about sweet surrender, and here are periwinkles, buses that kneel, farms in the mind as real as Africa. And when adulthood fails you, you can still summon the memory of the black swan on the pond of your childhood, the rye bread with peanut butter and bananas your grandmother gave you while the rest of the family slept. There is the voice you can still summon at will, like your mother’s, it will always whisper, you can’t have it all, but there is this.