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Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.As mãos ao volante e esta luzde boate no painel me permitem– fantasia invernal – dançar contigo.Atrás de mim, como um grande caminhão,o amanhã fabrica explosões de luzes.Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,mas agora tu e eu viajamos juntose a carruagem pode ser a dos cavalosdos anos sessenta para Paris.“Je ne…
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Czesław Miłosz – Elegia para N. N.

Diga-me se é muito longe para você.Você poderia vir sobre as ondas mansas do Bálticopassando pelos campos da Dinamarca, atravessando um bosque de faias,poderia se voltar para o oceano, e de lá, logo estaria emLabrador, branca nesta época do ano.E se você, que sonhava com uma ilha deserta,tivesse medo das cidades e das luzes piscando…
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David Ignatow – Para minha filha, em resposta a uma pergunta

Não, não vamos morrer,vamos encontrar uma saída.Respiraremos profundamentee comeremos com cuidado.Pensaremos sempre na vida.Não nos desvaneceremos, nem eu nem você.Seremos os primeirose não riremos de nós mesmos jamaise seus filhos serão meus netos.Nada terá mudado,exceto por acréscimo.Nunca haverá outra como vocêe nunca outro como eu.Ninguém jamais a confundiránem me confundirá com outro.Nós não seremos esquecidos…
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Robinson Jeffers – Carmel Point

A extraordinária paciência das coisas!Este belo lugar desfigurado por uma safra de casas suburbanas —Quão belo quando o vimos pela primeira vez,Um campo intacto de papoulas e tremoceiros cercado por límpidas falésias;Nenhuma intrusão, salvo dois ou três cavalos pastando,Ou algumas vacas leiteiras esfregando seus flancos nos afloramentos rochosos —Então chega o espoliador: elas se importam?Francamente,…
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Eiléan Ní Chuilleanáin – Bessboro

Eis o que herdei —Nunca foi minha própria vida,Mas o nome de uma casa que ouviE outros ouviram como advertênciaDo que poderia acontecer a uma garotaOusada e apanhada pela má-sorte:Um fragmento de um destinoDesolador, uma nota-marreta de medo — Mas eu nunca vi o lugar.Agora que estou em frente ao portãoE aquele tempo há muito…
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Miguel Martins – Para o meu pai

Muito poucos foram os dias cuja acidez não tragaste do princípio ao fim,vinho branco retintado pela morte dos teus sonhos, um a um,e uma bola de fogo a crescer-te no estômago, uma inteireza brutal,virada do avesso, como se uma queda tão lenta, tão evidentementequeda, tão claramente desesperada do futuro, pudesse ser exemplopara quem nem sequer…
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Francisco Brines – Discurso pagão

Achais, por acaso, que por crerdesna imortalidadeela vos deve ser dada?Ela é obra da fé, do egoísmoou da desolação.E, se existe, não importa não haverdes nela acreditado:respostas ignorantes são todas humanasse a morte interroga. Continuai com vossos faustosos ritos, oferendas aos deuses,ou grandes monumentos funerários,as acolhedoras preces, vossa esperança cega.Ou aceitai o vazio que virá,onde…
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Jane Hirshfield – Sopesagem

As razões do coraçãovistas com clareza,inclusive as mais duras,carregarãosuas marcas de chicote e tristezase devem ser perdoadas. Como a elande famintapela seca que perdoao leão faminto pela secaque finalmente a arrebata,e entra em seguida de bom gradona vida que ela não pode recusar,e torna-se leão, está alimentada,e não se lembra da anterior. Tão poucos grãos…
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Marilyn Nelson – Mais rápido que a luz

Eu não queria pagar para estacionar meu carro,por isso peguei um táxi para a estação ferroviária.New London fica a uma hora de carro,mas aquela foi a melhor solução que pude encontrar.Depois de mais ou menos dez milhas de conversa fiadaem que acabei confessando meu ofício,o motorista disse que ele era um físico —Como hobby, ele…
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Régis Bonvicino – Suor

O mar o mormaço o meio-diaum cão se delicianas ondas do marverde, a mata verde avançano rochedoo esqueleto de um peixena areia da praia a brisao que tenho a dizer?o que ela diz o rouco marulho das ondassime nada além de ser