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Charles Simic – Igreja de madeira

É só uma choupana fechada com uma torreSob o céu de um verão escaldanteEm uma estrada secundária percorrida raramenteOnde as sombras de árvores grandesRoçam-se tranquilamente como forcas enfileiradas,E corvos privados de carniçaGrasnam uns com os outros sobre dias melhores. A congregação talvez ainda esteja em oração.Das fotos salpicadas, famílias de fazendeiros Enfileiradas com suas cabeças…
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Ada Limón – Mar aberto

Não adianta enganar e tramar e perderos outros fantasmas, empurrar o sepultado mais fundono lodo arenoso, na lama ribeirinha, pois mesmo assim você vem,minha fiel, o som de um corpo tão persistentena água que eu não sei dizer se é uma onda ou você movendo-se através das ondas. Um mês antes de morrervocê escreveu uma…
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Maggie Smith – Boa Base

A vida é curta, embora eu esconda isso de meus filhos.A vida é curta, e eu encurtei a minhade mil maneiras deliciosas e imprudentes,mil maneiras deliciosamente imprudentesque esconderei dos meus filhos. O mundo é, no mínimo,cinquenta por cento terrível, e essa é uma estimativaconservadora, embora eu esconda isso de meus filhos.Para cada pássaro, há uma…
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Stephen Dobyns – Percepções

O terrível desequilíbrio que ocorre com a idadequando você de repente vê que, de suas amizades, mais morreram do que restaram vivos. E que ocasionalmentesuas lembranças são tão reais que a morte mais recente pode-se tornar uma segunda morte menor. Todasaquelas conversas no meio de uma frase cessadas. Todos aqueles planos atirados na lixeira. O…
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Richard Brautigan – Buu, para sempre

Girando como um fantasmana base de um pião,sou assombrado por todoespaço em quevou viver sem você. Trad.: Nelson Santander Boo, Forever Spinning like a ghoston the bottom of a top,I’m haunted by allthe space that Iwill live without you.
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Daniel Jonas – Ossétia

Ou como uma foto de Karpukhina Madonna ampara com o braço umdos lados do triânguloe deixa um derradeiro beijo escorrer por eleaté à cabeça mortado seu menino no catre. Uma cena difícil: a contençãodas sombras, do chiaroscuro,o profundo luto quando a lutacedeu a sua luz. De preto elaemoldurando a palidez do seu querido,o crânio envolto…
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W. S. Merwin – Juventude

Durante toda a juventude estive procurando por vocêsem saber o que eu procurava ou de como chama-la acho que eu nem mesmo sabia o que estava procurando como poderia reconhece-la quando a visse como fizvezes sem conta quando você apareceu para mim como apareceu nua oferecendo-seinteiramente naquele momento e deixou- me respira-la toca-la prova-la sabendonão…
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Jane Kenyon – A pera

Há um momento na meia idadeem que você fica entediado, irritadopor sua mente medíocre, assustado. Neste dia, o solarde forte e brilhante,deixando-o mais desolado. Acontece sutilmente, como quando uma peraapodrece de dentro para fora,e você talvez não percebaaté que as coisas tenham ido longe demais. Trad.: Nelson Santander The Pear There is a moment in…
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Eavan Boland – E alma

Minha mãe morreu em um verão —o mais úmido nos registros do Estado.Safras apodreciam no oeste.Toalhas de mesa xadrez dissolviam-se nos jardins.Cadeiras de praia vazias recolhiam a chuva.Enquanto eu me dirigia até elano trânsito, por entre lilases que gotejavam sombriamenteatrás das casase nas calçadas, para prestar-lhea última homenagem de uma filha, pensei em algoque lembrei…
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Francisco Brines – Últimos dias

Na herdade ele confina a memóriae o corpo que declina. Tudo morresobre este mundo vivo; e a laranjeira,e o voo do pombo, são traspassadospor um raio outonal de azul.Acompanham-lhe os livros; as caminhadastrazem até ele o odor de rosas abertas,e o suave abatimento dos dias.Ele ardeu na solidão, e agora escutaa primavera viva dos melros.Dias…