Donald Hall – Afirmação

Envelhecer é perder tudo.
Velhice, todos a conhecemos.
Mesmo quando somos jovens,
às vezes a vislumbramos, e acenamos-lhe com a cabeça
quando perdemos um avô.
Depois remamos durante anos na lagoa
dos verões plenos, ignorantes e satisfeitos. Mas um casamento,
que começou sem causar danos, se dispersa
em destroços na praia
e um amigo da escola cai
duro em uma costa rochosa.
Se um novo amor nos leva para
além da meia idade, nossas esposas
morrerão mais fortes e bonitas.
Novas mulheres vêm e vão. Todas se vão.
A bela amante que se anuncia
temporária
é temporária. A audaciosa mulher
– meia idade frente à nossa velhice –
se afunda em uma ansiedade que não consegue suportar.
Outro amigo de décadas se afasta
com palavras que poluem trinta anos.
Vamos sufocar sob a lama na beira da lagoa
e afirmar que é apropriado
e delicioso perder tudo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: achei mais do que adequado publicar a tradução que fiz deste poema no dia de hoje, em que faço aniversário. Cinquenta e quatro anos! Também eu já deixei de remar há algum tempo na lagoa dos verões plenos. E também tenho perdido amigos para a morte e para a vida, como acontece com todos que alcançam a provecta idade. Ainda não cheguei lá, mas pressinto que muito em breve também adentrarei a fase em que estarei pronto e sereno para aceitar que envelhecer bem é estar preparado para perder tudo.

Quando esse dia chegar, espero que também seja delicioso, como no poema, e que eu esteja sereno como Landor em seu famoso “Epitáfio”, que um dia traduzi assim:

Não lutei com ninguém; nada valia a lida.
Amei a natureza, e, tanto quanto, a arte;
As mãos, estas aqueci no fogo da vida
Que naufraga; estou pronto para o desate.

Walter Savage Landor – Epitáfio

Affirmation

To grow old is to lose everything.
Aging, everybody knows it.
Even when we are young,
we glimpse it sometimes, and nod our heads
when a grandfather dies.
Then we row for years on the midsummer
pond, ignorant and content. But a marriage,
that began without harm, scatters
into debris on the shore,
and a friend from school drops
cold on a rocky strand.
If a new love carries us
past middle age, our wife will die
at her strongest and most beautiful.
New women come and go. All go.
The pretty lover who announces
that she is temporary
is temporary. The bold woman,
middle-aged against our old age,
sinks under an anxiety she cannot withstand.
Another friend of decades estranges himself
in words that pollute thirty years.
Let us stifle under mud at the pond’s edge
and affirm that it is fitting
and delicious to lose everything.

Camille T. Dungy – Deixe-me

Deixe-me dizer-lhe, América, esta última coisa.
Eu nunca vou deixar de sonhar o seu sonho.
Eu tive um amante uma vez. Se é que podemos chama-lo assim.
Dirigi-me até o apartamento dele em uma cidade distante,
como aquela ursa perdida que vagueou até o nosso beco
no verão em que a fumaça das montanhas em chamas
alterou nosso ar. Não sei o que foi feito dela.
Eu fui para tantos apartamentos naquele dia.
América, essa é a última coisa que vou dizer.
Ele estocara, para o nosso fim de semana juntos,
a comida que sabia que eu gostava. Comida tailandesa
vegetariana, um pouco de feijão preto com batata doce apimentada,
sorvete de coco, um saco de pipoca caramelizada.
Muito Malbec. Ele queria me agradar,
mas bebeu até eu me transformar em uma idiota
por não estar com medo. Eu havia bebido muito também.
Era muito tarde para eu dirigir até algum lugar seguro.
Eu o observei manusear um tijolo como se fosse joga-lo
na minha cabeça. Isso talvez seja uma metáfora. Isso
talvez tenha acontecido. América, com você às vezes
é difícil perceber a diferença. Tudo o que eu pude fazer
foi me trancar dentro do minúsculo quarto dele. Pressionei
um baú contra a porta e escutei enquanto ele jogava
seu corpo contra a madeira. Escutei enquanto ele rasgava
o travesseiro que eu havia costurado para ele. Ele havia sido bom para mim,
mas aquilo era como esperar que as paredes se incendiassem.
Já ouviu falar disso, América? Em um grande incêndio,
algumas casas queimam de dentro pra fora. Uma fagulha
presa nos beirais se infiltrará pelas frestas, queimará
o isolamento, a estrutura, até que tudo
na casa sucumba às chamas. De manhã
encontrei-o no sofá. Pernas muito longas, braços caídos
sobre o tapete, nós dos dedos feridos no mesmo padrão
de um buraco no drywall. Todas as garrafas de vinho
vazias. Cada recipiente de comida aberto, consumido,
ou destruído. “Eu não queria que você comesse,”
ele sussurrou. Se ele não podia consumir o meu corpo,
a comida que ele me dera teria que servir.
Você já viu uma pessoa caminhando pelas ruínas
de uma casa incendiada? Por favor, acredite em mim, eu não estou
fazendo pouco de tal sofrimento, América.
Talvez o sonho que eu ainda não consigo superar é o de que,
até agora, eu consegui sair viva.

Trad.: Nelson Santander

Let me

Let me tell you, America, this one last thing.
I will never be finished dreaming about you.
I had a lover once. If you could call him that.
I drove to his apartment in a faraway town,
like the lost bear who wandered to our cul-de-sac
that summer smoke from the burning mountain
altered our air. I don’t know what became of her.
I drove to so many apartments in the day.
America, this is really the very last thing.
He’d stocked up, for our weekend together,
on food he knew I would like. Vegetarian
pad Thai, some black-bean-and-sweet-potato chili,
coconut ice cream, a bag of caramel popcorn.
Loads of Malbec. He wanted to make me happy,
but he drank until I would have been a fool
not to be afraid. I’d been drinking plenty, too.
It was too late to drive myself anywhere safe.
I watched him finger a brick as if to throw it
at my head. Maybe that’s a metaphor. Maybe
that’s what happened. America, sometimes it’s hard
to tell the difference with you. All I could do
was lock myself inside his small bedroom. I pushed
a chest against the door and listened as he threw
his body at the wood. Listened as he tore apart
the pillow I had sewn him. He’d been good to me,
but this was like waiting for the walls to ignite.
You’ve heard that, America? In a firestorm
some houses burn from the inside out. An ember
caught in the eaves, wormed through the chinking, will flare up
in the insulation, on the frame, until everything
in the house succumbs to the blaze. In the morning,
I found him on the couch. Legs too long, arms spilling
to the carpet, knuckles bruised in the same pattern
as a hole in the drywall. Every wine bottle
empty. Each container of food opened, eaten,
or destroyed. “I didn’t want you to have this,”
he whispered. If he could not consume my body,
the food he’d given me to eat would have to do.
Have you ever seen a person walk through the ruins
of a burnt-out home? Please believe me, I am not
making light of such suffering, America.
Maybe the dream I still can’t get over is that,
so far, I have made it out alive.

Mary Oliver – O martim-pescador

O martim-pescador surge da onda negra
como uma flor azul, em seu bico
ele carrega uma folha prateada. Acredito ser este
o mundo mais bonito – desde que você não se importe
de morrer um pouco, como pode, em toda vida, haver um dia
que não tenha sua gota de felicidade?
Há mais peixes do que folhas
em mil árvores, e, de toda forma, o martim-pescador
não veio ao mundo para pensar nisso, ou em qualquer outra coisa.
Quando a onda se fecha sobre sua cabeça azul, a água
permanece água – a fome é a única história
que ele já ouviu em toda sua vida na qual pode confiar.
Não digo que ele esteja certo. Nem,
tampouco, errado. Religiosamente, ele engole a folha prateada
com seu rio vermelho dividido, e com um grito áspero e agradável
que não poderia me despertar do meu corpo pensativo
se minha vida dependesse disso, ele se desloca de volta
para o mar brilhante para fazer a mesma coisa, para faze-lo
(como eu desejo fazer alguma coisa, qualquer coisa) perfeitamente.

Trad.: Nelson Santander

The kingfisher

The kingfisher rises out of the black wave
like a blue flower, in his beak
he carries a silver leaf. I think this is
the prettiest world – so long as you don’t mind
a little dying, how could there be a day in your whole life
that doesn’t have its splash of happiness?
There are more fish than there are leaves
on a thousand trees, and anyway the kingfisher
wasn’t born to think about it, or anything else.
When the wave snaps shut over his blue head, the water
remains water – hunger is the only story
he has ever heard in his life that he could believe.
I don’t say he’s right. Neither
do I say he’s wrong. Religiously he swallows the silver leaf
with its broken red river, and with a rough and easy cry
I couldn’t rouse out of my thoughtful body
if my life depended on it, he swings back
over the bright sea to do the same thing, to do it
(as I long to do something, anything) perfectly.

Luis Dolhnikoff – Samba

Juan Vicente Piqueras – Palmeiras

Nascemos da sede. Somos palmeiras
que crescem à força de perder
seus ramos. Nossos troncos são feridas,
cicatrizes que o vento e a luz dissipam,
quando o tempo, o que faz e o que passa,
ocupa o coração e dele faz um ninho
de perdas, erige
nele seu templo, sua áspera coluna.

Por isso as palmeiras são alegres
como os que sabem sofrer em solidão
e balançam-se ao ar, varrem as nuvens
e entregam em suas copas
cânticos à luz, fontes de fogo,
leques a deus, adeus a tudo.
Estremecem como testemunhas de um milagre
que só elas conhecem.

Somos como a sede das palmeiras,
e cada ferida aberta contra a luz
nos torna mais altos, mais alegres.
Nossos troncos são perdas. Trono é a
nossa dor. É ruim
sofrer, mas é preciso ter sofrido
para sentir, como em um ninho de sangue,
o assombro dos sobreviventes
gratos ao ar e explodir
de regozijo no meio do deserto.

Trad.: Nelson Santander

Palmeras

Nacemos de la sed. Somos palmeras
que van creciendo a fuerza de perder
sus ramas. Nuestros troncos son heridas,
cicatrices que el viento y la luz cierran,
cuando el tiempo, el que hace y el que pasa,
ocupa el corazón y lo hace nido
de pérdidas, erige
en él su templo, su áspera columna.

Por eso las palmeras son alegres
como los que han sabido sufrir en soledad
y se mecen al aire, barren nubes
y entregan en sus copas
salomas a la luz, fuentes de fuego,
abanicos a dios, adiós a todo.
Tiemblan como testigos de un milagro
que sólo ellas conocen.

Somos como la sed de las palmeras,
y cada herida abierta hacia la luz
nos va haciendo más altos, más alegres.
Nuestros troncos son pérdidas. Es trono
nuestro dolor. Es malo
sufrir pero es preciso haber sufrido
para sentir, como un nido en la sangre,
el asombro de los supervivientes
al aire agradecidos y estallar
de alta alegría en medio del desierto.

Mark Wunderlich – O Deus do Nada

Meu pai caiu do barco.
Seu equilíbrio já era precário há algum tempo.
Ele havia saído de barco com seu cachorro para
caçar patos em um pântano perto de Trempealeau, Wisconsin.
Ninguém mais estava por perto
salvo o fazendeiro que raspava as calhas do curral das vacas,
surdo de um dos ouvidos pelos anos em máquinas —
e ele estava a meia milha de distância.
Meu pai caiu do barco
e a água subiu ao redor dele, encheu
suas botas e o puxou para baixo.
Ele submergiu na água da cor de café fraco.
O cachorro entrou na água também,
pensando que talvez fosse uma brincadeira.
Devo me corrigir — os cães não pensam como nós —
eles reagem, e o cachorro reagiu nadando
em volta da cabeça do meu pai. Esta não é uma história reconfortante
sobre um cachorro que pede ajuda latindo,
ou como, ao lamber o rosto do meu pai, ele o encorajou
a se aguentar. O cachorro por fim se cansou e foi para a terra
farejar na grama, desfrutar de sua nova liberdade
das atenções do seu dono,
indiferente ao drama do meu pai.
A água estava fria, eu sei disso,
e meu pai sempre resfriava com facilidade.
Que ele estava com frio é uma certeza, embora
eu nunca tenha lhe perguntado sobre este evento.
Eu não sei como ele saiu da água.
Acredito que o fazendeiro foi procura-lo
depois que minha mãe telefonou aflita, e em seguida dirigiu-se
até a fazenda dele depois que meu pai não voltou para casa.
Minha mãe me contou sobre este evento em voz sussurrada,
colocando a mão em concha sobre o telefone e emitindo
animados non sequiturs para não ser ouvida.
Admitir a enfermidade do meu pai
atrairia a ira do Deus do Nada
que ouve uma voz trêmula e vem correndo
para varrer os fracos com um hálito gélido e desdenhoso.
Mas esse deus foi invocado anos antes
durante os quais ele plantou uma semente que cresceu
no cérebro do meu pai, congelando sua língua,
subtraindo-lhe o equilíbrio.
O deus estava lá quando ele caiu do barco,
sussurrando dos meandros do cérebro do meu pai,
e ele estava lá quando minha mãe, observando o horário,
soube que algo estava errado. Este deus é um deus frio,
um deus faminto, egoísta e de pouca visão.
Este deus tem a cabeça de um cão.

Trad.: Nelson Santander

The God of Nothingness

My father fell from the boat.
His balance had been poor for some time.
He had gone out in the boat with his dog
hunting ducks in a marsh near Trempealeau, Wisconsin.
No one else was near
save the wiry farmer scraping the gutters in the cow barn
who was deaf in one ear from years of machines—
and he was half a mile away.
My father fell from the boat
and the water pulled up around him, filled
his waders and this drew him down.
He descended into water the color of weak coffee.
The dog went into the water too,
thinking perhaps this was a game.
I must correct myself—dogs do not think as we do—
they react, and the dog reacted by swimming
around my father’s head. This is not a reassuring story
about a dog signaling for help by barking,
or, how by licking my father’s face, encouraged him
to hold on. The dog eventually tired and went ashore
to sniff through the grass, enjoy his new freedom
from the attentions of his master,
indifferent to my father’s plight.
The water was cold, I know that,
and my father has always chilled easily.
That he was cold is a certainty, though
I have never asked him about this event.
I do not know how he got out of the water.
I believe the farmer went looking for him
after my mother called in distress, and then drove
to the farm after my father did not return home.
My mother told me of this event in a hushed voice,
cupping her hand over the phone and interjecting
cheerful non sequiturs so as not to be overheard.
To admit my father’s infirmity
would bring down the wrath of the God of Nothingness
who listens for a tremulous voice and comes rushing in
to sweep away the weak with icy, unloving breath.
But that god was called years before
during which time he planted a kernel in my father’s brain
which grew, freezing his tongue,
robbing him of his equilibrium.
The god was there when he fell from the boat,
whispering from the warren of my father’s brain,
and it was there when my mother, noting the time,
knew that something was amiss. This god is a cold god,
a hungry god, selfish and with poor sight.
This god has the head of a dog.

Ellen Bass – O importante é

O importante é

amar a vida, ama-la mesmo
quando você não tem estômago para isso
e tudo o que você guardou afetuosamente
se desfaz feito papel queimado em suas mãos,
sua garganta repleta desse lodo.
Quando a dor se senta ao seu lado, seu calor tropical
condensando o ar, pesado como água,
mais apto para guelras do que para pulmões;
quando a dor pesa sobre você como sua própria carne,
só que um pouco mais, uma obesidade de dor,
você pensa: como pode um corpo suportar isso?
Então você segura a vida como um rosto
entre as palmas das mãos, um rosto banal,
sem sorriso encantador nem olhos violeta,
e você diz, sim, eu a aceitarei,
eu a amarei, novamente.

Trad.: Nelson Santander

The Thing Is

to love life, to love it even
when you have no stomach for it
and everything you’ve held dear
crumbles like burnt paper in your hands,
your throat filled with the silt of it.
When grief sits with you, its tropical heat
thickening the air, heavy as water
more fit for gills than lungs;
when grief weights you down like your own flesh
only more of it, an obesity of grief,
you think, How can a body withstand this?
Then you hold life like a face
between your palms, a plain face,
no charming smile, no violet eyes,
and you say, yes, I will take you
I will love you, again.

Abû Al‑Qâsim Ash‑Shâbbî – o coração do poeta

tudo o que voa, trepa, se alça e plana sobre o Universo
aves, flores, perfumes, fontes, ramos dobrados,
mares, grutas, cumes, lugares habitados, vulcões, desertos
sombra e luz, noite e estações, nuvens, trovões,
neve e bruma passageira, furacões, chuvas generosas,
religião e ensinamentos, visões, sensações, silêncio e canto,
tudo isso vive e mexe em meu coração: uma liberdade
irmã da sutil magia dos filhos da eternidade.
no meu coração, aqui sem fundo nem medida,
a morte dança com os espectros da vida.
aqui sopram os terrores da noite,
treme o sofrimento das rosas
e, ao seu eco, ergue‑se a arte.

Trad.: Adalberto Alves

Barbara Crooker – Vida comum

Este foi um dia em que nada aconteceu,
as crianças foram para a escola
sem esquecer de seus livros, lanches, luvas.
Por toda a manhã, o bebê e eu amontoamos pilhas de blocos
no chão de ladrilhos iluminados.
E ao almoço seguiu-se a hora da sesta,
limpei os armários da cozinha,
uma dessas tarefas que nunca realizamos,
e me sentei em um círculo de luz solar
e bebi chá de gengibre,
observando os pássaros no comedouro
disputando as sobras do almoço.
Um faisão desfilou na sebe,
limpou as penas e exibiu sua rútila cabeça.
Agora, um frango assa na panela,
e as crianças retornam,
o murmurar de suas histórias salpicando o ar.
Eu descasco cenouras e batatas sem cortar meu polegar.
Ouvimos juntos o som de seus pneus na entrada.
Damos graças antes do pão.
E, à mesa, conversa de verdade,
sem brigas ou empurrões.
E depois, a lição de casa.
O bebê vai aos seus carrinhos, impele-os
ao longo das serras e colinas do sofá.
Debruçando sobre o balcão, roubamo-nos um beijo longo e lento,
com gosto de creme e café
O frango está reduzido a pele e esqueleto,
a lua, a uma vírgula, uma lasca nevada,
mas este tem sido um dia abençoado
em pleno inverno,
a dura e fria junção do ano,
um dia que se desembrulha
como um inesperado presente,
e as estrelas se acendem,
e se auto-organizam
na noite de inverno.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.: Poema vencedor do Byline Chapbook Prize, Byline Press, 2001

Ordinary Life

This was a day when nothing happened,
the children went off to school
remembering their books, lunches, gloves.
All morning, the baby and I built block stacks
in the squares of light on the floor.
And lunch blended into naptime,
I cleaned out kitchen cupboards,
one of those jobs that never gets done,
then sat in a circle of sunlight
and drank ginger tea,
watched the birds at the feeder
jostle over lunch’s little scraps.
A pheasant strutted from the hedgerow,
preened and flashed his jeweled head.
Now a chicken roasts in the pan,
and the children return,
the murmur of their stories dappling the air.
I peel carrots and potatoes without paring my thumb.
We listen together for your wheels on the drive.
Grace before bread.
And at the table, actual conversation,
no bickering or pokes.
And then, the drift into homework.
The baby goes to his cars, drives them
along the sofa’s ridges and hills.
Leaning by the counter, we steal a long slow kiss,
tasting of coffee and cream.
The chicken’s diminished to skin and skeleton,
the moon to a comma, a sliver of white,
but this has been a day of grace
in the dead of winter,
the hard cold knuckle of the year,
a day that unwrapped itself
like an unexpected gift,
and the stars turn on,
order themselves
into the winter night.

Joan Margarit – Faróis na noite

Tento seduzir-te no passado.
As mãos ao volante e esta luz
de boate no painel me permitem
– fantasia invernal – dançar contigo.
Atrás de mim, como um grande caminhão,
o amanhã fabrica explosões de luzes.
Ninguém o conduz e ele me ultrapassa,
mas agora tu e eu viajamos juntos
e a carruagem pode ser a dos cavalos
dos anos sessenta para Paris.
“Je ne regrette rien”, canta Edith Piaf.
Desço o vidro, infiltra-se a noite
fria da rodovia, e o passado
se aproxima de frente, velozmente:
cruza e me cega sem baixar as luzes.

Trad.: Nelson Santander

Faros en la noche

Intento seducirte en el pasado.
Las manos al volante y esta luz
de club nocturno del tablier me dejan
-fantasía invernal- bailar contigo.
Detrás de mí, igual que un gran camión,
el mañana hace ráfagas de luces.
No lo conduce nadie y me adelanta,
pero ahora tú y yo viajamos juntos
y el coche puede ser el dos caballos
de los años sesenta hacia París.
«Je ne regrette rien» canta Edith Piaf.
Bajo la ventanilla, entra la noche
fria de la autopista, y el pasado
se aproxima de cara, velozmente:
cruza y me ciega sin bajar las luces.