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Joan Margarit – Uma fotografia pendurada na parede

Uma fotografia pendurada na paredeXavier Miserachs Paseo de Gracia,o inverno em que, sob a neve, tu e eu nos conhecemos.Em primeiro plano, de costas para mim,alguns transeuntes que se afastam:talvez seja eu aquele homem com o guarda-chuva,e talvez a mulher com um gorrode lã sejas tu.O fundo se desvanecepor trás dos flocos que caem,nublando o…
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Joan Margarit – Uma história

Não digas nada, Joana,apenas escuta-o e não digas nada.Caminhávamos na chuvosamanhã pela cidade adormecida,e entrávamos lentamenteem uma via calçadaque não levava a lugar nenhum.Algumas crianças, com gritos e canções,queriam que nos aproximássemos do canal,para que víssemos sua casa refletida na água.Gostaste, lembra-te?,de observar as crianças. Quando partimossuas carinhas estavam grudadas nas vidraças,suas vozes dissipando-se na…
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Joan Margarit – Espaço e tempo

E de repente a casa ficou grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus roupeirose seguimos por mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,exibem com mais relevo o teu vazio.Os móveis estão agora mais escuros.Descem pelas escadaso cálido balaústre que se lembrade tua pequena mão,e os degraus que…
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Joan Margarit – Noite de junho

Quando saí do cinema já fazia escuro.Naquele velho estacionamento, sem iluminação,subi a rampa áspera e sujaporque havia estacionado no terraço.Dentro de mim também era dura a ladeira:os primeiros dias sem ti.Mas ao chegar no topo, ao ar livre,um cálido silêncioenvolvia a sombra dos carros:os ladrilhos avermelhados, as gradesde ferro, singelas e delicadas,e os vasos com…
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Joan Margarit – Final

Teu enterro, na primavera: foi essaa mensagem final de tua bondade.Nada melhor em torno de ti do que o ruídodesta cidade e, em frente,a eternidade do mar.Que rude fachada a do Montjuïc: vaiaté onde o pensamento deseja. O carrinho sobe os caminhos de areiae os automóveis o seguem,fazendo crepitar o cascalho ao pédos ciprestes na…
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Joan Margarit – Teu lobo

Mira-o antes de ir-tee dize-lhe adeus: ele foipreso outras vezessem jamais se render.Contempla-o, amarradono pátio nevado:a corrente lhe roçao pescoço, já sem pelos,do qual pendem aindacordas gastas,as que outrora ele partiuem outros cativeiros. Ele dorme quaseo tempo todo.Tem manchas escurascomo de quando caio reboco de uma parede.Infestado de pulgas,na rosada línguaque pende avidamentehá pretas estriasdeixadas…
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Joan Margarit – O dia depois da morte

Hoje te vi e levavas tuas muletas azuis,feliz como sempre e protegidapor aquele jovem pai entre as tensascordas do enorme violoncelo da chuva.Jamais tu e eu lembraremosde termos sido pai e filhaneste mesmo pátio, onde o loureiromolhado balança ao anoitecer. Trad.: Nelson Santander EL DÍA DESPUÉS DE LA MUERTE Hoy te he visto y llevabas…
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Joan Margarit – Um pobre instante

A morte nada mais é do que isto: o quarto,a luminosa tarde na janela,e este toca-fitas na mesinha– tão silencioso como o teu coração –com todas as tuas canções tocadas para sempre.Teu último suspiro segue dentro de mimainda em suspenso: não deixo que acabe.Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?Ouves como brincam as crianças no…
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Joan Margarit – Última caminhada

Já não comia. Caíam meus cabelos.Ficava o dia todo de olhos fechados.Mas saí para a varanda de madrugadae alguém da calçada, sob uma árvore,falou-me com uma voz como a de minha mãe,que dormia em sua cama ao lado da minha.De repente, não estava mais cansadae desci sem muletas até a rua.Nunca fora capaz de andar…
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Joan Margarit – Mari

Ela te acompanhou por muito tempo,todas as tardes, na natação e na escola.Foi tua amiga e também a confidentedaquela dolorosa adolescênciade lua de hospital e das tardes azuisda lenta juventude. Foi a tua Mari,as últimas visitas, quando teus olhospesavam-te interiormente como a morteque apagou todo o brilho por trás das friasvidraças embaçadas de passado.Tu e…