-
Sara Teasdale – Eu não sou tua

Eu não sou tua, e não estou perdida em ti,Não estou perdida embora deseje estarPerdida como uma vela acesa ao meio-dia,Perdida como um floco de neve no mar. Tu me amas, e eu ainda te consideroUma alma com brilho e beleza incontroversa,Contudo, eu sou eu, que anseia por estarPerdida como uma luz que na luz…
-
Francis J. Quirós – Efêmero

Efêmero é algo breve, de curta duração. Efêmera é a tua história na história da humanidade. A humanidade é efêmera. Tudo o que é material é efêmero. Também o imaterial: um olhar, um gesto, uma saudação, um beijo, um orgasmo. As coisas que são e as que não são mais, mas que foram um dia:…
-
Linda Pastan – Chegamos ao silêncio

Chegamos ao silêncio lentamente. Levados ao mundopor uma onda de som,mais tarde o deixamos de bocas fechadas,nossas línguas, pesadas como pedras para nos ancorarna terra. Agora ouvimoso vento nas folhas farfalhantes,um burburinho de águasobre as pedras,a batalha musicaldos pássaros.Considere a orelhaem forma de clave de fá,mas vazia.Considere os espaços entre as estrelas,solilóquios de luz.É quase…
-
Vinicius de Moraes – O poeta Hart Crane suicida-se no mar

Quando mergulhaste na águaNão sentiste como é friaComo é fria assim na noiteComo é fria, como é fria?E ao teu medo que por certoTe acordou da nostalgia(Essa incrível nostalgiaDos que vivem no deserto…)Que te disse a Poesia? Que te disse a PoesiaQuando Vênus que luziaNo céu tão perto (tão longeDa tua melancolia…)Brilhou na tua agoniaDe…
-
Faith Shearin – Cinzas, cinzas

O inverno é a morte pela qual todos temos esperado.Mesmo nas Festas, em que o ano novo é louvado,os galhos se quebram sob o peso da neve.Conhecemos esta estação como reconheceremos o fimde nossas vidas quando a vida estiver na metade.Os anos seguem o caminho dos dentes da infância: premidos tãoesperançosamente sob travesseiros limpos. Pele…
-
Abel Silva – Navegações

Minha casa está calma,eu é que sou turbulento,o país navega, dizem,eu é que me arrebentoeu é que sempre inventotoda esta ventaniaeu é que não me contentocom o rumo da romaria não sei se a sorte é cegaou eu que vivo a teimar:sei que eu sou o barcoo marinheiroe o mar. REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog…
-
Juan Vicente Piqueras – O barbeiro

Nos últimos meses, olhava-se no espelhoe via um intruso. Irritava-se com ele. Já estás aqui outra vez? Será possível?Sai daqui agora mesmo.Para a rua, vagabundo, dizia-lhe. Era-lhe doloroso, era-nos doloroso,toda vez que ele tinha que ir ao banheiro.Tínhamos que conduzi-lo pelo braço, convence-lodo porquê. Ele se tornou o dono desse lugar, dizia,quem lhe deu as…
-
Philip Larkin – A Igreja Indo-se…

Quando estou certo de que nada está ocorrendo,Eu entro, e se ouve um baque quando eu solto a porta.Mais uma igreja: bancos, panos, pedra, além dosLivrinhos; as juncadas secas, que se cortamPara o domingo; bronze e objetos a cobrir oAltar; um órgão impecável e pequeno;Silêncio tenso, de bolor, que salta à vista,Há muito fermentado. Sem…
-
Suzanne Buffam – Basta

Estou usando óculos escuros dentro de casaPara combinar com meu baixo astral. Eu deixei todo o açúcar de fora da torta.Minha raiva é uma espécie de raiva doméstica. Aprendi com minha mãeQue aprendeu com a mãe dela antes dela E assim por diante.Certamente os gregos tinham uma palavra para isso. E hoje com certeza os…
-
T. S. Eliot – Os Homens Ocos

“A penny for the Old Guy” (Um pêni para o Velho Guy) INós somos os homens ocosOs homens empalhadosUns nos outros amparadosO elmo cheio de nada. Ai de nós!Nossas vozes dessecadas,Quando juntos sussurramos,São quietas e inexpressasComo o vento na relva secaOu pés de ratos sobre cacosEm nossa adega evaporada Forma sem forma, sombra sem corForça paralisada,…