Mary Oliver – Flores brancas

Ontem à noite
no campo
eu me deitei no escuro
para pensar na morte,
mas em vez disso adormeci,
como se estivesse em um quarto vasto e inclinado
repleto daquelas flores brancas
que se abrem todo verão,
viscosas e desordenadas,
nos tépidos campos.
Quando despertei
a luz da manhã deslizava
perante as estrelas,
e eu estava coberta
de flores.
Não sei
como aconteceu —
não sei
se meu corpo mergulhou
para baixo das adocicadas videiras
em algum tipo de afinidade sonoafiada
com as profundezas, ou se
aquela energia verde
ergueu-se como uma onda
e se enroscou em mim, reivindicando-me
em seus braços rudes.
Eu a afastei, mas não me levantei.
Nunca em minha vida me sentira tão suave,
ou tão escorregadia,
ou tão resplandecentemente vazia.
Nunca em minha vida
me sentira tão perto
daquela linha porosa
onde meu próprio corpo terminava
e as raízes e os caules e as flores
começavam.

Trad.: Nelson Santander

White Flowers

Last night
in the fields
I lay down in the darkness
to think about death,
but instead I fell asleep,
as if in a vast and sloping room
filled with those white flowers
that open all summer,
sticky and untidy,
in the warm fields.
When I woke
the morning light was just slipping
in front of the stars,
and I was covered
with blossoms.
I don’t know
how it happened—
I don’t know
if my body went diving down
under the sugary vines
in some sleep-sharpened affinity
with the depths, or whether
that green energy
rose like a wave
and curled over me, claiming me
in its husky arms.
I pushed them away, but I didn’t rise.
Never in my life had I felt so plush,
or so slippery,
or so resplendently empty.
Never in my life
had I felt myself so near
that porous line
where my own body was done with
and the roots and the stems and the flowers
began.

Rainer Maria Rilke – Fonte Romana

Vila Borghese

Duas velhas bacias sobrepondo
suas bordas de mármore redondo.
Do alto a água fluindo, devagar,
sobre a água, mais embaixo, a esperar,

muda, ao murmúrio, em diálogo secreto,
como que só no côncavo da mão,
entremostrando um singular objeto:
o céu, atrás da verde escuridão;

ela mesma a escorrer na bela pia,
em círculos e círculos, constante-
mente, impassível e sem nostalgia,

descendo pelo musgo circundante
ao espelho da última bacia
que faz sorrir, fechando a travessia.

Trad.: Augusto de Campos

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/12/2017

Römische Fontäne

Zwei Becken, eins das andere übersteigend
aus einem alten runden Marmorrand,
und aus dem oberen Wasser leis sich neigend
zum Wasser, welches unten wartend stand,

dem leise redenden entgegenschweigend
und heimlich, gleichsam in der hohlen Hand,
ihm Himmel hinter Grün und Dunkel zeigend
wie einen unbekannten Gegenstand;

sich selber ruhig in der schönen Schale
verbreitend ohne Heimweh, Kreis aus Kreis,
nur manchmal träumerisch und tropfenweis
sich niederlassend an den Moosbehängen
zum letzten Spiegel, der sein Becken leis
von unten lächeln macht mit Übergängen.

Andrea Cohen – Barganha

Pagamos-lhe quase
nada — menos do que o pouco
que ele pedira — para nos levar

ao anoitecer das pirâmides
em camelos deserto adentro.
Estipêndio tão escasso

para nos levar, sem
reclamar, para tão longe —
até aqui, sem uma estrela.

Estávamos no meio
do nada, ou em sua borda.
Amigos, perguntou ele, de

dentro daquela escuridão,
quanto vocês me pagarão
para leva-los de volta?

Trad.: Nelson Santander

Bargain

We paid him next
to nothing—less than the little
he’d asked for—to lead us

at dusk from the pyramids
on camels into the desert.
Such slim wages

to take us, without
complaint, all that way—
so far, without a star.

We were in the middle
of nowhere, or at its edge.
Friends, he asked, from

inside that blackness,
what will you pay me
to take you back?

Giuseppe Ungaretti – Vigília

Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915

Toda uma noite em claro
caído ao lado
de um companheiro
massacrado
com sua boca
arreganhada
exposta à lua cheia
com o hematoma
de suas mãos
cravado
em meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor
Não tinha nunca estado
tão
aferrado à vida

Trad.: Nelson Ascher

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 22/12/2017

Veglia

Cimma Quattro il 23 dicembre 1915

Un’intera nottata
buttato vicino
ad un compagno
massacrato
con la sua bocca
digrignata
volta al plenilunio
con la gestione
delle sue mani
penetra
nel mio silenzio
ho scritto
lettere piene d’amore
Non sono mai stato
tanto
attaccato alla vita

Dan Albergotti – Coisas para fazer no ventre da baleia

Meça as paredes. Conte as costelas. Registre os longos dias.
Olhe para o céu azul por entre os esguichos. Faça pequenas fogueiras
com os cascos partidos dos barcos de pesca. Pratique sinais de fumaça.
Ligue para os velhos amigos e escute os ecos de vozes distantes.
Organize sua agenda. Sonhe com a praia. Busque por toda jornada
pelo pálido brilho da luz. Trabalhe em seus relatórios. Recapitule
cada uma das dez milhões de escolhas de sua vida. Suporte os momentos
de autoaversão. Encontre as evidências dos que aqui estiveram antes de você.
Destrua-as. Tente ficar muito tranquilo e ouça o som das
engrenagens e da água em movimento. Ouça o som do seu coração.
Seja grato por estar aqui, engolido com todas as esperanças,
onde você pode descansar e esperar. Seja nostálgico. Pense em todas
as coisas que você fez e as que poderia ter feito. Lembre-se de
boiar pedalando no centro do tranquilo mar noturno, os dedos dos pés
apontando vezes sem conta para baixo, para as negras profundezas.

Things to Do in the Belly of the Whale

Measure the walls. Count the ribs. Notch the long days.
Look up for blue sky through the spout. Make small fires
with the broken hulls of fishing boats. Practice smoke signals.
Call old friends, and listen for echoes of distant voices.
Organize your calendar. Dream of the beach. Look each way
for the dim glow of light. Work on your reports. Review
each of your life’s ten million choices. Endure moments
of self-loathing. Find the evidence of those before you.
Destroy it. Try to be very quiet, and listen for the sound
of gears and moving water. Listen for the sound of your heart.
Be thankful that you are here, swallowed with all hope,
where you can rest and wait. Be nostalgic. Think of all
the things you did and could have done. Remember
treading water in the center of the still night sea, your toes
pointing again and again down, down into the black depths.

Dylan Thomas – E a Morte não terá nenhum Domínio

E a morte não terá nenhum domínio.
Nus, os mortos irão se confundir
Com o homem no vento e a lua no poente;
Quando seus alvos ossos descarnados se tornarem pó,
Haverão de brilhar as estrelas em seus pés e cotovelos;
Ainda que enlouqueçam, permanecerão lúcidos,
Ainda que submersos pelo mar, haverão de ressurgir;
Ainda que os amantes se percam, o amor persistirá;
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Aqueles que há muito repousam sob as dobras do mar
Não morrerão com a chegada do vento;
Contorcendo-se em martírios quando romperem os tendões,
Acorrentados à roda da tortura, jamais se partirão;
Em suas mãos, a fé irá fender-se em duas,
E as maldades do unicórnio os atravessarão;
Espedaçados por completo, eles não se quebrarão.
E a morte não terá nenhum domínio.

E a morte não terá nenhum domínio.
Não mais irão gritar as gaivotas aos seus ouvidos
Nem se quebrar com fragor as ondas nas areias;
Onde uma flor desabrochou não poderá nenhuma outra
Erguer sua corola para as rajadas da chuva;
Ainda que estejam mortas e loucas, suas cabeças
Haverão de enterrar-se como pregos através das margaridas,
Irrompendo no sol até que o sol se ponha.
E a morte não terá nenhum domínio.

Trad.: Ivan Junqueira

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 11/12/2017

And death shall have no dominion

And death shall have no dominion.
Dead man naked they shall be one
With the man in the wind and the west moon;
When their bones are picked clean and the clean bones gone,
They shall have stars at elbow and foot;
Though they go mad they shall be sane,
Though they sink through the sea they shall rise again;
Though lovers be lost love shall not;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
Under the windings of the sea
They lying long shall not die windily;
Twisting on racks when sinews give way,
Strapped to a wheel, yet they shall not break;
Faith in their hands shall snap in two,
And the unicorn evils run them through;
Split all ends up they shan’t crack;
And death shall have no dominion.

And death shall have no dominion.
No more may gulls cry at their ears
Or waves break loud on the seashores;
Where blew a flower may a flower no more
Lift its head to the blows of the rain;
Though they be mad and dead as nails,
Heads of the characters hammer through daisies;
Break in the sun till the sun breaks down,
And death shall have no dominion.

Judith Hemschemeyer — Naquele verão

Naquele verão
depois que você se enforcou
sem perguntar
a ninguém que o amava
se eles podiam suportar

dei por mim arrastando mangueiras
regando cada centímetro
desse imenso gramado
dia após dia
perfeito

obcecada
incapaz de deixar mais alguma coisa
uma única folha de grama
morrer.

Trad.: Nelson Santander

That Summer

That summer
after you hanged yourself
without asking
anyone who loved you
if they could bear it

I found myself dragging hoses
watering every inch
of this huge lawn
over and over
day after perfect day

obsessed
unable to let one more thing
one single blade of grass
die.

Mario Cesariny – Os Pássaros de Londres

Os pássaros de Londres
cantam todo o inverno
como se o frio fosse
o maior aconchego
nos parques arrancados
ao trânsito automóvel
nas ruas da neve negra
sob um céu sempre duro
os pássaros de Londres
falam de esplendor
com que se ergue o estio
e a lua se derrama
por praças tão sem cor
que parecem de pano
em jardins germinando
sob mantos de gelo
como se gelo fora
o linho mais bordado
ou em casas como aquela
onde Rimbaud comeu
e dormiu e estendeu
a vida desesperada
estreita faixa amarela
espécie de paralela
entre o tudo e o nada
os pássaros de Londres

quando termina o dia
e o sol consegue um pouco
abraçar a cidade
à luz razante e forte
que dura dois minutos
nas árvores que surgem
subitamente imensas
no ouro verde e negro
que é sua densidade
ou nos muros sem fim
dos bairros deserdados
onde não sabes não
se vida rogo amor
algum dia erguerão
do pavimento cínzeo
algum claro limite
os pássaros de Londres
cumprem o seu dever
de cidadãos britânicos
que nunca nunca viram
os céus mediterrânicos

REPUBLICAÇÃO: publicado originalmente em 09/12/2017

Matthew Olzmann – Carta à pessoa que gravou suas iniciais no mais antigo pinheiro de folha longa da América do Norte

Southern Pines, Carolina do Norte

Diga-me como é viver sem
curiosidade, sem sentir admiração. Navegar
em águas cristalinas, desviando os olhos
dos recifes de algas que ondulam
abaixo de você, ignorando o cintilar
das escamas de sereias no nevoeiro,
olhando para o mundo e sentindo
apenas tédio. Estar
à beira do precipício de algum vale selvagem,
as águias circulando, um rebanho de caribus
trovejando lá embaixo, e bocejar
com indiferença. Descobrir
algo primordial e sagrado.
Sentir o cheiro da terra
acolhendo-o por toda parte.
Absorver tudo isso e, então,
empunhar sua faca.

Trad.: Nelson Santander

Letter to the Person Who Carved His Initials into the Oldest Living Longleaf Pine in North America

Southern Pines, NC

Tell me what it’s like to live without
curiosity, without awe. To sail
on clear water, rolling your eyes
at the kelp reefs swaying
beneath you, ignoring the flicker
of mermaid scales in the mist,
looking at the world and feeling
only boredom. To stand
on the precipice of some wild valley,
the eagles circling, a herd of caribou
booming below, and to yawn
with indifference. To discover
something primordial and holy.
To have the smell of the earth
welcome you to everywhere.
To take it all in, and then,
to reach for your knife.

Ruy Espinheira Filho – Canção de Depois de Tanto

                    a Roniwalter Jatobá 

Vamos beber qualquer coisa,
que a vida está um deserto
e o coração só me pulsa
sombras de Ido e do Incerto.

Vamos beber qualquer coisa,
que a lua avança no mar
e há salobros fantasmas
que não quero visitar.

Vamos beber qualquer coisa
amarga, rascante, rude,
brindando sobre o já frio
cadáver da juventude.

Vamos beber qualquer coisa.
O que for. Vamos beber.
Mesmo porque não há mais
o que se possa fazer.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente em 08/12/2017