-
César Cantoni – O Tempo Irreparável

Quem teria pensado nisso, então?O certo é que meu pai está mortocomo se nunca tivesse existido.Um dia congelaram suas mãos e os pés,e a casa se encheu de parentes,e minha mãe chorou, de joelhos, junto ao leito.Ainda me lembro. Meu pai está morto ou já não existe,e não basta agora saber que ele era feliz.Neste…
-
Czesław Miłosz – Café

Daqueles que se encontravam à mesa do caféonde, no meio-dia de inverno, um jardim de gelo reluzia nas vidraças,só eu sobrevivi.Eu poderia entrar ali se quisessee, tamborilando meus dedos em um frio vazio,convocar as sombras. Com incredulidade, toco o mármore frio,com incredulidade, toco minha própria mão.Isto – é, e eu – estou em cada novo…
-
Nikki Giovanni – Permissões

Eu matei uma aranhaNão uma reclusa marrom assassinaNem mesmo uma viúva negraE, pra falar a verdade,Foi apenas um tipoPequeno de aranha frágilQue deveria ter fugidoQuando peguei o livroMas ela não o fezE ela me assustouE eu a esmaguei Eu não acho queEsteja autorizada a Matar qualquer coisa Só porque estou Com medo Trad.: Nelson Santander…
-
Rudy Francisco – Compaixão

Ela me pede para matar a aranha.Em vez disso, empunho as armasmais pacíficas que consigo encontrar. Eu pego um guardanapo e uma xícara.Capturo a aranha, coloco-a para forae deixo-a ir embora. Se alguma vez eu for apanhado no lugar erradona hora errada, apenas por estar vivoe não incomodar ninguém, Espero ser acolhidocom o mesmo tipode…
-
Linda Pastan – A filha

Triste por saber que Linda Pastan – uma das minhas poetas norteamericanas favoritas – nos deixou. Ela deixa um legado imensurável à literatura americana, tendo sido uma das mais importantes e influentes poetisas de sua geração. Com sua escrita lírica e intensa, Linda Pastan capturou a essência da vida cotidiana e da alma humana, explorando…
-
César Cantoni – Álbum de Família

Morreu meu pai, morreram meus avós,morreram meus tios de sangue e por afinidade.Uma família inteira de ferreiros,marceneiros, curtidores, pedreiros,jaz agora sem forças embaixo da terra. E eu, o mais inútil de todos,o que não sabe fazer nada com as mãos,logrei sobreviver impunementepara chorar diante de uma fotoo melhor do meu sangue. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO:…
-
Pat Schneider – A paciência das coisas comuns

É um tipo de amor, não acha?Como a caneca retém o chá,Como a cadeira se mantém robusta e sólida,Como o chão recebe a sola dos sapatosOu os dedos. Como as solas dos pés sabemOnde devem estar.Eu tenho pensado na paciênciaDas coisas comuns, em como as roupasEsperam respeitosamente nos guarda-roupasE o sabão seca discretamente no prato,E…
-
César Cantoni – O mais digno em nós

Eu sempre achei que os ossos, com seu brilho mineralde pedra polida pela chuva, são o que de mais digno há em nós:sobrevivem longamente à putrefação indecorosa da carnee não têm a malícia nem a maldade da alma. Trad.: Nelson Santander REPUBLICAÇÃO, com alterações na tradução: poema publicado no blog originalmente em 26/01/2018 César Cantoni…
-
Ruth Lepson – No dia da audiência do nosso divórcio

No dia da audiência do nosso divórcio você me convidou para almoçar em uma cantina.Nunca tínhamos sido tão gentis um com o outro.Quando você disse que eu ainda era uma desleixada, nós rimos.Depois do almoço, ficamos no estacionamento.Você disse: você tem a última palavra,mas eu respondi, Não, estou cansada de seraquela que resume tudo.Você tem…
-
Mario Benedetti – Angelus

Quem imaginaria que este seria o destino? Vejo a chuva através de letras invertidasUma parede com manchas que parecem dignitáriosOs tetos dos ônibus brilhantes como peixesE essa melancolia que impregna as buzinas Aqui não há céu,Aqui não há horizonte. Há uma mesa grande para todos os braçosE uma cadeira que gira quando quero fugir.Outro dia…