Linda Pastan – Flores Silvestres

Você me deu dentes-de-leão.
Eles tomaram nosso jardim
por direito de ocupação —
sóis redondos surgindo
em abril, delicadas luas
retirando-se em junho.
Você me deu sapatinhos-de-dama,
sanguinárias, serralhas,
trillium cujo número secreto
as crianças que você me deu
contam. Na hierarquia
das flores, as silvestres
se erguem em seus caules
para serem nomeadas.
Chame-as de ervas daninhas.
Eu as colho como
colhi você,
por sua alegria feroz
e indisciplinada.

Trad.: Nelson Santander

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Wildflowers

You gave me dandelions.
They took our lawn
by squatters’ rights—
round suns rising
in April, soft moons
blowing away in June.
You gave me lady slippers,
bloodroot, milkweed,
trillium whose secret number
the children you gave me
tell. In the hierarchy
of flowers, the wild
rise on their stems
for naming.
Call them weeds.
I pick them as I
picked you,
for their fierce,
unruly joy.

Thomas Ligotti – Memento

Você pretendia cuidar de tudo
e organizar seus assuntos.
Mas o inesperado aconteceu
e não houve tempo.

Mais tarde, os entes queridos vieram,
se desfizeram de algumas coisas
e deixaram outras de lado:
lembranças ou objetos de valor.

Eles choraram por um velho pente
que ainda tinha alguns cabelos
enrolados entre os dentes.
Mas também riram um pouco.

Então alguém encontrou
o que você deixou guardado no sótão.
“Meu Deus”, eles murmuraram
e foram para casa esquecer de você.

Trad.: Nelson Santander

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Memento

You meant to take care
and put your affairs in order.
But the unexpected occurred
and there wasn’t time.

Later, the loved ones came
and gave away some things,
while putting aside some others:
keepsakes or valuables.

They cried over an old comb
that still had some hairs
twirling through its teeth.
Yet they laughed a little too.

Then someone uncovered
what you left in the attic.
“Oh, dear,” they said softly
and went home to forget you.

Henry Reed – A nomeação das peças

Hoje temos a nomeação das peças. Ontem
Tivemos a limpeza diária. E amanhã de manhã,
Teremos o que fazer depois da ordem de “fogo”. Mas hoje,
Hoje nós temos a nomeação das peças. A japonica
Arde como coral em todos os jardins adjacentes,
E hoje nós temos a nomeação das peças.

Isto é o zarelho móvel inferior. E isto
É o zarelho móvel superior, cuja utilidade você entenderá
quando receber sua bandoleira. E este é o elo de encaixe,
Que no seu caso você não tem. Os ramos
Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes,
Que no nosso caso nós não temos.

Esta é a trava de segurança, que é sempre liberada
Com um simples movimento do polegar. E por favor não quero
Ver ninguém usando o dedo. Você pode fazer isso com facilidade
Se tiver alguma força no polegar. As flores
São frágeis e imóveis, nunca permitem que alguém as veja
usando seus dedos.

E isto que você vê é o ferrolho. A finalidade dele
É o de destravar a culatra, como pode ver. Podemos deslizá-lo
Rapidamente para trás e para frente: chamamos isso de
Libertar a retratora. E rapidamente para trás e para frente
As primeiras abelhas estão apalpando e assediando as flores:
Chamam isso de libertar a primavera.

Chamam isso de libertar a primavera: é perfeitamente fácil
Se você tiver alguma força no polegar: como o ferrolho,
e a culatra, e a peça de armar, e o ponto de equilíbrio,
Que no nosso caso não temos; e a amendoeira em flor
Silenciosa em todos os jardins e as abelhas indo para trás e para frente
Pois hoje temos a nomeação das peças.

Trad.: Nelson Santander

Um pouco sobre o poema e sua tradução

The naming of parts, escrito em 1942 pelo poeta inglês Henry Reed, é a Parte I de uma coletânea de seis poemas chamada Lessons of War (Lições de Guerra). Reed, que era visceralmente contra a guerra, utiliza os poemas dessa coletânea para expressar seu posicionamento pacifista, fazendo uma espécie de paródia do treinamento do Exército Britânico durante a Segunda Guerra Mundial.

As cinco estrofes de The Naming of Parts (que traduzi por A Nomeação das Peças) se estruturam, cada uma, em torno de duas vozes: a de um instrutor que ensina o funcionamento de um rifle, usando uma linguagem rigorosamente técnica, e a que parece ser a de um recruta mais interessado na natureza ao seu redor do que na aula que está sendo ministrada. Em vez de aprender sobre a arma, o recruta se apropria de parte das expressões e palavras do instrutor para transfigura-las poeticamente, dando-lhes novo significado.

Na primeira estrofe, por exemplo, o instrutor esclarece que aquele dia é dedicado à nomeação das peças do rifle. O dia anterior foi reservado para a limpeza das armas e no dia seguinte eles irão para o campo de batalha. O recruta, todavia, está absorto nas camélias que ardem “como coral em todos os jardins adjacentes”.

Na estrofe seguinte, o instrutor demonstra como funciona a colocação da correia de transporte do rifle (também conhecida no Brasil como “bandoleira”) e aponta a existência de um dispositivo de encaixe que, no entanto, não está presente nos rifles dos recrutas (a passagem é intencionalmente irônica, já que o Exército da Rainha estava mal preparado e mal equipado para a guerra). O recruta não está preocupado com isso: ele está de olho nas árvores vizinhas, cujos galhos se justapõem e se encaixam silenciosamente, mas de forma eloquente.

As demais estrofes têm a mesma estrutura lógico-formal, contrastando o palavreado técnico e monótono do instrutor com a visão poética e reveladora do recruta. Surgem também, aqui e ali, insinuações de cunho sexual (segundo alguns intérpretes, uma alusão sub-reptícia à sexualidade reprimida dos soldados em razão da guerra), evidenciadas pela menção às abelhas polinizando as flores, em contraposição ao movimento de vai-e-vem do ferrolho do rifle. A última estrofe resume as lições aprendidas com o instrutor e, por que não?, com o recruta.

A tradução do poema apresentou algumas dificuldades que não sei se consegui resolver satisfatoriamente.

Logo na primeira estrofe, Reed usa os verbos “firing” e “glistens” (em português, “disparar” e “brilhar”, respectivamente, mas que também podem significar “arder”) pra demonstrar a brutal diferença entre atirar em alguém e iluminar o mundo com a beleza. Em português, os verbos utilizados para designar o disparo de uma arma de fogo são “atirar”, “disparar”, “descarregar”, etc. Ou seja, em língua portuguesa o termo “fogo” não tem um correspondente verbal. Por essa razão, e para manter a conexão entre o verbo “firing” (disparar com uma arma de fogo) e o brilho das camélias, optei, por um lado, por usar a palavra “fogo” extraída de um comando militar (o famoso “Preparar… apontar… Fogo!”) e, de outro, uma das acepções da palavra “glistens” em português – “arder” – que significa “estar em chamas, abrasado; incendiar-se, queimar” (todas relativas ao fogo), mas que, no caso, está empregada no sentido de produzir brilho, cintilar.

Na primeira estrofe encontramos também a palavra Japonica. A Japonica é uma das espécies da flor conhecida como Camélia, cujo nome científico é Camellia japonica, nativa das florestas do sul do Japão. Reed não escolheu esta flor ao acaso. O nome remete diretamente ao Japão, que durante a Segunda Guerra Mundial se aliou à Alemanha e Itália para formar o Eixo, inimigo das forças Aliadas das quais a Inglaterra fazia parte. Em português, não é comum fora dos círculos especializados o uso de expressões científicas para denominar as plantas. Ninguém além dos botânicos chama a mini-rosa de Rosa chinensis, a margarida de Leucanthemum vulgare ou a Flor-de-lis de Sprekelia Formosissima. Todavia, não é totalmente fora de propósito, nesse caso, o uso do nome científico já que ele se presta a especificar a qual espécie de camélia estamos nos referindo. Assim, fica mantida a alusão poética desejada pelo autor.

Outra dificuldade foi identificar corretamente os nomes das peças mencionadas no poema e encontrar a nomenclatura correspondente em português, ainda mais considerando que estamos falando de um rifle da Segunda Guerra Mundial, que provavelmente nem mesmo é mais fabricado. Recorri à internet e tenho dúvidas sobre se consegui encontrar, em português, todos os termos técnicos das peças citadas no poema. O certo é que, em algumas passagens, optei deliberadamente por não buscar o exato termo em nossa língua (embora mantendo o sentido técnico original), para tentar emular a conexão que o texto faz entre as peças da arma e os devaneios do recruta. Por exemplo, “Piling swivel” poderia ser traduzido como “argola móvel para empilhamento/agrupamento (dos rifles)” – e desconheço se há uma peça com a mesma função em rifles brasileiros, e qual o nome que é dado a ela no Brasil. No poema, a peça “piling swivel” se correlaciona com os ramos de árvores que “Mantêm nos jardins seus gestos silenciosos e eloquentes”. Assim, optei por traduzir o nome desta peça como “elo de encaixe”, que, além de, imagino eu, indicar corretamente a função da peça, faz referência aos galhos de árvores que se encaixam uns aos outros.

Dentro ainda da técnica de alusão “arma-natureza” utilizada pelo poeta, uma expressão em especial se mostrou impossível de ser recuperada com os dois significados usados no poema. A expressão “easing the spring”, em inglês, pode tanto significar tanto “soltar/libertar/distensionar a mola” quanto “soltar/libertar a primavera”. Habilmente, Reed utiliza as duas acepções desta expressão para justapor o universo da guerra ao da natureza, numa estrofe com evidente conotação sexual (bem por isso, traduzi “cocking-piece” por “peça de armar”). Foi impossível encontrar uma palavra em português que significasse simultaneamente “mola” e “primavera”. Por isso, optei por uma palavra (“retratora”, relativa à mola retratora e recuperadora do ferrolho) que recupera ao menos parte da fonética da sua correspondente no último verso da estrofe (“primavera”).

Observação final: como iria republicar este poema, aproveitei para fazer alguns ajustes na tradução, em 08/08/2024.

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The naming of parts

Today we have naming of parts. Yesterday,
We had daily cleaning. And tomorrow morning,
We shall have what to do after firing. But today,
Today we have naming of parts. Japonica
Glistens like coral in all of the neighboring gardens,
And today we have naming of parts.

This is the lower sling swivel. And this
Is the upper sling swivel, whose use you will see,
When you are given your slings. And this is the piling swivel,
Which in your case you have not got. The branches
Hold in the gardens their silent, eloquent gestures,
Which in our case we have not got.

This is the safety-catch, which is always released
With an easy flick of the thumb. And please do not let me
See anyone using his finger. You can do it quite easy
If you have any strength in your thumb. The blossoms
Are fragile and motionless, never letting anyone see
Any of them using their finger.

And this you can see is the bolt. The purpose of this
Is to open the breech, as you see. We can slide it
Rapidly backwards and forwards: we call this
Easing the spring. And rapidly backwards and forwards
The early bees are assaulting and fumbling the flowers:
They call it easing the Spring.

They call it easing the Spring: it is perfectly easy
If you have any strength in your thumb: like the bolt,
And the breech, and the cocking-piece, and the point of balance,
Which in our case we have not got; and the almond-blossom
Silent in all of the gardens and the bees going backwards and forwards
For today we have naming of parts.

William Stafford – Viajando na Escuridão

Viajando na escuridão, encontrei um cervo
morto à margem da estrada junto ao Rio Wilson.
Geralmente é melhor rolá-los para o cânion:
a estrada é estreita; desvios poderiam causar mais mortos.

À luz da lanterna traseira, caminhei até o carro
e me coloquei ao lado do monte, uma corsa, recém-abatida;
ela já estava rígida, quase fria.
Eu a arrastei para longe; ela estava inchada na barriga.

Ao tocar seu flanco, descobri a razão —
ela estava quente do lado; sua cria estava ali esperando,
viva, imóvel, para nunca mais nascer.
Ao lado daquela estrada da montanha, hesitei.

O carro apontava para frente com as luzes baixas ligadas;
sob o capô, ronronava o motor estável.
Fiquei diante do reflexo do escapamento quente que se tornava vermelho;
ao nosso redor, eu podia sentir a natureza selvagem nos observando.

Refleti profundamente por todos nós — meu único desvio —,
e depois a empurrei para dentro do rio.

Trad.: Nelson Santander

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Traveling through the Dark

Traveling through the dark I found a deer
dead on the edge of the Wilson River road.
It is usually best to roll them into the canyon:
that road is narrow; to swerve might make more dead.

By glow of the tail-light I stumbled back of the car
and stood by the heap, a doe, a recent killing;
she had stiffened already, almost cold.
I dragged her off; she was large in the belly.

My fingers touching her side brought me the reason—
her side was warm; her fawn lay there waiting,
alive, still, never to be born.
Beside that mountain road I hesitated.

The car aimed ahead its lowered parking lights;
under the hood purred the steady engine.
I stood in the glare of the warm exhaust turning red;
around our group I could hear the wilderness listen.

I thought hard for us all—my only swerving—,
then pushed her over the edge into the river.

Linda Gregg – Em louvor à primavera

O dia é tomado por tudo e se completa.
Saio, entro, e saio novamente, confundida
por uma beleza que não conhece a espera,
correndo como fogo. Todas as coisas se movem mais rápido
que o tempo e, assim, criam uma quietude. Minha mente
se inclina para trás e sorri, sem ter nada a dizer.
Mesmo à noite, saio com uma luz e observo
o florescimento. Ajoelho-me e contemplo uma coisa
de cada vez. Uma aranha branca em um botão de peônia.
Nada tenho a oferecer, sou apenas uma pobre serva,
mas posso louvar a primavera. Louvar a natureza selvagem
que não se importa com a hora. A corsa que não
cede à escuridão, mas segue se desenvolvendo a noite toda.
A beleza em todos os estágios de florescimento. Violetas
se erguem para a chuva e o riacho fica mais ruidoso do que nunca.
O velho fazendeiro alemão está dormindo e as flores continuam
a se abrir. Há estrelas. A menta cresce alta. As folhas
se dobram sob a luz do sol enquanto a chuva continua a cair.

Trad.: Nelson Santander

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In Praise of Spring

The day is taken by each thing and grows complete.
I go out and come in and go out again,
confused by a beauty that knows nothing of delay,
rushing like fire. All things move faster
than time and make a stillness thereby. My mind
leans back and smiles, having nothing to say.
Even at night I go out with a light and look
at the growing. I kneel and look at one thing
at a time. A white spider on a peony bud.
I have nothing to give, and make a poor servant,
but I can praise the spring. Praise this wildness
that does not heed the hour. The doe that does not
stop at dark but continues to grow all night long.
The beauty in every degree of flourishing. Violets
lift to the rain and the brook gets louder than ever.
The old German farmer is asleep and the flowers go on
opening. There are stars. Mint grows high. Leaves
bend in the sunlight as the rain continues to fall

Les Murray – O Significado da Existência

Todas as coisas, exceto a linguagem,
conhecem o significado da existência.
Árvores, planetas, rios, tempo
não têm outra consciência. Expressam-no
momento a momento, como o universo.

Mesmo este corpo tolo
o vivencia em parte e teria
dignidade plena nele,
não fosse a liberdade ignorante
de minha mente falante.

Trad.: Nelson Santander

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The Meaning Of Existence

Everything except language
knows the meaning of existence.
Trees, planets, rivers, time
know nothing else. They express it
moment by moment as the universe.

Even this fool of a body
lives it in part, and would
have full dignity within it
but for the ignorant freedom
of my talking mind.

A. E. Housman – De “A Shropshire Lad”, Canto XL

Canto XL (de “Um Rapaz de Shropshire”)

Em meu coração, sopra uma brisa assassina
  Oriunda de uma longínqua região: 
Aqueles pináculos, aquelas colinas
  Da memória, aquelas fazendas, o que são? 
 
Esta é a terra das perdidas substâncias
  Eu enxergo suas planícies a brilhar, 
As estradas felizes de minhas andanças
  Para as quais, entretanto, eu não posso voltar.

Trad.: Nelson Santander

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A Shropshire Lad, XL

Into my heart an air that kills 
  From yon far country blows: 
What are those blue remembered hills, 
  What spires, what farms are those? 
 
That is the land of lost content,
  I see it shining plain, 
The happy highways where I went 
  And cannot come again.

Patrick Kavanagh – Raglan Road

Na Raglan Road1, em um dia de outono, uma vez a conheci e sabia
Que suas mechas escuras lançariam uma urdidura que me apanharia;
Eu enxerguei o perigo, mas continuei pela viela encantada,
E disse: que a aflição seja uma folha no chão ao despontar da alvorada.

Na Grafton Street, em novembro, caminhamos com leveza pelo beiral
Da grota profunda de onde se vê o valor da promessa da paixão,
A Rainha de Copas que ainda faz suas tortas e eu que não faço nada2
Oh, eu amei tanto, e assim, e portanto, a felicidade foi descartada.

Eu lhe dei os dons da mente, eu lhe dei o secreto sinal só conhecido
Pelos artistas que conviveram com os deuses da pedra e do ruído,
Do verbo e da matiz. Assim o fiz, dei-lhe poemas para recitar.
Com seu próprio nome e seus cabelos escuros como nuvens pelo ar,

Em uma rua calma onde velhas almas se encontram, eu a vejo ir
Para longe de mim tão rapidamente que a razão deve admitir
Que eu não cortejei, eu sei, um ser feito de barro, como deveria –
Quando o anjo flerta com o barro, ele desperta sem asas n’outro dia.

Trad.: Nelson Santander

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N. do T.:

1. “On Raglan Road” foi inspirado no tema clássico do amor não correspondido, baseado na experiência do poeta Patrick Kavanagh com uma jovem estudante de medicina chamada Hilda Moriarty. Kavanagh encontrou Moriarty enquanto caminhava pela Raglan Road, em Dublin (Irlanda), onde residia. Apesar da diferença de idade entre os dois (ele tinha 40 anos e ela 22), Kavanagh se apaixonou profundamente, enquanto Moriarty não compartilhava seus sentimentos. O poema foi inicialmente publicado no jornal “The Irish Press”, em 3 de outubro de 1946, sob o título “Dark Haired Miriam Ran Away”. Mais tarde, Kavanagh musicou o poema com uma melodia de uma antiga canção folclórica irlandesa chamada “The Dawning of the Day”. A música foi interpretada por Luke Kelly, do renomado grupo irlandês The Dubliners, e popularizou-se internacionalmente como “On Raglan Road”. Tanto o poema quanto a canção deixaram uma marca profunda na consciência cultural irlandesa e global. Em 2019, a obra foi oficialmente canonizada como a ‘Canção Folclórica Favorita da Irlanda’ em uma pesquisa realizada pela RTÉ. Para mais detalhes sobre o poeta e sua obra mais famosa, consulte o artigo publicado online pelo jornal irlandês The Journal, em 26/12/2019.

2. “A Rainha de Copas que ainda faz suas tortas” (“The Queen of Hearts still making tarts”) pode ser interpretado como uma referência à fábula infantil “Alice no País das Maravilhas”, onde a Rainha de Copas é conhecida por fazer tortas, o que pode simbolizar a rotina mundana ou trivial da vida cotidiana. “I not making hay” pode ser uma referência à expressão “make hay while the sun shines” (fazer feno enquanto o sol brilha), que, em livre tradução, significa aproveitar as oportunidades enquanto elas estão disponíveis. Por isso, traduzi esta linha por “e eu que não faço nada”. Nesse contexto, “não fazer feno” pode sugerir que o eu lírico não está aproveitando essas oportunidades ou não está agindo de acordo com as expectativas.

On Raglan Road

On Raglan Road on an autumn day I met her first and knew
That her dark hair would weave a snare that I might one day rue;
I saw the danger, yet I walked along the enchanted way,
And I said, let grief be a fallen leaf at the dawning of the day.

On Grafton Street in November we tripped lightly along the ledge
Of the deep ravine where can be seen the worth of passion’s pledge,
The Queen of Hearts still making tarts and I not making hay —
O I loved too much and by such and such is happiness thrown away.

I gave her gifts of the mind I gave her the secret sign that’s known
To the artists who have known the true gods of sound and stone
And word and tint. I did not stint for I gave her poems to say.
With her own name there and her own dark hair like clouds over fields of May

On a quiet street where old ghosts meet I see her walking now
Away from me so hurriedly my reason must allow
That I had wooed not as I should a creature made of clay –
When the angel woos the clay he’d lose his wings at the dawn of day.

Kim Addonizio – Comendo juntas

Sei que minha amiga está partindo,
embora ela ainda esteja sentada
à minha frente no restaurante
e se incline sobre a mesa para mergulhar
seu pão no azeite do meu prato; sei
como o cabelo dela costumava ser espesso,
e o que custa para ela deixar de lado
seu boné masculino no meio da refeição,
olhar diretamente para o jovem garçom
e sorrir quando ele pergunta
se estamos gostando. Ela come
como se estivesse faminta — frango, dolmas,
as camadas amanteigadas da massa folhada —
e o que a está consumindo
se alimenta também. Eu a observo levantar
uma reluzente azeitona preta e retirar
a carne do caroço, observo
seus dedos longos e finos, e seu rosto,
inchados pela medicação. Ela baixa
os olhos para a comida, fingindo
não saber o que eu sei. Ela está partindo.
E continuamos comendo.

Trad.: Nelson Santander

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Eating Together

I know my friend is going,
though she still sits there
across from me in the restaurant,
and leans over the table to dip
her bread in the oil on my plate; I know
how thick her hair used to be,
and what it takes for her to discard
her man’s cap partway through our meal,
to look straight at the young waiter
and smile when he asks
how we are liking it. She eats
as though starving—chicken, dolmata,
the buttery flakes of filo—
and what’s killing her
eats, too. I watch her lift
a glistening black olive and peel
the meat from the pit, watch
her fine long fingers, and her face,
puffy from medication. She lowers
her eyes to the food, pretending
not to know what I know. She’s going.
And we go on eating.

Ellen Bass – A bancada da cozinha

Hoje ouvi uma jovem declamar um poema
em que o marido ergue seu traseiro nu
sobre a bancada da cozinha
e, na próxima linha, abre suas pernas.

O casamento tem problemas. Talvez já estejam divorciados.
Mas de repente lamento o fato de que
nunca ninguém tenha erguido meu traseiro nu sobre uma bancada de cozinha.

Nem quando meu traseiro trotava altivo e orgulhoso.
E nem quando ele começou a fitar o chão
como se estivesse contemplando o futuro.

E agora, estou fadada a morrer
sem nunca ter sido tomada naqueles ladrilhos frios e duros.
Não me diga que não é tarde demais. É.

Trad.: Nelson Santander

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The Kitchen Counter

Today I heard a young woman read a poem
in which her husband lifts her bare bottom
onto the kitchen counter
and, in the next line, spreads her legs.

The marriage has problems. They may already be divorced.
But suddenly I am ruing the fact
that no one has lifted my bottom onto a kitchen counter.

Not when my bottom trotted high and proud.
And not when it began to eye the floor
as if contemplating the future.

And now, I’m going to die
without ever being taken on those cold hard tiles.
Don’t tell me it’s not too late. It is.