Garous Abdolmalekian – Molde

Molde

Teu vestido agitando ao vento.
Esta
é a única bandeira que adoro.

Trad.: Nelson Santander, a partir da versão em inglês vertida do persa por Idra Novey and Ahmad Nadalizadeh

Pattern

Your dress waving in the wind.
This
is the only flag I love.

trans. Idra Novey and Ahmad Nadalizadeh

Hayan Charara — Mais velho

O solo, úmido de chuva, é mais velho que a grama que brota.
E, sombreando as pontas verdes do relvado, os carvalhos
de galhos frágeis que nunca caem
sobre o carteiro cruzando o gramado, são mais velhos
que a casa, e a casa,
em um bairro que já foi floresta, é mais velha que as crianças
que se recusam a comer vagem —
elas adoram doces, mas menos do que amam a mãe.
A menina é mais velha que o menino,
o menino é mais velho que o gato,
que não sabe dizer o que sabe
sobre idade, odeia os cactos no peitoril da janela —
conquistador noturno, ele arranha e arranha,
e quebra, depois marcha
em direção ao quarto, atravessa meu ventre e se detém
sobre meu peito — seu hálito quente e nariz úmido
jovens como a lua nova, pouco mais que crescente esta noite,
vinte e dois anos após sua morte. Oh,
mãe, sou mais velho agora do que a senhora jamais seria.

Trad.: Nelson Santander

Older

The dirt, damp with rain, is older than the sprouting grass.
And shadowing the grassy spikes, the oak trees
with brittle limbs that never fall
on the mailman walking across the lawn are older
than the house, and the house,
in a neighborhood once a forest, is older than the boy and girl
refusing to eat green beans—
they love candy, but less than they love their mother.
The girl is older than the boy,
the boy older than the cat, and the cat,
which cannot communicate what it knows
about age, hates the cactuses on the windowsill—
a conqueror in the night, he paws and paws,
and breaks, then marches
into the bedroom, across my stomach, and halts
on my chest—his warm breath and wet nose
young as the new moon, barely a crescent tonight,
twenty-two years after you died. O,
mother, I am older now than you ever would be.

Kathy Fagan – Minha mãe

Minha mãe

não é um fantasma. Ela não me visita nem me assombra.
Gostaria de sonhar com ela, mas não sonho.

Em vez disso, ela me deixa coisas: um colar de contas
verdes de Mardi Gras no estacionamento,

uma moeda Mizpah dourada, uma mandala brilhante
que se perdeu de seu brinco. Coisas que uma pega pegaria

eu pego, sabendo inquestionavelmente
que são presentes dela; a alquimia, toda minha,

como se fôssemos meninas no shopping,
nos cobrindo de bijuterias baratas,

dizendo: Isso ficou lindo em você!
Nossos rostos em tão radiante harmonia

entre os metais espelhados que eu
já não sei qual de nós está viva.

Trad.: Nelson Santander

My Mother

is not a ghost. She doesn’t visit or haunt me.
I’d like to dream of her but do not.

Instead she leaves me things: a string of green
Mardi Gras beads in the parking lot,

a goldtone Mizpah coin, a shiny mandala
freed of its earring. Things a magpie might pick

up, I pick up, knowing unquestionably
they are gifts from her, the alchemy all mine,

as if we were girls together at the mall,
festooning ourselves in jewelry, the kind that’s 2

for 5, saying, That looks so good on you!
Our faces in such bright agreement

among the reflective metals, I
can no longer tell which one of us is alive.

Ellen Bryant Voigt – Prática

Chorar sem querer, acordar
à noite só para chorar, esperar
que o ponteiro do relógio
trema outra vez, empurrando
o dia dormente adiante —

será isso apenas prática?
Alguns creem no céu,
outros no descanso. Nós flutuaremos,
você disse. Depois
flutuaremos entre dois mundos —

cinco besouros de bronze
encaixados como colheres em uma
peônia, inebriados de desejo:
se eu voltasse como pássaro,
lembraria disso —

até que todos que amamos
estejam a salvo — foi o que você disse.

Trad.: Nelson Santander

Practice

To weep unbidden, to wake
at night in order to weep, to wait
for the whisker on the face of the clock
to twitch again, moving
the dumb day forward—

is this merely practice?
Some believe in heaven,
some in rest. We’ll float,
you said. Afterward
we’ll float between two worlds—

five bronze beetles
stacked like spoons in one
peony blossom, drugged by lust:
if I came back as a bird
I’d remember that—

until everyone we love
is safe is what you said.

Wendy Cope – Nomes

Ela foi Eliza por algumas semanas
Quando ainda bebê —
Eliza Lily. Logo virou Lil.

Mais tarde foi Srta. Steward na padaria,
E depois ‘meu amor’, ‘minha querida’, Mãe.

Viúva aos trinta, voltou ao trabalho
Como dona Hand. Sua filha cresceu,
Casou-se e teve filhos.

Agora ela era a Vovó. ‘Todo mundo
Me chama de Vovó’, ela dizia aos visitantes.
E assim o faziam — amigos, comerciantes, o médico.

Na ala geriátrica,
Usavam os nomes de batismo dos pacientes.
‘Lil,’ dizíamos, ‘ou Vovó’,
Mas isso não estava no prontuário
E, naquelas últimas semanas confusas,
Ela foi Eliza outra vez.

Trad.: Nelson Santander

Names

She was Eliza for a few weeks
When she was a baby —
Eliza Lily. Soon it changed to Lil.

Later she was Miss Steward in the baker’s shop
And then ‘my love’, ‘my darling’, Mother.

Widowed at thirty, she went back to work
As Mrs Hand. Her daughter grew up,
Married and gave birth.

Now she was Nanna. ‘Everybody
Calls me nanna,’ she would say to visitors.
And so they did — friends, tradesmen, the doctor.

In the geriatric ward
They used the patients’ Christian names.
‘Lil,’ we said, ‘or Nanna,’
But it wasn’t in her file
And for those last bewildered weeks
She was Eliza once again.

Robert Wrigley – Ser um lago

Ele nunca sonhou em ser um lago
nas altas montanhas, e agora se indaga por quê.
Certamente, não poderia haver devaneio
mais sublime: ser límpido e frio,
e percorrido por trutas. Permitir que a luz do sol
chegue às suas profundezas, ter profundezas
jamais visitadas. Ser recoberto por gelo
e camadas espessas de neve no inverno, luzir em azul puro
no puro azul do céu, revelar às estrelas
as estrelas, ser sorvido por animais selvagens.
E acolher um humano ocasional,
que, pela lembrança de ali ter estado,
poderia sonhar em voltar. Estar lá.
Não um visitante, mas um sonhador que sonha
que este lago é aquilo que ele sempre quis ser.

Trad.: Nelson Santander

Being a Lake

He has never dreamed of being a lake
in the high mountains, and now he wonders why.
Surely there could be no better, in the way
of dreamy aspirations: to be clear and cold
and swum through by trout. To allow the sunlight
far into your depths, to have depths no one
will ever visit. To be ceilinged by ice
and many feet of snow in winter, to shine pure blue
into the pure blue of the sky, to show the stars
the stars, to be drunk by wild animals.
And to admit an occasional human,
who, because of the memory of having been there,
might dream of being there. Being there.
Not a visitor but a dreamer, dreaming
this very lake is what he’s always wanted to be.

Shari Wagner – A mulher do fazendeiro muda de canal

O Jesus da minha infância
prefere estar ao ar livre.
Se não está pescando, está colhendo figos
ou nos mostrando sua plantação de mostarda.

Ele gosta das estradas poeirentas, do pardal banal,
e dos lírios do campo.
Quando bate à sua porta
segurando uma lanterna, você sabe que é hora
de caçar as botas
e segui-lo para alimentar as ovelhas.

Mas esse pregador, que encara
a câmera e afirma conhecer
Jesus, diz que o que ele quer
é que eu creia nele
para que ele possa entrar.

Isso me cheira a trapaça.
Como um lobo que cobriu as patas de farinha1.

O Jesus que curava os cegos
disse que conheceremos uma árvore pelo fruto.

Trad.: Nelson Santander

  1. A imagem do lobo com as patas cobertas de farinha alude ao conto popular europeu, difundido pelos Irmãos Grimm (O lobo e os sete cabritinhos), no qual o lobo disfarça as patas para fingir ser a mãe dos cabritos e enganá-los. No poema, a metáfora sugere dissimulação e falsa piedade: alguém que se apresenta como inofensivo ou virtuoso para conquistar confiança e acesso. ↩︎

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The Farm Wife Turns Off the TV Evangelist

The Jesus I grew up with
likes to be outside.
If he’s not fishing, he’s picking figs
or showing us his mustard crop.

He prefers dusty roads, the common sparrow,
and lilies of the field.
When he knocks on your door
holding a lantern, you know it’s time
to buckle on overshoes
and go with him to feed the sheep.

But this preacher, who looks straight
into the camera and claims he knows
Jesus, says what he wants
is for me to believe in him
so he can come inside.

That sounds shifty to me.
Like a wolf with his paws dipped in flour.

Jesus who heals the blind
said we will know a tree by its fruit.

Jo Balmer – Nada acontecerá

Nada acontecerá

Arredores de Atenas, 404 BCE

Enquanto os espartanos celebravam a vitória suada,
um de seus jovens entoou um canto de Eurípides –
versos para os derrotados, os mortos, os desaparecidos…
(Plutarco, Vida de Lisandro, 15)

Meio bêbado, meio atordoado, quase decidido
a ser zombado, recitei versos do inimigo.

Tínhamos votado para destruir Atenas. Converter
suas ruas fervilhantes em pasto, grama. O clamor da caterva
em crocitar de corvos. O contrário de uma cidade.
Escravizá-los, como haviam escravizado outros.

Mas quando minha canção se dissipou como uma dor mal cicatrizada,
nossa determinação esmoreceu; a vingança perdeu sua forma.

Vi embrutecidos hoplitas espartanos, soldados,
baixarem suas cabeças, como se envergonhados, os rostos riscados
por lágrimas afiadas. Agora todos nós concordávamos:
não poderíamos, em sã consciência, obliterar
uma cidade que nos dera tanta beleza;
poetas para registrar nossa perda acumulada.

Por fim, a carnificina poderia cessar. Nada de guerra,
selvageria, escravidão. A poesia
não faria nada acontecer. Não é pra isso que ela serve?

Trad.: Nelson Santander

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Make Nothing Happen

Outside Athens, 404 BCE
As the Spartans celebrated hard-fought victory
one of their youths sung a song by Euripides –
lines for the defeated, the dead, the disappeared…
(Plutarch, Life of Lysander, 15)

Half-drunk, half-dazed, half-decided to be jeered,
at the feast I recited enemy verse.

We’d voted to destroy Athens. To scorch
its teeming streets to pasture, grass. Crowd cry
to crow call. The opposite of city.
To enslave them as they’d enslaved others.

But as my song faded like a half-healed ache,
our resolve bruised; revenge bent out of shape.

I watched hardened Spartan hoplites, soldiers,
bow their heads as if in shame, faces scraped
by razored tears. Now all of us concurred:
we could not, in conscience, obliterate
a city that had given us such beauty;
poets to score our accumulated loss.

At last the butchery could stop. No war.
No savagery. No slavery. Poetry
would make nothing happen. What it’s for.

Natalie Shapero – Primeiro de dezembro

Deus qual é? parai de me cortar
de vossas fotos Deus parai de arrastar
o mouse em torno do meu corpo
puído qual contorno de giz clicando depois em
PREENCHER COM FUNDO eu sei Deus

que são tempos difíceis sei que só
destinastes uma morte por pessoa lamento
ter agarrado mais do que minha parte
mas por certo já ouvistes falar de A CADA QUAL
CONFORME SUA NECESSIDADE e suponho que

obtive o que me cabia Deus lamento
por aqueles que com o tempo descobrem
que não lhes restam mortes para morrer
mas Deus sois vós quem fomentais a
demanda e depois estrangulais a oferta

Trad.: Nelson Santander

First of December

God come on stop cutting me
out of your photos God stop dragging
the mouse around my shopworn
body like a chalk outline then clicking FILL
WITH BACKGROUND God I know

that times are tight I know you only
made one death per person I’m sorry
to have snagged more than my
share but surely you’ve heard about TO EACH
ACCORDING TO HIS NEED and I guess

I got what I needed God I’m sorry
to those who find with time
that there aren’t deaths left for them to die
but God you’re the one who stokes
demand then chokes up the supply

Tess Gallagher – Vão

Entrei neste mundo sem querer
vir. Dele vou sair sem
querer partir. Todo esse tempo,
em que parecia haver duas portas,
apenas uma porta havia – esta
passagem.

Trad.: Nelson Santander

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Opening

I entered this world not wanting
to come. I’ll leave it not
wanting to go. All this while,
when it seemed there were two doors,
there was only one – this
passing through.