Joan Margarit – Um pobre instante

A morte não é mais do que isto: um quarto,
a luminosa tarde na janela,
e este toca-fitas na mesinha
tão desligado como o teu coração
com todas as tuas canções cantadas para sempre.
Teu último suspiro segue dentro de mim,
todavia em suspenso: não deixo que termine.
Sabes qual é, Joana, o próximo concerto?
Ouves como no pátio da escola
as crianças estão brincando?
Sabes, ao final da tarde,
como será esta noite,
noite de primavera? Pessoas virão.
A casa acenderá todas as suas luzes.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Un pobre instante

La muerte no es más que esto: el dormitorio,
la luminosa tarde en la ventana,
y este radiocasete en la mesita
tan apagado como tu corazón
con todas tus canciones cantadas para siempre.
Tu último suspiro sigue dentro de mí
todavía en suspenso: no dejo que termine.
¿Sabes cual es, Joana, el próximo concierto?
¿Oyes como en el patio de la escuela
están jugando los niños?
¿Sabes, al acabar la tarde,
cómo serà esta noche,
noche de primavera? Vendrá gente.
La casa encenderá todas sus luces.

Miquel Martí i Pol – Tua Solidão

Enquanto puderes, não desperdices
tua solidão, dedicando-a a uma absurda
busca do nada, nem persigas a ti próprio
obsessivamente por escuras galerias.
Assustado pela luz dos preceitos.
Sai no sol a pino e olha
para as coisas difíceis.
Considera que o jogo desmedido das palavras
não te servirá de nada se não te apoiares
naquilo que te rodeia. Há as pedras
e as árvores e as pessoas e tantas coisas
que podes tocar com as mãos!
Que não te apercebas
algum dia, com sobressalto, que os anos estão passando
e te moves ao redor da própria sombra.

Trad.: Nelson Santander

Tu soledad

En cuanto puedas, no malgastes
Tu soledad, dedicándola a una absurda
búsqueda de nada, ni te persigas
obsesivamente por pasadizos oscuros.
Asustado por la luz de los preceptos.
Sal a pleno sol y fíjate
en cosas duras.
Piensa que el juego desmedido de las palabras
no te servirá de nada si no te apoyas
en aquello que te rodea. Están las piedras
y los árboles y la gente y tantas cosas
que puedes tocar con las manos!
Que no te des cuenta
algún día, con sobresalto, que los años te van pasando
y te mueves sólo alrededor de tu sombra.
 

La teva solitud

En tant que puguis, no malbaratis
La teva solitud, dedicant-la a una absurda
recerca de no-res, ni et persegueixis
tossudament per corredors obscurs,
esporuguit per la llum dels preceptes.
Surt a ple sol i fixa’t
en coses dures. Pensa
que el joc desmesurat de les paraules
no et servirà de res si no el recolzes
damunt d’allò que et volta. Hi ha les pedres
i els arbres i la gent i tantes coses
que pots tocar amb les mans! Que no t’adonis
algun dia, amb espant, que els anys et passen
i et mous només entorn de la teva ombra.

 
Aqui: http://comandodharma.blogspot.com.br/2010/09/la-teva-solitud-miquel-marti-i-pol.html

Joan Margarit – Quando se perde o sinal

À noite, em um pequeno aeroporto,
vês um avião que está decolando.
Vai-se perdendo o sinal.
Sem nenhuma piedade pelo que foste,
pois a piedade é demasiado efêmera e
não há tempo para construir nada sobre ela,
convences-te de que vives,
embora sem esperanças, uma época
que é a mais feliz de tua vida.
Há uma outra poesia, haverá sempre,
como há outra música. A de Beethoven surdo.
Quando se perde o sinal.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Se pierde la señal

De noche, en un pequeño aeropuerto,
ves un avión que va elevándose.
Se va perdiendo la señal.
Sin ninguna piedad por lo que has sido,
pues la piedad es demasiado efímera
no hay tiempo a construir nada sobre ella ,
te sientes convencido de vivir,
aunque sin esperanzas, unos años
que son los más felices de tu vida.
Hay otra poesía, la habrá siempre,
como hay otra música. La de Beethoven sordo.
Cuando se pierde la señal.

Piedad Bonnett – Volta à Poesia

Outra vez volto a ti.
Cansada venho, definitivamente solitária.
Minha bolsa cheia de tristeza trago, carregada
de penas infinitas,
de dor.
Dos desertos venho com os lábios ardentes
e o olhar cego
pelo vento forte e a dura areia.
Abrasada de sede,
venho beber de teus profundos mananciais,
render-me em teus braços,
fundos braços de mãe, e em teu peito
de amante, misterioso,
onde bate teu coração como um enigma.
Agora
que descansando estou junto ao caminho,
te vejo aparecer em tudo:
na humilde carroça
em que o verde da couve é mais verde,
e no azul em que a tarde eclode.
Humilde, volto a ti de alma nua
a buscar o reflexo de meu rosto,
meu verdadeiro rosto
entre tuas águas.

Trad.: Nelson Santander

Piedad Bonnett – Vuelta a la Poesía

Otra vez vuelvo a tí.
Cansada vengo, definitivamente solitaria.
Mi faltriquera llena de penas traigo, desbordada
de penas infinitas,
de dolor.
De los desiertos vengo con los labios ardidos
y la mirada ciega
de tanto duro viento y ardua arena.
Abrazada de sed,
vengo a beber de tus profundos manantiales,
a rendirme en tus brazos,
hondos brazos de madre, y en tu pecho
de amante, misterioso,
donde late tu corazón como un enigma.
Ahora
que descansando estoy junto al camino,
te veo aparecer en cada cosa:
en la humilde carreta
en que es más verde el verde de las coles,
y en el azul en que la tarde estalla.
Humilde vuelvo a ti con el alma desnuda
a buscar el reflejo de mi rostro,
mi verdadero rostro
entre tus aguas.

Alejandra Pizarnik – Capítulos Principais

Chega a morte com sua manada de ossos
sorrio submissa a uma menina idiota
que implora em meu nome
juntas (a morte, a menina e eu)
não encontramos outro ofício para execrar.
No final todos se casam:
o mar e as ondas,
a noite e a escuridão,
a taça e o vinho,
o anel e o dedo,
a morte e o cadáver.

Trad.: Nelson Santander

Alejandra Pizarnik – Capítulos principales.

Llega la muerte con su manada de huesos
sonrío sumisa a una niña idiota
que implora en mi nombre
juntas (la muerte, la niña y yo)
no encontramos otro oficio que execrar
Al final todos se casan:
el mar y las olas,
la noche y lo oscuro,
el vaso y el vino,
el anillo y el dedo,
la muerte y el cadáver.

Joan Margarit – Não jogues fora as cartas de amor

Elas não te abandonarão.
O tempo passará, apagar-se-á o desejo
— esta flecha da sombra —
e os rostos sensuais, belos e inteligentes,
ocultar-se-ão em ti, no fundo de um espelho.
Passarão os anos. Cansar-te-ão os livros.
Decairás ainda mais
e perderás até mesmo a poesia.
O ruído da cidade nas vidraças
acabará por ser tua única música,
e as cartas de amor que houveres guardado
serão tua última literatura.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – No tires las cartas de amor

Ellas no te abandonarán.
El tiempo pasará, se borrará el deseo
-esta flecha de sombra-
y los sensuales rostros, bellos e inteligentes,
se ocultarán en ti, al fondo de un espejo.
Caerán los años. Te cansarán los libros.
Descenderás aún más
e, incluso, perderás la poesía.
El ruido de ciudad en los cristales
acabará por ser tu única música,
y las cartas de amor que habrás guardado
serán tu última literatura.

Tishani Doshi – Poema de Amor

No fim, perderemos um ao outro
para alguma coisa. Espero que para algo
grandioso – morte ou desastre.
Mas pode não ser dessa maneira.
Pode ser que você saia
para comprar cigarros uma manhã
depois de termos feito amor
e nunca mais retorne,
ou eu me apaixone por outro homem.
Pode ser uma lenta caminhada rumo à indiferença.
Seja como for, teremos que aprender
a suportar o peso de que eventualmente
perderemos um ao outro para alguma coisa.
Então por que não começar agora, enquanto sua cabeça
repousa como uma lua perfeita em meu colo,
e os cães na praia estão uivando lá fora?
Por que não alcançar a sutura que nos une nesta
noite indiana e rasga-la, só um pouco, para a queda
poder começar? Porque mais tarde, quando nos cruzarmos
nas ruas, e tivermos que desviar nossos olhares,
quando tivermos atirado
as partes rejeitadas de nossa vida comum
nas gavetas do quarto e o cheiro
de nossos corpos estiver desaparecendo como o doce
definhar dos lírios – do que iremos chamar isto,
quando não for mais amor?

Trad.: Nelson Santander

Tishani Doshi – Love Poem

Ultimately, we will lose each other
to something. I would hope for grand
circumstance — death or disaster.
But it might not be that way at all.
It might be that you walk out
one morning after making love
to buy cigarettes, and never return,
or I fall in love with another man.
It might be a slow drift into indifference.
Either way, we’ll have to learn
to bear the weight of the eventuality
that we will lose each other to something.
So why not begin now, while your head
rests like a perfect moon in my lap,
and the dogs on the beach are howling?
Why not reach for the seam in this South Indian
night and tear it, just a little, so the falling
can begin? Because later, when we cross
each other on the streets, and are forced
to look away, when we’ve thrown
the disregarded pieces of our togetherness
into bedroom drawers and the smell
of our bodies is disappearing like the sweet
decay of lilies — what will we call it,
when it’s no longer love?

Felipe Benítez Reyes – Uma Forma de Eternidade

Então o medo era isto?
Não os assustadores
fantasmas do pensamento e da consciência.
Não os longos corredores de hospitais
com lâmpadas fluorescentes dia e noite.
Nem sequer o tremor de irrealidade
que permanece na alma se te recordas.

O medo, aparentemente, é calmo:

Chega quando fechas a janela
e compreendes que tudo quanto vês
é o mesmo de ontem, e voltará
a ser o mesmo amanhã e para sempre.

Trad.: Nelson Santander

Felipe Benítez Reyes – Una Forma de Eternidad

Pero ¿el miedo era esto?
No los amenazantes
fantasmas del pensamiento y la conciencia.
No los largos pasillos de hospitales
con tubos fluorescentes día y noche.
Ni siquiera el temblor de irrealidad
que se queda en el alma si recuerdas.

El miedo, al parecer, es sosegado:

te llega cuando cierras la ventana
y comprendes que todo cuanto miras
es lo mismo que ayer, y que lo mismo
volverá a ser mañana y para siempre.

Alfredo Buxán – Lápide

Uma lágrima cai
sobre a cal do solo, arde
sob meus pés, consome na solidão
minha solidão.

Trad.: Nelson Santander

 

 

Alfredo Buxán – Lápida

Una lágrima cae
sobre la cal del suelo, arde
bajo mis pies, abrasa en soledad
mi soledad.

 

Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonia “Leningrado”

Lembras-te? Joana havia morrido.
Íamos para o norte, tu e eu, no carro,
para o apartamento junto ao mar,
e ouvíamos esta sinfonia.
Iniciamos a viagem em uma manhã
luminosa e, dentro da música,
o dia era de muros cobertos pelo gelo,
vultos carregando sacos meio vazios
e, no lago, trenós com cadáveres.
Como uma pista de aeroporto ao sol,
fugia a autoestrada e, através dos sons, se estendia
uma névoa de obuses ocultando
os rastros dos tanques na neve.
Foi em julho, em uma manhã azul dourada
que brilhava no cristal do mar.
Os metais e cordas ressoavam
como a glória – no passado, como sempre;
rechaçando a vida, como sempre.

À noite não se ouvia nenhum outro rumor
que o das ondas sob o terraço.
Por outro lado, dentro de nós,
como ocorria dentro da música,
rugia o temporal de neve e ferro
que desata a história ao virar a página.

Trad.: Nelson Santander

Joan Margarit – Shostakovich. Sinfonía “Leningrado”

¿Lo recuerdas? Joana había muerto.
Íbamos hacia el norte, tú y yo, en coche,
hasta el apartamento junto al mar,
y escuchábamos esta sinfonía.
Iniciamos el viaje una mañana
llena de luz y, dentro de la música,
el día era de muros cubiertos por el hielo,
sombras con sacos a medio llenar
y, en el lago, trineos con cadáveres.
Como una pista de aeropuerto al sol,
huía la autopistaetrás de los sonidos se extendía
una niebla de obuses ocultando
las huellas de los tanques en la nieve.
Fue en julio, una mañana de oro azul
que destellaba en el cristal del mar.
Los metales y cuerdas resonaban
con la gloria, en pasado como siempre,
rechazando la vida, como siempre.

De noche no se oía más rumor
que el de las olas bajo la terraza.
En cambio, dentro de nosotros,
como ocurría dentro de la música,
rugía el temporal de nieve y hierro
que desata la historia al pasar página.