Jacques Prévert – Bárbara

Lembra-te Bárbara
Chovia em Brest
sem cessar naquele dia
Caminhavas à chuva
sorridente
radiosa encantadora deslumbrante
Lembra-te Bárbara
chovia em Brest
sem cessar
e eu passei por ti
na Rua do Sião.
Sorrias
e eu sorria
Lembra-te Bárbara
tu a quem não conhecia
tu que não me conhecias
Lembra-te
Lembra-te mesmo assim
daquele dia
Não te esqueças
Sob um pórtico
abrigava-se um homem
que gritou o teu nome
Bárbara
Correste para ele
à chuva
deslumbrante encantadora
radiosa
lançaste-te nos seus braços
Lembra-te Bárbara
E não me queiras mal
se te trato por tu
trato assim todos os que amo
mesmo se os vi só uma vez
trato assim todos os que se amam
mesmo até se os não conheço
Lembra-te Bárbara
Não te esqueças
essa chuva sábia e feliz
nesse teu rosto feliz
nessa cidade feliz
essa chuva sobre o mar
sobre o arsenal
sobre o barco para Ouessant
Ó Bárbara
que estupidez é a guerra
o que é feito de ti
agora
sob esta chuva de ferro
de fogo de aço de sangue
e daquele que te apertava nos braços
amorosamente
Morreu desapareceu
está vivo ainda
Ó Bárbara
Chove em Brest sem cessar
como chovia então
mas já nada é o mesmo
e tudo se estragou
É uma chuva de luto
de terrível desalento
Já não é sequer
o temporal
de ferro de aço de sangue
não passa agora de nuvens
que rebentam como cães
os cães que desaparecem
nessas torrentes de Brest
e apodrecerão lá longe
longe bem longe de Brest
onde já não resta nada.

Trad.: Anthero Monteiro

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 07/06/2020

Barbara

Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest ce jour-là
Et tu marchais souriante
Épanouie ravie ruisselante
Sous la pluie
Rappelle-toi Barbara
Il pleuvait sans cesse sur Brest
Et je t’ai croisée rue de Siam
Tu souriais
Et moi je souriais de même
Rappelle-toi Barbara
Toi que je ne connaissais pas
Toi qui ne me connaissais pas
Rappelle-toi
Rappelle-toi quand même ce jour-là
N’oublie pas
Un homme sous un porche s’abritait
Et il a crié ton nom
Barbara
Et tu as couru vers lui sous la pluie
Ruisselante ravie épanouie
Et tu t’es jetée dans ses bras
Rappelles-toi cela Barbara
Et ne m’en veux pas si je te tutoie
Je dis tu à tous ceux que j’aime
Même si je ne les ai vus qu’une seule fois
Je dis tu à tous ceux qui s’aiment
Même si je ne les connais pas
Rappelle-toi Barbara
N’oublie pas
Cette pluie sage et heureuse
Sur ton visage heureux
Sur cette ville heureuse
Cette pluie sur la mer
Sur l’arsenal
Sur le bateau d’Ouessant
Oh Barbara
Quelle connerie la guerre
Qu’es-tu devenue maintenant
Sous cette pluie de fer
De feu d’acier de sang
Et celui qui te serrait dans ses bras
Amoureusement
Est-il mort disparu ou bien encore vivant
Oh Barbara
Il pleut sans cesse sur Brest
Comme il pleuvait avant
Mais ce n’est plus pareil et tout est abîmé
C’est une pluie de deuil terrible et désolée
Ce n’est même plus l’orage
De fer d’acier de sang
Tout simplement des nuages
Qui crèvent comme des chiens
Des chiens qui disparaissent
Au fil de l’eau sur Brest
Et vont pourrir au loin
Au loin très loin de Brest
Dont il ne reste rien

Kim Addonizio – O momento

O jeito como minha mãe se inclinou diante da porta do carro, remexendo as chaves,
demorando uma eternidade
para encontrar a certa, alinhá-la com a fechadura, empurrá-la debilmente
e girar,
o jeito como abriu a porta tão lentamente, curvando-se um pouco mais,
acomodando-se finalmente no assento de couro – ela havia machucado as costelas,
explicou, mas não foi uma lesão
o que eu vi, não o contratempo temporário seguido pela cura,
a obstinada renovação do corpo;
o que vi pela primeira vez foi a velhice, o declínio, a inexorável
aproximação da morte. Mas uma vez no carro,
acomodada atrás do volante, dando ré e se dirigindo para o tráfego
constante na rodovia,
ela voltou a ser ela mesma, minha mãe como eu sempre a conheci:
envelhecendo, sem dúvida,
na casa dos setenta agora, mas ainda cheia de vida, ainda a atleta que ela foi
a vida toda; corrida, golfe
e especialmente tênis – o esporte em que ela se destacou, acumulando
campeonatos – eram tão naturais
para ela como respirar. Durante toda minha vida, ela tinha sido a definição da graça, de uma
confiança inabalável e serena
no corpo; impossível imaginá-la indefesa, frágil, confinada
a um andador ou uma cadeira de rodas.
Agora ela estava cantarolando enquanto dirigia, aquela hesitação momentânea
apagada, sem deixar vestígios.
Nenhum sinal de dor, da dor que ela devia estar sentindo
em seu flanco. Minha mãe
recusava tudo isso, e continuaria recusando. Ela olhava para frente para
a estrada movimentada, o passado praticamente esquecido –
em algum lugar atrás de nós, tristezas, perdas, o terrível conhecimento, mas à nossa frente
um dia que passaríamos juntas,
estávamos indo para lá agora, enquanto ainda havia tempo, nada disso
seria desperdiçado.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

The Moment

The way my mother bent to her car door, fumbling the keys,
taking forever it seemed
to find the right one, line it up with the lock and feebly push it in
and turn,
the way she opened the door so slowly, bending a bit more, easing
herself finally into the leather seat - She'd hurt her ribs, she
explained, but it wasn't injury
that I saw, not the temporary setback that's followed by healing,
the body's tenacious renewal;
I saw for the first time old age, decline, the inevitable easing
toward death. Once in the car, though,
settled behind the wheel, backing out and heading for the steady
traffic on the highway,
she was herself again, my mother as I'd always known her: getting
older, to be sure,
in her seventies now, but still vital, still the athlete she'd been all
her life; jogging, golf,
tennis especially - the sport she'd excelled at, racking up
championships - they were as natural
to her as breath. All my life she'd been the definition of grace, of a
serenely unshakable confidence
in the body; impossible ever to imagine her helpless, frail, confined
to walker or wheelchair.
She was humming now as she drove, that momentary fumbling
erased, no trace of it.
No acknowledgment of pain, of the ache she must be feeling
in her side. My mother
refused all that, she would go on refusing it. She peered ahead at
the busy road, the past all but forgotten -
somewhere behind us griefs, losses, terrible knowledge, but ahead
of us a day we'd spend together,
we were going there now, while there was still time, non of it was
going to be wasted.

Horácio – Ode 1/11

Não busques (é tabu!) saber que fim, Leucónoe,
os deuses nos reservam. Põe de lado o horoscopo
da babilônia e aceita: o que há de ser, será,
quer nos dê Jove mais invernos, quer só este
que em rochas quebra o mar Tirreno. Vive, bebe
teu vinho e talha, ao curto prazo, anseios longos.
Enquanto eu falo, o tempo evade-se invejoso.
Apanha o dia e não confies no amanhã.

Trad.: Nelson Ascher

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 24/05/2020

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

1/11

Tu ne quaesieris (scire nefas) quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoe, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quidquid erit, pati!
Seu pluris hiemes seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrrhenum, sapias, uina liques et spatio breui
spem longam reseces. Dum loquimur, fugerit inuida
aetas: carpe diem quam minimum credula postero.

Kay Ryan – As coisas não deveriam ser tão difíceis

Uma vida deveria deixar
rastros profundos:
sulcos onde ela
foi e voltou
para pegar a correspondência
ou mover a mangueira
pelo jardim;
onde ela costumava
ficar em frente à pia,
um lugar desgastado;
sob sua mão,
os puxadores de porcelana
gastos até virarem
pastilhas brancas;
o interruptor quase apagado
que ela costumava
procurar no escuro.
Suas coisas deveriam
guardar suas marcas.
A passagem
de uma vida deveria ser visível,
causar abrasão.
E quando a vida terminasse,
um certo espaço —
por menor que fosse —
deveria ficar marcado
pelo grandioso e
devastador desfile.
As coisas não deveriam
ser tão difíceis.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Things Shouldn’t Be So Hard

A life should leave
deep tracks:
ruts where she
went out and back
to get the mail
or move the hose
around the yard;
where she used to
stand before the sink,
a worn-out place;
beneath her hand
the china knobs
rubbed down to
white pastilles;
the switch she
used to feel for
in the dark
almost erased.
Her things should
keep her marks.
The passage
of a life should show;
it should abrade.
And when life stops,
a certain space—
however small —
should be left scarred
by the grand and
damaging parade.
Things shouldn’t
be so hard.

Anne Alexander Bingham – É suficiente

Saber que os átomos
do meu corpo
perdurarão

pensar neles subindo
pelas raízes de um grande carvalho
para viver em
folhas, ramos, galhos
talvez para nutrir a
peônia carmesim
a íris anil
o brócolis

ou repousar na água
congelar e derreter
com as estações

alguns átomos podem se tornar um
pouco de penugem na asa
de um chapim
sentir a brisa
conhecer o suporte do ar

e alguns podem
flutuar para o espaço
poeira estelar retornando

para o lugar de onde veio
é suficiente saber que
enquanto houver um universo
eu sou parte dele.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

It Is Enough

To know that the atoms
of my body
will remain

to think of them rising
through the roots of a great oak
to live in
leaves, branches, twigs
perhaps to feed the
crimson peony
the blue iris
the broccoli

or rest on water
freeze and thaw
with the seasons

some atoms might become a
bit of fluff on the wing
of a chickadee
to feel the breeze
know the support of air

and some might drift
up and up into space
star dust returning from

whence it came
it is enough to know that
as long as there is a universe
I am a part of it.

José Infante – Não sei se é um sonho

Aparece, sempre aparece, quando menos o esperas.
Imaginas que morreste e, no entanto, quem se levanta
todos os dias em teu próprio leito, depois das insônias
e dos pesadelos, és tu mesmo, que por alguma razão
que não entendes continuas vivo, como em um filme
de Coixet1, minha vida sem mim, ou a vida secreta
das palavras, que são agora a única coisa que tens.
Sempre aparece, aquele fútil fantasma que atende
pelo teu nome, e se comporta com certa naturalidade
e independência. Outros diriam sensatez. Tu
sabes, somente tu, que é falsa essa vida que o personagem finge,
que vai e que vem e que às vezes não atende ao telefone
dos amigos, se é que algum liga, para que pensem
que morreu. A verdade é conhecida apenas por ti, mas o outro,
que não és tu, mas pode parecer, tem vida própria,
às vezes se comporta como tu antes de morrer,
e pode até ser brilhante em uma conversa
banal ou talvez em um jantar formal.
Tu o conheces porque é tu mesmo
quando ainda estavas vivo e circulavas pela cidade,
tomavas o metrô, ias ao cinema,
escrevias em fotologs e comentavas, sempre com acidez,
tua vida e a vida do mundo dos outros. Agora eles
creem que ainda estás vivo, mas tu sabes
a verdade: já faz muito tempo
que morreste, embora
alguém com o mesmo corpo que o teu ainda habite
tua casa, mal se alimente e espere, sempre espere
que a dignidade o impeça de morrer de velhice,
sem memória, como um brinquedo quebrado e inútil
que o tempo pisoteia e abandona.

Trad.: Nelson Santander

  1. Isabel Coixet é uma renomada diretora e roteirista espanhola, conhecida por seu estilo intimista e introspectivo. Seus filmes frequentemente exploram temas de solidão, identidade e comunicação, o que se alinha com a reflexão profunda e melancólica do eu lírico no poema. ↩︎

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

No sé si será un sueno

Acude, siempre acude, cuando menos lo esperas.
Imaginas que has muerto y sin embargo el que se levanta
cada día en tu propio lecho, después de los insomnios
y de las pesadillas, eres tú mismo, que por alguna razón
que no entiendes sigues vivo, como en una película
de la Coixet, mi vida sin mí, o la vida secreta
de las palabras, que son ahora lo único que tienes.
Siempre acude ese vano fantasma que atiende
por tu nombre y se comporta con cierta naturalidad
e independencia. Otros dirían cordura. Tú
sabes, solo tú, que es mentira esa vida que finge el personaje,
que va y que viene y que a veces no coge el teléfono
a los amigos, si es que alguno llama, para que crean
que ha muerto. La verdad solo la sabes tú, pero el otro,
que no eres tú, pero puede parecerlo, tiene vida propia,
a veces se comporta como tú antes de morir,
y puede ser hasta brillante en una conversación
banal o acaso en una cena de compromiso.
Tú lo conoces porque eres tú mismo
cuando aún estabas vivo y paseabas por la ciudad,
tomabas el metro, acudías a las salas de cine,
escribías en fotologs y comentabas, siempre con acidez,
tu vida y la vida del mundo de los otros. Ahora ellos
creen que aún sigues vivo, pero tú sabes
la verdad: hace ya mucho tiempo
que te has muerto, a pesar que todavía
alguien con tu mismo cuerpo sigue habitando
tu casa, apenas se alimenta y espera, siempre espera
que la dignidad le impida morir de viejo,
sin memoria? como un juguete roto e inservible
que el tiempo pisotea y abandona.

Joan Margarit – A senha

Sozinho entre dois infernos
— o da liberdade e o da idade —,
já não consigo abrir nosso cofre.
A porta com seus dígitos giratórios
é a roleta na qual já não aposto.
Desde o primeiro suspiro conservei
a blindada clareza
daquela rosa.
Agora, nu em nosso quarto,
a janela aberta e a luz apagada,
ouço o rumor urbano da noite,
enquanto a leve brisa me acaricia.
Aquela garota e aquele garoto
permanecem tão perto, estão dentro de mim:
um cheiro familiar, uma canção,
podem fazê-los voltar, mas se tento lhes falar,
já desapareceram. Vivemos à mercê
do que ignorávamos sobre nós mesmos.
É como se, entre todos os direitos
que a vida pudesse ter,
houvesse um misterioso direito à ignorância.
O ninho metálico custodia nossos sonhos.
Estou chorando: a senha
era a data de tua morte.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 06/06/2020

La combinación

Sola entre dos infiernos
—el de la libertad y el de la edad—,
ya no puedo abrir nuestra caja fuerte.
La puerta con sus cifras giratorias
es la ruleta en la que ya no apuesto.
Desde el primer suspiro conservé,
la acorazada claridad
de aquella rosa.
Ahora, desnuda en nuestro dormitorio,
con la ventana abierta y la luz apagada,
oigo el rumor urbano de la noche
mientras la leve brisa me acaricia.
Aquella chica y aquel chico
permanecen muy cerca, están dentro de mí:
un olor familiar, una canción,
pueden hacer que vuelvan, pero si quiero hablarles
ya han desaparecido. Vivimos a merced
de lo que de nosotros ignorábamos
Es como si entre todos los derechos
que tuviese la vida,
hubiera un misterioso derecho a no saber.
El metálico nido custodia nuestros sueños.
Estoy llorando: la combinación
era la fecha de tu muerte.

Federico Garcia Lorca – Pranto por Ignacio Sánchez Mejías

1. A captura e a morte

Às cinco da tarde.
Eram as cinco em ponto dessa tarde

Um menino trouxe o lençol branco
às cinco da tarde.

Uma alcofa de cal já prevenida
às cinco da tarde.
O mais era só morte e apenas morte
às cinco da tarde.

O vento arrebatou os algodões
às cinco da tarde.
E o óxido semeou cristal e níquel
às cinco da tarde.

Já luta com a pomba o leopardo
às cinco da tarde.
E uma coxa com uma haste desolada
às cinco da tarde.

Começaram os dobres do bordão
às cinco da tarde.
Sinos e sinos de arsênico e o fumo
às cinco da tarde.

Há nas esquinas grupos de silêncio
às cinco da tarde.
E só o touro coração acima!
às cinco da tarde.

Quando o suor de neve foi chegando
às cinco da tarde.
Quando a praça de iodo se cobriu
às cinco da tarde.

A morte pôs seus ovos na ferida
às cinco da tarde.

Às cinco da tarde.
Às cinco em ponto dessa tarde.
Ataúde com rodas é a cama
às cinco da tarde.

Ossos e flautas soam-lhe no ouvido
às cinco da tarde.

O touro já mugia por sua fronte
às cinco da tarde.

O quarto se irisava de agonia
às cinco da tarde.

Ao longe uma gangrena já vem vindo
às cinco da tarde.

Trompa de lírio pelas verdes virilhas
às cinco da tarde.

As feridas ardiam como sóis
às cinco da tarde.

E as gentes rebentavam as janelas
às cinco da tarde.

Às cinco da tarde.

Ai que terríveis cinco eram da tarde!
Eram as cinco em todos os relógios!

Eram as cinco em sombra dessa tarde!

2. O sangue derramado

Que eu não quero vê-lo!
Digam à lua que venha
que não quero ver o sangue
de Inácio marcando a areia.

Que eu não quero vê-lo!
A lua de par em par.
Cavalo de nuvens quietas
e a praça parda do sonho
com salgueiros nas barreiras.
Que eu não quero vê-lo!

Que o recordar se me queima.
Avisai todo o jasmim
com sua brancura pequena!
Que eu não quero vê-lo!

A vaca do velho mundo
passava sua triste língua
sobre um focinho de sangues
derramados pela arena,
e os touros de Guisando,
quase morte e quase pedra,
mugiram como dois séculos
fartos de pisar a terra.

Não.
Que eu não quero vê-lo!
Pelos degraus sobe Inácio
com sua morte toda às costas.

Ele buscava o amanhecer,
e o amanhecer não era.
Busca seu perfil seguro,
e o sonho o desorienta.

Busca seu formoso corpo
e encontra seu sangue aberto.
Ai não me digam que o veja!

Não quero sentir o jorro
cada vez, com menos força;
esse jorrar que ilumina
o palanque e se desaba
no veludilho e no couro
da multidão tão sedenta.

Quem me grita que me assome?!
Ai não me digam que o veja!
Não se cerraram seus olhos
quando viu os cornos cerca,
porém as mães mais terríveis
levantaram a cabeça.

E pelas ganadarias,
houve um ar de voz secreta
gritando a touros celestes,
maiorais de névoa pálida.

Não houve em Sevilha príncipe
que lhe possa comparar-se,
nem espada como era a sua,
nem coração de verdade.

Como um rio de leões
sua força maravilhosa,
e como um torso de mármore
a desenhada prudência.

Um ar de Roma andaluza
a cabeça lhe dourava
onde o seu riso era um nardo
de sal e de inteligência.

Que grão toureiro na praça!
Que bom serrano na serra!
Que brando era com as espigas!
Que duro com as esporas!
Que terno com o orvalho!
Que deslumbrante na feira!
Que tremendo com as últimas
bandarilhas todas treva!

Porém já dorme sem fim.
Já os musgos maila erva
abrem com dedos seguros
a flor da sua caveira.

E já seu sangue por aí vem cantando:
cantando por marinhas e por prados,
e resvalando pelos cornos hirtos,
vacilando sem alma pela névoa
tropeçando com milhares de patas
como uma longa, obscura e triste língua,
para formar um charco de agonia
junto ao Guadalquivir de altas estrelas.

Ó branco muro de Espanha!
Ó negro touro de pena!
Ó sangue duro de Inácio!
Ó rouxinol de suas veias!

Não.
Que não quero vê-lo!
Que não há cálix que o contenha,
que não há andorinhas que o bebam,
não há de orvalho luz que o esfrie,
nem canto nem dilúvio de açucenas,
não há cristal que o cubra de prata.

Não.
Eu não quero vê-lo!

3. Corpo presente

A pedra é uma fronte adonde os sonhos gemem
sem ter as águas curvas nem ciprestes gelados.

A pedra são uns ombros para levar o tempo
com árvores de lágrimas e faixas e planetas.
Já vi chuvas cinzentas correndo para as ondas,
levantando os seus ternos braços tão esburacados,
para não ser caçadas pela pedra estendida
que seus membros desata sem se empapar de sangue.

Porque a pedra recolhe sementes e nublados,
esqueletos de pássaros e lobos de penumbra;
porém não dá nem sons, nem cristais, nem fogo,
mas praças e mais praças e outras praças sem muros.

E já está sobre a pedra Inácio o bem-nascido.
Já se acabou. E agora? Contemplai sua imagem:
a morte o recobriu de pálidos enxofres
e pôs-lhe uma cabeça de obscuro minotauro.

Já se acabou. A chuva penetra por sua boca.
O ar como um louco deixa o peito que se afunda,
e o Amor, empapado em lágrimas de neve,
aquece-se nos cumes das ganadarias.

Que dizem? Um silêncio com fedores repousa.
Estamos com um corpo presente que se esfuma,
com uma forma clara que teve rouxinóis
e vemo-la afastar-se em abismos sem fundo.

Quem o sudário enruga? É falso quanto diz!
Ninguém por aqui canta, nem pelos cantos chora,
nem co’as esporas pica, nem a serpente espanta,
aqui não quero mais do que os redondos olhos
para ver esse corpo sem possível descanso.

Eu quero ver aqui os homens de voz dura.
Os que cavalos domam e dominam os rios:
os homens a quem tine o esqueleto e cantam
com uma boca cheia de sol e pedregais.

Aqui os quero eu ver. Diante desta pedra.
Diante deste corpo com as rédeas quebradas.
Eu quero que me ensinem onde está a saída
para este capitão atado pela morte.

Eu quero que me ensinem um pranto como um rio
que tenha doces névoas e profundas margens,
para levar o corpo de Inácio e que se perca
sem escutar o duplo resfolegar dos touros.

Que se perca na praça redonda dessa lua
que finge criança triste ser uma rês imóvel;
que se perca na noite sem cânticos dos peixes
e na maldade branca do fumo congelado.

Não quero que lhe tapem o seu rosto com lenços
para que se acostume à morte que o arrasta.
Vai-te, Inácio! Não sintas o ardente bramido.
Dorme, voa, repousa: também se morre o mar.

4. Alma ausente

Não te conhecem touro nem figueira,
nem cavalo ou formiga da tua casa.
Nem o menino te conhece, ou a tarde,
porque tu estás morto para sempre.

Não te conhecem os lombos da pedra,
nem o plaino negro aonde te destroças.
Não te conhece uma saudade muda
porque tu estás morto para sempre.

Há-de vir o Outono com seus búzios,
uva de névoa e montes agrupados,
mas ninguém quer fitar-te nos teus olhos
porque tu estás morto para sempre.

Porque tu estás morto para sempre,
como todos os mortos pela Terra,
como todos os mortos que se olvidam
em um montão de cães que se apagaram.

Ninguém já te conhece. Não. Mas eu te canto.

Eu canto antes de mais o teu perfil e graça.
A madureza insigne do teu conhecimento.
Teu apetite de morte e o gosto de sua boca.
A tristeza que teve a tua valente alegria.

Tardará muito tempo em nascer, se é que nasce,
um andaluz tão claro, tão rico de aventura.
e recordo uma brisa triste nos olivais.

Trad.: Jorge de Sena

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 26/05/2020

Llanto por Ignacio Sánchez Mejías

1. La cogida y la muerte

A las cinco de la tarde.
Eran las cinco en punto de la tarde.
Un niño trajo la blanca sábana
a las cinco de la tarde.
Una espuerta de cal ya prevenida
a las cinco de la tarde.
Lo demás era muerte y sólo muerte
a las cinco de la tarde.

El viento se llevó los algodones
a las cinco de la tarde.
Y el óxido sembró cristal y níquel
a las cinco de la tarde.
Ya luchan la paloma y el leopardo
a las cinco de la tarde.
Y un muslo con un asta desolada
a las cinco de la tarde.
Comenzaron los sones del bordón
a las cinco de la tarde.
Las campanas de arsénico y el humo
a las cinco de la tarde.
En las esquinas grupos de silencio
a las cinco de la tarde.
¡Y el toro, solo corazón arriba!
a las cinco de la tarde.
Cuando el sudor de nieve fue llegando
a las cinco de la tarde,
cuando la plaza se cubrió de yodo
a las cinco de la tarde,
la muerte puso huevos en la herida
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
A las cinco en punto de la tarde.

Un ataúd con ruedas es la cama
a las cinco de la tarde.
Huesos y flautas suenan en su oído
a las cinco de la tarde.
El toro ya mugía por su frente
a las cinco de la tarde.
El cuarto se irisaba de agonía
a las cinco de la tarde.
A lo lejos ya viene la gangrena
a las cinco de la tarde.
Trompa de lirio por las verdes ingles
a las cinco de la tarde.
Las heridas quemaban como soles
a las cinco de la tarde,
y el gentío rompía las ventanas
a las cinco de la tarde.
A las cinco de la tarde.
¡Ay qué terribles cinco de la tarde!
¡Eran las cinco en todos los relojes
¡Eran las cinco en sombra de la tarde!

2. La sangre derramada

¡Que no quiero verla!

Dile a la luna que venga,
que no quiero ver la sangre
de Ignacio sobre la arena.

¡Que no quiero verla!

La luna de par en par,
caballo de nubes quietas,
y la plaza gris del sueño
con sauces en las barreras

¡Que no quiero verla!

Que mi recuerdo se quema.
¡Avisad a los jazmines
con su blancura pequeña!

¡Que no quiero verla!

La vaca del viejo mundo
pasaba su triste lengua
sobre un hocico de sangres
derramadas en la arena,
y los toros de Guisando,
casi muerte y casi piedra,
mugieron como dos siglos
hartos de pisar la tierra.

No.

¡Que no quiero verla!

Por las gradas sube Ignacio
con toda su muerte a cuestas.
Buscaba el amanecer,
y el amanecer no era.
Busca su perfil seguro,
y el sueño lo desorienta.
Buscaba su hermoso cuerpo
y encontró su sangre abierta.
¡No me digáis que la vea!
No quiero sentir el chorro
cada vez con menos fuerza;
ese chorro que ilumina
los tendidos y se vuelca
sobre la pana y el cuero
de muchedumbre sedienta.
¡Quién me grita que me asome!
¡No me digáis que la vea!
No se cerraron sus ojos
cuando vio los cuernos cerca,
pero las madres terribles
levantaron la cabeza.
Y a través de las ganaderías,
hubo un aire de voces secretas
que gritaban a toros celestes,
mayorales de pálida niebla.
No hubo príncipe en Sevilla
que comparársele pueda,
ni espada como su espada,
ni corazón tan de veras.
Como un río de leones
su maravillosa fuerza,
y como un torso de mármol
su dibujada prudencia.
Aire de Roma andaluza
le doraba la cabeza
donde su risa era un nardo
de sal y de inteligencia.
¡Qué gran torero en la plaza!
¡Qué gran serrano en la sierra!
¡Qué blando con las espigas!
¡Qué duro con las espuelas!
¡Qué tierno con el rocío!
¡Qué deslumbrante en la feria!
¡Qué tremendo con las últimas
banderillas de tiniebla!
Pero ya duerme sin fin.
Ya los musgos y la hierba
abren con dedos seguros
la flor de su calavera.
Y su sangre ya viene cantando:
cantando por marismas y praderas,
resbalando por cuernos ateridos
vacilando sin alma por la niebla,
tropezando con miles de pezuñas
como una larga, oscura, triste lengua,
para formar un charco de agonía
junto al Guadalquivir de las estrellas.
¡Oh blanco muro de España!
¡Oh negro toro de pena!
¡Oh sangre dura de Ignacio!
¡Oh ruiseñor de sus venas!
No.

¡Que no quiero verla!

Que no hay cáliz que la contenga,
que no hay golondrinas que se la beban,
no hay escarcha de luz que la enfríe,
no hay canto ni diluvio de azucenas,
no hay cristal que la cubra de plata.
No.

¡Yo no quiero verla!

3. Cuerpo presente

La piedra es una frente donde los sueños gimen
sin tener agua curva ni cipreses helados.
La piedra es una espalda para llevar al tiempo
con árboles de lágrimas y cintas y planetas.

Yo he visto lluvias grises correr hacia las olas
levantando sus tiernos brazos acribillados,
para no ser cazadas por la piedra tendida
que desata sus miembros sin empapar la sangre.

Porque la piedra coge simientes y nublados,
esqueletos de alondras y lobos de penumbra;
pero no da sonidos, ni cristales, ni fuego,
sino plazas y plazas y otras plazas sin muros.

Ya está sobre la piedra Ignacio el bien nacido.
Ya se acabó; ¿qué pasa? Contemplad su figura:
la muerte le ha cubierto de pálidos azufres
y le ha puesto cabeza de oscuro minotauro.

Ya se acabó. La lluvia penetra por su boca.
El aire como loco deja su pecho hundido,
y el Amor, empapado con lágrimas de nieve
se calienta en la cumbre de las ganaderías.

¿Qué dicen? Un silencio con hedores reposa.
Estamos con un cuerpo presente que se esfuma,
con una forma clara que tuvo ruiseñores
y la vemos llenarse de agujeros sin fondo.

¿Quién arruga el sudario? ¡No es verdad lo que dice!
Aquí no canta nadie, ni llora en el rincón,
ni pica las espuelas, ni espanta la serpiente:
aquí no quiero más que los ojos redondos
para ver ese cuerpo sin posible descanso.

Yo quiero ver aquí los hombres de voz dura.
Los que doman caballos y dominan los ríos;
los hombres que les suena el esqueleto y cantan
con una boca llena de sol y pedernales.

Aquí quiero yo verlos. Delante de la piedra.
Delante de este cuerpo con las riendas quebradas.
Yo quiero que me enseñen dónde está la salida
para este capitán atado por la muerte.

Yo quiero que me enseñen un llanto como un río
que tenga dulces nieblas y profundas orillas,
para llevar el cuerpo de Ignacio y que se pierda
sin escuchar el doble resuello de los toros.

Que se pierda en la plaza redonda de la luna
que finge cuando niña doliente res inmóvil;
que se pierda en la noche sin canto de los peces
y en la maleza blanca del humo congelado.

No quiero que le tapen la cara con pañuelos
para que se acostumbre con la muerte que lleva.
Vete, Ignacio: No sientas el caliente bramido.
Duerme, vuela, reposa: ¡También se muere el mar!

4. Alma ausente

No te conoce el toro ni la higuera,
ni caballos ni hormigas de tu casa.
No te conoce el niño ni la tarde
porque te has muerto para siempre.

No te conoce el lomo de la piedra,
ni el raso negro donde te destrozas.
No te conoce tu recuerdo mudo
porque te has muerto para siempre.

El otoño vendrá con caracolas,
uva de niebla y monjes agrupados,
pero nadie querrá mirar tus ojos
porque te has muerto para siempre.

Porque te has muerto para siempre,
como todos los muertos de la Tierra,
como todos los muertos que se olvidan
en un montón de perros apagados.

No te conoce nadie. No. Pero yo te canto.
Yo canto para luego tu perfil y tu gracia.
La madurez insigne de tu conocimiento.
Tu apetencia de muerte y el gusto de tu boca.
La tristeza que tuvo tu valiente alegría.
Tardará mucho tiempo en nacer, si es que nace,
un andaluz tan claro, tan rico de aventura.
Yo canto su elegancia con palabras que gimen
y recuerdo una brisa triste por los olivos.

John Ashbery – Medo da morte

Que há comigo agora,
é assim que eu fiquei?
Não há estado livre dos limites
do antes e depois? Hoje a janela está aberta

e o ar jorra para dentro com notas de piano
nas suas saias, como a dizer, “Olha, John,
eu trouxe isso e aquilo” – ou seja,
alguns Beethovens, uns Brahms,

umas notas escolhidas de Poulenc… Sim,
está voltando a ficar livre, o ar, tem que seguir
voltando, pois é só para isso que serve.
Quero ficar com ele por causa do medo

que me impede de subir certos degraus,
bater em certas portas, medo de envelhecer
sozinho, e de não encontrar ninguém no fim da tarde
do caminho, salvo outro eu mesmo

cumprimentado bruscamente: “Você andou por aí
mas estamos juntos novamente, que é o que conta.”
Ar em meu caminho, você poderia encurtar isso,
mas a brisa cessou e o silêncio é a última palavra.

Trad.: Nelson Ascher

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 25/05/2020

Fear of Death

What is it now with me
And is it as I have become?
Is there no state free from the boundry lines
Of before and after? The window is open today

And the air pours in with piano notes
In its skirts, as though to say, “Look, John,
I’ve brought these and these” – that is,
A few Beethovens, some Brahmses,

A few choice Poulenc notes… Yes,
It is being free again, the air, it has to keep coming back
Because that’s all it’s good for.
I want to stay with it out of fear

That keeps me from walking up certain steps,
Knocking at certain doors, fear of growing old
Alone, and of finding no one at the evening end
Of the path except another myself

Nodding a curt greeting: “Well, you’ve been awhile
But now we’re back together, which is what counts.”
Air in My path, you could shorten this,
But the breeze has dropped, and silence is the last word.

Linda Pastan – Às vezes

Às vezes

da periferia
da família
onde me sento observando
meus filhos e
os filhos dos meus filhos
em toda sua brilhante
cacofonia,

pareço deixar
meu corpo –
efígie rechonchuda
de uma mulher, ereta
em uma cadeira –
e, enquanto flutuo
voluntariamente para longe

em direção ao frio
silêncio do meu próprio futuro,
suas vozes se separam
em sílabas
de estranhos, para quem
com esta mão real
eu aceno um adeus.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Sometimes

from the periphery
of the family
where I sit watching
my children and
my children’s children
in all their bright
cacophony,

I seem to leave
my body–
plump effigy
of a woman, upright
on a chair–
and as I float
willingly away

toward the chill
silence of my own future,
their voices break
into the syllables
of strangers, to whom
with this real hand
I wave goodbye.