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Ernesto Pérez Vallejo – A garota de preto

Hoje eu podia ter-me apaixonado por ti, apesar de tuas botas sem salto, podia até ter-te beijado assim, com o mar ao fundo, os beijos aos domingos têm um sabor distinto, mais intenso. Podia ter-te levado pelas mãos até a praia e ter-te despido docemente enquanto me ajoelhava na terra e perfumava o meu nariz.…
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Jenny Joseph – Advertência

Quando estiver velha, usarei roxoCom um chapéu vermelho que não combina e que não me cai bem.E torrarei minha aposentadoria em conhaques e luvas de verãoe sandálias de cetim, e direi que não temos dinheiro para manteiga.Sentarei na calçada quando me cansarE provarei amostras nas lojas e tocarei as campainhasE correrei minha bengala pelas grades…
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Hugo Vera Miranda – Os cavaleiros do apocalipse

Como defender-se dos furtivos invernos que aninham as moradas obscuras do desejo? Como voltar por um instante ao tempo feroz da infância onde um velho com cara de sapo solta pombas enquanto o trem passa? Como decifrar a carícia longínqua que agora atormenta a insônia? Vamos ficando sozinhos, cercados por demônios dançarinos e um tiro…
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Joan Margarit – Noite escura na rua Balmes

Cumpridas as ameaças e temores — hoje já todas as ruas levam à velhice —, passo defronte à clínica em que tu nasceste, vinte e seis anos atrás, em uma noite de corredores feridos pela luz. Aqui foi a tua chegada, pequena e indefesa, à praia feliz do teu sorriso, à dificuldade da palavra, às…
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Marianne Moore – Uma água-viva

Visível, invisível, uma flutuante sedução que uma ametista cor de âmbar habita, se aproximam seus tentáculos, abrem e fecham; você pretendia pega-los e eles tremem; você abandona este intento. Trad.: Nelson Santander A Jelly-Fish Visible, invisible, a fluctuating charm an amber-tinctured amethyst inhabits it, your arm approaches and it opens and it closes; you had…
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Antonia Pozzi – Erros

Cai graciosamente a neve sobre os cestos das floristas: embranquece os junquilhos e as violetas, as delicadas frésias vindas dos países do sol. Ao vê-las pensamos nos muitos destinos errados que sofrem pelos caminhos da terra e um furor nostálgico investe pelos caminhos de ouro da alma aonde não chega a neve. Trad.: Inês Dias…
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Rodrigo da Silva – Chegará um dia em que o seu coração parará de bater

Chegará um dia em que o seu coração parará de bater. A sua pupila dilatará. A sua pele ficará pálida e a sua temperatura corporal esfriará. Você ficará inteiramente esquálido; e então roxo. O seu sangue se tornará mais ácido com o acúmulo de dióxido de carbono. E as suas células começarão a se dividir,…
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Eloy Sánchez Rosillo – O segredo

Se por acaso a alegria se assuste e se apresse em me deixar, eu a escondo das pessoas e não digo a ninguém que veio à minha casa depois de muito tempo. Falo com ela, e com frequência vê-la de novo tão próxima me faz chorar, e rio. Depois a deixo sozinha e vou para…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Naquele agora

As chances de encontrar-te novamente eram remotas. Uma em um bilhão. E havendo infinitos lugares dispersos pelos números de um cálculo improvável, quem imaginaria que eu te veria naquela cantina, transformando-te na luz daqueles tempos felizes, ou isso quiseram crer, anos atrás, aqueles dois que fomos. Estavas ali, de repente e sem aviso prévio, com…
