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Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazioE nem tudo escombro ou descongelação.Por cima deste ombro levo o céu,e por cima deste outro, um vasto rio de entusiasmo. E meu corpo no meio,árvore luzente gritando do chão.E, entre raízes mortais, sofreguidão,meu coração desperto, raio sombrio. Somente o anseio me vence. Mas avançosem duvidar, sobre…
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Mary Oliver – O quarto signo do zodíaco

1. Porque eu deveria ter ficado surpresa? Caçadores percorrem a floresta sem um som. O caçador, armado com seu rifle, a raposa com seus pés de seda, a serpente em seu império de músculos — todos se movem em silêncio, famintos, cuidadosos, atentos. Exatamente como o câncer entrou na floresta do meu corpo, sem um…
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Robert Hayden – Aqueles domingos de inverno

Também aos domingos meu pai acordava cedo e vestia suas roupas no frio azul escuro, depois, com as mãos rachadas doloridas do trabalho no tempo durante a semana, ele fazia os fogos empilhados arderem. Ninguém nunca o agradeceu. Eu acordava e ouvia o frio se partindo em fragmentos. Quando as salas ficavam aquecidas, ele me…
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Marisa de la Peña – O tempo que nos resta

“Somos o tempo que nos resta” J. M. Caballero Bonald. É isso o que somos: o tempo que nos resta, o último batimento interrompido, a palavra não dita, o deserto cruzado, e o caminho sem nome que deixamos para trás. Somos o abandono, a intempérie, as luzes apagadas, e as portas, fechadas para sempre, ao…
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Ricardo Aleixo – Geral

O jo go é tão sujo e você (entre bis onho e biz arro) torce justo para o juiz?
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Rubén Darío – Quando vieres a amar

Quando vieres a amar, se não houveres amado, saberás que neste mundo é o sofrimento maior e mais profundo ser a um só tempo feliz e malfadado. Corolário: o amor é um algar de luz e sombra, poesia e prosa, no qual se faz a coisa mais custosa que é, a um só tempo, rir…
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Juan Vicente Piqueras – Ristorante dal 1882–

Ristorante dal 1882–leio no cardápio e me ponho a pensarque numa noite, há mais de um século,numa noite igual a esta,houve um grupo de amigos que aqui jantou,como nós fazemos agora,e riram, conversaram, passaram o sal,mais ou menos felizes, fugazes, encantadosde estarem juntos rindocomo nós fazemos agora,e que nenhum deles vive maise agora somos nós,os…
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Sophia de Mello Breyner Andresen – O primeiro homem

Era como uma árvore da terra nascida Confundindo com o ardor da terra a sua vida, E no vasto cantar das marés cheias Continuava o bater das suas veias. Criados à medida dos elementos A alma e os sentimentos Em si não eram tormentos Mas graves, grandes, vagos, Lagos Refletindo o mundo, E o eco…
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Alfonso Brezmes – Notas marginais

Às vezes, voltamos às páginasonde outrora fomos felizes. É tão fácil quanto deixá-las correrpara trás por entre os dedos,voltar às páginas marcadas,àquelas breves notas com as quaisquisemos indicar a outro leitorque ali deveria se deter. Basta examina-las para verque já não são as mesmas:algo mudou neste breveintervalo em que nos ausentamos. Voltar é outra forma…