T. S. Eliot – A Terra Desolada

    A TERRA DESOLADA
       1922

    Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse
    oculis meis vidi in ampulla pendere,
    et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις;
    respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.*

       A Ezra Paound
       Il miglior fabbro

I. O ENTERRO DOS MORTOS

 Abril é o mais cruel dos meses, germinando
Lilases da terra morta, misturando
Memória e desejo, avivando
Agônicas raízes com a chuva da primavera.
O inverno nos agasalhava, envolvendo
A terra em neve deslembrada, nutrindo
Com secos tubérculos o que ainda restava de vida.
O verão nos surpreendeu, caindo do Starnbergersee
Com um aguaceiro. Paramos junto aos pórticos
E caminhamos ao sol pelas aleias do Hofgarten,
Tomamos café, e por uma hora conversamos.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
Quando éramos crianças, na casa do arquiduque,
Meu primo, ele convidou-me a passear de trenó.
E eu tive medo. Disse-me ele, Maria,
Maria, agarra-te firme. E deslizamos encosta abaixo.
Nas montanhas, lá, onde te sentes livre.
Leio muito à noite, e viajo para o sul durante o inverno.

 Que raízes são essas que se arraigam, que ramos se esgalham
Nessa imundície pedregosa? Filho do homem,
Não podes dizer, ou sequer estimas, porque apenas conheces
Um feixe de imagens fraturadas, batidas pelo sol,
E as árvores mortas já não mais te abrigam, nem te consola o
 canto dos grilos,
E nenhum rumor de água a latejar na pedra seca. Apenas
Uma sombra medra sob esta rocha escarlate.
(Chega-te à sombra desta rocha escarlate),
E vou mostrar-te algo distinto
De tua sombra a caminhar atrás de ti quando amanhece
Ou de tua sombra vespertina se elevando ao teu encontro;
Vou revelar-te o que é o medo num punhado de pó.

                Frisch weht der Wind
                Der Heimat zu
                Mein Irisch Kind,
                Wo weilest du?

“Faz agora um ano que me deste os primeiros jacintos;
Chamavam-me a menina dos jacintos.”
– Mas ao voltarmos, tarde, do Jardim dos Jacintos,
Teus braços cheios de jacintos e teus cabelos úmidos, não pude
Falar, e meus olhos se enevoaram, eu não sabia
Se estava vivo ou morto, e tudo ignorava
Ao inquirir o coração da luz, o silêncio.
Oed’ und leer das Meer.

 Madame Sosostris, célebre vidente,
Contraiu incurável resfriado; ainda assim,
É conhecida como a mulher mais sábia da Europa,
Com seu trêfego baralho. Esta aqui, disse ela,
É tua carta, a do Marinheiro Fenício Afogado.
(Estas são as pérolas que foram seus olhos. Olha!)
Eis aqui Beladona, a Madona dos Rochedos,
A Senhora das Situações.
Aqui está o homem dos três bastões, e aqui a Roda da Fortuna,
E aqui se vê o mercador zarolho, e esta carta,
Que em vês em branco, é algo que ele leva às costas,
Mas que me proibiram ver. Não encontro
O Enforcado. Receia morte por água.
Vejo multidões que perambulam em círculos.
Obrigada. Se encontrares, querido, a Senhora Equitone,
Diz-lhe que eu mesma lhe entrego o horóscopo:
Todo o cuidado é pouco nestes dias.

 Cidade irreal,
Sob a neblina castanha de uma aurora de inverno,
Fluía a multidão pela Ponte de Londres, eram tantos,
Jamais pensei que a morte a tantos destruíra.
Breves e entrecortados, os suspiros exalavam,
E cada homem fincava o olhar adiante de seus pés.
Galgava a colina e percorria a King William Street,
Até onde Saint Mary Woolnoth marcava as horas
Com um dobre surdo ao fim da nona badalada.
Vi alguém que conhecia, e o fiz parar aos gritos: “Stetson,
Tu que estiveste comigo nas galeras de Mylae!
O cadáver que plantaste no ano passado em teu jardim
Já começou a brotar? Dará flores este ano?
Ou foi a imprevista geada que o perturbou em seu leito?
Mantém o Cão à distância, esse amigo do homem,
Ou ele virá com suas unhas outra vez desenterrá-lo!
Tu! Hypocrite lecteur! – mon semblable -, mon frère!”

II. UMA PARTIDA DE XADREZ

 Sua cadeira, como um trono luzidio,
Fulgia sobre o mármore, onde o espelho
Suspenso em pedestais de uvas lavradas,
Entre as quais um dourado Cupido espreitava
(Um outro os olhos escondia sob as asas),
Duplicava as chamas que ardiam
No candelabro de sete braços, faiscando
Sobre a mesa um clarão a cujo encontro
Subia o resplendor de suas jóias
Em rica profusão do escrínio derramadas;
Em frascos de marfim e vidros coloridos
Moviam-se em surdina seus perfumes raros,
Sintéticos unguentos, líquidos e em pó,
Que perturbavam, confundiam e afogavam
Os sentidos em fragrâncias; instigados
Pelas brisas refrescantes da janela,
Os aromas ascendiam, excitando
As esguias chamas dos círios, espargiam
Seus eflúvios pelo teto ornamentado,
Agitando os arabescos que o bordavam.
Emoldurada em pedras multicores,
Uma enorme carcaça submarina,
Revestida de cobre, latejava
Revérberos de verde e alaranjado,
Em cuja triste luz nadava um delfim.
Acima da lareira era exibida,
Como se uma janela desse a ver
O cenário silvestre, a transfiguração
De Filomela, tão rudemente violada
Pelo bárbaro rei; embora o rouxinol
Todo deserto enchesse com sua voz
Inviolável, a princesa ainda gemia,
E o mundo ela persegue ainda,
“Tiu tiu” para ouvidos desprezíveis.
E outros murchos vestígios do tempo
Evocavam nas paredes o passado;
Expectantes vultos recurvos se inclinaram,
Silenciando o quarto enclausurado.
Passos arrastados na escada. À luz
Do fogo, sob a escova, seus cabelos
Eriçavam-se em agulhas flamejantes,
Inflamavam-se em palavras. Depois,
Mergulharam em selvagem quietude.

 ”Estou mal dos nervos esta noite. Sim, mal. Fica comigo.
Fala comigo. Por que nunca falas? Fala.
 Em que estás pensando? Em que pensas? Em quê?
Jamais sei o que pensas. Pensa.”

 Penso que estamos no beco dos ratos
Onde os mortos seus ossos deixaram.

 ”Que rumor é este?”
        O vento sob a porta.
“E que rumor é este agora? Que anda a fazer o vento lá fora?”
        Nada, como sempre. Nada.
                ”Não sabes”
Nada? Nada vês? Nada recordas
Nada?”
   Recordo-me
Daquelas pérolas que eram seus olhos.
“Estás ou não estás vivo? Nada existe em tua cabeça?”
                Mas
O O O O este Rag shakespeaéreo
– Tão elegante
Tão inteligente
“Que farei agora? Que farei?
Sairei às pressas, assim como estou, e andarei pelas ruas
Com meu cabelo em desalinho. Que faremos amanhã?
Que faremos jamais?
            O banho quente às dez.
E, caso chova, um carro às quatro. Fechado.
E jogaremos uma partida de xadrez, apertando olhos sem pálpebras
À espera de uma batida na porta.

 Quando o marido de Lil deu baixa, eu disse
– Não sabia então medir minhas palavras, eu mesmo disse a ela
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
Agora que Alberto está para voltar, vê se te cuida um pouco,
Ele vai querer saber o que fez você com o dinheiro que lhe deu
Para ajeitar esses seus dentes. Foi isso o que ele fez, eu estava lá.
Arranca logo todos eles, Lil, e põe na boca uma dentadura decente.
Foi isso o que ele disse, juro, já não aguento ver você assim.
Muito menos eu, disse, e pensa no pobre Alberto
Ele serviu o exército por quatro anos, quer agora se divertir
E se você não o fizer, outras o farão, disse.
Ah, é assim. Ou qualquer coisa de parecido, respondi.
Então saberei a quem agradecer, disse ela, fitando-me nos olhos.
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
Se não lhe agrada, faça o que lhe der na telha.
Outras podem escolher e passar logo a mão, se você não pode,
Mas se Alberto sumir, não foi por falta de aviso.
Você devia se envergonhar, disse, de parecer tão envelhecida.
(E ela só tem trinta e um anos.)
Não sei o que fazer, disse ela, com um ar desapontado,
Foram essas pílulas que tomei para abortar, disse.
(Ela já teve cinco filhos, e ao parir o mais novo, Jorge, quase
morreu.)
O farmacêutico disse que tudo correria bem, mas nunca mais fui a mesma.
Você é uma perfeita idiota, disse eu.
Bem, se Alberto não deixar você em paz, aí é que está.
Por que você se casou se não queria filhos?
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
Bem, naquele domingo em que Alberto voltou para casa, eles
  serviram um pernil assado
E me convidaram para jantar, a fim de que eu o saboreasse ainda quente.
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
DEPRESSA POR FAVOR É TARDE
Boanoite Bill. Boanoite Lou. Boanoite May. Boanoite.
Tchau. ‘Noite. ‘Noite.
Boa-noite, senhoras, boa-noite, gentis senhoras, boa-noite.
boa-noite.

III. O SERMÃO DO FOGO

 O dossel do rio se rompeu: os derradeiros dedos das folhas
Agarram-se às úmidas entranhas dos barrancos. Impressentido,
O vento cruza a terra estiolada. As ninfas já partiram.
Doce Tâmisa, corre suave, até que eu termine meu canto.
O rio não suporta garrafas vazias, restos de comida,
Lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarro
E outros testemunhos das noites de verão. As ninfas já partiram.
E seus amigos, os ociosos herdeiros de magnatas municipais,
Partiram sem deixar vestígios. Às margens do Léman sentei-me e chorei…
Doce Tâmisa, corre suave, até que eu termine meu canto,
Doce Tâmisa, corre suave, pois falarei baixinho e quase nada te direi.
Atrás de mim, porém, numa rajada fria, escuto
O chocalhar dos ossos, e um riso ressequido tangencia o rio.
Um rato rasteja macio entre as ervas daninhas,
Arrastando seu viscoso ventre sobre a margem
Enquanto eu pesco no canal sombrio
Durante um crepúsculo de inverno, rodeando os fundos do gasômetro,
A meditar sobre o naufrágio do rei meu irmão
E sobre a morte do rei meu pai que antes dele pereceu.
Brancos corpos nus sobre úmidos solos pegajosos
E ossos dispersos numa seca e estreita água-furtada,
Que apenas vez por outra os pés dos ratos embaralham.
Atrás de mim, porém, de quando em quando escuto
O rumor das buzinas e motores, que trarão na primavera
Sweeney de volta aos braços da Senhora Porter.
“Ó a Lua que luminosa brilha
Sobre a Senhora Porter e sua filha, ambas
A banhar os pés em borbulhante soda.’
Et O ces voix d’enfants chantant dans la coupole!

Tiuit tiuit tiuit
Tiu tiu tiu tiu tiu tiu
Tão rudemente violada.
Tereu

 Cidade irreal,
Sob a neblina castanha de um meio-dia de inverno,
O Senhor Eugênides, o mercador de Smyrna,
A barba por fazer e o bolso cheio de passas coríntias
CIF Londres, documentos à vista
Convidou-me em seu francês vulgar (demótico, eu diria)
A almoçar no Cannon Street Hotel
E a passar um fim de semana no Metropole.

 À hora violácea, quando os olhos e as costas
Renunciam às mesas de trabalho, quando a máquina humana aguarda
Como um trepidante táxi à espera,
Eu, Tirésias, embora cego, palpitando entre duas vidas,
Um velho com as tetas engelhadas, posso ver,
Nessa hora violácea, o momento crepuscular que luta
Rumo ao lar, e que do mar devolve o marinheiro à sua casa;
A datilógrafa que regressa ao lar à hora do chá,
Recolhe as sobras do café da manhã, acende
O fogareiro e improvisa seu jantar em latas de conserva.
Suspensas perigosamente na janela, suas combinações
Secam ao toque dos últimos raios solares.
Sobre o divã (à noite, sua cama) empilham-se
Meias, chinelos, batas e sutiãs.
Eu, Tirésias, um velho de tetas enrugadas,
Percebo a cena e antevejo o resto.
– Também eu aguardava o esperado convidado.
Chega então um rapaz com marcas de bexiga,
Um insignificante balconista de olhar atrevido,
Um desses tipos à-toa em que a arrogância assenta tão bem
Quanto a cartola na cabeça de um milionário de Bradford.
O momento é agora propício, ele calcula,
O jantar acabou, ela está exausta e entediada.
Ele procura então envolvê-la em suas carícias
Não de todo repelidas, mas tampouco desejadas.
Excitado e resoluto, ele afinal investe.
Mãos aventureiras não encontram resistência;
Sua vaidade dispensa resposta,
E faz da indiferença uma dádiva.
(E eu, Tirésias, que já sofrera tudo
O que fora ensinado nessa cama ou divã,
Eu que me sentei ao pé dos muros de Tebas
E caminhei por entre os mortos mais sepultos.)
Ao despedir-se, concede-lhe o rapaz um beijo protetor
E desce a escada escura, tateando o seu caminho…

 Ela volta e mira-se por um instante no espelho,
Quase esquecida do amante que se foi;
No cérebro vagueia-lhe um difuso pensamento:
“Bem, já terminou; e muito me alegra sabê-lo.”
Quando uma bela mulher se permite um pecadilho
E depois pelo seu quarto ainda passeia, sozinha,
Ela deita a mão aos cabelos em automático gesto
E põe um disco na vitrola.

 ”Esta música ondula junto a mim por sobre as águas”
E ao longo da Strand, Queen Victoria Street acima.
Ó Cidade cidade, às vezes posso ouvir
Em qualquer bar da Lower Thames Street
O álacre lamento de um bandolim
E a algazarra que farfalha em bocas tagarelas
Onde repousam ao meio-dia os pescadores, onde os muros
Da Magnus Martyr empunham
O inexplicável esplendor de um jônico branco e ouro.

     O rio poreja
     Petróleo e alcatrão
     As barcaças derivam
     Ao sabor das marés
     Rubras velas,
     Abertas a sotavento,
     Drapejam nos pesados mastros.
     As barcaças carregam
     Toras que derivam rio abaixo
     Até o braço de Greenwich
     Para além da Ilha dos Cães.
        Weialala leia
        Wallala leialala

Elizabeth e Leicester
Ao ritmo dos remos
A popa figurava
Uma concha engalanada
Rubra e dourada
A rápida pulsação das águas
Encrespava ambas as margens
O vento sudoeste
Corrente abaixo carregava
O repicar dos sinos
Torres brancas
   Weialala leia
   Wallala leialala

“Bondes e árvores cobertos de poeira.
Highbury me criou. Richmond e Kew
Levaram-me à ruína. Perto de Richmond ergui-me nos joelhos
Ao fundo da canoa estreita em que me reclinara.”

“Meus pés estão em Moorgate, e meu coração
Debaixo de meus pés. Depois do que fez
Ele chorou. Prometeu ‘começar tudo outra vez’.
Nada lhe censurei. De que me iria ressentir?”

“Nas areias de Margate.
Não consigo associar
Nada com nada.
As unhas quebradas de encardidas mãos.
Meu povo humilde povo que não espera
Nada.”
   la la

A Cartago então eu vim

Ardendo ardendo ardendo ardendo
Ó Senhor Tu que me arrebatas
Ó Senhor Tu que arrebatas

ardendo

IV. MORTE POR ÁGUA

Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,
Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas
E os lucros e os prejuízos.
             Uma corrente submarina
Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia
Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude
Até que ao torvelinho sucumbiu.
             Gentio ou judeu
Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,
Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.

V. O QUE DISSE O TROVÃO

 Após a rubra luz do archote sobre faces suadas
Após o gelado silêncio nos jardins
Após a agonia em regiões pedregosas
O clamor e a súplica
Cárcere palácio reverberação
Do trovão primaveril sobre longínquas montanhas
Aquele que vivia agora já não vive
E nós que então vivíamos agora agonizamos
Com um pouco de resignação.

 Aqui não há água, mas apenas rocha
Rocha. Água nenhuma. E o caminho arenoso
O coleante caminho que sobe entre as montanhas
Que são montanhas de rocha inaquosa
Se houvesse água por aqui, nos deteríamos a bebê-la
Não se pode parar ou pensar em meio às rochas
Seco o suor nos poros e os pés postos na areia
Se aqui houvesse água em meio às rochas
Montanha morta, boca de dentes cariados que já não pode cuspir
Aqui não se fica de pé e ninguém se deita ou senta
Nem o silêncio vibra nas montanhas
Apenas o áspero e seco trovão sem chuva
Sequer a solidão floresce nas montanhas
Apenas rubras faces taciturnas que escarnecem e rosnam
A espreitar nas portas de casebres calcinados
             Se houvesse água por aqui
 E não rocha
 Se aqui houvesse rocha
 Que água também fosse
 E água
 Uma nascente
 Uma poça entre as rochas
 Se ao menos aqui se ouvisse um sussurro de água
 Não a cigarra
 Ou a canora relva seca
 Mas a canção das águas sobre a rocha
 Onde gorjeia o tordo solitário nos pinheiros
 Drip drop drip drop drop drop drop
 Mas aqui água não há

 Quem é o outro que sempre anda a teu lado?
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
– Mas quem é esse que te segue do outro lado?

 Que som é esse que alto pulsa no espaço
Sussurro de lamentação materna
Que embuçadas hordas são essas que enxameiam
Sobre planícies sem fim, tropeçando nas gretas da terra
Restrita apenas a um raso horizonte arrasado
Que cidade se levanta acima das montanhas
Fendas e emendas e estalos no ar violáceo
Torres cadentes
Jerusalém Atenas Alexandria
Viena Londres
Irreais

 A mulher distendeu com firmeza seus longos cabelos negros
E uma ária sussurrante nessas cordas modulou
E morcegos de faces infantis silvaram na luz violeta,
Ruflando suas asas, e rastejaram
De cabeça para baixo na parede enegrecida
E havia no ar torres emborcadas
Tangendo reminiscentes sinos, que outrora repicavam as horas
E agudas vozes emergiam de poços exauridos e cisternas vazias.

 Nessa cova arruinada entre as montanhas
Sob um tíbio luar, a relva está cantando
Sobre túmulos caídos, ao redor da capela
É uma capela vazia, onde somente o vento fez seu ninho.
Não há janelas, e as portas rangem e gingam,
Ossos secos a ninguém mais intimidam.
Um galo apenas na cumeeira pousado
Cocorocó cocorocó
No lampejo de um relâmpago. E uma rajada úmida
Vem depois trazendo a chuva

 O Ganga em agonia submergiu, e as flácidas folhas
Esperam pela chuva, enquanto nuvens negras
Acima do Himavant muito além se acumulam.
A selva agachou-se, arqueada em silêncio.
Falou então o trovão
DA
Datta: Que demos nós?
Amigo, o sangue em meu coração se agita
A tremenda ousadia de um momento de entrega
Que um século de prudência jamais revogará
Por isso, e por isso apenas, existimos
E ninguém o encontrará em nossos necrológios
Ou nas memórias tecidas pela aranha caridosa
Ou sob os lacres rompidos do esquálido escrivão
Em nossos quartos vazios
DA
Dayadhvam: ouvi a chave
Girar na porta uma vez e apenas uma vez
Na chave pensamos, cada qual em sua prisão
E quando nela pensamos, nos sabemos prisioneiros
Somente ao cair da noite é que etéreos rumores
Revivem por instantes um alquebrado Coriolano
DA
Damyata: o barco respondeu,
Alegre; à mão afeita à vela e ao remo
O mar estava calmo, teu coração teria respondido,
Alegre, pulsando obediente ao rogo
De mãos dominadoras

             Sentei-me junto às margens a pescar
Deixando atrás de mim a árida planície
Terei ao menos minhas terras posto em ordem?
A Ponte de Londres está caindo caindo caindo
Poi s’ascose nel foco che gli affina
Quando fiam uti chelidon
– Ó andorinha andorinha
Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie
Com tais fragmentos foi que escorei minhas ruínas
Pois então vos conforto. Jerônimo outra vez enlouqueceu.
Datta. Dayadhvam. Damyata.
     Shantih shantih shantih

Trad.: Ivan Junqueira

.
“Pois, com meus próprios olhos vi em Cuma a Sibila suspensa dentro de uma ampola, e quando as crianças lhe diziam: ‘Sibila, o que queres?’; ela respondia: ‘Quero morrer’.”

The Waste Land
1922

Nam Sibyllam quidem Cumis ego ipse
oculis meis vidi in ampulla pendere,
et cum illi pueri dicerent: Σίβνλλα τί ϴέλεις;
respondebat illa: άπο ϴανεΐν ϴέλω.

For Ezra Paound
Il miglior fabbro

I. The Burial of the Dead

April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.
Winter kept us warm, covering
Earth in forgetful snow, feeding
A little life with dried tubers.
Summer surprised us, coming over the Starnbergersee
With a shower of rain; we stopped in the colonnade,
And went on in sunlight, into the Hofgarten,
And drank coffee, and talked for an hour.
Bin gar keine Russin, stamm’ aus Litauen, echt deutsch.
And when we were children, staying at the arch-duke’s,
My cousin’s, he took me out on a sled,
And I was frightened. He said, Marie,
Marie, hold on tight. And down we went.
In the mountains, there you feel free.
I read, much of the night, and go south in the winter.

What are the roots that clutch, what branches grow
Out of this stony rubbish? Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
And the dry stone no sound of water. Only
There is shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a handful of dust.
Frisch weht der Wind
Der Heimat zu
Mein Irisch Kind,
Wo weilest du?
“You gave me hyacinths first a year ago;
“They called me the hyacinth girl.”
—Yet when we came back, late, from the Hyacinth garden,
Your arms full, and your hair wet, I could not
Speak, and my eyes failed, I was neither
Living nor dead, and I knew nothing,
Looking into the heart of light, the silence.
Oed’ und leer das Meer.

Madame Sosostris, famous clairvoyante,
Had a bad cold, nevertheless
Is known to be the wisest woman in Europe,
With a wicked pack of cards. Here, said she,
Is your card, the drowned Phoenician Sailor,
(Those are pearls that were his eyes. Look!)
Here is Belladonna, the Lady of the Rocks,
The lady of situations.
Here is the man with three staves, and here the Wheel,
And here is the one-eyed merchant, and this card,
Which is blank, is something he carries on his back,
Which I am forbidden to see. I do not find
The Hanged Man. Fear death by water.
I see crowds of people, walking round in a ring.
Thank you. If you see dear Mrs. Equitone,
Tell her I bring the horoscope myself:
One must be so careful these days.

Unreal City,
Under the brown fog of a winter dawn,
A crowd flowed over London Bridge, so many,
I had not thought death had undone so many.
Sighs, short and infrequent, were exhaled,
And each man fixed his eyes before his feet.
Flowed up the hill and down King William Street,
To where Saint Mary Woolnoth kept the hours
With a dead sound on the final stroke of nine.
There I saw one I knew, and stopped him, crying: “Stetson!
“You who were with me in the ships at Mylae!
“That corpse you planted last year in your garden,
“Has it begun to sprout? Will it bloom this year?
“Or has the sudden frost disturbed its bed?
“Oh keep the Dog far hence, that’s friend to men,
“Or with his nails he’ll dig it up again!
“You! hypocrite lecteur!—mon semblable,—mon frère!”

II. A Game of Chess

The Chair she sat in, like a burnished throne,
Glowed on the marble, where the glass
Held up by standards wrought with fruited vines
From which a golden Cupidon peeped out
(Another hid his eyes behind his wing)
Doubled the flames of sevenbranched candelabra
Reflecting light upon the table as
The glitter of her jewels rose to meet it,
From satin cases poured in rich profusion;
In vials of ivory and coloured glass
Unstoppered, lurked her strange synthetic perfumes,
Unguent, powdered, or liquid—troubled, confused
And drowned the sense in odours; stirred by the air
That freshened from the window, these ascended
In fattening the prolonged candle-flames,
Flung their smoke into the laquearia,
Stirring the pattern on the coffered ceiling.
Huge sea-wood fed with copper
Burned green and orange, framed by the coloured stone,
In which sad light a carvéd dolphin swam.
Above the antique mantel was displayed
As though a window gave upon the sylvan scene
The change of Philomel, by the barbarous king
So rudely forced; yet there the nightingale
Filled all the desert with inviolable voice
And still she cried, and still the world pursues,
“Jug Jug” to dirty ears.
And other withered stumps of time
Were told upon the walls; staring forms
Leaned out, leaning, hushing the room enclosed.
Footsteps shuffled on the stair.
Under the firelight, under the brush, her hair
Spread out in fiery points
Glowed into words, then would be savagely still.

“My nerves are bad tonight. Yes, bad. Stay with me.
“Speak to me. Why do you never speak. Speak.
“What are you thinking of? What thinking? What?
“I never know what you are thinking. Think.”

I think we are in rats’ alley
Where the dead men lost their bones.

“What is that noise?”
The wind under the door.
“What is that noise now? What is the wind doing?”
Nothing again nothing.
“Do
“You know nothing? Do you see nothing? Do you remember
“Nothing?”

I remember
Those are pearls that were his eyes.
“Are you alive, or not? Is there nothing in your head?”

But
O O O O that Shakespeherian Rag—
It’s so elegant
So intelligent
“What shall I do now? What shall I do?”
“I shall rush out as I am, and walk the street
“With my hair down, so. What shall we do tomorrow?
“What shall we ever do?”
The hot water at ten.
And if it rains, a closed car at four.
And we shall play a game of chess,
Pressing lidless eyes and waiting for a knock upon the door.

When Lil’s husband got demobbed, I said—
I didn’t mince my words, I said to her myself,
HURRY UP PLEASE ITS TIME
Now Albert’s coming back, make yourself a bit smart.
He’ll want to know what you done with that money he gave you
To get yourself some teeth. He did, I was there.
You have them all out, Lil, and get a nice set,
He said, I swear, I can’t bear to look at you.
And no more can’t I, I said, and think of poor Albert,
He’s been in the army four years, he wants a good time,
And if you don’t give it him, there’s others will, I said.
Oh is there, she said. Something o’ that, I said.
Then I’ll know who to thank, she said, and give me a straight look.
HURRY UP PLEASE ITS TIME
If you don’t like it you can get on with it, I said.
Others can pick and choose if you can’t.
But if Albert makes off, it won’t be for lack of telling.
You ought to be ashamed, I said, to look so antique.
(And her only thirty-one.)
I can’t help it, she said, pulling a long face,
It’s them pills I took, to bring it off, she said.
(She’s had five already, and nearly died of young George.)
The chemist said it would be all right, but I’ve never been the same.
You are a proper fool, I said.
Well, if Albert won’t leave you alone, there it is, I said,
What you get married for if you don’t want children?
HURRY UP PLEASE ITS TIME
Well, that Sunday Albert was home, they had a hot gammon,
And they asked me in to dinner, to get the beauty of it hot—
HURRY UP PLEASE ITS TIME
HURRY UP PLEASE ITS TIME
Goonight Bill. Goonight Lou. Goonight May. Goonight.
Ta ta. Goonight. Goonight.
Good night, ladies, good night, sweet ladies, good night, good night.

III. The Fire Sermon

The river’s tent is broken: the last fingers of leaf
Clutch and sink into the wet bank. The wind
Crosses the brown land, unheard. The nymphs are departed.
Sweet Thames, run softly, till I end my song.
The river bears no empty bottles, sandwich papers,
Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends
Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed.
And their friends, the loitering heirs of city directors;
Departed, have left no addresses.
By the waters of Leman I sat down and wept . . .
Sweet Thames, run softly till I end my song,
Sweet Thames, run softly, for I speak not loud or long.
But at my back in a cold blast I hear
The rattle of the bones, and chuckle spread from ear to ear.

A rat crept softly through the vegetation
Dragging its slimy belly on the bank
While I was fishing in the dull canal
On a winter evening round behind the gashouse
Musing upon the king my brother’s wreck
And on the king my father’s death before him.
White bodies naked on the low damp ground
And bones cast in a little low dry garret,
Rattled by the rat’s foot only, year to year.
But at my back from time to time I hear
The sound of horns and motors, which shall bring
Sweeney to Mrs. Porter in the spring.
O the moon shone bright on Mrs. Porter
And on her daughter
They wash their feet in soda water
Et O ces voix d’enfants, chantant dans la coupole!

Twit twit twit
Jug jug jug jug jug jug
So rudely forc’d.
Tereu

Unreal City
Under the brown fog of a winter noon
Mr. Eugenides, the Smyrna merchant
Unshaven, with a pocket full of currants
C.i.f. London: documents at sight,
Asked me in demotic French
To luncheon at the Cannon Street Hotel
Followed by a weekend at the Metropole.

At the violet hour, when the eyes and back
Turn upward from the desk, when the human engine waits
Like a taxi throbbing waiting,
I Tiresias, though blind, throbbing between two lives,
Old man with wrinkled female breasts, can see
At the violet hour, the evening hour that strives
Homeward, and brings the sailor home from sea,
The typist home at teatime, clears her breakfast, lights
Her stove, and lays out food in tins.
Out of the window perilously spread
Her drying combinations touched by the sun’s last rays,
On the divan are piled (at night her bed)
Stockings, slippers, camisoles, and stays.
I Tiresias, old man with wrinkled dugs
Perceived the scene, and foretold the rest—
I too awaited the expected guest.
He, the young man carbuncular, arrives,
A small house agent’s clerk, with one bold stare,
One of the low on whom assurance sits
As a silk hat on a Bradford millionaire.
The time is now propitious, as he guesses,
The meal is ended, she is bored and tired,
Endeavours to engage her in caresses
Which still are unreproved, if undesired.
Flushed and decided, he assaults at once;
Exploring hands encounter no defence;
His vanity requires no response,
And makes a welcome of indifference.
(And I Tiresias have foresuffered all
Enacted on this same divan or bed;
I who have sat by Thebes below the wall
And walked among the lowest of the dead.)
Bestows one final patronising kiss,
And gropes his way, finding the stairs unlit . . .

She turns and looks a moment in the glass,
Hardly aware of her departed lover;
Her brain allows one half-formed thought to pass:
“Well now that’s done: and I’m glad it’s over.”
When lovely woman stoops to folly and
Paces about her room again, alone,
She smoothes her hair with automatic hand,
And puts a record on the gramophone.

“This music crept by me upon the waters”
And along the Strand, up Queen Victoria Street.
O City city, I can sometimes hear
Beside a public bar in Lower Thames Street,
The pleasant whining of a mandoline
And a clatter and a chatter from within
Where fishmen lounge at noon: where the walls
Of Magnus Martyr hold
Inexplicable splendour of Ionian white and gold.

The river sweats
Oil and tar
The barges drift
With the turning tide
Red sails
Wide
To leeward, swing on the heavy spar.
The barges wash
Drifting logs
Down Greenwich reach
Past the Isle of Dogs.
Weialala leia
Wallala leialala

Elizabeth and Leicester
Beating oars
The stern was formed
A gilded shell
Red and gold
The brisk swell
Rippled both shores
Southwest wind
Carried down stream
The peal of bells
White towers
Weialala leia
Wallala leialala

“Trams and dusty trees.
Highbury bore me. Richmond and Kew
Undid me. By Richmond I raised my knees
Supine on the floor of a narrow canoe.”

“My feet are at Moorgate, and my heart
Under my feet. After the event
He wept. He promised a ‘new start.’
I made no comment. What should I resent?”

“On Margate Sands.
I can connect
Nothing with nothing.
The broken fingernails of dirty hands.
My people humble people who expect
Nothing.”
la la

To Carthage then I came

Burning burning burning burning
O Lord Thou pluckest me out
O Lord Thou pluckest

burning

IV. Death by Water

Phlebas the Phoenician, a fortnight dead,
Forgot the cry of gulls, and the deep sea swell
And the profit and loss.
A current under sea
Picked his bones in whispers. As he rose and fell
He passed the stages of his age and youth
Entering the whirlpool.
Gentile or Jew
O you who turn the wheel and look to windward,
Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you.

V. What the Thunder Said

After the torchlight red on sweaty faces
After the frosty silence in the gardens
After the agony in stony places
The shouting and the crying
Prison and palace and reverberation
Of thunder of spring over distant mountains
He who was living is now dead
We who were living are now dying
With a little patience

Here is no water but only rock
Rock and no water and the sandy road
The road winding above among the mountains
Which are mountains of rock without water
If there were water we should stop and drink
Amongst the rock one cannot stop or think
Sweat is dry and feet are in the sand
If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand nor lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses
If there were water
And no rock
If there were rock
And also water
And water
A spring
A pool among the rock
If there were the sound of water only
Not the cicada
And dry grass singing
But sound of water over a rock
Where the hermit-thrush sings in the pine trees
Drip drop drip drop drop drop drop
But there is no water

Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
—But who is that on the other side of you?

What is that sound high in the air
Murmur of maternal lamentation
Who are those hooded hordes swarming
Over endless plains, stumbling in cracked earth
Ringed by the flat horizon only
What is the city over the mountains
Cracks and reforms and bursts in the violet air
Falling towers
Jerusalem Athens Alexandria
Vienna London
Unreal

A woman drew her long black hair out tight
And fiddled whisper music on those strings
And bats with baby faces in the violet light
Whistled, and beat their wings
And crawled head downward down a blackened wall
And upside down in air were towers
Tolling reminiscent bells, that kept the hours
And voices singing out of empty cisterns and exhausted wells.

In this decayed hole among the mountains
In the faint moonlight, the grass is singing
Over the tumbled graves, about the chapel
There is the empty chapel, only the wind’s home.
It has no windows, and the door swings,
Dry bones can harm no one.
Only a cock stood on the rooftree
Co co rico co co rico
In a flash of lightning. Then a damp gust
Bringing rain

Ganga was sunken, and the limp leaves
Waited for rain, while the black clouds
Gathered far distant, over Himavant.
The jungle crouched, humped in silence.
Then spoke the thunder
DA
Datta: what have we given?
My friend, blood shaking my heart
The awful daring of a moment’s surrender
Which an age of prudence can never retract
By this, and this only, we have existed
Which is not to be found in our obituaries
Or in memories draped by the beneficent spider
Or under seals broken by the lean solicitor
In our empty rooms
DA
Dayadhvam: I have heard the key
Turn in the door once and turn once only
We think of the key, each in his prison
Thinking of the key, each confirms a prison
Only at nightfall, aethereal rumours
Revive for a moment a broken Coriolanus
DA
Damyata: The boat responded
Gaily, to the hand expert with sail and oar
The sea was calm, your heart would have responded
Gaily, when invited, beating obedient
To controlling hands

I sat upon the shore
Fishing, with the arid plain behind me
Shall I at least set my lands in order?
London Bridge is falling down falling down falling down
Poi s’ascose nel foco che gli affina
Quando fiam uti chelidon—O swallow swallow
Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie
These fragments I have shored against my ruins
Why then Ile fit you. Hieronymo’s mad againe.
Datta. Dayadhvam. Damyata.
Shantih shantih shantih

Merrit Malloy – Epitáfio

Quando eu morrer
Doa o que restar de mim
Às crianças
E aos idosos que esperam para morrer.

E se precisares chorar,
Chora por teu irmão
Que caminha pela rua ao teu lado.
E quando precisares de mim,
Põe teus braços
Em volta de alguém
E dá-lhe o que tens a me oferecer.

Quero deixar-te algo,
Algo melhor
Que palavras
Ou sons.

Busca por mim
Nas pessoas que conheci
Ou amei,
E se não puderes me doar
Ao menos deixa-me viver em teus olhos
E não em teus pensamentos.

Podes me amar mais
Permitindo que as mãos
Toquem as mãos,
Que os corpos toquem os corpos,
E deixando ir
As crianças
Que precisam ser livres.

O amor não morre,
As pessoas sim.
Portanto, quando tudo que restar de mim
For amor,
Doa-me.

Trad.: Nelson Santander

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Epitaph

When I die
Give what’s left of me away
To children
And old men that wait to die.

And if you need to cry,
Cry for your brother
Walking the street beside you.
And when you need me,
Put your arms
Around anyone
And give them
What you need to give to me.

I want to leave you something,
Something better
Than words
Or sounds.

Look for me
In the people I’ve known
Or loved,
And if you cannot give me away,
At least let me live on in your eyes
And not your mind.

You can love me most
By letting
Hands touch hands,
By letting bodies touch bodies,
And by letting go
Of children
That need to be free.

Love doesn’t die,
People do.
So, when all that’s left of me
Is love,
Give me away.

José Emílio Pacheco – Crianças e adultos

Aos dez anos, acreditava
que o mundo era dos adultos.
Podiam fazer amor, fumar, beber à vontade,
ir aonde quisessem.
Sobretudo, nos esmagar com seu poder indomável.

Agora sei, por vasta experiência, o lugar-comum:
em verdade, não há adultos,
apenas crianças envelhecidas.

Desejam o que não têm:
o brinquedo do outro.
Sentem medo de tudo.
Obedecem sempre a alguém.
Não governam a própria existência.
Choram por qualquer motivo.

Mas não são valentes como eram aos dez anos:
fazem-no à noite e em silêncio e sozinhos.

Trad.: Nelson Santander

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Niños y adultos

A los diez años creía
que la tierra era de los adultos.
Podían hacer el amor, fumar, beber a su antojo,
ir a donde quisieran.
Sobre todo, aplastarnos con su poder indomable.

Ahora sé por larga experiencia el lugar común:
en realidad no hay adultos,
sólo niños envejecidos.

Quieren lo que no tienen:
el juguete del otro.
Sienten miedo de todo.
Obedecen siempre a alguien.
No disponen de su existencia.
Lloran por cualquier cosa.

Pero no son valientes como lo fueron a los diez años:
lo hacen de noche y en silencio y a solas.

Juan Vicente Piqueras – Papoulas

No antigo campo de batalha
onde morreram milhares de meninos
cresce novamente o trigo, salpicado
aqui e ali de ardentes papoulas.

E dois amantes, que terão
mais ou menos a idade dos soldados
que aqui então morreram,
hoje fazem amor no semeado.

Deitam o trigo. Calcam as papoulas.

Trad.: Nelson Santander

Amapolas

Sobre el antiguo campo de batalla
donde murieron miles de muchachos
vuelve a crecer el trigo, salpicado
aquí y allá de ardientes amapolas.

Y dos enamorados, que tendrán
más o menos la edad de los soldados
que aquí entonces murieron,
hoy hacen el amor en el sembrado.

Tumban el trigo. Aplastan amapolas.

Louise Glück – Outubro

1.

É inverno outra vez, faz frio outra vez,
Frank não escorregou no gelo,
ele não se curou, não se plantaram
as sementes da primavera

a noite não terminou,
o gelo derretido não
inundou as calhas estreitas

meu corpo não foi
resgatado, não era seguro

não se formou a cicatriz, invisível
sobre a lesão

terror e frio,
eles não cessaram, o jardim dos fundos
não foi preparado nem semeado –

lembro-me de como a terra sentiu, roxa e densa,
em rígidas fileiras, as sementes que não foram plantadas,
as videiras que não escalaram o paredão sul.

não consigo ouvir a voz dela
nos lamentos do vento, assobiando sobre os terrenos descobertos

já não me importa
o som que ela faz

quando eu fui silenciada, quando primeiro pareceu
inútil descrever aquele som

que soa como algo que não pode ser mudado –

a noite não terminou, a terra não era
segura quando foi semeada

nós não plantamos as sementes,
não éramos necessários para a terra,

as videiras, foram elas colhidas?

.
2.

Verão após o fim do verão,
bálsamo após violência:
Não faz nenhum bem
para mim ser boa agora;
a violência me transformou.

Alvorada. As baixas colinas cintilam
ocres e em chamas, até os campos cintilam.
Eu sei o que vejo; sol que poderia ser
o sol de agosto, restituindo
tudo o que foi levado.

Você ouve essa voz? Esta é a voz da minha mente;
você não pode tocar meu corpo agora.
ele mudou certa vez, endureceu,
não lhe peça para responder novamente.

Um dia como um dia de verão.
Excepcionalmente parado. As alongadas sombras dos carvalhos
quase roxas nos caminhos de cascalhos.
E, ao entardecer, calor. Noite como uma noite de verão.

Não me faz nenhum bem; a violência me transformou.
Meu corpo arrefeceu como os campos desmatados;
agora só tenho a minha mente, atenta e cautelosa,
com a sensação de estar sendo testada.

Uma vez mais, o sol nasce como nasceu no verão;
dádiva, bálsamo após violência.
Bálsamo depois da muda das folhas, depois que os campos
foram colhidos e revolvidos.

Diga-me que este é o futuro,
eu não acredito em você.
Diga-me que estou vivendo,
eu não acredito em você.

.
3.

Havia nevado. Lembro-me da
música que saía de uma janela aberta.

Venha até mim, disse o mundo.
Isso não quer dizer que
ele falou em frases exatas
mas que eu percebi a beleza desta maneira.

Nascer do sol. Uma película de umidade
em cada criatura viva. Piscinas de luz fria
formaram-se nas calhas.

Eu estava
na porta de entrada,
por mais ridículo que isso pareça agora.

O que os outros encontraram na arte,
eu encontrei na natureza. O que os outros encontraram
no amor humano, eu encontrei na natureza.
É muito simples. Mas não havia uma voz lá.

O inverno tinha acabado. Na lama descongelada,
partes de verde surgiam por toda parte.

Venha até mim, disse o mundo. Eu estava em pé
em meu casaco de lã numa espécie de portal brilhante –
Eu já posso finalmente dizer
há muito tempo; isso me dá um prazer considerável. Beleza,
a curadora, a professora –

a morte não pode me prejudicar
mais do que você me prejudicou,
minha amada vida.

.
4.

A luz mudou
O dó modulou para um tom mais escuro agora
E as canções da manhã soam ensaiadas

Esta é a luz do outono, não a luz da primavera.
A luz do outono: você não será poupada.

As canções mudaram; o indizível
penetrou nelas.

Esta é a luz do outono, não a luz que diz
que eu renasci.

Não o despontar da primavera: eu me esforcei, eu sofri, eu me libertei.
Este é o presente, uma alegoria da dissipação.

Tanta coisa mudou. E mesmo assim você teve sorte:
o ideal arde em você como uma febre.
Ou não como uma febre, como um segundo coração.

As canções mudaram, mas ainda são muito bonitas, de fato.
Elas se concentram em um espaço menor, o espaço da mente.
E são agora sombrias, desoladoras e angustiantes.

E, no entanto, as notas se repetem. Elas emergem estranhamente
antecipando o silêncio.
Os ouvidos se habituam a elas.
Os olhos se habituam às desaparições.

Você não será poupada, nem o que você ama será poupado.

Um vento chegou e partiu, desmantelando a mente;
deixou em seu rastro uma estranha lucidez.

Como você é privilegiada por se apegar
apaixonadamente àquilo que ama;
A desesperança não a destruiu.

Maestro, doloroso:

Esta é a luz do outono; ela se virou contra nós.
Certamente é um privilégio aproximar-se do fim
ainda acreditando em algo.

.
5.

É verdade que não há beleza suficiente no mundo.
É igualmente verdade que não sou competente para restaura-la.
Tampouco há sinceridade, e aqui acho que posso ser útil.

Estou
no trabalho, embora esteja em silêncio.

A insípida

miséria do mundo
nos limita de ambos os lados, um beco

ladeado por árvores; somos

companheiros aqui, sem falar,
cada qual com seus próprios pensamentos;

por trás das árvores, portões
de ferro de casas particulares,
as salas fechadas

de certa forma desertas, abandonadas

como se fosse um dever
do artista criar
esperança, mas por quê? por quê?

a própria palavra
falso, um dispositivo para refutar
a percepção – No cruzamento,

luzes ornamentais da estação.
Eu fui jovem aqui. Andando
de metrô com meu livrinho
como se me defendesse

desse mesmo mundo:

você não está sozinha,
dizia o poema,
no túnel escuro.

.
6.

O clarão do dia se torna
o clarão da noite;
o fogo se torna o espelho.

Minha amiga, a terra é amarga; acho
que o sol falhou com ela.
Amarga ou fatigada, é difícil dizer.

Entre ela e o sol,
algo se quebrou.
Ela quer, agora, ser deixada em paz;
Acho que devemos desistir
de recorrer a ela por afirmação.

Acima dos campos,
acima dos telhados das casas da vila,
o brilho que tornou possível toda forma de vida
se transforma em frias estrelas.

Fique quieto e observe:
elas nada dão, mas nada pedem.

Do fundo da amarga
desgraça, frieza e aridez da terra,

minha amiga, a lua emerge:
ela está linda esta noite, mas quando ela não é linda?

Trad.: Nelson Santander
.
.

N. do T.: Outubro: uma possível interpretação.

Na primeira seção do poema temos a chegada do inverno. Uma série de eventos é narrada por meio de anáforas em formas negativas. Não há pontuação, indicando tratar-se de fluxo do pensamento da narradora. Há evidências de que a narradora sofreu um trauma (uma queda? um acidente? um divórcio? um estupro?). A primeira seção – a chegada do inverno – parece se passar no imediato pós-trauma, pois a narradora parece ainda aturdida: “as videiras, foram elas colhidas?”

Na segunda seção, a narradora começa a se recuperar. Embora mencione o verão o tempo todo, certamente não estamos nessa estação do ano (a própria narradora o afirma ao dizer que está no “verão após o fim do verão”), mas os versos parecem indicar um certo conforto e estado de espírito próprio dos dias luminosos do verão, como lenitivo para o trauma experimentado recentemente (“Verão após o fim do verão, / bálsamo após violência”; “você não pode tocar meu corpo agora./ ele mudou certa vez, endureceu,/ não lhe peça para responder novamente”; “a violência me transformou. / Meu corpo arrefeceu como os campos desmatados;”; “Uma vez mais, o sol nasce como nasceu no verão; / dádiva, bálsamo após violência.” Há esperança aqui, mas ela é extremamente débil: “Diga-me que este é o futuro, / eu não acredito em você. / Diga-me que estou vivendo, / eu não acredito em você.”

Terceira seção: estamos no momento imediatamente posterior ao fim do inverno (primavera, portanto), mas ainda faz frio (“Havia nevado”). Nessa seção, a narradora já começa a sentir o chamado para a vida (“‘Venha até mim’, disse o mundo”). Seu lenitivo parece ser a natureza, vazada de beleza: “O que os outros encontraram na arte, / eu encontrei na natureza. / O que os outros encontraram / no amor humano, eu encontrei na natureza.”; A “beleza”, que é a “curadora” a “professora” (ou seja, a que ensina alguma lição). Nesta seção, a narradora parece estar aliviada, tanto que já se refere ao trauma como algo que aconteceu “há muito tempo”. Não que ela tenha esquecido: “a morte não pode me prejudicar / mais do que você me prejudicou, minha amada vida.”

Quarta seção: a narradora se esforça em convencer-nos de que a estação aqui é o outono, e não a primavera (o outono, com toda sua carga metafórica de desolação, tristeza, desesperança). Não parece ser o caso, pois a primavera sucede o inverno – o inverno do trauma. E ela ainda parece estar no imediato pós-trauma, pois toda a narrativa é vazada de tristeza, perda e angústia. Até a natureza agora parece carregada de notas melancólicas: “As canções mudaram; o indizível / penetrou nelas.” Por isso a insistência em chamar de outono a primavera: “Esta é a luz do outono, não a luz da primavera”; “Esta é a luz do outono, não a luz que diz / que eu renasci.”; “Não o despontar da primavera: ‘eu me esforcei, eu sofri, eu me libertei.’ / Este é o presente, uma alegoria da dissipação.”. E como estamos na primavera, uma luz de esperança parece começar a brilhar. Ela ainda é tênue, mas parece estar lá: “Tanta coisa mudou. E mesmo assim você teve sorte: / o ideal arde em você como uma febre. / Ou não como uma febre, como um segundo coração. // As canções mudaram, mas ainda são muito bonitas, de fato.”; “A desesperança não a destruiu.”

A quinta seção parece se constituir em um espaço para a consolidação e superação do trauma. Ela é marcada por versos que, embora não esqueçam o quanto o mundo pode ser cruel (“A insípida // miséria do mundo / nos limita de ambos os lados, (…)”), indicam um estado de contemplação, como se a narradora tentasse, para além da dor, entender o que aconteceu. A narradora conclui que “não há beleza suficiente no mundo” e que ela não é dotada de competência para restaura-la. Ela, porém, justifica a natureza, que não tem o “dever (…) de criar esperança”. Nos versos finais desta seção, em que narradora se lembra de quando era jovem e solitária na cidade, a arte surge como uma espécie de escudo psicológico invisível para as dores do mundo: “Eu fui jovem aqui. Andando / de metrô com meu livrinho / como se me defendesse // desse mesmo mundo: // você não está sozinha, / dizia o poema, / no túnel escuro.” Aparentemente, a narradora conclui que esse escudo não funcionou, não evitou que ela fosse ferida pelo mundo. Por isso, a arte é substituída, no presente, pela beleza da natureza, como se viu na terceira e como se verá na última seção do poema.

A sexta e última seção do poema parece demarcar o renascimento emocional da narradora, a superação do trauma. Verão? Parece que sim. Os versos assim o insinuam: “O clarão do dia (…)”; “Acima dos campos, / acima dos telhados das casas da vila, / o brilho que tornou possível toda forma de vida (…)”. O trauma deixou marcas profundas na narradora, mas ela sobreviveu e começa a ver as coisas de outra forma, menos romântica mas também ligeiramente menos pessimista. Ela já não tem a mesma ingenuidade de antes e está perfeitamente consciente de que o mundo (“a terra”) é um lugar “amargo” ou “fatigado’, um lugar de “amarga / desgraça, frieza e aridez”. Tanto é assim, que ela desaconselha que se recorra a ele “por afirmação”. O sol? Bom, o brilho do sol de verão se transformou no brilho de “frias estrelas”. Apesar de tudo isso, ainda há beleza no mundo – representada, no poema, pelo nascer da lua. E a beleza, como já afirmou a narradora, é “curadora”. Portanto, a menção à beleza da lua nascendo naquela noite – o que coincide com o fim do poema – parece marcar o início de uma nova fase na vida da narradora, que parece ter chegado à conclusão de que, apesar de tudo, a vida vale a pena ser vivida, pois ela está repleta de beleza; a beleza “curadora”, “professora” – seja ela a arte ou a natureza – sempre está presente. A beleza é perene: “ela (a lua) está linda esta noite, mas quando ela não é linda?”

October
.
1.

Is it winter again, is it cold again,
didn’t Frank just slip on the ice,
didn’t he heal, weren’t the spring seeds planted

didn’t the night end,
didn’t the melting ice
flood the narrow gutters

wasn’t my body
rescued, wasn’t it safe

didn’t the scar form, invisible
above the injury

terror and cold,
didn’t they just end, wasn’t the back garden
harrowed and planted-

I remember how the earth felt, red and dense,
in stiff rows, weren’t the seeds planted,
didn’t vines climb the south wall

I can’t hear your voice
for the wind’s cries, whistling over the bare ground

I no longer care
what sound it makes

when was I silenced, when did it first seem
pointless to describe that sound

what it sounds like can’t change what it is-

didn’t the night end, wasn’t the earth
safe when it was planted

didn’t we plant the seeds,
weren’t we necessary to the earth,

the vines, were they harvested?

.
2.

Summer after summer has ended,
balm after violence:
it does me no good
to be good to me now;
violence has changed me.

Daybreak. The low hills shine
ochre and fire, even the fields shine.
I know what I see; sun that could be
the August sun, returning
everything that was taken away-

You hear this voice? This is my mind’s voice;
you can’t touch my body now.
It has changed once, it has hardened,
don’t ask it to respond again.

A day like a day in summer.
Exceptionally still. The long shadows of the maples
nearly mauve on the gravel paths.
And in the evening, warmth. Night like a night in summer.

It does me no good; violence has changed me.
My body has grown cold like the stripped fields;
now there is only my mind, cautious and wary,
with the sense it is being tested.

Once more, the sun rises as it rose in summer;
bounty, balm after violence.
Balm after the leaves have changed, after the fields
have been harvested and turned.

Tell me this is the future,
I won’t believe you.
Tell me I’m living,
I won’t believe you.

.
3.

Snow had fallen. I remember
music from an open window.

Come to me, said the world.
This is not to say
it spoke in exact sentences
but that I perceived beauty in this manner.

Sunrise. A film of moisture
on each living thing. Pools of cold light
formed in the gutters.

I stood
at the doorway,
ridiculous as it now seems.

What others found in art,
I found in nature. What others found
in human love, I found in nature.
Very simple. But there was no voice there.

Winter was over. In the thawed dirt,
bits of green were showing.

Come to me, said the world. I was standing
in my wool coat at a kind of bright portal –
I can finally say
long ago; it gives me considerable pleasure. Beauty
the healer, the teacher-

death cannot harm me
more than you have harmed me,
my beloved life.

.
4.

The light has changed;
middle C is tuned darker now.
And the songs of morning sound over-rehearsed.

This is the light of autumn, not the light of spring.
The light of autumn: you will not be spared.

The songs have changed; the unspeakable
has entered them.

This is the light of autumn, not the light that says
I am reborn.

Not the spring dawn: I strained, I suffered, I was delivered.
This is the present, an allegory of waste.

So much has changed. And still, you are fortunate:
the ideal burns in you like a fever.
Or not like a fever, like a second heart.

The songs have changed, but really they are still quite beautiful.
They have been concentrated in a smaller space, the space of the mind.
They are dark, now, with desolation and anguish.

And yet the notes recur. They hover oddly
in anticipation of silence.
The ear gets used to them.
The eye gets used to disappearances.

You will not be spared, nor will what you hope be spared.
A wind has come and gone, taking apart the mind;
it has left in its wake a strange lucidity.

How privileged you are, to be still passionately
clinging to what you love;
the forfeit of hope has not destroyed you.

Maestoso, doloroso:

This is the light of autumn; it has turned on us.
Surely it is a privilege to approach the end
still believing in something.

.
5.

It is true there is not enough beauty in the world.
It is also true that I am not competent to restore it.
Neither is there candor, and here I may be of some use.

I am
at work, though I am silent.

The bland

misery of the world
bounds us on either side, an alley

lined with trees; we are

companions here, not speaking,
each with his own thoughts;

behind the trees, iron
gates of the private houses,
the shuttered rooms

somehow deserted, abandoned,

as though it were the artist’s
duty to create
hope, but out of what? what?

the word itself
false, a device to refute
perception-At the intersection,

ornamental lights of the season.
I was young here. Riding
the subway with my small book
as though to defend myself against

this same world:

you are not alone,
the poem said,
in the dark tunnel.

.
6.

The brightness of the day becomes
the brightness of the night;
the fire becomes the mirror.

My friend the earth is bitter; I think
sunlight has failed her.
Bitter or weary, it is hard to say.

Between herself and the sun,
something has ended.
She wants, now, to be left alone;
I think we must give up
turning to her for affirmation.

Above the fields,
above the roofs of the village houses,
the brilliance that made all life possible
becomes the cold stars.

Lie still and watch:
they give nothing but ask nothing.

From within the earth’s
bitter disgrace, coldness and barrenness

my friend the moon rises:
she is beautiful tonight, but when is she not beautiful?

Raquel Lanseros – A propósito de Eros

De todas as terrenas servidões
que aprisionam meu afã neste cárcere
confesso-me devedora da carne
e de todos os seus íntimos vaivéns
que me fazem mais feliz
       e menos livre.

Às vezes, porém,
a escravidão se mostra soberana
e me sinto senhora do destino.
  Porque sei amar, porque provei da fruta
  e nunca maldisse o seu sabor agridoce,
  porque posso oferecer meu coração intacto
  se o caminho se digna em requere-lo,
  porque suporto em pé, com humilde firmeza,
  o rigor deste fogo que enlouquece.

Neste fragor mudo em que todos somos
rufiões, vagabundos, despossuídos e presos
não existem vencedores nem vencidos
e a manhã não arrenda a ganância do ontem.

Que não entre na batalha quem sucumba
ante o rancor pequeno das humilhações.
Sabei, são necessárias enormes doses
de grandeza de espírito e coragem
nas silenciosas lides da paixão humana.

A recompensa, em troca, é substancial.
 Ser súdito tão só da natureza,
  não temer a morte nem o esquecimento,
   não aceitar da vida nenhuma esmola,
    não conformar-se com menos que tudo.

Trad.: Nelson Santander

A propósito de Eros

De todas las terrenas servidumbres
que aprisionan mi afán en esta cárcel
me confieso deudora de la carne
y de todos sus íntimos vaivenes
que me hacen más feliz
       y menos libre.

A veces, sin embargo,
la esclavitud se muestra soberana
y me siento señora del destino.
  Porque sé amar, porque probé la fruta
  y no maldije nunca su sabor agridulce,
  porque puedo ofrecer mi corazón intacto
  si el camino se digna requerirlo,
  porque resisto en pie, con humilde firmeza,
  el rigor de este fuego que enloquece.

En este fragor mudo en el que todos somos
rufianes, vagabundos, desposeídos y presos
no existen vencedores ni vencidos
y mañana no arrienda la ganancia de ayer.

Que no entre en la batalla quien sucumba
ante el rencor pequeño de las humillaciones.
Sabed, son necesarias descomunales dosis
de grandeza de espíritu y coraje
en las lides calladas de la pasión humana.

La recompensa, en cambio, es sustanciosa.
 Ser súbdito tan sólo de la naturaleza,
  no temer a la muerte ni al olvido,
   no aceptarle a la vida una limosna,
    no conformarse con menos que todo.

Jorge Valdés Díaz-Vélez – O material do relâmpago

Calculaste em detalhes cada passo,
sutil, há muitos séculos. Finalmente
teu marido viajou e as crianças
foram dormir com os avós.
Estás agora sozinha e eufórica
voltaste-te a se maquiar e vestiste-te
de preto rigoroso e perfumaste
tua mínima porção de lingerie.
Estás tremendo, dizes a ti mesma, mas nada
te fará voltar atrás. Olhas tua imagem
levantada nos saltos, desafiadora.
Tu e a noite são jovens e belas
como uma tempestade que se aproxima.

Trad.: Nelson Santander

Materia del relámpago

Calculaste al detalle cada paso,
sutil, desde hace siglos. Finalmente
tu esposo está de viaje y tus pequeñas
se fueron a dormir con sus abuelos.
Así que ahora estás sola y con euforia
te has vuelto a maquillar y te has vestido
de negro riguroso y perfumado
tu mínima porción de lencería.
Estás temblando, te dices, pero nada
te hará volver atrás. Miras tu imagen
alzada en los tacones, desafiante.
Tú y la noche son jóvenes y hermosas
como una tempestad que se aproxima.

Carlos Drummond de Andrade – Dentaduras duplas

Dentaduras duplas!
Inda não sou bem velho
para merecer-vos…
Há que contentar-me
com uma ponte móvel
e esparsas coroas.
(Coroas sem reino,
os reinos protéticos
de onde proviestes
quando produzirão
a tripla dentadura,
dentadura múltipla,
a serra mecânica,
sempre desejada,
jamais possuída,
que acabará
com o tédio da boca,
a boca que beija,
a boca romântica?…)

Resovin! Hecolite!
Nomes de países?
Fantasmas femininos?
Nunca: dentaduras,
engenhos modernos,
práticos, higiênicos,
a vida habitável:
a boca mordendo,
os delirantes lábios
apenas entreabertos
num sorriso técnico
e a língua especiosa
através dos dentes
buscando outra língua,
afinal sossegada…
A serra mecânica
não tritura amor.
E todos os dentes
extraídos sem dor.
E a boca liberta
das funções poético-
sofístico-dramáticas
de que rezam filmes
e velhos autores.

Dentaduras duplas:
dai-me enfim a calma
que Bilac não teve
para envelhecer.
Desfibrarei convosco
doces alimentos,
serei casto, sóbrio,
não vos aplicando
na deleitação convulsa
de uma carne triste
em que tantas vezes
me eu perdi.

Largas dentaduras,
vosso riso largo
me consolará
não sei quantas fomes
ferozes, secretas
no fundo de mim.
Não sei quantas fomes
jamais compensadas.
Dentaduras alvas,
antes amarelas
e por que não cromadas
e por que não de âmbar?
de âmbar! de âmbar!
feéricas dentaduras,
admiráveis presas,
mastigando lestas
e indiferentes
a carne da vida!

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T. S. Eliot – A Viagem dos Magos

 “Foi um frio que nos colheu
Na pior quadra do ano
Para uma viagem, e longa era a viagem:
Os caminhos enlameados e o tempo adverso
Em pleno coração do inverno.”
E os camelos escoriados, o casco em chagas, indóceis,
Jaziam em meio à neve derretida.
Foram momentos em que recordamos
Os palácios estivais sobre os penhascos, os terraços,
As sedosas meninas que nos traziam afrodisíacos.
E depois os cameleiros que imprecavam e maldiziam
E desertavam, e exigiam fêmeas e aguardente.
E os fogos da noite em bruxuleio, a falta de apriscos,
As cidades hostis, as vilas inóspitas,
As aldeias sujas e tudo a preços absurdos.
Foi uma rude quadra para nós.
Ao fim preferimos viajar à noite,
Dormindo entre uma e outra vigília,
Com vozes que cantavam em nosso ouvido, dizendo
Que tudo aquilo era loucura.

 E eis que alcançamos pela aurora um vale ameno,
Úmido, sob a linha da neve, impregnado de aromas silvestres,
Com o regato e um moinho a fustigar as trevas,
E três árvores recortadas contra o céu baixo,
E um velho cavalo branco a galope pelo prado.
E chegamos depois a uma taverna com parras sobre as vigas;
Seis mãos se viam pela porta entreaberta
A disputar peças de prata com seus dados,
E pés que golpeavam os odres já vazios.
Mas nenhuma informação nos deram, e então seguimos
Para chegarmos ao crepúsculo, sequer um instante antes,
E encontrarmos o lugar; foi (podeis dizer) satisfatório.

 Tudo isso há muito tempo se passou, recordo,
E outra vez o farei, mas considerai
Isto considerai
Isto: percorremos toda aquela estrada
Rumo ao Nascimento ou à Morte? Um nascimento, é certo,
Tínhamos prova, não dúvidas. Nascimento e morte contemplei,
Mas os pensara diferentes; tal Nascimento era, para nós,
Amarga e áspera agonia, como a Morte, nossa morte.
Regressamos às nossas plagas, estes Reinos,
Porém aqui não mais à vontade, na antiga ordem divina,
Onde um povo estranho se agarra aos próprios deuses.
Uma outra morte me será bem-vinda.

Trad.: Ivan Junqueira

Journey of the Magi

 “A cold coming we had of it,
Just the worst time of the year
For a journey, and such a long journey:
The ways deep and the weather sharp,
The very dead of winter.”
And the camels galled, sore-footed, refractory,
Lying down in the melting snow.
There were times we regretted
The summer palaces on slopes, the terraces,
And the silken girls bringing sherbet.
Then the camel men cursing and grumbling
And running away, and wanting their liquor and women,
And the night-fires going out, and the lack of shelters,
And the cities hostile and the towns unfriendly
And the villages dirty and charging high prices:
A hard time we had of it.
At the end we preferred to travel all night,
Sleeping in snatches,
With the voices singing in our ears, saying
That this was all folly.

 Then at dawn we came down to a temperate valley,
Wet, below the snow line, smelling of vegetation;
With a running stream and a water-mill beating the darkness,
And three trees on the low sky,
And an old white horse galloped away in the meadow.
Then we came to a tavern with vine-leaves over the lintel,
Six hands at an open door dicing for pieces of silver,
And feet kicking the empty wine-skins.
But there was no information, and so we continued
And arriving at evening, not a moment too soon
Finding the place; it was (you may say) satisfactory.

 All this was a long time ago, I remember,
And I would do it again, but set down
This set down
This: were we led all that way for
Birth or Death? There was a birth, certainly,
We had evidence and no doubt. I had seen birth and death,
But had thought they were different; this Birth was
Hard and bitter agony for us, like Death, our death.
We returned to our places, these Kingdoms,
But no longer at ease here, in the old dispensation,
With an alien people clutching their gods.
I should be glad of another death.

Blas de Otero – Ímpeto

Mas nem tudo há de ser ruína e vazio
E nem tudo escombro ou descongelação.
Por cima deste ombro levo o céu,
e por cima deste outro, um vasto rio

de entusiasmo. E meu corpo no meio,
árvore luzente gritando do chão.
E, entre raízes mortais, sofreguidão,
meu coração desperto, raio sombrio.

Somente o anseio me vence. Mas avanço
sem duvidar, sobre abismos infinitos,
com a mão estendida: se não alcanço

com minha mão, hei de alcançar com gritos!
e sigo, sempre, de pé, e assim, me lanço
às águas dos apetites que habito.

Trad.: Nelson Santander

Ímpetu

Mas no todo ha de ser ruina y vacío.
No todo desescombro ni deshielo.
Encima de este hombro llevo el cielo,
y encima de este otro, un ancho río

de entusiasmo. Y, en medio, el cuerpo mío,
árbol de luz gritando desde el suelo.
Y, entre raíz mortal, fronda de anhelo,
mi corazón en pie, rayo sombrío.

Sólo el ansia me vence. Pero avanzo
sin dudar, sobre abismos infinitos,
con la mano tendida: si no alcanzo

con la mano, ¡ya alcanzaré con gritos!
y sigo, siempre, en pie, y así, me lanzo
al mar, desde una fronda de apetitos.