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Juan Vicente Piqueras – Visível e Invisível

(Para os amigos que ainda estão vivos, mas desapareceram, onde quer que estejam, com um abraço póstumo) As pessoas tendem a desaparecer. Um dia te fazem rir e no seguinte já não estão. Um dia te ligavam todos os diaspara saber como estavas,e agora já nem te lembras de suas vozes. Um dia disseram sempree sempre acabou…
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Fernando Assis Pacheco – Tentas, de longe

Tentas, de longe, dizer que estás aqui. Com peso triste caminha na rua o Outono. O meu coração debruça-se à janela a ver pessoas e carros, e as folhas caindo. Mastigo esta solidão como quando era pequeno e jantava diante dos pais zangados: devagar, ausente.
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Sharon Olds – Uma semana depois

Uma semana depois, eu disse a um amigo: acho quenunca poderia escrever sobre isso.Talvez daqui a um ano eu consiga escrever alguma coisa.Há algo em mim que talvez algumdia possa ser escrito; por ora está dobrado, e redobrado,como um bilhete da escola. E em meu sonhoalguém jogava jacks, e no ar havia umjack arremessado, enorme,…
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William Stafford – Uma cópia de arquivo

Deus tira seu retrato: não desvie o olhar –agora, neste quarto, seu rosto inclinadoexatamente como é, antes de você pensarou controla-lo. Vá em frente, deixe-se trair portodas as urgências secretas e ainda mantenhaaquele disfarce parcial que você chama de caráter. Mesmo o seu lábio, dizem, o modo como ele arqueiaou não, ou hesita, entregarávolumes de…
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Dylan Thomas – Poema de outubro

Era o meu trigésimo ano rumo ao céu Quando chegou aos meus ouvidos, vindo do porto e do bosque ao lado, E da praia empoçada de mexilhões E sacralizada pelas garças O aceno da manhã Com as preces da água e o grito das gralhas e gaivotas E o chocar-se dos barcos contra o muro…
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Carlos Drummond de Andrade – A flor e a náusea

Preso à minha classe e a algumas roupas, Vou de branco pela rua cinzenta. Melancolias, mercadorias espreitam-me. Devo seguir até o enjoo? Posso, sem armas, revoltar-me? Olhos sujos no relógio da torre: Não, o tempo não chegou de completa justiça. O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera. O tempo pobre, o…
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Czeslaw Milosz – Onde quer que esteja

Onde quer que esteja, em qualquer lugar na Terra, escondo dos outros a certeza de que n ã o s o u d a q u i. Como se tivesse sido enviado para absorver o máximo das cores, sons, cheiros, sabores, provar de tudo o que é reservado ao Homem, converter o vivido num registo…
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Nicanor Parra – Último brinde

Querendo ou não,só temos três alternativas:o ontem, o presente e o amanhã. E nem sequer três,pois, como diz o filósofo,ontem é ontem,é nosso apenas na memória:à rosa que já se desbastounão se pode arrancar outra pétala. As cartas por jogarsão apenas duas:o presente e o dia de amanhã. E nem sequer duas,porque é um fato…
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Jorge Valdés Díaz-Vélez – Ishmar

para Martha Iga A maneira de pentear-te nua diante do espelho úmido do banheiro, de prender na palma teus cabelos para fazer correr a água e de agachar-te no meio de palavras que não entendo; o ato de secar tua pele, a forma de sentir com os dedos uma ruga que ontem não estava, ou…
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Lisel Mueller – Quando me perguntam

Quando me perguntamcomo comecei a escrever poesia,eu falo da indiferença da natureza. Foi logo depois que minha mãe faleceu,um dia radiante de junhoem que tudo florescia. Sentei-me em um banco de pedra acinzentadoem um jardim carinhosamente cultivado,mas os lírios eram tão surdosquanto os bêbados adormecidose as rosas curvadas para dentro.Nada estava enlutado ou quebrado,nem uma…