Eles deslocam a terra com pequenas espátulas e pincéis e por toda a semana as focas entoam um refrão desolado como se fosse para você. Primeiro, o pé de uma pequena criança, movimentos lentos do pincel em seus ossinhos, sua forma na vala ganhando definição, um lento nascimento no canto do campo à beira da água.
Você está deitado de lado, os joelhos puxados contra o peito os finos ossos de seus braços segurando-se sem as mãos sua pesada cabeça inclinada para baixo em direção ao seu corpinho, uma vírgula na terra, como uma imagem de ultrassom do útero da terra onde você permaneceu agachado por anos.
Ao lado de sua caixa torácica, uma solitária conta de vidro azul, de sua orelha, um anel de bronze, suas prendas de sepultura. Se flores e ervas embalaram sua cabeça, elas agora são pó. Alguém o trouxe aqui e o deitou cuidadosamente, sua morte, um segredo, sua história, enterrada.
Na baía da lua na ponta de terra onde o encontraram os monturos estratificados se estendem em camadas temporais, como anéis de crescimento. Agora é nossa vez na superfície do tempo você e sua conta enterrada, a pré-história, antes que houvesse palavras escritas para lembrar. Uma sequência de dentes-de-leite ao longo do osso de sua mandíbula e e os brotos para os dentes permanentes indicam sua idade. Você tem dezoito meses.
Seus ossos no monturo são um mistério As pessoas da Idade do Ferro não enterravam seus mortos os corpos eram deixados ao vento, ou aos lobos ou às águas. Mas não você. Talvez tocando suas frias bochechas sua mãe não pode abandonar seu corpo para a noite, e para cá, onde a terra se projeta em direção ao mar e a maré se move, um lugar que ela poderia encontrar novamente, ela o trouxe.
Trad.: Nelson Santander
Crouched Burial
They move the earth with small trowels and brushes and all week the seals sing a desolate chorus as if for you. First a small child’s foot slow sweeps of the brush across your small bones, your shape in the ditch, taking definition, a slow birth in the corner of the field by the water’s edge.
You are lying on your side knees pulled into your chest the thin bones of your arms holding yourself without your hands your heavy head bent low toward your small body, a comma in the earth, like an ultra sound picture of the earth’s womb where you lay crouched for years.
Beside your ribcage, a single blue glass bead for your ear a bronze ring, your grave gifts. If flowers and herbs cradled your head, they are dust now. Someone brought you here and laid you down with care your death a secret, your story buried.
In the moon bay at the edge of earth where they found you the midden’s shelves layer time, like growth rings. Now is our turn on the surface of time you and your buried bead, prehistory, before there were written words to remember with. A sequence of milk teeth along the bone of your jaw and the buds to permanent ones spell your age. You are eighteen months old.
Your bones in the midden are a mystery Iron Age people didn’t bury their dead bodies were left to wind, or wolves or water. But not you. Perhaps touching your cold cheek your mother could not abandon your body to the night and here, where the land juts out toward the sea and the tide moves, a place she might find again, she brought you.
No castelo da Bela Adormecida o relógio bate cem anos e a garota na torre volta ao mundo. O mesmo ocorre com os criados na cozinha, que nem sequer esfregam os olhos. A mão direita do cozinheiro, levantada há exatamente um século, completa seu arco descendente até a orelha esquerda do ajudante de cozinha; as tensas cordas vocais do garoto libertam finalmente o sofrido lamento aprisionado, e a mosca, capturada no meio de um salto acima da torta de morango, cumpre sua missão permanente e mergulha no doce e vermelho esmalte.
Quando criança, eu tinha um livro com uma gravura dessa cena. Eu era muito jovem para perceber como o medo persiste, e como o ódio que provoca o medo persiste, que sua trajetória não pode ser alterada ou rompida, apenas interrompida. Minha atenção estava na mosca; no fato de que este corpo leve com suas asas transparentes e o tempo de vida de um dia humano ainda ansiava por sua cota particular de doçura, um século depois.
Trad.: Nelson Santander
Immortality
In Sleeping Beauty’s castle the clock strikes one hundred years and the girl in the tower returns to the world. So do the servants in the kitchen, who don’t even rub their eyes. The cook’s right hand, lifted an exact century ago, completes its downward arc to the kitchen boy’s left ear; the boy’s tensed vocal cords finally let go the trapped, enduring whimper, and the fly, arrested mid-plunge above the strawberry pie, fulfills its abiding mission and dives into the sweet, red glaze.
As a child I had a book with a picture of that scene. I was too young to notice how fear persists, and how the anger that causes fear persists, that its trajectory can’t be changed or broken, only interrupted. My attention was on the fly; that this slight body with its transparent wings and lifespan of one human day still craved its particular share of sweetness, a century later.
Está começando a chover? O cheque foi devolvido? Estamos sem café? Vai doer? Você pode perder seu emprego? O vidro quebrou? A bagagem foi extraviada? Vai ficar na minha ficha? Você está perdendo muito dinheiro? Alguém ficou ferido? O trânsito está pesado? Eu tenho que tirar minhas roupas? Vai deixar uma cicatriz? Você tem que ir? Isso sairá nos jornais? Meu tempo já acabou? Veremos o substituto? Afetará a minha visão? Todos os livros foram queimados? Você ainda fuma? O osso está quebrado? Terei que coloca-lo para dormir? O carro foi destruído? Sou responsável por essas despesas? Você tem alguma doença contagiosa? Teremos que esperar muito? A pista está congelada? A arma estava carregada? Isso pode causar efeitos colaterais? Você sabe quem a traiu? A ferida está infeccionada? Estamos perdidos? Vai piorar?
Trad.: Nelson Santander
Afraid so
Is it starting to rain? Did the check bounce? Are we out of coffee? Is this going to hurt? Could you lose your job? Did the glass break? Was the baggage misrouted? Will this go on my record? Are you missing much money? Was anyone injured? Is the traffic heavy? Do I have to remove my clothes? Will it leave a scar? Must you go? Will this be in the papers? Is my time up already? Are we seeing the understudy? Will it affect my eyesight? Did all the books burn? Are you still smoking? Is the bone broken? Will I have to put him to sleep? Was the car totaled? Am I responsible for these charges? Are you contagious? Will we have to wait long? Is the runway icy? Was the gun loaded? Could this cause side effects? Do you know who betrayed you? Is the wound infected? Are we lost? Will it get any worse?
Eu tento ver o panorama geral. O sol, língua ardente que nos lambe como uma mãe encantada
por sua nova cria, se consumirá. Tudo é transitório. Pense no meteoro
que aniquilou os dinossauros. E antes disso, nos vulcões do Permiano — todas aquelas samambaias
e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados — que foram extintos em uma escala que faz com que nossas perdas pareçam um dia difícil no caça-níqueis.
E talvez estejamos destinados a evoluir para algum tipo de inteligência que não precisa de corpos, ou água potável, ou mesmo de ar.
Mas não consigo deixar de me afligir pelos últimos seiscentos Linces-ibéricos com suas orelhas tufadas,
pelos Peixes-viola brasileiros, os 4 porcento deles ainda pervagando o leito oceânico, olhos fixos no alto.
E por todos os marsupiais recém-nascidos — Cangurus-vermelhos com filhotes do tamanho de abelhas — Trutas-arco-íris, Botos-cor-de-rosa,
e pelas muitas espécies de sapos respirando através de suas úmidas membranas permeáveis.
Hoje, no ônibus, uma mulher em um suéter do tom exato dos cardeais, e sua alça de sutiã carmesim, exposta
em sua pálida espádua, fez-me sofrer por aqueles brilhantes flashes na neve. E pelos ursos polares, o creme e o âmbar
de seus pelos, o longo, oco pelame pelo qual o sol desliza, engolido em sua pele escura. Quando cheguei em casa,
meu filho estava com dor de cabeça e, embora ele esteja quase crescido, pediu-me que lhe cantasse uma canção. Deitamos juntos no sofá irregular
e me pus a cantarolar as velhas melodias, “Night and Day”. . . “They Can’t Take That Away from Me.”. . . Uma corrente de prata vulgar cintilava em seu pescoço,
subindo e descendo com sua pulsação. Nunca houve outra coisa. Apenas estas dolorosamente insignificantes criaturas que amamos.
Trad.: Nelson Santander
The big picture
I try to look at the big picture. The sun, ardent tongue licking us like a mother besotted
with her new cub, will wear itself out. Everything is transitory. Think of the meteor
that annihilated the dinosaurs. And before that, the volcanoes of the Permian period — all those burnt ferns
and reptiles, sharks and bony fish — that was extinction on a scale that makes our losses look like a bad day at the slots.
And perhaps we’re slated to ascend to some kind of intelligence that doesn’t need bodies, or clean water, or even air.
But I can’t shake my longing for the last six hundred Iberian lynx with their tufted ears,
Brazilian guitarfish, the 4 percent of them still cruising the seafloor, eyes staring straight up.
And all the newborn marsupials — red kangaroos, joeys the size of honeybees — steelhead trout, river dolphins,
so many species of frogs breathing through their damp permeable membranes.
Today on the bus, a woman in a sweater the exact shade of cardinals, and her cardinal-colored bra strap, exposed
on her pale shoulder, makes me ache for those bright flashes in the snow. And polar bears, the cream and amber
of their fur, the long, hollow hairs through which sun slips, swallowed into their dark skin. When I get home,
my son has a headache and, though he’s almost grown, asks me to sing him a song. We lie together on the lumpy couch
and I warble out the old show tunes, “Night and Day”. . . “They Can’t Take That Away from Me.”. . . A cheap silver chain shimmers across his throat,
rising and falling with his pulse. There never was anything else. Only these excruciatingly insignificant creatures we love.
Com que calma você
finalmente aparece no vale,
sua primeira luz solar descendo
para apalpar as pontas de algumas
folhas altas que não se mexem
como se não o tivessem notado
e não o conhecessem direito
em seguida a voz isolada de uma pomba
chama de muito longe
para a quietude da manhã
então é assim que você soa
aqui e agora haja ou não
alguém ouvindo é aqui
que chegamos com nossa experiência
nosso conhecimento tal como ele é
e nossas esperanças tal como elas são
invisíveis perante nós
intocadas e ainda possíveis
Trad.: Nelson Santander
To the New Year
With what stillness at last
you appear in the valley
your first sunlight reaching down
to touch the tips of a few
high leaves that do not stir
as though they had not noticed
and did not know you at all
then the voice of a dove calls
from far away in itself
to the hush of the morning
so this is the sound of you
here and now whether or not
anyone hears it this is
where we have come with our age
our knowledge such as it is
and our hopes such as they are
invisible before us
untouched and still possible
Meu xará Nelson Motta costuma afirmar, sem firulas, que a música americana é a melhor do mundo. O jornalista, compositor, escritor, roteirista, produtor musical, teatrólogo e letrista paulista radicado no Rio de Janeiro dispensa apresentações: sua extensa produção em todos os quadrantes da atividade musical – da produção à composição, passando pela crítica e história da música – lhe conferem um certo estatuto privilegiado para falar sobre o tema. Se ele diz que a música americana é a melhor do planeta, não sou eu quem irá contradita-lo.
É uma afirmação ousada, concordo. Afinal, todo país conta com artistas capazes de engendrar uma gama de produções artísticas de alta qualidade. Mas não dá para negar que, por uma série de razões (que vão da riqueza econômica do país mais rico do planeta à diversidade cultural que se verifica entre as diversas regiões do país, passando por um sistema educacional que incentiva as atividades voltadas às artes), a produção cultural americana é farta e diversificada. Em um ambiente assim, quase darwiniano, é enorme a possibilidade de que novos artistas talentosos possam surgir. Por sua visibilidade, o campo musical é onde essa profusão se revela com maior clareza: do rock ao jazz, do country à música clássica, do pop ao blues, não há nenhuma forma de expressão musical que os americanos não dominem com maestria. Nos estilos mais populares – mesmo no pop -, melodias sofisticadas costumam vir de par com letras muito bem escritas.
É o caso da pequena pérola chamada This Year, do The White Buffalo – nome artístico do cantor compositor americano Jake Smith -, que publiquei pela primeira vez no blog há dois anos, e à qual eu sempre retorno nos finais de ano. Pouco conhecido do público brasileiro – e mesmo do grande público americano -, Jake Smith já tem uma sólida carreira musical, iniciada com o lançamento de seu primeiro álbum – Hogtied Like a Rodeo – em 2002. Os fãs da série Sons of Anarchy talvez o conheçam porque várias canções interpretadas (e algumas compostas) por ele fizeram parte da trilha sonora do seriado (“Come Join The Murder”, “Matador”, “Damned”, “Wish It Was True”, “House of the Rising Sun” (com os The Forest Rangers), “The Whistler”, “Set My Body Free”, “Sweet Hereafter”, “Oh Darling, what have I done” e “Bohemian Rhapsody” (também com os The Forest Rangers).
Para alguém que topa com o seu trabalho pela primeira vez, duas coisas impressionam: primeiro, o vozeirão e a técnica vocal do cara. Realmente, é assombroso como ele canta bem. E segundo, a qualidade das suas canções. Influenciado por dois gêneros aparentemente inconciliáveis – o country (o estilo musical favorito de seus pais) e o punk rock, mais rock, soul, folk, blues – suas melodias são belas e variadas. Muitas vezes, imprevisíveis. Sobre suas letras, o artista costuma dizer que, por apreciar “músicas realmente honestas”, como as de Bob Dylan, Leonard Cohen, Elliot Smith e Kris Kristofferson, seu objetivo ao escrever é sempre abordar os temas “de uma forma real, de uma forma honesta”:
“Eu entro em cada personagem e o empurro o mais longe que posso. Por exemplo, “If I Lost My Eyes” é uma canção do novo álbum (ele se refere ao álbum de 2019, “Darkest Darks, Lightest Lights”), é muito sombria e baseada na ideia de que se você perder suas faculdades mentais, seu companheiro ficará com você, ele preencherá esse vazio?” (https://www.musicradar.com/news/the-white-buffalo-youre-just-trying-to-hit-people-in-the-heart-with-songs)
This Year é a nona canção do álbum Shadows, Greys & Evil Ways (um puta álbum, diga-se de passagem). Trata-se de um folk-rock cuja melodia e arranjos seguem, em termos de cadência e força, a história contada na letra, emprestando à canção um sentido mais completo. A letra acompanha por um ano a história da vida de um típico looser americano. Jake Smith se vale da passagem das estações (inverno, primavera, verão, outono e inverno novamente) para indicar o estado de espírito do personagem que conta sua história em primeira pessoa.
O ciclo se inicia com a virada do ano (que ocorre no inverno norte-americano). A força do compositor já pode ser sentida nos primeiros versos que, embora descrevam a euforia típica que toma conta das pessoas nas festas de fim de ano, revelam que se trata de uma falsa felicidade – pelo menos do ponto de vista do personagem que fala de si e de suas agruras. Sob esse aspecto, são reveladoras, nessa primeira parte, os versos “O ano novo veio com o mesmo velho elenco”, “Nós dançamos e bebemos como se ele fosse o último” e “Vamos nos concentrar nesta noite única / E apenas torcer para que cheguemos em casa vivos”.
Com a chegada da primavera – que marca, psicologicamente, o início efetivo do ano dos EUA após a temporada de inverno -, o personagem parece se animar. Para demonstrar o novo estado de espírito do homem, o compositor enfileira versos que, sem explicitar a leveza de espírito do personagem, mostram que ele está atento ao que ocorre ao seu redor:
Os dias ficam mais longos, e as noites mais curtas A mãe acorda um pouco mais radiante do que antes O gelo derrete e os jardins florescem O ar fresco e os campos são adoráveis A grama e os narcisos fazem cócegas em nossos pés As flores, elas desabrocham e os pássaros, eles cantam Preenchendo o dia com as melodias que eles produzem
Mas nosso depressivo personagem, embora perceba a beleza da nova estação, não se deixa afetar muito por ela. Conquanto flores e pássaros cantem na sua frente, ele não sente “mais vontade de cantar”, pois, para ele “as estações mudam”, mas ele não muda “em nada”. De toda forma, mesmo consciente de estar sujeito a erros e acertos, ele acredita ser possível “melhorar” e ser “diferente” no ano que se inicia.
O verão é a única estação do ano em que o personagem parece se livrar de seu estado depressivo e acreditar que tudo pode realmente mudar para melhor. É o que ele afirma, peremptoriamente e não sem uma ponta de desconfiança, após descrever como as pessoas e coisas se comportam na estação do ano mais alegre:
Oh, o futuro, o futuro parece promissor Eu até acho que posso acertar tudo, afinal
Mas chega, então, o “melancólico outono”, soprando “para longe os ventos do verão”. A metáfora não é gratuita. A chegada do outono que expulsa o verão marca o início da derrocada anual do personagem. Jake Smith se vale como nunca dos efeitos causados pelo outono no clima e na natureza para explicitar os dramas internos e externos enfrentados pelo personagem. “As folhas caem das árvores” e ele percebe que nunca mais as verá novamente – constatando que a fase boa de sua vida naquele ano já acabou. O personagem então diz que é hora de se recolher, “ficar dentro de casa”. Os próximos versos – terríveis – também usam as mudanças típicas sofridas pela natureza no outono americano para demonstrar com toda força o grau de devastação interna do personagem:
Sem flores, nem frutos, e os gramados todos morrem Como pode tudo desmoronar tão rápido? E por que eu achei que iria durar? Quando tudo está morrendo, como eu posso me sentir vivo? Oh, a vida é curta, e todos os dias bons desapareceram
O personagem constata então que talvez esteve “perdido” até aquele momento. Com o restinho de forças que lhe restam, ainda tem a esperança de que talvez possa se encontrar no ano que já vai terminando.
Mas então chega o inverno, a mais terrível das estações para um depressivo. O personagem, que havia se recolhido dentro de casa no outono, é dela arrancado à força pelo inverno, que lhe “derruba a porta” e faz o seu sangue fluir. Ao contrário do que acontecia na primavera (Os “dias ficam mais longos, e as noites mais curtas”), agora os “dias são muito curtos e as noites muito longas”. O natal está próximo, mas não traz felicidade nenhuma, até porque, “todo o dinheiro se foi”, sem que o personagem saiba “para onde”: “O natal não é fácil quando você não pode pagar o aluguel”. É quando “as luzes se apagam para uma noite infeliz”*. À essa altura, embora o personagem saiba que não pode desistir (pois “tudo o que você pode fazer é persistir na luta”), ele tem a plena consciência de que já perdeu o jogo. E de lavada. E sabe que não tem mais tempo para reverter o resultado:
Oh, a vida é dura, eu tenho lutado: um fracasso. Talvez eu tenha estado perdido Não acho que eu irei me encontrar Este ano
Os versos finais da canção são um verdadeiro exercício de resignação e, surpreendentemente, de esperança. Ele de novo reconhece seus erros e acertos e renova a esperança de que talvez consiga melhorar e de que pode ser que o ano seja diferente. Mas não esse, que acabou. O próximo. A sacada de Jake Smith, aqui, é repetir quase que integralmente o verso em que ele anunciava que o ano que se iniciava talvez pudesse ser diferente para melhor (“Maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, this year”), alterando apenas uma palavra: this é substituída por next. Com isso, o personagem promove o realinhamento de sua vida fracassada com o ano que se inicia, na esperança de que neste ano novo tudo possa melhorar – evidenciando, portanto, o caráter circular da letra da canção.
Publiquei pela primeira vez o vídeo legendado desta canção (com alguns erros de tradução, devidamente corrigidos abaixo) no dia 31 de dezembro de 2018. O vídeo vinha acompanhado do seguinte texto:
Acho que toda mensagem de “Feliz Ano Novo” se resume à ideia contida na letra desta música: tente melhorar sempre e sempre. Se não der, tente de novo no ano que vem. E no outro. E no outro. Uma hora dá certo. Ou não.
Feliz 2019!
Dois anos depois, em 31 de dezembro de 2020 – o grande ano da peste – continuo pensando desta forma. Só que hoje estou bem menos esperançoso.
Feliz 2021! Se você conseguir.
* N. do T.: o verso original é assim: And the lights go out to a silent night. Silent Night é o nome de uma das canções natalinas mais conhecidas em todo o planeta. No Brasil, ela foi conhecida por Noite Feliz. Traduzido literalmente, o verso original ficaria mais ou menos assim: E as luzes se apagam para uma noite silenciosa. Para tentar aproveitar o efeito poético da paráfrase usada pelo compositor, também me vali do título em português da canção, mas invertendo o adjetivo de feliz para infeliz, o que, acredito, não afetou o sentido original pretendido pelo autor da canção).
Para quem quiser conhecer mais do trabalho do The White Buffalo, seguem alguns links interessantes:
O canal oficial do artista no Youtube (no qual, dentre outros materiais, periodicamente ele publica uns vídeos divertidíssimos da série “In the garage”, gravados literalmente na garagem da casa dele): https://thewhitebuffalo.com/
Outro ano mais velho, ele veio e se foi O sangue, as lágrimas e o dinheiro gasto O ano novo veio com o mesmo velho elenco Nós dançamos e bebemos como se ele fosse o último Agitando e esperando que a contagem regressiva comece Em câmara lenta, do dez até o um Um beijo e os fogos de artifício iluminam o céu Caindo aos pedaços durante a “Auld Lang Syne” Vamos nos concentrar nesta noite única E apenas torcer para que cheguemos em casa vivos
A terra gira, a primavera se precipita Os dias ficam mais longos, e as noites mais curtas A mãe acorda um pouco mais radiante do que antes O gelo derrete e os jardins florescem O ar fresco e os campos são adoráveis A grama e os narcisos fazem cócegas em nossos pés As flores, elas desabrocham e os pássaros, eles cantam Preenchendo o dia com as melodias que eles produzem E eu não sinto mais vontade de cantar As estações mudam, mas eu não mudo em nada Bem, eu errei, eu acertei Isso está claro Talvez eu consiga melhorar Talvez eu seja diferente Este ano
Ooh, lá vem o verão, ele vem quente Sem camisa, nada de escola, dê a ele tudo o que você tem O sol, ele chama, então vamos para fora Brindar com nossas bebidas ao sol quente O asfalto arde nas ruas da cidade É melhor você se apressar ou irá queimar seus pés Se atirando na água, espirrando e gritando Amor e riso o suficiente para um e para todos Oh, o futuro, o futuro parece promissor Eu até acho que posso acertar tudo, afinal
Melancólico outono sopra para longe os ventos do verão As folhas caem das árvores, nunca as verei novamente Como brasas, elas flutuam pelas ruas Dourada e vermelha dança que se repete Bem, agora é fechar as cortinas Vamos ficar dentro de casa Sem flores, nem frutos, e os gramados todos morrem Como pode tudo desmoronar tão rápido? E por que eu achei que iria durar? Quando tudo está morrendo, como eu posso me sentir vivo? Oh, a vida é curta, e todos os dias bons desapareceram Talvez eu tenha estado perdido Talvez eu me encontre Este ano
Bem, o inverno e o frio chegam com a tempestade Derrubam a porta e seu sangue flui Os dias são muito curtos e as noites muito longas Os corais de natal aparecem, eu não consigo cantar junto Oh, todo o dinheiro se foi, não sei para onde O natal não é fácil quando você não pode pagar o aluguel E as luzes se apagam para uma noite infeliz E tudo o que você pode fazer é persistir na luta E eu simplesmente não consigo ver o errado E eu simplesmente não consigo ver o correto Oh, a vida é dura, eu tenho lutado: um fracasso. Talvez eu tenha estado perdido Não acho que eu irei me encontrar Este ano
Bem, eu errei, eu acertei Isso está claro. Mas talvez eu consiga melhorar Talvez seja diferente No próximo ano
Trad.: Nelson Santander
The White Buffalo – This Year
Another year older, it came and went Blood and the tears and the money spent The new year’s here with the same old cast We dance and we drink like it may be our last Buzzin’ waitin’ for the countdown to come Feels like slow motion from ten to one A kiss and the fireworks light the sky Falling apart over Auld Lang Syne Let’s focus on this night alone Just hope that we’d make it home alive The Earth it turns, spring rushes in Days get longer and nights go thin Mother wakes up a little brighter than before Cold melts away and the gardens grow The air is crisp and fields are sweet Grass and the daffodils tickling our feet Flowers they bloom and the birds they sing Fill up the day with the songs they bring And I don’t feel much like singing at all Seasons change but I don’t change at all Well I’ve done wrong, well I’ve done right, that’s clear Maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, this year Ooh, here comes summer, well it’s comin’ in hot No shirt, no school, give it all you got The sun, it calls so let’s go outside Toastin’ our drinks in the warm sunshine The asphalt smoulders in the city streets You better run fast or you’re gonna burn your feet Splashin’ and yellin’ the cannonball Enough love and laughter for one and all Oh the future’s, future’s looking bright I think that I might get it right after all Moody autumn blows in off a summer wind Leaves fall off of the trees, never see them again Like embers they float into the streets Golden and red dance repeat Well it’s close of the curtains, let’s stay inside No flower, no fruit and the lawns all die Well how could it all fall apart so fast And why would I think it would ever last? When everything is dying, well, how can I feel alive? Oh, life is short, well all good days disappear Maybe I’ve been lost, maybe I’ll get found, this year Well the winter and the cold come storming in Kicks down the door and your blood runs thin Day’s too short and the night’s too long Carolers came, I can’t sing along Oh money’s all gone, don’t know where it went Christmas ain’t easy when you can’t pay the rent And the lights go out to a silent night And all you can do is just stay in the fight And I just can’t see the wrong, and I just can’t see the right Oh, life is hard, I’ve been fighting, a failure Maybe I’ve been lost, don’t think I’ll get found, this year Well I’ve done wrong, well I’ve done right, that’s clear But maybe I’ll get better, maybe I’ll be different, next year
Chega de ósseos e pássaro e girassol e calçados de neve, bordo e brotos, sâmara e sementes, chega de chiaroscuro, chega de portanto e profecia e estoicos estancieiros e fé e pai nosso e acima de todos, chega de parças e peito*, tez e deus que não esquece e corpos estelares e pássaros congelados, chega de vontade de prosseguir e de vontade de desistir ou de como uma certa luz faz a coisa certa, chega de ajoelhar e de levantar e de olhar para dentro e para cima, chega de armas, drama e suicídio de conhecido, a carta há muito perdida na cômoda, chega do desejo e do ego e da obliteração do ego, chega de mãe e filho e pai e filho e chega de apontar para o mundo, exausta e desesperada, chega de brutalidade e de fronteiras, chega de você pode me ver?, você pode me ouvir? chega de eu sou humana, chega de eu estou sozinha e desesperada, chega de animal me salvar, chega de faça chuva**, chega de sofrimento, chega do ar e seu alívio, estou pedindo que você me toque.
Trad.: Nelson Santander
* N. do T.: A expressão “tis of thee” foi retirada da tradicional canção patriótica americana “America (My Country, Tis of Thee)” (algo como “América (O meu país é o teu)”), composta em 1831. Logo na sequência temos o verso “enough of bosom and bud”. Em inglês, “bosom of buddy” significa, literalmente, “amigo do peito”. A alusão a uma canção patriótica seguida de duas palavras que, juntas, formam a expressão “amigo do peito” em um (anti)poema que versa sobre a negativa catártica, em tempos pandêmicos, de tudo o que é exagerado, obtuso, anti-poético e também poético, mas também inalcançável – inclusive a própria linguagem poética, não me pareceu um acaso. Assim, uma das interpretações possíveis desses versos é a de que o poema faz uma menção crítica ao suposto relacionamento secreto e promíscuo entre Trump e Putin. Aqui cabe uma observação. Segundo Gabriel Perissé, “o artista nos educa sem se preocupar com resultados pedagógicos ou técnicas didáticas. O resultado que ele procurava era, fundamentalmente, produzir a obra, levar ao fim o seu plano, por mais vago que estivesse em sua cabeça. Concluída a obra, nada mais poderá fazer. Ainda que deseje, não poderá prever ou alterar as consequências do trabalho pronto e entregue à sensibilidade… ou à falta de sensibilidade dos seus semelhantes. A obra de arte não pertence mais ao artista, no sentido de que será livremente acolhida e interpretada por outras pessoas. O leitor será coautor. (…) Vencendo passividades e inércias, quem se aproxima da obra de arte, torna-se autor de sua interpretação e, de certo modo, recriador da obra (…)”.
Assim, ainda que não seja aquela a melhor interpretação deste trecho do poema, a deixa é convidativa demais para que eu não a aproveite. Assim, optei por traduzir (não sem uma ponta de satisfação) “and tis of thee” por “acima de todos”. Minha versão obviamente faz referência ao conhecido slogan do governo Jair Bolsonaro (“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”). Se de fato o poema, nesse trecho, quis fazer uma crítica à promiscuidade entre religião e política que marca o governo conservador de Donald Trump, minha versão faz o mesmo, só que ao governo Bolsonaro que, para além da hipocrisia carola que é uma de suas características mais marcantes, tem o apoio incondicional da chamada Bancada da Bíblia. Tendo optado por tal caminho, não fica difícil intuir porque traduzi o verso seguinte (“enough of bosom and bud”) por “chega de parças e peito”: além de, como ocorre no verso original, tentar emprestar um sentido poético a uma gíria (“bosom of buddy”, em inglês e “parça”, em português), é um fato incontestável que Bolsonaro se julga um grande amigo de Donald Trump (a quem, certa feita, chegou a dirigir um discreto “i love you”). Não sei se a recíproca é verdadeira, mas para Bolsonaro, ele e Trump seriam verdadeiros “parças”, amigões mesmo do peito.
A tradução, portanto, promove o deslocamento do sentido original do poema (sempre na pressuposição de que foi essa a intenção da poeta), que faz referência à parceria Trump-Putin, substituindo o presidente russo pelo brasileiro. Os contextos geopolíticos e a dinâmica desses relacionamentos são evidentemente distintas. Trump parece nutrir por Putin uma admiração que não dispensa ao presidente brasileiro. O relacionamento Trump/Putin é marcado pela simetria e equilíbrio de forças, algo muito distante da sabujice e subserviência de Bolsonaro em relação ao presidente americano. Todavia, a mudança de foco não altera o sentido geral do poema e, com vantagem para o seu entendimento em terras tupiniquins, adapta-o para a nossa realidade. Assim, o mesmo grito de “chega” que o poema parece dirigir a Donald Trump é despejado, em português, em Jair Bolsonaro. Chega mesmo.
** No contexto do poema, a frase “enough of the high water” parece se referir ao ditado americano que diz: “Come Hell Or High Water”. Em português, esse ditado pode ser traduzido por “aconteça o que acontecer” ou pelo popular “faça chuva ou faça sol”, do qual aproveitei a primeira sentença.
The end of poetry
Enough of osseous and chickadee and sunflower and snowshoes, maple and seeds, samara and shoot, enough chiaroscuro, enough of thus and prophecy and the stoic farmer and faith and our father and tis of thee, enough of bosom and bud, skin and god not forgetting and star bodies and frozen birds, enough of the will to go on and not go on or how a certain light does a certain thing, enough of the kneeling and the rising and the looking inward and the looking up, enough of the gun, the drama, and the acquaintance’s suicide, the long-lost letter on the dresser, enough of the longing and the ego and the obliteration of ego, enough of the mother and the child and the father and the child and enough of the pointing to the world, weary and desperate, enough of the brutal and the border, enough of can you see me, can you hear me, enough I am human, enough I am alone and I am desperate, enough of the animal saving me, enough of the high water, enough sorrow, enough of the air and its ease, I am asking you to touch me.
Corpo meu, agora que não viajaremos juntos por muito mais tempo, começo a sentir uma nova ternura por ti, muito crua e pouco familiar, como a lembrança que tenho do amor quando eu era jovem —
amor que foi tantas vezes tolo em seus objetivos mas nunca em suas escolhas, suas intensidades Muito exigido com antecedência para muito que não podia ser prometido —
Minha alma tem sido tão temerosa, tão violenta; perdoa sua brutalidade. Como se fosse essa alma, minha mão se move cautelosamente sobre ti,
não querendo ofender mas ansiosa, definitivamente, por alcançar expressão como substância:
não é da terra que sentirei falta, é de ti que sentirei falta.
Trad.: Nelson Santander
Crossroads
My body, now that we will not be traveling together much longer I begin to feel a new tenderness toward you, very raw and unfamiliar, like what I remember of love when I was young —
love that was so often foolish in its objectives but never in its choices, its intensities Too much demanded in advance, too much that could not be promised —
My soul has been so fearful, so violent; forgive its brutality. As though it were that soul, my hand moves over you cautiously,
not wishing to give offense but eager, finally, to achieve expression as substance:
it is not the earth I will miss, it is you I will miss.
Que fique só da minha vida
um monumento de palavras
Mas não de prata Nem de cinza
Antes de lava Antes de nada
Daquele nada que se aviva
quando se arrisca uma viagem
por entre os pântanos da ira
além do sol das barricadas
Ou quando um poço que cintila
parece o tecto de uma sala
Ou quando importa que se extinga
dentro de nós a inexacta
irradiação que vem das criptas
em que o azul nos sobressalta
em que à penumbra se diria
que se acrescenta o som das harpas
Ou quando a terra não expira
senão segredos feitos de água
Ou quando a morte nos avisa
Ou quando a vida nos agarra
Adeus ó pombas
todas iguais ante as muralhas
Adeus veredas invisíveis
que na floresta nos aguardam
Adeus ó barcos à deriva
Adeus canais Adeus guitarras
Adeus ó sílabas da brisa
Adeus sibilas ninfas cabras
tantas que a Deus se prometiam
mas só adeuses encontravam
Adeus ó deusas de partida
no meu minuto de chegada
Adeus ardentes evasivas
a ver se um pouco as demorava
Se as demorava ou demovia
de tão depressa me deixarem
Adeus ó portas clandestinas
que ao fim da tarde se entreabrem
Adeus adeus íntimas vítimas
das cerimónias implacáveis
Como deixar-vos todavia
se as vossas mãos as vossas faces
ora parecem despedir-me
ora conseguem renovar-me
E tantas tantas tantas ilhas
no mar que não nos limitasse
Como deixar-vos se na linha
deste horizonte aquela praia
tão de repente se aproxima
tão de repente se me escapa
Jorram vulcânicas as crinas
de récuas de éguas subaquáticas
Jorram do fundo. E à superfície
crescem as ilhas assombradas
Eis que de longe lembras liras
mas entre as ondas só navalhas
É quando o poeta menos grita
que mais se crê nas suas lágrimas
Fique porém de quanto sinta
um monumento de palavras
Mas não de bronze Nem de argila
E nem de cinza nem de mármore
De fumo sim Do que se infiltra
no coração das velhas máquinas
no estertor dos suicidas
no riso triste dos apátridas
no ondular das gelosias
de onde se espia a madrugada
Do fumo enfim que se eterniza
na longa insónia das estátuas
E que de nós a alma extirpa
não nos deixando nem a máscara
quando é só corpo o que nos fica
para morrer às mãos dos bárbaros
E que nos conta só mentiras
E nos aceita só verdades
Múltiplas ágeis infinitas
sejam as linhas que ele trace
como as que traça a própria vida
sem liberdade em liberdade
Adeus ó fogo Adeus raízes
que todo o fumo alimentavam
E adeus o mel Adeus urtigas
da minha terra calcinada
Adeus cortiço Adeus cortiça
Ó madrugadas inflamáveis
Já se nem sabe a que sevícias
é que por fim a boca sabe
Nem qual a sombra que improvisa
esta sonâmbula sonata
que apazigua que arrepia
que nos destrói que nos exalta
Nem qual o crime inda mais crime
se acaso chega a desvendar-se
Adeus adeus eterna esfinge
Adeus Não penses que me ultrajas
E lembro tudo o que era simples
antes do nada inevitável
Mas que do nada ao menos fique
um monumento de palavras