Juan Vicente Piqueras – Museu da Acrópole

Uma mão de mármore, mas apenas os dedos,
sobre um ombro de mármore sem cabeça.

Um braço erodido que ninguém estende a ninguém.

Um cavalo sem patas.
Um cavaleiro que é apenas suas coxas.

Dionísio aos pedaços, recomposto.

Um touro sem chifres que está sendo devorado
por um leão que lá não está,
apenas suas garras.

Admiramos o desaparecido.
Talvez nossa cultura nasça dessas ausências,
do vazio, do que não há.

Também nós somos o que resta
de nós,
o que nos falta,
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Trad.: Nelson Santander

Museo de la Acrópolis

Una mano de mármol, pero sólo los dedos,
sobre un hombro de mármol sin cabeza.

Un brazo erosionado que nadie tiende a nadie.

Un caballo sin patas.
Un jinete que es sólo sus muslos.

Dionisos a pedazos, recompuesto.

Un toro sin cuernos que está siendo devorado
por un león que no está,
sólo sus garras.

Admiramos lo desaparecido.
Tal vez nuestra cultura nace de estas ausencias,
de lo vacío, de lo que no hay.

También nosotros somos lo que queda
de nosotros,
lo que nos falta,
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Javier Salvago – Canção do Esquecimento

A cor dos olhos daquele paixão juvenil.
O calor do primeiro beijo, do qual não me
lembro, embora saiba que deva ter sido
inesquecível. Tantos colegas e amigos
da escola ou de farra, que um dia foram próximos.
O latim. Tantos nomes de montanhas e de rios.
Tantas duras lições. Tantos e tantos livros,
devorados com paixão, sempre abertos, lidos
e esquecidos, assim como esquecemos caminhos,
propósitos, feridas, afetos e afeições,
paisagens e rostos que o tempo diluiu.

Quando a vida passa, são muitas as deslembranças.

Trad.: Nelson Santander

Canción del olvido

El color de los ojos de aquel amor de niño.
El calor del primer beso, que no consigo
recordar, aunque sé que debió de haber sido
inolvidable. Tantos compañeros y amigos
de colegio o de farra, que un día fueron íntimos.
El latín. Tantos nombres de montañas y ríos.
Tantas duras lecciones. Tantos y tantos libros,
con pasión devorados, siempre abiertos, leídos
y olvidados, igual que olvidamos caminos,
propósitos, heridas, afectos y cariños,
paisajes y rostros que el tiempo ha diluido.

Cuando la vida pasa, son tantos los olvidos.

Carlos Drummond de Andrade – Véspera

Amor: em teu regaço as formas sonham
o instante de existir: ainda é bem cedo
para acordar, sofrer. Nem se conhecem
os que se destruirão em teu bruxedo.

Nem tu sabes, amor, que te aproximas
a passo de veludo. És tão secreto,
reticente e ardiloso, que semelhas
uma casa fugindo ao arquiteto.

Que presságios circulam pelo éter,
que signos de paixão, que suspirália
hesita em consumar-se, como flúor,
se não a roça enfim tua sandália?

Não queres morder célere nem forte.
Evitas o clarão aberto em susto.
Examinas cada alma. É fogo inerte?
O sacrifício há de ser lento e augusto.

Então, amor, escolhes o disfarce.
Como brincas (e és sério) em cabriolas,
em risadas sem modo, pés descalços,
no círculo de luz que desenrolas!

Contempla este jardim: os namorados,
dois a dois, lábio a lábio, vão seguindo
de teu capricho o hermético astrolábio,
e perseguem o sol no dia findo.

E se deitam na relva; e se enlaçando
num desejo menor, ou na indecisa
procura de si mesmos, que se expande,
corpóreo, são mais leves do que brisa.

E na montanha-russa o grito unânime
é medo e gozo ingênuo, repartido
em casais que se fundem, mas sem flama,
que só mais tarde o peito é consumido.

Olha, amor, o que fazes desses jovens
(ou velhos) debruçados na água mansa,
relendo a sem-palavra das estórias
que nosso entendimento não alcança.

Na pressa dos comboios, entre silvos,
carregadores e campainhas, rouca
explosão de viagem, como é lírico
o batom a fugir de uma a outra boca.

Assim teus namorados se prospectam:
um é mina do outro; e não se esgota
esse ouro surpreendido nas cavernas
de que o instinto possui a esquiva rota.

Serão cegos, autômatos, escravos
de um deus sem caridade e sem presença?
Mas sorriem os olhos, e que claros
gestos de integração, na noite densa!

Não ensaies demais as tuas vítimas,
ó amor, deixa em paz os namorados
Eles guardam em si, coral sem ritmo,
os infernos futuros e passados.

Hannah Sullivan – 3.31 (de “Three Poems”)

O que subsistirá a nós?
Larkin pensava que a resposta poderia ser “amor,”
Mas não conseguiu prova-lo.

“A pasta de rascunhos era o lugar mais interessante.” “Sempre foi você, no final.”
“Ele tentou lhe dizer à sua maneira.”

Curtas cadeias de carbono no pó,
Esta é a resposta prática.
Velhos laptops, marca-passos, parafusos ósseos.
Filamentos de DNA revelando a causa da morte.
E-mails que mandamos e rascunhos que não enviamos.
As coisas que dissemos e as que deveríamos ter dito.

Videos pornô baixados revelam
Inclinações que chocam nossos amigos:
Mordaças de algodão, cordas ferindo as fendas
De colegiais japonesas de vinte e poucos anos.
Mas nada imundo o suficiente para interessar a estranhos.

Antigos amantes cruzam suas pernas, dobram de novo o papel,
Estudam a imagem residual na janela do metrô.
Ninguém se lembra de tudo sobre alguém.

Uma rápida limpada das axila às 6, um toque de perfume,
Dança de meia-calça, duas manchas de sangue.
Um dedo que arranca cabelos rebeldes e prende o elástico.
Neve na segunda semana de dezembro.

Mas como foi sentir aquele cheiro depois,
Em minhas mãos?

Trad.: Nelson Santander

3.31

What will survive of us?
Larkin thought the answer might be “love,”
But couldn’t prove it.

“The drafts folder was the most interesting place.” “It was always you, in the end.”
“He tried to tell you in his own way.”

Short chains of carbon in the dust,
This is the practical answer.
Old laptops, pacemakers, leg pins.
DNA fibres revealing death’s cause.
Emails we sent and drafts we didn’t send.
The things we said and those we should’ve.

Downloaded porn videos reveal
Proclivities that shock our friends:
Cotton gags, string cutting into the clefts
Of twenty-something Japanese schoolgirls.
But nothing filthy enough to interest strangers.

Old lovers cross their legs, refold the paper,
Study the afterimage in the metro window.
No one remembers everything about someone.

A quick armpit wash at 6, a fluster of perfume,
Dancing into tights, two daubs of blood.
A finger pulls vagrant hairs, snags the elastic.
Snow in the second week of December.

But how was it that you smelled afterwards,
On my hands?

Charles Simic – O altar

A estátua de plástico da Virgem
Em cima de uma penteadeira
Com um espelho enegrecido
De um salão de beleza de pesadelo.

Dois seixos do túmulo de um astro de rock,
Um pequeno e sorridente macaco de dar corda,
Uma concha, uma moeda egípcia de bronze,
E o canhoto vermelho de um ingresso de cinema.

Uma mancha de luz solar na emoldurada
Fotografia de comunhão de um menino
Com os olhos de alguém
Que irá se afogar em um lago naquele verão.

Um altar dignificando o deus do acaso.
O que é belo, ele adverte,
É encontrado acidentalmente e não procurado.
O que é belo facilmente se perde.

Trad.: Nelson Santander

The Altar

The plastic statue of the Virgin
On top of a bedroom dresser
With a blackened mirror
From a bad-dream grooming salon.

Two pebbles from the grave of a rock star,
A small, grinning wind-up monkey,
A seashell, bronze Egyptian coin,
And a red movie ticket stub.

A splotch of sunlight on the framed
Communion photograph of a boy
With the eyes of someone
Who will drown in a lake that summer.

An altar dignifying the god of chance.
What is beautiful, it cautions,
Is found accidentally and not sought after.
What is beautiful is easily lost.

X. J. Kennedy – O objetivo do tempo é evitar que tudo aconteça de uma só vez

Imagine que sua vida seja um telescópio dobrado
Atemporal, que desmoronou num piscar de olhos
Do ventre de sua mãe, você, berrando, cai
Em uma casa de repousos. Imagine que você destrói
Seu carro, seu casamento — uma criança devastando
Um campo de margaridas, estudante, adolescente espinhento
Com a amada, fechando às pressas o zíper das calças
Ao ouvir os passos de seus pais no andar de baixo — tudo de uma vez.

Einstein estava certo. Isso seria muito intenso.
Você precisa de uma chance de se exibir, de dar um recital
Enfadonho diante de uma plateia indiferente
Igualmente lenta tanto para achincalha-lo quanto para aplaudi-lo.
O tempo leva seu tempo desdobrando-se. Mas, mesmo assim,
Você irá se perguntar quando sua vida terminar: hein? O que aconteceu?

Trad.: Nelson Santander

“The Purpose of Time is to Prevent Everything from Happening at Once”

Suppose your life a folded telescope
Durationless, collapsed in just a flash
As from your mother’s womb you, bawling, drop
Into a nursing home. Suppose you crash
Your car, your marriage — toddler laying waste
A field of daisies, schoolkid, zit-faced teen
With lover zipping up your pants in haste
Hearing your parents’ tread downstairs — all one.

Einstein was right. That would be too intense.
You need a chance to preen, to give a dull
Recital before an indifferent audience
Equally slow in jeering you and clapping.
Time takes its time unraveling. But, still,
You’ll wonder when your life ends: Huh? What happened?

Ross Gay – Tristeza não é o meu nome

— depois de Gwendolyn Brooks

Não importa a atração pelo abismo. Pouco
importa o sono profundo e florido que o aguarda.
Há tempo para tudo. Veja,
ainda esta manhã um abutre
acenou com a cabeça vermelha e pardacenta para mim,
e eu olhei para ele, admirando
a foice do seu bico.
Então o vento soprou, e,
depois de dar uma ajeitada naquele ótimo traje de penas,
ele se levantou e partiu.
Exatamente assim. E, pra começar,
há, somente neste planeta, cerca de dois
milhões de lindas coisas que ocorrem naturalmente,
algumas com nomes tão generosos que chutam
o aço dos meus joelhos: agave, caqui,
bola-de-galho, o quiabo roxo que comprei por dois dólares
no mercado. Pense nisso. A longa noite,
o esqueleto no espelho, o homem atrás de mim
no ônibus, tomando notas, sim, sim.
Mas veja; minha sobrinha corre pelo campo
chamando meu nome. Meu vizinho canta como um anjo
e no final do meu quarteirão há uma quadra de basquete.
Eu me lembro. Minha cor é o verde. Eu estou na primavera.

Trad.: Nelson Santander

Sorrow Is Not My Name

—after Gwendolyn Brooks

No matter the pull toward brink. No
matter the florid, deep sleep awaits.
There is a time for everything. Look,
just this morning a vulture
nodded his red, grizzled head at me,
and I looked at him, admiring
the sickle of his beak.
Then the wind kicked up, and,
after arranging that good suit of feathers
he up and took off.
Just like that. And to boot,
there are, on this planet alone, something like two
million naturally occurring sweet things,
some with names so generous as to kick
the steel from my knees: agave, persimmon,
stick ball, the purple okra I bought for two bucks
at the market. Think of that. The long night,
the skeleton in the mirror, the man behind me
on the bus taking notes, yeah, yeah.
But look; my niece is running through a field
calling my name. My neighbor sings like an angel
and at the end of my block is a basketball court.
I remember. My color’s green. I’m spring.

Denise Levertov – Peregrinações no mundo paralelo

Vivemos nossas vidas de paixões humanas,
crueldades, sonhos, ideias,
crimes e o exercício da virtude
em e ao lado de um mundo privado
de nossas preocupações, isento
de nossas apreensões — embora afetado,
certamente, por nossas ações. Um mundo
paralelo ao nosso, embora a ele sobreposto.
Nós o chamamos de “Natureza”; apenas relutantemente
admitindo que somos “Natureza” também.
Sempre que perdemos o controle de nossas próprias obsessões,
de nosso egocentrismo, porque vagamos por um minuto,
uma hora até, de pura (quase pura)
reação a essa vida despreocupada:
nuvem, pássaro, raposa, o fluxo da luz, a peregrinação
dançante da água, a profunda imobilidade
de uma ephemerae encantada sobre uma vidraça iluminada,
vozes de animais, murmúrio mineral, vento
conversando com chuva, oceano com pedra, gaguejar
de fogo para o carvão — então algo atado
a nós, manco como um burro em seu pedaço
mastigado de cardo e grama, se liberta.
Ninguém sabe
exatamente onde estávamos quando fomos apanhados novamente
em nossa própria esfera (para onde devemos
retornar, de fato, para que nosso destino evolua)
— mas nós mudamos, um pouco.

Trad.: Nelson Santander

Sojourns in the parallel world

We live our lives of human passions,
cruelties, dreams, concepts,
crimes and the exercise of virtue
in and beside a world devoid
of our preoccupations, free
from apprehension—though affected,
certainly, by our actions. A world
parallel to our own though overlapping.
We call it “Nature”; only reluctantly
admitting ourselves to be “Nature” too.
Whenever we lose track of our own obsessions,
our self-concerns, because we drift for a minute,
an hour even, of pure (almost pure)
response to that insouciant life:
cloud, bird, fox, the flow of light, the dancing
pilgrimage of water, vast stillness
of spellbound ephemerae on a lit windowpane,
animal voices, mineral hum, wind
conversing with rain, ocean with rock, stuttering
of fire to coal—then something tethered
in us, hobbled like a donkey on its patch
of gnawed grass and thistles, breaks free.
No one discovers
just where we’ve been, when we’re caught up again
into our own sphere (where we must
return, indeed, to evolve our destinies)
—but we have changed, a little.

Maggie Smith – O primeiro outono

Eu sou sua guia aqui. Nas ruas crepusculares
da manhã, eu aponto e nomeio.
Veja os sicômoros, suas cascas manchadas,
pintadas-por-números. Veja as folhas
enferrujando e crepitando nas pontas.
Eu caminho pelo Schiller Park com você
no meu peito. As estrelas ardem
plenamente à luz do dia. Veja o lago, os patos,
os cães chapinhando atrás de seus valiosos gravetos.
Outono é quando as únicas coisas que você conhece,
porque eu as nomeei,
começam a morrer. Em breve, eu terei outra
estação para ofertar-lhe: geada amena
na janela e uma portinhola
que ali geme, gelo recobrindo galhos
cinzas e nus. A primeira vez que vir
algo morrer, você não saberá que ele pode
voltar. Estou desesperada para que você
ame o mundo porque eu o trouxe para cá.

Trad.: Nelson Santander

First Fall

I’m your guide here. In the evening-dark
morning streets, I point and name.
Look, the sycamores, their mottled,
paint-by-number bark. Look, the leaves
rusting and crisping at the edges.
I walk through Schiller Park with you
on my chest. Stars smolder well
into daylight. Look, the pond, the ducks,
the dogs paddling after their prized sticks.
Fall is when the only things you know
because I’ve named them
begin to end. Soon I’ll have another
season to offer you: frost soft
on the window and a porthole
sighed there, ice sleeving the bare
gray branches. The first time you see
something die, you won’t know it might
come back. I’m desperate for you
to love the world because I brought you here.

Joan Margarit – Manhã no cemitério de Montjuïc

Fui à colina dos túmulos:
lá cheguei cruzando o ermo
da Can Tunis, coberto de seringas
e de plásticos pardacentos, onde tremem, errantes,
as estátuas de trapo dos drogados.
Corre o boato de que a Prefeitura
irá destruí-lo, cobrindo de concreto
os terrenos com mato em frente à enorme grade
do cemitério, erguida de frente para o mar.
Que má companhia será para os mortos:
os defuntos, seu muro e sua quietude
harmonizam melhor com esses drogados
que, soldados sem forças e perdidos,
deambulam depois da derrota.
À medida que subimos pela velha estrada do porto,
os barcos e os guindastes ficam menores,
enquanto o mar fica mais largo. Aqui, no alto,
estás a salvo das dores do mundo.

Trad.: Nelson Santander

N. do T. em 18/02/2021: a publicação da tradução que fiz deste poema já estava agendada há mais de 2 meses. O poema narra uma visita que o poeta faz ao túmulo de um ente querido – presumivelmente, o de sua filha, Joana, falecida em 2001, vítima do câncer. Há dois dias, depois de uma breve batalha contra o câncer (sempre ele), faleceu também o poeta. Não sei se ele foi enterrado no mesmo cemitério Montjuïc, onde repousa a amada filha. Mas me anima pensar que, onde quer que esteja neste momento, também ele tenha ficado a salvo das dores do mundo.

Mañana en el cementerio de Montjuïc

He ido a la montaña de las tumbas:
he llegado hasta allí cruzando el yermo
de Can Tunis, nevado de jeringas
y de plásticos grises, donde tiemblan, errantes,
las estatuas de trapo de los yonquis.
Corre el rumor de que el Ayuntamiento
lo arrasará, cubriendo de hormigón
los campos de hierbajos ante la enorme reja
del cementerio, alzado frente al mar.
Qué mala compañía será para los muertos:
los difuntos, su muro y su quietud
armonizan mejor con esos yonquis
que, soldados sin fuerzas y perdidos,
deambulan después de la derrota.
Al subir por el viejo camino frente al puerto
los barcos y las grúas van empequeñeciéndose,
mientras se ensancha el mar. Aquí, en lo alto,
estás salvada del dolor del mundo.