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Henry Wadsworth Longfellow – Casas assombradas

Todas as casas onde homens viveram e morreram São casas mal-assombradas. Pelo aberto portãoAs inofensivas almas, em suas tarefas, pairam, Com pés que quase nenhum ruído produzem no chão. Nós as encontramos na escadaria, no corredor, Pelas passagens através das quais elas vêm e vão,impalpável impressão no ar ao nosso derredor, Sensação de algo em…
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Cassiano Ricardo – O Espelho

Um meio-dia nu, numa enorme moldurade prata.Parece mais o escudo de um arcanjo de fogo.Mas não é nada. É apenas um espelho.Um rico espelho. De extraordinário fulgor.Próprio pra ser colocado à paredede um ministério da Fazenda, ou de uma casade jogo. Toda a cidade cabe dentro dele.Árvores, automóveis, povo, casas de comércioe vendedores de jornais,…
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Andrea Cohen – Recusa em lamentar

Em vez de flores, mande- o de volta.Trad.: Nelson Santander Refusal to Mourn In lieu of flowers, send him back.
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Joan Margarit – Coisas em comum

Ter-nos conhecidoem um outono num trem que ia vazio;A radiante, embora cruel,promessa do desejo.A cicatriz da melancoliae o velho afeto com o qual compreendemosos motivos do lobo.A lua que acompanha o trem noturnoBarcelona-Paris.Uma faca de luz para os crimesque por amor devemos cometer.Nossa maldita e inocente sorte.A voz do mar, que sempre te diráonde estou,…
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Nickole Brown – Susto

Deixe-me dizer-lhe — nenhum animal de longe é o mesmoque de perto. Ou seja, uma baleia em uma revista podeparecer majestosa e livre, mas o que você não vê équão perto da superfície ela adormece,como a luz a empola deixando-a em carne viva e comoas gaivotas rasgam sua pele queimada pelo sol, alçando ao aros…
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Lêdo Ivo – A Queimada

Queime tudo o que puder:as cartas de amoras contas telefônicaso rol de roupas sujasas escrituras e certidõesas inconfidências dos confrades ressentidosa confissão interrompidao poema erótico que ratifica a impotênciae anuncia a arterioscleroseos recortes antigos e as fotografias amareladas.Não deixe aos herdeiros esfaimadosnenhuma herança de papel. Seja como os lobos: more num covile só mostre à…
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Victoria Kennefick – Depoimento

Eu te amo como as ondas amam os penhascos.Elas lançam saias de rendas contra os rochedos,pernadas de dançarinas do can-can escalam até o topo,e voltam para o mesmo lugar; espuma se agarra – um beijo.Algumas vezes, elas levam coisas usadas para a praia;em outras, deslizam em silêncio, sem nada dizer,cavam, escondem-se no eco-escuro –esperam até…
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Cassiano Ricardo – Ladainha

Por que o raciocínio,os músculos, os ossos?A automação, ócio dourado.O cérebro eletrônico, o músculomecânicomais fáceis que um sorriso. Por que o coração?O de metal não tornará o homemmais cordial,dando-lhe um ritmo extra-corporal? Por que levantar o braçopara colher o fruto?A máquina o fará por nós.Por que labutar no campo, na cidade?A máquina o fará por…

