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Eiléan Ní Chuilleanáin – O quarto de um cavalheiro

Essas compridas sombras recuando,Um rio de telhados inclinando-se Do lado do vale.Frontões e chaminésE torres, com árvores aninhadas entre elas:Todas as formas de um cemitérioVistas do alto de sua janela. Um espelho em forma de caixão responde,Luz suave, polido, liso como a pele,Azul como grama cortada no gramado,Gravatas retorcidas dobradas sobre ele. Abrindo a porta,…
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José Luís Peixoto – na hora de pôr a mesa…

na hora de pôr a mesa, éramos cinco:o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãse eu. depois, a minha irmã mais velhacasou-se. depois, a minha irmã mais novacasou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,na hora de pôr a mesa, somos cinco,menos a minha irmã mais velha que estána casa dela, menos a minha irmã…
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Francisco Brines – A realidade não permanece

Esta tarde rebelde me leva a Bathe a ti, mas não à cidade de ruastranquilas, nem a quem tu deves ser hoje.O quarto fica maior na penumbraenquanto chove suavemente na rua.Há, na lareira, um fogo que aquecenossos corpos nus, e que iluminao vasto espaço de forma insuficiente.És a luz que o fogo de teus cabelose…
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Linda Pastan – Dor

Mais fieldo que um amante ou maridoela se apega a ti,dando a si própria o teu sobrenomecomo se uma cerimônia tivesse acontecido. À noite, viras e revirasprocurando pela únicaposição suportável,mas mesmo que finalmente consigas dormir,ela acorda antes de ti. Como é pesada,desalojando com seu volumetoda tua energia vital.Antes tu parecias não pesar nada,teus braços poderiam…
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W. H. Auden – Blues Fúnebre (em duas traduções de Nelson Ascher)

BLUES FÚNEBRE – 1ª Tradução Que parem os relógios, cale o telefone,jogue-se ao cão um osso e que não ladre mais,que emudeça o piano e que o tambor sancionea vinda do caixão com seu cortejo atrás. Que os aviões, gemendo acima em alvoroço,escrevam contra o céu o anúncio: ele morreu.Que as pombas guardem luto —…
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Brigit Pegeen Kelly – A partida

Meu pai disse que eu não conseguiria fazê-lo,mas por toda noite eu colhi os pêssegos.O pomar estava silencioso, os canais funcionavam incessantemente.Eu era uma menina na época, meu peito era seu próprio jardim murado.Quantas são as escadas para a colheita em um pomar?Eu tinha apenas uma e uma grande paciência com as mãos acesase o…
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João Cabral de Melo Neto – A Viagem

Quem é alguém que caminhatoda manhã com tristezadentro de minhas roupas, perdidoalém do sonho e da rua? Das roupas que vão crescendocomo se levassem nos bolsosdoces geografias, pensamentosde além do sonho e da rua? Alguém a cada momentovem morrer no longe horizontede meu quarto, onde esse alguémé vento, barco, continente. Alguém me diz toda a…
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Ellen Bass – Pelo tempo que quiser

No caminho para o cemitério, eu dormi.Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —me ajuda e chega, chega —e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.Como pude não ter estudado…
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Lewis Carroll – Jaguadarte

Era briluz. As lesmolisas touvasRoldavam e relviam nos gramilvos.Estavam mimsicais as pintalouvas,E os momirratos davam grilvos. “Foge do Jaguadarte, o que não morre!Garra que agarra, bocarra que urra!Foge da ave Felfel, meu filho, e correDo frumioso Babassurra!” Ele arrancou sua espada vorpalE foi atrás do inimigo do Homundo.Na árvora Tamtam ele afinalParou, um dia, sonilundo.…