Ellen Bass – Pelo tempo que quiser

No caminho para o cemitério, eu dormi.
Não na limusine que levava o caixão da minha mãe,
mas apagada em uma van, a família toda falando ao meu redor.
Eu estava exausta do sofrimento dela, de seus apelos —
me ajuda e chega, chega
e tentando fazer com que a morfina permanecesse na vala de suas gengivas.
Como pude não ter estudado isso com antecedência?
A maneira como minha mãe aprendeu a dar injeções no curso de enfermagem,
enfiando a agulha em uma laranja
e praticando nas outras meninas.
Deus só nos dá força para um dia de cada vez.
Quantas vezes eu a ouvi dizer isso?
Pergunte a si própria, eu posso fazer este dia?
E então ela fez seu último dia.
No caminho de volta, o motorista se perdeu. Enquanto circulávamos por entre
campos desconhecidos e árvores com flores estonteantes, começamos a imaginar
que poderíamos comprar algumas terras.
Com cavalos. E um lago. Tudo parecia possível.
E hilário. Estávamos um pouco histéricos,
dirigindo-nos para o luxo do futuro.
Nunca mais retornei ao túmulo da minha mãe.
Mas eu a vejo todos os dias. Ei-la de botas de canos curtos,
voltando da praia com um jarro de água do mar.
Todas as manhãs ela me dá uma colherada. Minerais.
Algo que ela leu no Pleasantville Press.
Aqui ela embrulha canecas e copos no mesmo papel,
depositando-os em sacolas pardas.
Ela está contando moedas nas mãos dos clientes,
cuidando para tocar em suas palmas.
E aqui, em seu roupão numa noite de sábado. A loja acabou de fechar.
Ela morde um sanduíche de carne e cebolas, toma uma cerveja.
Amanhã de manhã ela pode dormir até tarde. Há uma lei
em Nova Jersey que obriga as lojas de bebidas a fechar aos domingos.
Uma lei abençoada que permite que minha mãe durma…
e depois se sente com um cigarro e um café preto,
uma perna robusta cruzada sobre a outra.
Ela pode sentar-se ali pelo tempo que quiser.

Trad.: Nelson Santander

Publicada na revista The New Yorker de 11/04/2022 (https://www.newyorker.com/magazine/2022/04/18/as-long-as-she-likes)

As long as she likes

On the way to the cemetery, I slept.
Not in the limousine that carried my mother’s coffin
but out cold in a van, the family all talking around me.
I was exhausted from her suffering, her pleas—
help me and enough, enough
and trying to get the morphine to stay in the ditch of her gums.
How could I not have studied this in advance?
The way my mother learned to give shots in nursing school,
plunging the needle into an orange
then practicing on the other girls.
God only gives you strength for one day at a time.
How many times did I hear her say this?
Ask yourself, can I make this day?
And then she made her last day.
On the way back, the driver got lost. As we circled unfamiliar
fields and trees dizzy with blossoms, we began to imagine
we could buy some land.
Horses. A lake. Everything seemed possible.
And hilarious. We were a little hysterical,
driving into the luxury of the future.
I’ve never returned to my mother’s grave.
But I see her every day. Here she is in short boots,
coming back from the beach with a jar of seawater.
Each morning she feeds me a spoonful. Minerals.
It’s something she read in the Pleasantville Press.
Here she’s wrapping pints and quarts in that same paper,
sliding them into brown bags.
She’s counting out coins into the customers’ hands,
careful to touch their palms.
And here in her bathrobe on a Saturday night. The store just closed.
She bites into a hoagie, steak and onions, sips a beer.
Tomorrow morning she can sleep late. There’s a law
in New Jersey that liquor stores have to close on Sunday.
A blessed law that lets my mother sleep . . .
and then sit down with a cigarette and black coffee,
one strong leg crossed over the other.
She can sit there as long as she likes.

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