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Ellen Bass – Miniantologia poética – Apresentação

Há tempos – buscando não descuidar da publicação de poetas brasileiros e portugueses e de poemas traduzidos por outras pessoas – tenho me dedicado a traduzir e publicar no blog poemas de escritores de diversas partes do mundo (em especial, dos Estados Unidos e Espanha) pouco conhecidos ou totalmente desconhecidos do leitor brasileiro. Raras vezes…
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Linda Pastan – Os cinco estágios do luto

Na noite em que te perdialguém me apontou o caminhodos Cinco Estágios do Luto.Vá por ali, disseram,é fácil, como aprender a subirescadas após a amputação.E assim eu subi.A Negação veio primeiro.Sentei-me para o café da manhã,preparando cuidadosamente a mesapara dois. Passei-lhe a torrada –você permaneceu sentado. Passeio jornal – você se escondeuatrás dele.A Raiva parecia tão…
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Josep M. Rodríguez – matéria e forma

Como expressar dor na dor ao saber da morte de uma amiga. Não sei o que fazer. Do mesmo modo que a água é anterior ao rio e a matéria antecede a luz, mas é a luz que lhe confere forma, assim se cala a dor dentro de mim até que há algo lá fora…
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Amalia Bautista – Agora

Agora que a estrada que devo percorreré um viaduto sobre uma rodoviaque dá medo de olhar, porque o abismoimplacável me chama.Agora que morreu a esperançacomo uma ave expulsa de seu ninhopor irmãos mais fortes.Agora que é noite o dia todo,inverno o ano todoe as semanas só têm segundas-feiras,onde olhar, para onde voltar os olhos,que eu…
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Sean O’Brien – Contando a chuva

Verifique o gás e guarde a chave da porta de trás.Tranque tudo. Certifique-se de que o fezE então saia e conte a chuva, e desta vezFaça-o direito. Você não estará em casa nunca mais. Trad.: Nelson Santander Counting the Rain Check the gas and hide the back door key.Lock up. Make sure you have, and…
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Amalia Bautista – Os meus melhores desejos

Que a vida te pareça suportável.Que a culpa não afogue a esperança.Que não te rendas nunca.Que o caminho que sigas seja sempre escolhidoentre dois pelo menos.Que te interesse a vida tanto como tu a ela.Que não te apanhe o víciode prolongar as despedidas.E que o peso da terra seja levesobre os teus pobres ossos.Que a…
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Jaime Manrique – O céu sobre a casa de minha mãe

É uma noite de julhoperfumada com gardênias.Brilham a lua e as estrelassem revelar a essência da noite.Ao longo do crepúsculo— com suas gradações cada vez mais intensas de ônix,e o resplendor dourado das estrelas e das sombras —minha mãe arrumou a casa, o jardim, a cozinha.Agora, enquanto ela dorme,eu caminho em seu jardim,imerso no vazio…
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Amalia Bautista – O que fazes aqui

Pensei que te havia dito adeus,um adeus definitivo, ao deitar-me,quando pude finalmente fechar meus olhose esquecer-me de ti e de tuas artimanhas,tua insistência, tuas más intenções,da tua capacidade de anular-me.Pensei que te havia dito adeuspara todo o sempre, e despertoe te encontro de novo junto a mim,dentro de mim, me envolvendo, ao meu lado,invadindo-me, sufocando-me,…
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Alice Walker – Ainda assim

O amor, se é amor, nunca se vai. Ele fica incrustado em nós, como veios de ouro na Terra, esperando a luz , esperando ser atingidoinda. Trad.: Nelson Santander Even So Love, if it is love, never goes away. It is embedded in us, like seams of gold in the Earth, waiting for light, waiting…
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João Cabral de Melo Neto – Como a Morte se Infiltra

Certo dia, não se levantaporque quer demorar na cama. No outro dia ele diz por que:é porque lhe dói algum pé. No outro dia o que dói é a perna,E nem pode apoiar-se nela. Dia a dia lhe cresce um não,um enrodilhar-se de cão. Dia a dia ele aprende o jeitoem que menos lhe pesa…