Ellen Bass – Miniantologia poética – Apresentação

Há tempos – buscando não descuidar da publicação de poetas brasileiros e portugueses e de poemas traduzidos por outras pessoas – tenho me dedicado a traduzir e publicar no blog poemas de escritores de diversas partes do mundo (em especial, dos Estados Unidos e Espanha) pouco conhecidos ou totalmente desconhecidos do leitor brasileiro. Raras vezes me arrisco a traduzir medalhões da poesia internacional. Por duas razões. Primeiro porque poetas famosos – como Emily Dickinson, Raymond Carver, E. E. Cummings, T. S. Eliot, Rainer Maria Rilke e outros que frequentemente aparecem nas postagens – costumam ser regularmente traduzidos e publicados no Brasil, e meu eventual trabalho de tradução muito pouco acrescentaria à excepcional ourivesaria dos tradutores locais. Por outro lado, é certo que existe muita poesia boa e muitos poetas excepcionais de outros países, desconhecidos do leitor de poesia brasileiro, cujos trabalhos são dignos de serem aqui apreciados.

Com base nesse critério, o blog já publicou trabalhos de Ada Limón, Amalia Bautista, Dorianne Laux, Eiléan Ní Chuilleanáin, Francisco Brines, Gonçalo M. Tavares, Ian Hamilton, Jaime Gil de Biedma, Jane Hishfield, Javier Salvago, Joan Margarit, Juan Vicente Piqueras, Linda Pastan, Lisel Mueller, Louise Glück1, Charles Simic, Luis Alberto de Cuenca, Mary Oliver, Marie Howe, Manuel António Pina, Robinson Jeffers, e inúmeros outros, todos notáveis, mas pouco conhecidos no Brasil.

Em uma postagem anterior, expliquei que meu critério para traduzir e publicar ou não um poema no blog é a qualidade do trabalho a ser traduzido/publicado – com base, é claro, no gosto pessoal e no olhar subjetivo do tradutor. Às vezes, me deparo com um poema excepcional de um poeta desconhecido. Traduzo, publico e fico atento. Na maioria das vezes, apenas um ou dois poemas deste escritor passam pelo filtro subjetivo do meu gosto pessoal e acabam sendo traduzidos/publicados.

Há poetas, no entanto, que têm um trabalho tão consistente e de qualidade tão incontestável que quando me dou conta já separei dezenas de seus poemas para serem traduzidos. Assim foi com a mencionada Louise Glück (de quem, dentre vários outros poemas, traduzi A Íris Selvagem na íntegra, dada a organicidade da obra que, segundo entendi, não comportava a publicação de poemas isolados, sob pena de tornar incompreensível a magnitude do trabalho) e Joan Margarit, que sigo traduzindo e publicando: já foram mais de 90 poemas, dentre os quais sua obra-prima, Joana, traduzida na íntegra.

Dentre esses poetas com os quais tive contato mais recentemente, minha mais nova obsessão é a autora Ellen Bass.

Segue uma breve biografia da poeta, extraída de sua página oficial na web (https://www.ellenbass.com/):

Ellen Bass é chanceler da Academy of american poets. Seu livro mais recente, Indigo, foi publicado pela Copper Canyon Press em 2020. Outras coletâneas de poesia incluem: 
Like a Beggar (Copper Canyon Press, 2014) - que foi finalista do Paterson Poetry Prize, The Publishers Triangle Award, The Milt Kessler Poetry Award, The Lambda Literary Award e o Northern California Book Award; 
The Human Line (Copper Canyon Press, 2007); e  
Mules of Love (BOA Editions, 2002), que ganhou o Lambda Literary Award. 
Ela co-editou (com Florence Howe) a primeira grande antologia de poesia feminina, No More Masks! (Doubleday, 1973). Seus poemas têm aparecido frequentemente na The New Yorker e no The American Poetry Review, bem como na The New York Times Magazine, The Atlantic, The American Poetry Review, The New Republic, The Kenyon Review, Plowshares, The Sun  e muitos outros jornais, revistas e antologias.
Foi premiada com bolsas da Fundação Guggenheim, The National Endowment for the Arts e The California Arts Council e recebeu o Elliston Book Award for Poetry da University of Cincinnati, Nimrod / Hardman's Pablo Neruda Prize, The Missouri Review's  Larry Levis Award, Greensboro Poetry Prize, The New Letters Poetry Prize, the Chautauqua Poetry Prize, e três Pushcart Prizes.
Seus livros de não-ficção incluem Free Your Mind: The Book for Gay, Lesbian and Bisexual Youth (HarperCollins, 1996), I Never Told Nobody: Writings by Women Survivors of Child Sexual Abuse  (HarperCollins, 1983) e  The Courage to Heal:  A Guide for Women Survivors of Child Sexual Abuse (Harper Collins, 1988, 2008), que já venderam mais de um milhão de cópias e foram traduzidos para doze idiomas.
Ellen fundou oficinas de poesia na prisão estadual de Salinas Valley e nas prisões de Santa Cruz, CA. 
Ela atualmente leciona no programa de redação de MFA de baixa residência na Pacific University.

Ellen Bass vive atualmente na cidade de Santa Cruz, ao sul de São Francisco, e trabalha como poetisa e professora em tempo integral. Ela tem uma filha (de seu casamento com um ex-marido já falecido) e um filho de seu relacionamento de mais de trinta anos com a esposa atual, Janet3, musa inspiradora de inúmeros poemas.

Integrante de destaque da novíssima geração de poetas americanos, Ellen Bass pratica um tipo de poesia que a crítica classifica como intimista. De fato, seus poemas são encharcados de suas experiências pessoais e escritos com uma honestidade raramente vista em outros escritores. Tudo em sua vida é passível de virar poema: traições, relacionamentos familiares, o sexo (erótico ou sublime), fracassos pessoais e amorosos, nascimento, maternidade, envelhecimento, morte, etc.

Escritora dotada de recursos poéticos sofisticados (a crítica especializada costuma elogiar o controle que ela consegue exercer sobre cada linha de seus poemas e o uso refinado da metáfora) e de uma dicção clara e precisa, sua poesia – absurdamente honesta e despida de floreios – costuma partir do francamente confessional para, no mais das vezes, atingir uma insuspeita nota universal. Ou o contrário:

Eu tento ver o panorama geral.
O sol, língua ardente
que nos lambe como uma mãe encantada
por sua nova cria, se consumirá.
Tudo é transitório.
Pense no meteoro
que aniquilou os dinossauros.
E antes disso, nos vulcões
do Permiano — todas aquelas samambaias
e répteis, tubarões e peixes ósseos queimados —
que foram extintos em uma escala
que faz com que nossas perdas pareçam um dia difícil no caça-níqueis.
(...)
Quando cheguei em casa,
meu filho estava com dor de cabeça e, embora ele esteja
quase crescido, pediu-me que lhe cantasse uma canção.
Deitamos juntos no sofá irregular
e me pus a cantarolar as velhas melodias, “Night and Day”. . .
“They Can’t Take That Away from Me.”. . . Uma corrente
de prata vulgar cintilava em seu pescoço,
subindo e descendo com sua pulsação. Nunca houve
outra coisa. Apenas estas dolorosamente
insignificantes criaturas que amamos.

(O Panorama Geral)

Ellen Bass escreve comumente sobre a vida cotidiana. É habitual a citação a nomes de ruas, lugares, estabelecimentos comerciais, pessoas. Ao mesmo tempo, sua poesia discursa, de maneira simples e direta, sobre as questões existenciais fundamentais da existência humana: de onde vim? Para onde vamos? Qual é o significado da dor? Qual é o meu lugar no grande plano do universo? Essa capacidade de partir das situações mais comezinhas para saltos existenciais profundos, sem que o poema soe pretensioso, é apontado pela crítica como uma de suas características mais impressionantes:

(...)
Mas em uma tarde quente de verão
minha mãe me deixou arrastar a cama para o telhado.
Lençóis secando nos varais,
a caixa de areia do gato no canto,
deitei-me em uma extensão de azul. O sol ondulava
sobre minha pele como uma brisa sobre a água.
Minhas pálpebras se fecharam.
(...)
O sol estava delicioso, acariciando minha pele.
Senti que recém chegara em um corpo
enquanto a cidade girava ao meu redor —
o Teatro Rialto, a Allen Calçados, a Joalheria Stecher,
todo o centro da cidade com três quarteirões de extensão.
E eu estava no centro do nosso minúsculo
sistema solar jogado na borda
de um braço menor, um esporão de uma galáxia espiralada,
encarcada de luz

(Pleasantville, New Jersey, 1955)

Como fiz quando publiquei as obras de Louise Glück e Joan Margarit, para compor esta miniantologia postarei um poema por dia, de amanhã até o dia 08/12.

A coletânea que organizei contempla poemas publicados nos quatro principais livros de poesia da autora – Mules of Love, The Human Line, Like a Beggar e Indigo – e alguns esparsos na internet e em publicações especializadas3. Aliás, todos os poemas que traduzi e irei postar foram retirados da internet.

Torço para que gostem. Se gostarem, por favor, comentem.

Nelson Santander

  1. Aliás, me orgulho em constatar que o blog foi um dos primeiros difundir no Brasil o trabalho da vencedora do Prêmio Nobel de Literatura do ano de 2020 – hoje publicada no Brasil pela Companhia das Letras. Confira: https://amzn.to/3JuZiGe
  2. Para mais detalhes da biografia da autora, o link que segue é um bom começo:
  3. É sempre bom ressaltar que se trata de uma coletânea baseada nas escolhas absolutamente pessoais do tradutor. As obras das quais os poemas foram extraídos são, individualmente e em seu conjunto, excepcionais. Muita coisa ficou de fora e não será surpresa se no futuro eu vier a traduzir outros poemas extraídos desses mesmos livros.

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