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Garcilaso de la Vega – Soneto XXIII

Enquanto que de rosa e de açucenase mostra toda a cor neste teu rosto,enquanto o teu olhar ardente, honesto,acende o coração e o serena; e enquanto o teu cabelo, que das franjasdo ouro se escolheu, com voo presto,sobre o formoso colo branco, ereto,o vento move, espalha e desarranja: colhe de tua alegre primaverao doce fruto,…
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Jorie Graham – Então a chuva

depois de anos de virga1, depoisde muito quase& muito nunca mais, depoisde unir-se aos relâmpagos secos & correntes descendentes & fogo,depois de pegar um caminhoalternativo pelahistória & evitar- nos, depois das árvores,depois dos jardins,depois que as duras sementesforam enterradas o mais fundo possível & mantidas vivas pelo sereno,depois que os sulcosque outrora ela abriuse encheram…
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Josep M. Rodríguez – Equação

De pé neste penhasco, aceito a mentira da paisagem. Tudo é inacessível: o orvalho – que é suor vegetal – e o comboio que passa. Uma cegonha voa a preto e branco. Tem o seu ninho no cimo da igreja que fica junto ao cemitério. Estranho paradoxo, a pedra testemunha a fugacidade, a carne é…
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Vasko Popa – Na aldeia dos ancestrais

Na aldeia dos ancestrais Alguém me abraçaAlguém me fita com olhos de loboAlguém tira o chapéuPara que eu o veja melhor Todos me perguntamVocê sabe quem eu sou Velhotes e velhotas desconhecidosApoderam-se dos nomesDe rapazes e garotas de minha lembrança Pergunto a um delesSe ainda está vivo o ricoGueórguie Kúria Eu sou ele responde-meCom voz…
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Galway Kinnell – Shelley

Quando eu tinha vinte anos, o único espíritoverdadeiramente livre de quem tinha ouvido falar era Shelley1,Shelley, que escreveu tratados defendendoo ateísmo, o amor livre, a emancipaçãofeminina, a abolição da riqueza e das classes sociais,e poemas sobre a felicidade do amor romântico,Shelley, que, soube mais tarde, talvezquase tarde demais, se casou novamente com Harriet,então grávida de…
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Francisco Brines – Os Prazeres Inferiores

Não desdenhes as paixões vulgaresTens os anos necessários para saberque elas se correspondem exatamente com a vida.Não reduzas sua ação,pois se do breve tempo em que consistesas retiras,é ainda o existir mais imperfeito.Descobre sua verdade por trás da aparência,e assim não haverá falsidade,não poderás fingir que foi razão de vida o que foi só passagem.Mas…
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Jane Mead – Bach, inverno

Bach devia saber – comoalgo esvoaça quando você se virapara encarar o rosto visto de relanceem um espelho, em um hall, ao entardecer – e como o aroma das maçãs em uma tigelapode parar o coração por um instante,entre a pia e o fogãono auge do inverno quando estrelas de gelo se espalham pelas vidraçase…
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Joan Margarit – Espaço e Tempo

E de repente a casa é grande demais.Tua mãe e eu esvaziamos teus armáriose percorremos mesas e prateleiras,de retrato em retrato, teus sorrisos.À noite, os espelhos, sob a luz elétrica,revelam com mais nitidez a tua ausência.Os móveis estão agora mais sombrios.Pela escada desce a balaustrada acolhedoraque guarda ainda a lembrança de tua pequena mão,e os…
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Caroline Bird – Checkout

Eu penso ‘então, isso é a morte’, e me pergunto por queainda consigo enxergar através dos meus olhos. Um anjose aproxima com um formulário de avaliação perguntandocomo eu classificaria minha vida (muito boa, boa,mediana, ruim, muito ruim) e eu penso em marcar‘mediana’ seguido de um desabafo, mas então me lembrode seu rosto como um baú…
