Maya Angelou – Ainda assim me Levanto

Você pode me inscrever na história
Com as mentiras amargas que contar
Você pode me arrastar no pó,
Ainda assim, como pó, vou me levantar

Minha elegância o perturba?
Por que você afunda no pesar?
Porque eu caminho como se eu tivesse
Petróleo jorrando na sala de estar

Assim como a lua ou o sol
Com a certeza das ondas no mar
Como se ergue a esperança
Ainda assim, vou me levantar

Você queria me ver abatida?
Cabeça baixa, olhar caído,
Ombros curvados como lágrimas,
Com a alma a gritar enfraquecida?

Minha altivez o ofende?
Não leve isso tão a mal
Só porque eu rio como se tivesse
Minas de ouro no quintal

Você pode me fuzilar com palavras
E me retalhar com seu olhar
Pode me matar com seu ódio
Ainda assim, como ar, vou me levantar

Minha sensualidade o agita
E você, surpreso, se admira
Ao me ver dançar como se tivesse
Diamantes na altura da virilha?

Das choças dessa história escandalosa
Eu me levanto
De um passado que se ancora doloroso
Eu me levanto
Sou um oceano negro, vasto e irrequieto
Indo e vindo contra as marés eu me elevo
Esquecendo noites de terror e medo
Eu me levanto
Numa luz incomumente clara de manhã cedo
Eu me levanto
Trazendo os dons dos meus antepassados
Eu sou o sonho e as esperanças dos escravos
Eu me levanto
Eu me levanto
Eu me levanto

Trad.: Francesca Angiolillo

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 27/10/2017

Still I Rise

You may write me down in history
With your bitter, twisted lies,
You may trod me in the very dirt
But still, like dust, I’ll rise.

Does my sassiness upset you?
Why are you beset with gloom?
’Cause I walk like I’ve got oil wells
Pumping in my living room.

Just like moons and like suns,
With the certainty of tides,
Just like hopes springing high,
Still I’ll rise.

Did you want to see me broken?
Bowed head and lowered eyes?
Shoulders falling down like teardrops,
Weakened by my soulful cries?

Does my haughtiness offend you?
Don’t you take it awful hard
’Cause I laugh like I’ve got gold mines
Diggin’ in my own backyard.

You may shoot me with your words,
You may cut me with your eyes,
You may kill me with your hatefulness,
But still, like air, I’ll rise.

Does my sexiness upset you?
Does it come as a surprise
That I dance like I’ve got diamonds
At the meeting of my thighs?

Out of the huts of history’s shame
I rise
Up from a past that’s rooted in pain
I rise
I’m a black ocean, leaping and wide,
Welling and swelling I bear in the tide.

Leaving behind nights of terror and fear
I rise
Into a daybreak that’s wondrously clear
I rise
Bringing the gifts that my ancestors gave,
I am the dream and the hope of the slave.
I rise
I rise
I rise.

Cesare Pavese – O paraíso sobre os telhados

Será um dia tranquilo, de luz fria
como o sol que nasce ou que morre, e o vidro
fechará por fora o ar sórdido.

Acorda-se uma manhã, de uma vez para sempre,
na tepidez do último sono: A sombra
será como a tepidez. Encherá o quarto
pela grande janela um céu mais vasto.
Da escada subida um dia para sempre
não virão mais vozes nem rostos mortos.

Não será preciso deixar a cama.
Só a aurora entrará no quarto vazio.
Bastará a janela para vestir cada coisa
de uma claridade tranquila, quase uma luz.
Pousará uma sombra descarnada no rosto supino.
As recordações serão coágulos de sombra
calcados quais velhas brasas
na chaminé. A recordação será a chama
que ainda ontem picava nos olhos apagados.

Trad.: Carlos Leite

Cesare Pavese: “Il Paradiso sui tetti” / “O Paraíso sobre os telhados”: Carlos Leite

Il Paradiso sui tetti

Sarà un giorno tranquillo, di luce fredda
come il sole che nasce o che muore, e il vetro
chiuderà l’aria sudicia fuori del cielo.

Ci si sveglia un mattino, una volta per sempre,
nel tepore dell’ultimo sonno: l’ombra
sarà come il tepore. Empirà la stanza
per la grande finestra un cielo più grande.
Dalla scala salita un giorno per sempre
non verranno più voci, né visi morti.

Non sarà necessario lasciare il letto.
Solo l’alba entrerà nella stanza vuota.
Basterà la finestra a vestire ogni cosa
di un chiarore tranquillo, quasi una luce.
Poserà un’ombra scarna sul volto supino.
I ricordi saranno dei grumi d’ombra
appiattiti così come vecchia brace
nel camino. Il ricordo sarà la vampa
che ancor ieri mordeva negli occhi spenti.

Wislawa Szymborska – O Terrorista, Ele Observa

A bomba vai explodir no bar às treze e vinte.
Agora são só treze e dezesseis.
Alguns ainda terão tempo de entrar;
alguns de sair.

O terrorista já passou para o outro lado da rua.
A distância o livra de todo mal
e a vista, bom, é como no cinema:

Uma mulher de jaqueta amarela, ela entra.
Um homem de óculos escuros, ele sai.
Uns jovens de jeans, eles conversam.
Treze e dezessete e quatro segundos.
Aquele mais baixo tem sorte, sai de lambreta,
e aquele mais alto entra.

Treze e dezessete e quarenta segundos.
Uma moça, ela passa de fita verde no cabelo.
Só que aquele ônibus a encobre de repente.

Treze e dezoito.
A moça sumiu.
Se ela foi tola de entrar ou não
vai se saber quando os carregarem para fora.

Treze e dezenove.
Parece que ninguém mais entra.
Aliás, um gordo careca sai.
Mas remexe os bolsos como se procurasse algo
e às treze e vinte menos dez segundos
ele volta para buscar a droga das luvas.

São treze e vinte.
O tempo, como ele se arrasta.
Deve ser agora.
Ainda não.
É agora.
A bomba, ela explode.

Trad.: Regina Przybycien

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 25/10/2017

Kenneth Rexroth – Música de Alaúde

A Terra vai durar por muito tempo
Antes de finalmente congelar;
Os homens nela estarão; receberão nomes,
Justificarão seus atos.
Já nós estaremos aqui somente
Como componentes químicos —
Na verdade, uma pequena franquia.
Agora ainda temos uma vida,
Corpúsculos, ambições, carícias,
Como todos já tiveram um dia —
Todas as pessoas brilhantes, as neige d’antan1,
“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”2
Todos os inquietos e memoráveis mortos.

Aqui, neste final de ano, nas festividades
Do nascimento, ofertemos uns aos outros
As dádivas outrora trazidas para o oeste através de desertos —
O precioso metal de nossos cabelos misturados,
O incenso de braços e pernas arrebatados,
A mirra de beijos invencíveis, desesperados —
Celebremos a Natividade
Diária e recorrente do amor,
A inesgotável epifania de nossos fluentes eus,
Enquanto a terra gira sob nós
Em neves e verões desconhecidos,
Nos inexplorados espaços entre as estrelas.

Trad.: Nelson Santander

N. do T.:

1. alusão aos famosos versos do poema Ballade des dames du temps jadis, de François Villon (Paris, 01/04/1431 – França, 1463), um dos clássicos do Ubi sunt?: “(…) Mais où sont les neiges d’antan? / Prince, n’enquerez de sepmaine / Où elles sont, ne de cest an, / Qu’à ce reffrain ne vous remaine: / Mais où sont les neiges d’antan?” – Na Wikipedia, os versos estão assim traduzidos: “(…) Mas onde estão as neves de antanho! / Príncipe, não pergunteis na semana / Onde elas estão, nem neste ano, / Para que não leveis de volta este refrão: / Mas onde estão as neves de antanho!”

2. A referência aqui é a um dos versos do fantástico poema Vobiscum Est Iope (também conhecida por When thou must home), de Thomas Campion. Campion (Londres, 12/02/1567 – Londres, 01/03/1620) foi um compositor, poeta e médico inglês conhecido como um dos mais prolíficos compositores de músicas para alaúde, tendo escrito mais de cem canções para esse instrumento. No poema, Helen é, obviamente, Helena de Troia, associada poeticamente à morte e à destruição; já a “Iope Branca”, segundo esse estudo, seria Calíope, a musa da poesia épica. Segue abaixo a íntegra do poema e sua respectiva tradução (por Adriel Teixeira, Bruno Geraidine e Cristiano Gomes, na obra A imaginação educada, da Vide Editorial):

Vobiscum Est Iope

When thou must home to shades of underground,
And there arrived, a new admirèd guest,
The beauteous spirits do engirt thee round,
White Iope, blithe Helen, and the rest,
To hear the stories of thy finished love
From that smooth tongue whose music hell can move;

Then wilt thou speak of banqueting delights,
Of masques and revels which sweet youth did make,
Of tourneys and great challenges of knights,
And all these triumphs for thy beauty’s sake:
When thou hast told these honours done to thee,
Then tell, O tell, how thou didst murder me!

A tradução:

Quando no Hades fizeres morada,
Nova hóspede que causa impressão,
Por formosos espíritos cercada,
Divas aos montes prestando atenção
Na história do teu acabado amor,
Na voz que até ao Inferno causa ardor,

Falarás de banquetes suntuosos,
Grandes festas e bailes mascarados,
Duelos de cavaleiros valorosos,
Triunfos em teu nome conquistados.
Contadas as honras que granjeaste,
Conta, oh! conta como me mataste.

Lute music

The Earth will be going on a long time
Before it finally freezes;
Men will be on it; they will take names,
Give their deeds reasons.
We will be here only
As chemical constituents —
A small franchise indeed.
Right now we have lives,
Corpuscles, ambitions, caresses,
Like everybody had once —
All the bright neige d’antan people,
“Blithe Helen, white Iope, and the rest,”
All the uneasy, remembered dead.

Here at the year’s end, at the feast
Of birth, let us bring to each other
The gifts brought once west through deserts —
The precious metal of our mingled hair,
The frankincense of enraptured arms and legs,
The myrrh of desperate, invincible kisses —
Let us celebrate the daily
Recurrent nativity of love,
The endless epiphany of our fluent selves,
While the earth rolls away under us
Into unknown snows and summers,
Into untraveled spaces of the stars.

Billy Collins – Pardal de Natal

A primeira coisa que ouvi esta manhã
foi um rápido bater de asas, suave, insistente —

asas contra o vidro, como pude descobrir
lá embaixo, quando vi o pequeno pássaro
amotinando-se contra a esquadria de uma
janela alta, tentando lançar-se através
do enigma do vidro para a vasta luminosidade.

Então, um som da garganta do gato
que estava acocorado sobre o tapete
me contou como o pássaro tinha entrado,
transportado na noite fria
através do acesso na porta do porão,
e mais tarde libertado do aperto suave dos dentes.

Sobre uma cadeira, aprisionei suas pulsações
em uma camisa e o levei até a porta,
tão leve que parecia
ter desaparecido no ninho de tecido.

Mas lá fora, quando abri minhas mãos,
ele se arremessou para o seu elemento,
mergulhando sobre o jardim adormecido
em um espasmo de batidas de asas e
depois desapareceu sobre uma fileira de altas acácias.

Pelo resto do dia,
pude sentir sua vibração selvagem
contra as palmas das mãos enquanto me perguntava sobre
as horas que ele deve ter passado
confinado nas sombras daquela sala,
escondido nos ramos pontiagudos
de nossa árvore decorada, respirando ali
entre os anjos metálicos, maçãs de louça, estrelas de vime,
seus olhos abertos, como os meus, deitado na cama esta noite
imaginando este raro e afortunado pardal
abrigado agora em um arbusto de azevinho,
uma neve suave caindo através da escuridão sem vento.

Trad.: Nelson Santander

Christmas Sparrow

The first thing I heard this morning
was a rapid flapping sound, soft, insistent—

wings against glass as it turned out
downstairs when I saw the small bird
rioting in the frame of a high window,
trying to hurl itself through
the enigma of glass into the spacious light.

Then a noise in the throat of the cat
who was hunkered on the rug
told me how the bird had gotten inside,
carried in the cold night
through the flap of a basement door,
and later released from the soft grip of teeth.

On a chair, I trapped its pulsations
in a shirt and got it to the door,
so weightless it seemed
to have vanished into the nest of cloth.

But outside, when I uncupped my hands,
it burst into its element,
dipping over the dormant garden
in a spasm of wingbeats
then disappeared over a row of tall hemlocks.

For the rest of the day,
I could feel its wild thrumming
against my palms as I wondered about
the hours it must have spent
pent in the shadows of that room,
hidden in the spiky branches
of our decorated tree, breathing there
among the metallic angels, ceramic apples, stars of yarn,
its eyes open, like mine as I lie in bed tonight
picturing this rare, lucky sparrow
tucked into a holly bush now,
a light snow tumbling through the windless dark.

Louis Macneice – O observador de estrelas

Quarenta e dois anos atrás (para mim, se não para mais ninguém,
O número é de algum interesse), fazia uma noite brilhante e estrelada
E o expresso para o ocidente, sem cabines, ia vazio,
De modo que, saltando de um lado para outro, eu podia capturar a insólita visão
Daquelas fendas quase intoleravelmente
Brilhantes, cravadas no céu, que me fascinavam, em parte por causa
De seus nomes latinos, e em parte porque lera nos livros didáticos
O quão distantes elas estavam — parece que sua luz
As deixara (algumas ao menos) muito tempo antes de mim.

E a esta lembrança agora eu acrescento que a
Luz que deixou algumas delas naquela noite,
Quarenta e dois anos atrás, nunca chegará
A tempo para que eu a veja — e quando enfim
Aqui chegar, talvez não encontre
Mais ninguém vivo
Correndo de um lado para o outro em um trem noturno
Admirando-a e multiplicando zeros em vão.

Trad.: Nelson Santander

Star-Gazer

Forty-two years ago (to me if to no one else
The number is of some interest) it was a brilliant starry night
And the westward train was empty and had no corridors
So darting from side to side I could catch the unwonted sight
Of those almost intolerably bright
Holes, punched in the sky, which excited me partly because
Of their Latin names and partly because I had read in the textbooks
How very far off they were, it seemed their light
Had left them (some at least) long years before I was.

And this remembering now I mark that what
Light was leaving some of them at least then,
Forty-two years ago, will never arrive
In time for me to catch it, which light when
It does get here may find that there is not
Anyone left alive
To run from side to side in a late night train
Admiring it and adding noughts in vain.

Ana Martins Marques – Batata Quente

Se eu te entregasse agora o meu amor
aceso como ele está,
como ele está, pesado,
você o trocaria rapidamente de mão,
você o guardaria um pouco na esquerda,
um pouco na direita,
por quanto tempo antes de o passar adiante?

Republicação: poema publicado no blog originalmente em 23/10/2017

Stanley Kunitz – As camadas

Eu já passei por muitas vidas,
algumas delas a minha própria,
e não sou quem eu era,
embora alguns princípios
permaneçam, e eu lute para deles não me afastar.
Quando olho para trás,
como sou compelido a fazer
antes de reunir forças
para prosseguir em minha jornada,
vejo os marcos diminuindo
em direção ao horizonte
e as fogueiras baixas se extinguindo
nos acampamentos desertos,
sobre os quais anjos necrófagos
sobrevoam com suas asas pesadas.
Oh, eu fiz de mim uma tribo
de meus verdadeiros afetos,
e minha tribo está dispersa!
Como pode o coração se reconciliar
com seu festival de perdas?
Em meio a uma ventania crescente,
a poeira persistente dos meus amigos,
aqueles que tombaram pelo caminho,
alfineta amargamente meu rosto.
No entanto, eu me volto, eu me volto,
ligeiramente exultante,
com minha vontade intacta de ir
aonde quer que eu precise,
e cada pedra no meio do caminho
é preciosa para mim.
Em minha noite mais escura,
quando a lua estava encoberta
e eu perambulava pelos escombros,
uma voz nas névoas
me orientou:
“Viva nas camadas,
não no entulho.”
Embora eu não domine a arte
de decifra-la,
sem dúvida o próximo capítulo
do meu livro de transformações
já está escrito,
ainda não terminei de mudar.

Trad.: Nelson Santander

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The Layers

I have walked through many lives,
some of them my own,
and I am not who I was,
though some principle of being
abides, from which I struggle not to stray.
When I look behind,
as I am compelled to look
before I can gather strength
to proceed on my journey,
I see the milestones dwindling
toward the horizon
and the slow fires trailing
from the abandoned camp-sites,
over which scavenger angels
wheel on heavy wings.
Oh, I have made myself a tribe
out of my true affections,
and my tribe is scattered!
How shall the heart be reconciled
to its feast of losses?
In a rising wind
the manic dust of my friends,
those who fell along the way,
bitterly stings my face.
Yet I turn, I turn,
exulting somewhat,
with my will intact to go
wherever I need to go,
and every stone on the road
precious to me.
In my darkest night,
when the moon was covered
and I roamed through wreckage,
a nimbus-clouded voice
directed me:
“Live in the layers,
not on the litter.”
Though I lack the art
to decipher it,
no doubt the next chapter
in my book of transformations
is already written,
I am not done with my changes.

Stig Dagerman – A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer

Sem fé, ouso pensar a vida como uma errância absurda a caminho da morte certa. Não me coube em herança qualquer deus, nem ponto fixo sobre a terra de onde algum pudesse ver-me. Tampouco me legaram o disfarçado furor do cético, a astúcia do racionalista ou a ardente candura do ateu. Não ouso por isso acusar os que só acreditam naquilo que duvido, nem os que fazem o culto da própria dúvida, como se não estivesse, também esta, rodeada de trevas. Seria eu, também, o acusado, pois de uma coisa estou certo: o ser humano tem uma necessidade de consolo impossível de satisfazer.

Procuro o que me pode consolar como o caçador persegue a caça, atirando sem hesitar sempre que algo se mexe na floresta. Quase sempre atinjo o vazio, mas, de tempos a tempos, não deixa de me tombar aos pés uma presa. Célere, corro a apoderar-me dela, pois sei quão fugaz é o consolo, sopro dum vento que mal sobe pela árvore. Debruço-me. Tenho-a!

Mas tenho o que entre os dedos? Se sou solitário – uma mulher amada, um desditoso companheiro de viagem. Se sou poeta ou prisioneiro – um arco de palavras com assombro reteso, um súbita suspeita de liberdade. Se sou ameaçado pela morte ou pelo mar – um animal vivo e quente, coração que pulsa sarcástico; um recife de granito bem sólido.
Sendo tudo isso, é sempre escasso o que tenho!

As formas de consolo: se procuro umas, outras há que me perseguem sem que eu as convoque. Sussurram odiosas. Enchem-me o quarto de murmúrios.
O prazer: “Entrega-te sem restrições”!
O talento: “Usa-me tão mal como a mim mesmo”!
A minha sede de gozo: “Só os gulosos sabem viver”!
A solidão: “Despreza os homens”!
Este desejo de morte: “Fere, Mata”!»

Bem estreito é o fio da navalha! Entre dois perigos me equilibro: de um lado ameaça-me a ávida boca do excesso, do outro a amargura da avareza que de si mesma se alimenta.

E teimo na recusa de optar entre a orgia e a ascese, ainda que com isso me sujeite ao suplício em brasa dos desejos. Não sou livre nos meus atos, por isso tudo me pode ser desculpado.

O que procuro para a vida não é uma desculpa, mas exatamente o seu contrário: é o perdão que busco. Descubro, afinal, que se não levar em conta a minha liberdade, todo o consolo é enganador, mera imagem refletida do desespero. De fato, assim que o desespero me diz – “perca a esperança, o dia não passa de um momento de luz entre duas noites”, há uma falsa voz que me grita – “tenha confiança, a noite não é mais que um momento de trevas entre dois dias”.

A humanidade, porém, não é de palavras que precisa; anseia por um consolo que ilumine. E mesmo aquele que deseje tornar-se mau — agir como se todos os atos fossem defensáveis — deve ter ao menos a bondade de notar quando o consegue.

Ninguém pode enumerar todos os casos em que o consolo é uma necessidade. É impossível saber quando cairá o crepúsculo, impossível enumerar todos os casos em que o consolo se fará necessário. A vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão ou os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem.

Por vezes, à beira-mar, no perpétuo movimento das águas e no eterno fugir do vento, sinto o desafio que a eternidade me lança. Pergunto-me então o que vem a ser o tempo, e descubro que não passa do consolo que nos resta por não durarmos para sempre. Miserável consolo que só os Suíços enriquece…

Noites há em que, sentado à lareira, no quarto mais resguardado de todos, sinto subitamente a morte cercar-me: no fogo, nos objetos pontiagudos que me rodeiam, no peso do teto e na massa das paredes; na água, na neve, no calor, no meu sangue. Pergunto-me então o que vem a ser a nossa muito humana sensação de segurança, e percebo que não passa de um consolo para o fato de a morte ser o que há de mais próximo à vida. Pobre consolo, que não cessa de nos recordar o que desejaria fazer-nos esquecer!

Decido encher todas as minhas páginas em branco com as mais belas combinações de palavras que seja capaz de engendrar. E depois, porque quero assegurar-me que a vida não é absurda e não me encontro só sobre a terra, reúno todas num livro e ofereço-o ao mundo. Este, retribui-me com a riqueza, a glória e o silêncio. Mas não sei que fazer com este dinheiro nem que prazer tirar de contribuir para o progresso da literatura, pois só desejo o que jamais obterei — a certeza de que as minhas palavras tocaram o coração do mundo. É então que me pergunto o que vem a ser o meu talento, e descubro que não passa de uma forma de me consolar da solidão. Risível consolo — que apenas me torna cinco vezes mais pesada a solidão.
Nesse animal que, veloz, atravessa a clareira, por vezes capaz de ver encarnada a liberdade e ouvir uma voz que me insinua: “Vive com simplicidade, frui do que desejas e não temas as leis”! Excelente conselho. Mas de que se trata senão de uma forma de consolo para o fato da liberdade não existir? Impiedoso consolo — para quem sabe que o Homem levou milhões de anos para não conseguir ser senão um lagarto, podre de indiferença!

Quando, por fim, me apercebo que esta terra é uma vala comum, onde Salomão, Ofélia e Himmler repousam lado a lado, concluo que tanto o crápula como a infeliz têm o mesmo fim que o sábio. Por isso, para uma vida falhada, a morte pode tornar-se numa forma de consolo — e bem atroz, sobretudo para quem na vida queria encontrar forma de vencer a morte.

Não possuo filosofia, em que possa mover-me como o peixe na água ou o pássaro no céu. Tudo em mim é um duelo, uma luta travada a cada minuto da vida entre falsas e verdadeiras formas de consolo. Umas não fazem senão aumentar a impotência e tornar-me mais fundo o desespero, outras são fonte de temporária libertação. Falsas e verdadeiras! Deveria antes dizer verdadeira, pois só existe uma consolação verdadeiramente real: a que me diz que sou um homem livre, um indivíduo inviolável, ser soberano no interior dos seus limites.
Mas a liberdade começa na escravidão e a soberania na dependência. O sinal mais vivo da servidão é o medo de viver. O definitivo sinal de liberdade é o fato de o medo deixar espaço ao gozo tranquilo da independência.

Dir-se-á que preciso ser dependente para conhecer o gozo de ser livre! É certamente verdade. À luz dos meus atos, percebo que toda a minha vida parece não ter tido por objetivo senão construir o seu próprio infortúnio: sempre me escravizou o que devia tornar-me livre.

Outros homens têm outros mestres. A mim o talento torna-me escravo ao ponto de não ousar em pregá-lo — tal é o medo de o ter perdido. Mais: subjugo-me de tal modo ao meu nome, que mal me atrevo a escrever uma linha, não vá esta manchá-lo. E, quando se instala a depressão, é dela que sou também escravo. O meu maior desejo é retê-la. O meu prazer mais forte, sentir que tudo o que valho residia no que julgo ter perdido: essa capacidade de gerar beleza a partir do que é em mim desespero, desgosto e fraqueza. Com amargo prazer desejo ver ruir o que arquitetei e ver-me, eu também, envolto na neve do esquecimento. Mas quê? A depressão é uma boneca russa, e na última boneca estão a faca, a lâmina de barbear, o veneno, as águas profundas e o salto para um grande abismo. De todos esses instrumentos de morte me torno escravo. Perseguem-me como cães, a não ser que o cão seja apenas eu. Parece-me então ser o suicídio a única prova da liberdade humana.
Porém — não sei ainda de onde nem como — sinto que se aproxima o milagre da libertação. E a eternidade, que há bem pouco me assombrava, testemunha agora este acesso à liberdade: esta descoberta súbita e simples de que ninguém, nenhum poder, nenhum ser humano, tem o direito de me forçar ao ponto de secar em mim o desejo de viver.

Que é do mar se os rios se recusam? Estou, afinal, perto do mar e da sua ciência. Ninguém pode exigir ao mar que traga todos os barcos, ou ao vento que encha todas as velas. De igual modo, ninguém tem o direito de me exigir que viva prisioneiro de certas funções. A minha divisa não é o dever antes de tudo, mas a vida acima de tudo. Como os outros homens, tenho direito a alguns momentos em que possa sentir-me à parte, em que possa saber que para além de pertencer a essa massa anônima chamada população mundial, sou também uma unidade autônoma.

Só nesses instantes me liberto de tudo o que na minha vida foi causa de desespero. Reconheço que o mar e o vento não deixarão de me sobreviver e que a eternidade nem sequer de mim se lembra. Por que me hei-de eu lembrar dela? A vida só é curta se a coloco no patíbulo do tempo. As suas possibilidades só são limitadas se me ponho a contar o número de palavras ou livros que a morte me dará ainda tempo de acender. Mas por que me hei-de eu pôr a contar? No fundo, o tempo de nada serve, inútil instrumento de medida que só regista o que a vida já me trouxe.

Na verdade, nada do que é importante e acontece e me faz vivo, tem a ver com o tempo. O encontro com um ser amado, uma carícia na pele, a ajuda no momento crítico, a voz solta de uma criança, o frio gume da beleza – nada disso tem horas e minutos. Tudo se passa como se não houvesse tempo. Que importa se a beleza é minha durante um segundo ou por cem anos? A felicidade não só se situa à margem do tempo, como nega toda a relação deste com a vida.

Assim, num só movimento, liberto os ombros do peso de dois fardos: o tempo e as tarefas que teimam em me exigir. Nem a vida é mensurável nem viver é uma tarefa. O salto do cabrito ou o nascer do sol não são tarefas. Como há-de sê-lo a vida humana – força surda a crescer na dor da perfeição? E o que é perfeito não desempenha tarefas. O que é perfeito labora em estado de repouso. É absurdo pretender que a função do mar seja exibir armadas e golfinhos. Evidentemente que o faz – mas preservando toda a sua liberdade. Que outra tarefa a do homem senão viver? Faz máquinas? Escreve livros? Faça o que fizer poderia muito bem fazer outra coisa. Não é isso que importa. Importa é saber-se livre como qualquer outro elemento da criação. Importa é saber-se um fim autônomo, que repousa em si mesmo como uma pedra sobre a areia.

Posso até isentar-me do poder da morte. É verdade que não consigo afastar a ideia que ela se me cola constantemente aos calcanhares. Muito menos sou capaz de lhe negar realidade. Mas posso aniquilar a sua ameaça, evitando escorar a minha vida em pontos de apoio tão precários como o tempo e a glória.

Aqui é que não é lugar de permanência: eternamente voltado para o mar a comparar a sua liberdade com a minha. Chegará o momento de retomar o caminho da terra e enfrentar os responsáveis pela opressão que me faz vítima. Serei forçado a reconhecer que o homem deu vida a formas que, pelo menos na aparência, se revelam mais fortes do que ele. Mesmo a minha recente liberdade não é suficiente para as fatigar, mas somente para suspirar sob o seu peso.

Entretanto, entre as exigências que pesam sobre o homem, sei distinguir as exigências absurdas das inelutáveis. E absurdo é termos perdido para sempre uma forma de liberdade: a que advém de se possuir um elemento próprio. O peixe, tal como o pássaro e o animal terrestre, têm o seu. Thoreau ainda podia contar com a floresta de Walden – mas onde está hoje a floresta na qual o ser humano prove que pode viver livre, e não limitado pelos rígidos moldes da sociedade?

Sou obrigado a responder: em parte alguma. Se desejo viver livre, é por enquanto necessário que o faça no interior desses moldes. Sei que o mundo é mais forte do que eu. E para resistir ao seu poder só me tenho a mim. O que já não é pouco. Se o número não me esmagar, sou, também eu, um poder. E enquanto me for possível empurrar as palavras contra a força do mundo, esse poder será tremendo, pois quem constrói prisões expressa-se pior do que quem se bate pela liberdade. E no dia em que só o silêncio me restar como defesa, então será limitado, pois gume algum pode fender o silêncio vivo.

É este o meu único consolo. Sei que as recaídas no desespero serão profundas e numerosas, mas a lembrança do milagre da libertação leva-me como uma asa a um fim que me inebria: um consolo que seja mais do que apenas isso, e mais vasto que uma filosofia: que seja, enfim, uma razão de viver.

REPUBLICAÇÃO: artigo publicado no blog originalmente em 17/10/2017

Matt Rasmussen – Suicídio reverso

O cara para quem papai vendeu o carro
volta para buscar o dinheiro dele,

sai do veículo. Com trapos imundos
nós o esfregamos até que deixe de brilhar

e limpamos o seu sangue das
costuras do assento.

Cada floco de neve se move antes
de alçar ao céu enquanto eu

percebo que você não estará morto.
O não sofrimento termina

quando a desordem de sua cabeça
se reúne em torno de

uma bala em sua boca.
Você a cospe na arma do papai

antes de chegarmos na entrada da garagem,
enquanto a noite se ilumina

e nós despejamos saco após saco
de folhas no gramado,

esperando que elas pulem
para os galhos nus.

Trad.: Nelson Santander

Reverse Suicide

The guy Dad sold your car to
comes back to get his money,

leaves the car. With filthy rags
we rub it down until it doesn’t shine

and wipe your blood into
the seams of the seat.

Each snowflake stirs before
lifting into the sky as I

learn you won’t be dead.
The unsuffering ends

when the mess of your head
pulls together around

a bullet in your mouth.
You spit it into Dad’s gun

before arriving in the driveway
while the evening brightens

and we pour bag after bag
of leaves on the lawn,

waiting for them to leap
onto the bare branches.