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Vicente Gaos – Testamento

Eu, Vicente Gaos, natural de lugar nenhum, mil séculos de idade, estado civilsolitário, instáveldomiciliado/refugiado em um canto do cosmos,profissão náufrago na sombra,sem carteira de identidade, sem títulos, condecorações ou diplomas de qualquer tipo,sem nenhuma marca particular visível no peito ou em qualquer outra parte do corpo,sem mais cicatriz além de uma necrose miocárdica,uma velha ferida…
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George Bilgere – Tudo bem

Eu me sento aqui na calçada da cafeteria,emitindo a amarela fumaça doentia da senescênciaenquanto as pessoas passam fingindonão notar, olhando para longeou para os seus telefones,fazendo o melhor por comoção ou cortesiapara me ignorar sentado aqui envelhecendo,e eu não os culpo, é mesmo difícil de assistir. E agora a garçonete em sua beleza abrasadora,em sua…
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Ernesto Pérez Vallejo – Perdão, falava em voz alta

Queres mesmo que eu seja sincero? Se não esperas nada de ninguémNunca poderão desapontá-la.A esperança é aquele relógioque sempre marca a hora errada. Se não escolheres o caminho errado algumas vezescomo diabos saberás qual deles era o certo? Nos momentos felizes, não sabemos ao certo se estamos tristes.Mas, quando tristes, todos sabemos quando estávamos felizes.…
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Elizabeth Jennings – Uma só carne

Cada qual em sua cama, deitados separados agora,Ele com um livro, uma luz acesa até hora incerta,Ela, como uma menina, sonhando com sua aurora,Todos os homens em outros lugares – é como se certaNova ocorrência esperassem: o livro que ele detémMas não lê, os olhos dela pregados nas sombras além. Lançados acima como destroços de…
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Javier Salvago – Fim de Festa

Enfim sós, vida. A festa acaboue não resta ninguém para nos obrigara sorrir, ou a inventar desagradáveismentiras inofensivas. Todos se foram. Despe-te sem medo. Conheçoas velhas rugas de tua triste carne.Acariciei-as. Sei o que teu rostooculta por baixo da maquiagem. Enfim sós, vida. A casa em silêncioe tu e eu nus, calados e ausentes,– juntos…
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James Crews – Kintsugi

Qualquer um que ama outra pessoajá tem o coração partido.É a lei: se quer que aquela luzinunde seu corpo, você deveexpor as cicatrizes através das quaisela jorra, pois elas são a fontede sua beleza e de sua força.Pense nos japoneses que preenchemas fissuras de uma vasilha de cerâmicacom ouro puro, não apenas exibindoestas chamadas falhas,…
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Luis Alberto de Cuenca – Insônia

A vida é muito curta.Não há tempo para fazer nada. Não há meiosde reunir dias suficientespara aprender alguma coisa. Tu te levantas,abraças tua namorada, tomas teu café da manhã,trabalhas, comes, dormes, vais ao cinema,e sequer tens um momentopara ler Sêneca e acreditarque tudo neste mundo tem conserto.A vida é um instante. Não entendopor que esta…
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Joyce Sutphen – Vivendo no corpo

Corpo é uma coisa de que você precisa para permanecerneste planeta e só dispõe de um.E não importa qual você tenha obtido, ele nãoserá satisfatório. Não será bonitoo suficiente, não será rápido o suficiente, não durará por vários dias seguidos, maso arrastará para um pântano sonolento eexigirá maçãs e cafés e bolos de chocolate. Corpo…
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Manuel António Pina – Sétimo Dia

Ao Manuel Hermínio Voltamos, um a um, da tua mortepara a nossa vida como quem regressa a casade uma longa viagem. Para trás ficaram recordações, países,e agora é como se te tivéssemos sonhado.A voz que, diante da escuridão, suspendemosquando se desmoronou o mundo para o fundo de tierguemo-la de novo para os afazeres diurnose para…
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Malena Mörling – Do trem

Pouco antes do sol desapareceratrás de uma fileira de armazénse antes que ele voltasse à tonapara lavar nossas roupasdas sombras, eu notei algo —Era apenas um pedaço de papel,mas estava pendurado em uma das paredes expostasde um dos prédios parcialmente demolidosque passavam flutuando.Notei também o contornode uma velha escadae o desgastado papel de parede verde…