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Haroldo de Campos – Servidão de Passagem

forma de fome proêmio mosca ouro?mosca fosca. mosca prata?mosca preta. mosca íris?mosca reles. mosca anil?mosca vil. mosca azul?mosca mosca. mosca branca?poesia pouca. o azul é puro?o azul é pus. de barriga vazia. o verde é vivo?o verde é vírus de barriga vazia. o amarelo é belo?o amarelo é bile de barriga vazia. o vermelho é…
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David Wagoner – Perdido

Permanece imóvel. As árvores à frente e os arbustos ao teu ladoNão estão perdidos. Onde quer que estejas é chamado de Aqui,E deves tratá-lo como um poderoso estranho,Pedir permissão para conhece-lo e ser conhecido.A floresta respira. Escuta. Ela responde,Eu fiz este lugar ao teu redor.Se o deixares, poderás voltar novamente, dizendo Aqui.Nenhuma árvore é igual…
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Manuel António Pina – Instituto de Oncologia

Estes cumprem o rito antigo mantendoa chama da morte acesa na obscura água da vidae engrossam o rio dos mortoscomo pura memória sem nome. Nós rebelamo-nos, levantamos as mãos ao céu,e depois fechamo-las para detero rio da mudança fluindo por entre os dedos,porque éramos os menos fortes e os menos densos. Frágeis mãos dispersaram o…
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Thom Gunn – Natureza morta

Não esquecerei tão cedoA pele amarelo-acinzentada À qual o rosto se havia fixado:Pálpebras apertadas: nada dele,Nenhum tremor interior,Brincava na superfície.Ele ainda respirava, e contudoEsta era uma obscura habilidade.Não esquecerei tão cedoO ângulo de sua cabeça,Mantida imobilizada para trás Na planície estirada do colchão,De volta daquilo que ele não podiaNem aceitar, como uma objeção,Nem, como um…
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Charles Bukowski – Para Jane Cooney Baker, morta em 22/01/1962

e então você se foi me deixando aquinum quarto com uma cortina rasgadae o Idílio de Siegfried tocando no radinho vermelho. e então você se foi tão rápidoquanto quando você veio pra mim,e nós tínhamos dito adeus antes,e quando eu estava limpando seu rosto e lábiosvocê abriu os maiores olhos que eu já tinha vistoe…
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Frances Leviston – Todo animal faz um som, exceto nós

Agostoe os cordeirosforam levados de suas mães.O dia todo elas emitem seus humanos lamentosatravés da cerca da fazenda até a lagoa da orelha de um fazendeiroe ao longo da lama pela nunca esquecidanecessidade de expressar o que foi perdido –a fala visceral, incontornável,a fala naufragada,a perda. Trad.: Nelson Santander Every Animal has a Noise Except…
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Francisca Aguirre – E se, depois de tudo, fosse o resto

E se, depois de tudo, fosse o restoum ir morrendo para ao fim morrermospor este louco afã de convertermo-nosem contadores de um momento lesto. E se afigura que o correto eraeste sermão que vem nos repetirque avança o furacão de nos ferir,e é vã e absurda esta carreira. Então fique tranquilo, amor meu,e goza desta…
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Adam Zagajewski – Um breve poema

Eu ouvia cânticos gregorianosnum carro em alta velocidadeem uma rodovia na França.As árvores passavam velozes. As vozes dos mongesentoavam preces a um deus invisível(ao amanhecer de uma capela tremendo de frio).Domine, exaudi orationem meum,vozes graves rogavam calmamentecomo se a salvação estivesse crescendo no jardim.Para onde eu ia? Onde o sol se escondia?Minha vida estava em…
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Yehuda Amichai – Na história do nosso amor

Na história do nosso amor, um foi sempreUma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.O tempo passará por nós, como paisagensPassam por trás de atores parados em suas marcasQuando se roda um filme.As palavrasPassarão por nossos lábios, até as lágrimasPassarão por nossos olhos.O tempo passaráPor cada um…
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Czesław Miłosz – Uma vida afortunada

Sua velhice coincidiu com os anos de colheita abundante.Não houve terremotos, secas ou inundações.Dir-se-ia que a mudança das estações ganhava em regularidade,As estrelas se fortaleciam e o sol aumentava seu poder.Mesmo em províncias remotas nenhuma guerra foi travada.Gerações cresceram amistosas para com seus semelhantes.A natureza racional do homem não era motivo de escárnio. Foi amargo…