William Stafford – Como é

Há um fio que você segue. Ele passa entre
as coisas que mudam. Mas ele não muda.
As pessoas se perguntam o que você persegue.
Você precisa explicar sobre o fio.
Mas é difícil para os outros enxergá-lo.
Enquanto o segura, você não pode se perder.
Tragédias ocorrem; pessoas se ferem
ou morrem; e você sofre e envelhece.
Nada que você faz pode deter o desenrolar do tempo.
Você nunca solta o fio.

Trad.: Nelson Santander Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

The Way It Is

There’s a thread you follow. It goes among
things that change. But it doesn’t change.
People wonder about what you are pursuing.
You have to explain about the thread.
But it is hard for others to see.
While you hold it you can’t get lost.
Tragedies happen; people get hurt
or die; and you suffer and get old.
Nothing you do can stop time’s unfolding.
You don’t ever let go of the thread.

Janus Vitalis – Sobre Roma

Recém-chegado que, buscando Roma em Roma,
não encontras, em Roma, Roma alguma,
olha ao redor, muro e mais muro, pedras rotas,
ruínas, que assustam, de um teatro imenso:
é Roma isto que vês – cidade tão soberba,
que ainda exala ameaças seu cadáver.
Vencido o mundo, quis vencer-se e, se vencendo,
para que nada mais seguisse invicto,
jaz, na vencida Roma, Roma, a vencedora,
pois Roma é quem venceu e foi vencida.
Só resta, indício do que já foi Roma, o Tibre:
corrente rápida que corre ao mar.
Assim age a Fortuna: o que há de firme passa
e o que sempre se move permanece.

Trad.: Nelson Ascher

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/02/2016

Rōma Prīsca

Quī Rōmam in mediā quaeris novus advena Rōmā,  
  Et Rōmae in Rōmā nil reperis mediā,
Aspice mūrōrum mōlēs, praeruptaque saxa,  
  Obrutaque horrentī vasta theātra sitū:
Haec sunt Rōma.  Viden velut ipsa cadāvera, tantae  
  Urbis adhūc spīrent imperiōsa minās.
Vīcit ut haec mundum, nixa est sē vincere; vīcit,  
  Ā sē nōn victum nē quid in orbe foret.
Nunc victā in Rōmā Rōma illa invicta sepulta est,  
  Atque eadem victrīx victaque Rōma fuit.
Albula Rōmānī restat nunc nōminis index,  
  Quīn etiam rapidīs fertur in aequor aquīs.
Disce hinc, quid possit fōrtūna; immōta labāscunt,  
  Et quae perpetuō sunt agitāta manent.

Marisa Martinez Pérsico – Curriculum Vitae Resumido

Mal se conhecem
mas já se fazem
as perguntas habituais:

qual teu prato preferido?
onde moras?
que país gostarias de visitar?

Provavelmente já deram
centenas de vezes a resposta

E a repetem
por hábito e constância
embora a tenham mudado
ao longo da jornada até hoje.

Para compreender a alma dos outros
bastaria tão somente uma pergunta:
o que te fez chorar?

Trad. Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Curriculum Vitae Resumido

Apenas se conocen
pero ya se preguntan
unos típicos datos de ocasión:

qué comida prefieres
dónde vives
qué país querrías visitar.

Seguro pronunciaron
cien veces la respuesta
y la repiten
por hábito y constancia
aunque la hayan cambiado
en el camino hasta hoy.

Para entender el alma de los otros
bastaría, tan solo, una pregunta:
qué te hizo llorar.

Ferreira Gullar – Anoitecer em Outubro

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/02/2016

José Infante – Esquecimento ou desmemoria?

Nunca se apagarão de tua memoria os olhos de tua mãe
perdidos na ausência do presente, buscando
com angústia no passado a menina que foi,
desamparada e órfã, aos cuidados de uma tia
desnaturada e cruel que jamais ocupou o lugar
da mãe morta na juventude por um tumor
inominável.
Mas os olhos de mamãe
não encontravam ninguém em sua busca incessante.
Algum nome perdido, o pânico refletido
da solidão nas pupilas cegas.
Foi o Alzheimer que te levou ao esquecimento
ou preferias anular uma vida tão dura
e generosa, sempre dedicada aos outros
sem nunca pensar na tua felicidade ou no teu descanso?

Mais de cinco anos já se passaram, mas teus olhos
vazios de expressão, viajando ao passado
que quiseste apagar, seguem diante
de mim, como uma imagem congelada, que nunca
chegará a tornar-se sépia.
O tempo não passa
por essa imagem aterradora e final, quando
o ar te abandonou definitivamente e o coração
cansado deixou de bater, depois de uma interminável
agonia, que nenhum de nós
conseguimos deter e que lembro
com espanto e, às vezes, como o temido
presságio de minha própria morte.
Tentarei,
como tu, me perder na desmemoria
que é o esquecimento desejado? Ou será essa forma
deliberada de estar ausente da vida
que virá logo habitar comigo?

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

¿Olvido o desmemoria?

Nunca se borrarán de tu memoria los ojos de tu madre
perdidos en la ausencia del presente, buscando
con angustia en el pasado a la niña que fue,
desamparada y huérfana, a cargo de una tía
desnaturalizada y cruel que jamás ocupó el lugar
de la madre muerta en la juventud de un tumor
innombrable.
Pero los ojos de mamá
no encontraban a nadie en su incesante búsqueda.
Algún nombre perdido, el pánico reflejado
de la soledad en las pupilas ciegas.
¿Fue el Alzheimer lo que te llevó al olvido
o preferías anular una vida tan dura
y generosa, siempre entregada a los otros
sin pensar jamás en tu felicidad o en tu descanso?

Ha pasado ya más de un lustro, pero tus ojos
vacíos de expresión, viajando al pasado
que habías querido borrar; siguen delante
en mí, como una foto fija, que nunca
se llegará a poner sepia.
No pasa el tiempo
por esa imagen aterradora y final, cuando
el aire te faltó definitivamente y eI corazón
cansado dejó de latir, después de una agonía
interminable, que ninguno de nosotros
logramos detener y que recuerdo
con espanto y a veces como el temido
presagio de mi propia muerte.
¿Intentaré
perderme, igual que tu, en Ia desmemoria
que es el olvido deseado? ¿O será esa forma
deliberada de estar ausente de la vida
la que vendrá pronto a habitar conmigo?

Ferreira Gullar -Aprendizado

Do mesmo modo que te abriste à alegria

abre-te agora ao sofrimento
que é fruto dela
e seu avesso ardente.

Do mesmo modo

que da alegria foste

ao fundo

e te perdeste nela

e te achaste

nessa perda 

deixa que a dor se exerça agora
sem mentiras
nem desculpas

e em tua carne vaporize

toda ilusão

que a vida só consome
o que a alimenta.

 

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 23/02/2016

Jack Gilbert – Infidelidade

Ela nunca está morta quando ele a encontra.
Eles comem lamen no café da manhã, como de costume.
Por onze anos, ele pensou que fosse o rio
no fundo de sua mente sonhando.
Agora sabe que ela vive dentro dele,
como o vento às vezes é visível
nas árvores. Como as rosas e o ruibarbo
estão no jardim e depois não estão.
As cinzas dela estão junto ao mar, em Kamakura.
Seu rosto e seu cabelo e seu doce corpo ainda habitam
a velha vila na montanha onde
ela viveu um verão inteiro. Eles dormiram
no chão por onze anos.
Mas agora ela vem cada vez menos.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Infidelity

She is never dead when he meets her.
They eat noodles for breakfast as usual.
For eleven years he thought it was the river
at the bottom of his mind dreaming.
Now he knows she is living inside him,
as the wind is sometimes visible
in the trees. As the roses and rhubarb
are in the garden and then not.
Her ashes are by the sea in Kamakura.
Her face and hair and sweet body still
in the old villa on a mountain where
she lived the whole summer. They slept
on the floor for eleven years.
But now she comes less and less.

Jack Gilbert – Não a felicidade, mas a consequência da felicidade

Ele desperta no silêncio dos bosques de inverno,
o silêncio dos pássaros que não cantam, sabendo que
não ouvirá a própria voz durante todo o dia. Lembra-se
do som da coruja marrom enquanto dormia.
O homem desperta na gélida manhã pensando
em mulheres. Não com desejo, mas com uma sensação
do que não existe. O silêncio de janeiro é o som
de seus passos na neve, um esquilo ralhando,
ou o áspero chamado de um solitário gaio-azul.
Algo dele dança ali, distante e gravemente mudo.
Muitos dias nos bosques, ele se pergunta o que é
que por tanto tempo ele caçou. Vamos de mãos
dadas, ele pensa, rumo ao prazer sombrio,
mas somos recompensados sozinhos, assim como somos casados
na solidão. Ele percorre os caminhos praticando a estranha
matemática do cérebro, multiplicando o espírito.
Lembra-se de acariciar os pés dela enquanto ela morria.
Por quatro horas, observando-a parar gradualmente
enquanto o hospital dormia. Lembra-se do surpreendente
frio de sua cabeça quando a beijou logo depois.
Há luz ou mais luz, escuridão e menos escuridão.
É, ele decide, uma qualidade sem definição.
Que estranho descobrir que se vive com o coração
como se vive com uma esposa. Mesmo depois de muitos anos,
ninguém sabe exatamente quem ela é. O coração tem
vida própria. Liberta-se de nós, escapa,
é ambiciosamente infiel. Morre inexplicavelmente
depois de oito anos, floresce desnecessária e tardiamente.
Como o silêncio arbitrário nos bosques brancos,
deixando rastros na neve que ele não consegue reconhecer.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

Not the Happiness but the Consequence of Happiness

He wakes up in the silence of the winter woods,
the silence of birds not singing, knowing he will
not hear his voice all day. He remembers what
the brown owl sounded like while he was sleeping.
The man wakes in the frigid morning thinking
about women. Not with desire so much as with a sense
of what is not. The January silence is the sound
of his feet in the snow, a squirrel scolding,
or the scraping calls of a single blue jay.
Something of him dances there, apart and gravely mute.
Many days in the woods he wonders what it is
that he has for so long hunted down. We go hand
in hand, he thinks, into the dark pleasure,
but we are rewarded alone, just as we are married
into aloneness. He walks the paths doing the strange
mathematics of the brain, multiplying the spirit.
He thinks of caressing her feet as she kept dying.
For the last four hours, watching her gradually stop
as the hospital slept. Remembers the stunning
coldness of her head when he kissed her just after.
There is light or more light, darkness and less darkness.
It is, he decides, a quality without definition.
How strange to discover that one lives with the heart
as one lives with a wife. Even after many years,
nobody knows what she is like. The heart has
a life of its own. It gets free of us, escapes,
is ambitiously unfaithful. Dies out unaccountably
after eight years, blooms unnecessarily and too late.
Like the arbitrary silence in the white woods,
leaving tracks in the snow he cannot recognize.

Jack Gilbert – De pouco em pouco: da meia-noite às quatro da manhã

Por onze anos tenho lamentado,
lamentado por não ter feito o que
queria fazer enquanto fiquei ali sentado
aquelas quatro horas, vendo-a morrer. Eu queria
rastejar entre as máquinas
e segurá-la em meus braços, sabendo
que a elementar e remanescente porção de sua
mente vagamente reconheceria que era eu
carregando-a para onde ela estava indo.

Trad.: Nelson Santander

Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em nosso blog

By Small and Small: Midnight to Four A.M.

For eleven years I have regretted it,
regretted that I did not do what
I wanted to do as I sat there those
four hours watching her die. I wanted
to crawl in among the machinery
and hold her in my arms, knowing
the elementary, leftover bit of her
mind would dimly recognize it was me
carrying her to where she was going.

Carlos Drummond de Andrade – Carta

Bem quisera escrevê-la
com palavras sabidas,
as mesmas, triviais,
embora estremecessem
a um toque de paixão.
Perfurando os obscuros
canais de argila e sombra,
ela iria contando
que vou bem, e amo sempre
e amo cada vez mais
a essa minha maneira
torcida e reticente,
e espero uma resposta,
mas que não tarde; e peço
um objeto minúsculo
só para dar prazer
a quem pode ofertá-lo;
diria ela do tempo
que faz do nosso lado
as chuvas já secaram,
as crianças estudam,
uma última invenção
(inda não é perfeita)
faz ler nos corações,
mas todos esperamos
rever-nos bem depressa.
Muito depressa, não.
Vai-se tornando tempo
estranhamente longo
à medida que encurta.
O que ontem disparava,
desbordado alazão,
hoje se paralisa
em esfinge de mármore,
e até o sono, o sono
que era grato e era absurdo
é um dormir acordado
numa planície grave.
Rápido é o sonho, apenas,
que se vai, de mandar
notícias amorosas
quando não há amor
a dar ou receber;
quando só há lembrança
ainda menos, pó,
menos ainda, nada,
nada de nada em tudo,
em mim mais do que em tudo,
e não vale acordar
quem acaso repousa
na colina sem árvores.
Contudo, esta é uma carta.

REPUBLICAÇÃO: poema originalmente publicado na página em 22/02/2016