José Paulo Paes – Glauco

Nas duas vezes que voltei a Curitiba
não o encontrei.
Numa tinha viajado para o Rio
na outra tinha viajado para a morte.

E nem havia mais onde encontrá-lo:
o Belas Artes fechara
a redação de O Dia sumira-se no ar
as pensões eram terrenos baldios.

Desarvorado me sentei à mesa
de uma confeitaria na esperança — vã —
de que algum sobrevivente de outros tempos
viesse dar notícias dele.

Só a caminho do aeroporto tive
um relance dos seus óculos kavafianos
mas sem os olhos risonhos
por detrás das lentes:

livres embora da miopia do corpo
seus olhos continuavam no encalço
da eterna
     fugaz
        inatingível
              Beleza Adolescente.

José Paulo Paes – Elogio da Memória

O funil da ampulheta
apressa, retardando-a,
a queda
da areia.

Nisso imita o jogo
manhoso
de certos momentos
que se vão embora
quando mais queríamos
que ficassem.

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José Paulo Paes – Borboleta

Mal saíra do casulo
para mostrar ao sol
o esplendor de suas asas
um pé distraído a pisou.

(A visão de beleza
dura um só instante
inesquecível.)

José Paulo Paes – Declaração de bens

meu deus
minha pátria
minha família

minha casa
meu clube
meu carro

minha mulher
minha escova de dentes
meus calos

minha vida
meu câncer
meus vermes

Konstantinos Kaváfis – Lembra, corpo…

Lembra, corpo, não só o quanto foste amado,
não só os leitos onde repousaste,
mas também os desejos que brilharam
por ti em outros olhos, claramente,
e que tornaram a voz trêmula – e que algum
obstáculo casual fez malograr.
Agora que isso tudo perdeu-se no passado,
é quase como se a tais desejos
te entregaras – e como brilhavam,
lembra, nos olhos que te olhavam,
e como por ti na voz tremiam, lembra, corpo.

Trad.: José Paulo Paes

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Konstantinos Kaváfis – Coisas Ocultas

De tudo quanto fiz e quanto disse,
não procurem saber quem eu era.
Um obstáculo havia e transformou
os meus atos e o meu modo de viver.
Um obstáculo havia e me deteve
cada vez em que eu ia falar.
Os mais despercebidos dos meus atos,
e, de meus escritos, os mais dissimulados –
só por aí é que haverão de me entender.
Todavia, talvez nem valha a pena tanto
cuidado e tanto esforço para compreender-me.
Mais tarde – em sociedade mais perfeita –
algum outro, de feitio igual ao meu,
certo há de aparecer e livre há de atuar.

Trad.: José Paulo Paes

Táxis Varvitsiótis – Assim também a morte

          À memória de Andréa Karandonis

Asa ou marfim
É tudo espesso
Como o ferro e a madeira
Como a proa inquebrável
De um navio
Rumo ao infinito

Assim também a morte
Espessa impenetrável
Como galeria de mina
Muro indestrutível
Poço sem fundo
Carvão aceso
Para alcançar-lhe o duro cerne
Tons de rasgar
O pano entretecidos de fagulhas

Asa ou marfim
É tudo espesso
Lâmina de aço

Assim também a morte
Sangue congelado
Relógio de granito
Parado
Ardor de braseiro
Sobre lábios tenros
Negro fio enrolado
Em negra serpentina
Sobre a neve

Asa ou marfim
Tudo é diáfano
Qual uma vidraça

Assim também a morte
Prata fosca
De um espelho
Rosto pálido
Imaterial
Oculto
Entre as pedras
Com o veludo do sono
Eterno
E a bruma dos dias

Asa ou marfim
Tudo é diáfano
Como o véu da aurora

Assim também a morte
Cais a pique
De infrangível porcelana
Onde atracam
Os que nada têm
Os que nada sabem
Os que definitivamente ganharam
A sua inocência

Trad.: José Paulo Paes

José Paulo Paes – Epitáfio para um banqueiro

José Paulo Paes – Epitáfio para um baqueiro

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William Carlos Williams – A Árvore sem Folhas

A cerejeira sem folhas
mais alta que o teto
deu ano passado
muita fruta. Como
falar porém de fruta diante
desse esqueleto?
Embora possa estar vivo
não há fruta nele.
Por isso derrubem-no
e usem a lenha contra
este frio cortante.

Trad.: José Paulo Paes

 

The bare tree

The bare cherry tree
higher than the roof
last year produced
abundant fruit. But how
speak of fruit confronted
by that skeleton?
Though live it may be
there is no fruit on it.
Therefore chop it down
and use the wood
against this biting cold.

Páladas – Epigrama V, 72