Tania Hershman – Por um outro nome

Primeiro, ele a chamou de
Minha Pequena Aubergine1

           como se ela fosse exótica
           como se ele fosse francês.

Você não é uma couve-flor,
brincou, e ela

gostou do apelido
vegetal. Mas logo

ele começou a chama-la de Berinjela
e, de alguma forma, ao longo dos

anos, o apelido encurtou
para Jelinha, que ela

odiava, sua pele
estremecendo cada vez que

ele a chamava assim.
Então, ele partiu

para o Oriente Médio
em uma viagem de negócios,

e voltou com
uma nova palavra

na boca.
Chatzil2, ele disse,

eles a assam lá, ela fica defumada, tostada, meu deus, é tão bom

           e ela podia ouvir

pelo modo como 
      ele enrolava as palavras
                            na garganta

           e ela podia ver

pelo modo como
                ele não 
                        a olhava

que ele já havia partido.

Trad.: Nelson Santander

1. Berinjela, em francês

2. Ou חציל : é também berinjela, mas em hebraico

By Any Other Name

First, he called her
My Little Aubergine

           as if she was exotic
           as if he was French.

You’re no cauliflower,
he joked, and she

liked it, his pet
vegetable name. But soon

it became Eggplant
and somehow, over

years, shortened
to Eggy, which she

hated, her skin
wincing each time

he called to her.
Then, he went

on a business trip
to the Middle East,

and returned,
a new word

on his tongue.
Chatzil, he said

they roast it there, it’s smoky, burnt, oh god, it’s so good

           and she could hear

from the way
           he rolled it
                       in his throat

           and she could see

from the way
           he did not
                       look at her

that he was already gone.

Manuel António Pina – Ruínas

Por onde quer que tenha começado,
pelo corpo ou pelo sentido,
ficou tudo por fazer, o feito e o não feito,
como num sono agitado interrompido.

O teu nome tinha alturas inacessíveis
e lugares mal iluminados onde
se escondiam animais tímidos que só à noite se mostravam,
e talvez devesse ter começado por aí.

Agora é tarde, do que podia
ter sido restam ruínas;
sobre elas construirei a minha Igreja
como quem, ao fim do dia, volta a uma casa.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 28/05/2018

Ada Limón – A rebitadora

O que eu não disse
quando ela me perguntou
por que eu sabia tanto
sobre morrer foi que,
para mim, aquilo era uma tarefa.
Quando papai ligou para dizer
que tínhamos um mês, eu fiz uma lista.
Chamei minha equipe
para o meu escritório num arranha-céu,
aquelas Rosies1 que conheciam o ofício,
aquelas que tinham perdido alguém querido,
aquelas que tinham vivido a linha de montagem
da morte em suas próprias casas, e disse,
O que é isso de não mantê-la
em TNP?2 Uma mulher,
ainda frágil de tristeza,
disse, Depende se
ela prefere morrer de insuficiência cardíaca
ou se afogar em seus próprios fluidos.
Acenei com a cabeça e anotei aquilo
como se fosse em uma reunião
sobre um cliente insatisfeito.
E o hospital?, perguntei.
Eles disseram: Eles vão ajudar,
mas você e seu pai
farão a maior parte.
Coloquei um asterisco nisso.
Tínhamos um plano de ação.
Quando isso acontece, nós fazemos isso.
Quando aquilo acontece, nós fazemos aquilo.
Mas o que eu esqueci
foi que este era o nosso plano,
não o dela, não o de quem estava morrendo,
este era um plano para aqueles
que ainda tinham alguém próximo.
Veja, nosso trabalho era simples:
continuar vivendo. O trabalho dela era mais difícil,
o mais difícil de todos. O seu trabalho,
o trabalho dela, era deixar que a máquina
de sobrevivência falhasse,
fazer a fábrica falir,
saber que esta guerra não tinha vencedores,
saber que sozinha ela nos
destruiria a todos.

Trad.: Nelson Santander

1. Referência a Rosie the Riveter . Rosie, a Rebitadora, em tradução livre, é uma personagem icônica da propaganda de guerra dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra Mundial. Ela foi retratada em um cartaz produzido originalmente em 1943 pela Westinghouse Electric Corporation e amplamente utilizado pelo governo dos EUA para incentivar as mulheres a trabalharem em estaleiros e fábricas, substituindo os homens que haviam sido enviados para lutar na guerra. A figura de Rosie se tornou um símbolo do empoderamento feminino e da contribuição das mulheres para a guerra..

2. Terapia Nutricional Parenteral, uma forma de suplementação alimentar intravenosa indicada em pacientes que apresentam inviabilidade do trato gastrintestinal e que são incapazes de atingir um aporte calórico proteico adequado em até 5-7 dias de internação. Esse tipo de terapia é fundamental para garantir a nutrição e a manutenção do estado nutricional adequado em pacientes que não podem receber nutrição via oral ou enteral..

The Riveter

What I didn’t say
when she asked me
why I knew so much
about dying, was that,
for me, it was work.
When Dad called to say
we had a month, I made a list.
I called in my team
to my office in a high rise,
those Rosies of know-how,
those that had lost someone loved,
those that had done the assembly line
of a home death, and said,
What’s this about not keeping
her on TPN? One woman,
who was still soft with sadness
said, It depends on whether
she wants to die of heart failure
or to drown in her own fluids.
I nodded, and wrote that down
like this was a meeting
about a client who wasn’t happy.
What about hospice? I asked.
They said, They’ll help,
but your Dad and you guys
will do most of it.
I put a star by that.
We had a plan of action.
When this happens, we do this.
When that happens, we do that.
But what I forgot
was that it was our plan,
not hers, not the one doing the dying,
this was a plan for those
who still had a next.
See, our job was simple:
keep on living. Her job was harder,
the hardest. Her job,
her work, was to let the machine
of survival break down,
make the factory fail,
to know that this war was winless,
to know that she would singlehandedly
destroy us all

Javier Salvago – Convém não esquecer

Por esta via
que chamam vida, vamos
com cautela devida,

tal qual um cego.
Mas em cinzas termina
todo e qualquer fogo.

Trad.: Nelson Santander

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 27/05/2018

Conviene no Olvidarlo

Por esta senda,
que llaman vida, todos
vamos a tientas,

igual que un ciego.
En ceniza terminan
todos los fuegos.

Keisha Cassel – As nove Sinfonias de Beethoven: um estudo de caso

I

E se eu dissesse que nenhuma guerra acontece dramaticamente?

Nem as guerras em sua casa
nem as guerras em seu corpo
todos somos capazes da violência

de destruir todos em nosso caminho por puro prazer
de desmantelar nossos corpos membro por membro até que sejam menos infames
uma vasilha que alguém esteja disposto a segurar

A brutalidade destrói lentamente, auxiliada pela proximidade,
nenhuma guerra acontece dramaticamente.

II

As línguas são pesadas
e a minha fica tropeçando no idioma de estar viva

esta é a parte em que mordo minha língua
até ela cair da minha boca

III Eroica

O Estado cantava suas canções de guerra
e em seu ventre jazia uma ária
que ressoava
como um Tec pelo ar
deixando a praça da cidade
banhada no sangue de seus inimigos.
O que você esperava?

IV

Não fale mal / dos mortos não/ havia ide/ologia a/ rejeitar/ memórias/para reprimir/
sempre o/ sol e nun/ca a lua/ só as pessoas / feriam/ as pessoas Não/ fale mal dos /
mortos.

V Transformação Transfigurativa

Eu sou uma declaração de desprezo satisfeito com feiura
Eu sou um lugar de perdas
Eu sou um lugar de abundância
Eu sou um estudo de como as instituições causam estragos
Eu estou estagnada
Eu sou do Estado

VI Anti-Pastoral

Você quer que eu seja gentil
ao pegar esses homens pelos colarinhos
arrastando-os pela lama, até que
eles sejam algo que valha a pena olhar
fale mais baixo
use amarelo
atraia-os com um sorriso
deixe-os comer em sua mão

VII

3 homens me disseram que era difícil me amar,
a guerra é calcular a vitimização.
No dia de nossa reconciliação, abandonei meu corpo 6 vezes na esperança de esquecer,
a guerra é calcular a vitimização.
“Envie ajuda” rabiscado 10 vezes no verso de um recibo,
a guerra é calcular a vitimização.
10 anos e 5 terapeutas depois ainda me sinto doente,
a guerra está quantificando a vitimização.

VIII

Deus perdoa. Eu não. Meu corpo não é um templo.

IV Ode à Alegria

Oh, que época para estar viva!
Depois de anos esperando ser puxada para o núcleo da terra
enquanto bebia água envenenada por chumbo
Você imaginou que se sentiria tão radiante?
que o sol a beijaria
em vez de acender o fósforo?
O futuro é brilhante! porque você finalmente se comprometeu com o processo de viver
que você sinta mais; que você chore
você encontrará uma vida extraordinariamente comum
você agora tem permissão para correr por aquele campo de flores.

Trad.: Nelson Santander

A Case Study of Beethoven’s Nine Symphonies

I
What if I told you not a single war happens dramatically.

Not the wars in your home
nor the wars on your body
we’re all capable of violence

of destroying everyone in our path for pure pleasure
of dismantling our bodies limb by limb until they’re less shameful
a vessel someone would be willing to hold

Brutality ravages slowly, it is aided by proximity,
not a single war happens dramatically.

II
Tongues are heavy
and mine keeps tripping over the language of being alive

this is the part where I gnaw on my tongue
until it falls from my mouth

III Eroica
The state sang her war songs
and lying dormant in her belly was an aria
that rang out
like a Tec through the air
leaving the town square
bathed in the blood of her enemies.
What did you expect?

IV
Don’t speak ill/ of the dead there/ were no ide/ologies to/ reject no/ memories/to repress/
always the/ sun and nev/er the moon/ only hurt/ people, hurt/ people Don’t/ speak ill of / the
dead.

V Transfigurative Transformation
I am a statement of contempt content with ugliness
I am a site of loss
I am a site of abundance
I am a study of how institutions wreak havoc
I am stagnant
I am of the state

VI Anti-Pastoral
You want me to be gentle
to grab these men by the collar
dragging them through the mud, until
they’re something worth looking at
speak softer
wear yellows
lure them with a smile
let them eat from your hand

VII
3 men told me I was hard to love,
war is quantifying victimhood.
On the day of our reconciliation I left my body 6 times in hopes of forgetting,
war is quantifying victimhood.
“Send help” scribbled 10 times on the back of a receipt,
war is quantifying victimhood.
10 years 5 therapist, I still feel sick,
war is quantifying victimhood.

VIII
God forgives. I don’t. My body is not a temple.

IV Ode to Joy
Oh, what a time to be alive!
After years of waiting to be pulled to earth’s core
while drinking water laced with lead
Did you ever imagine you’d feel so bright?
that the sun would kiss you
instead of igniting the match.
The future is bright! because you’re finally committed to the process of living
may you feel more; may you cry
you will find a life that is extraordinarily ordinary
you now have permission to run through that field of flowers.

Vítor Nogueira – Gelo

Agora é apenas um café com paredes adornadas,
imagens retratando destemidos ancestrais.
O tempo foi passando, não foi? Um acidente
em câmara lenta a uma escala cataclísmica.

Grande parte daquilo que fazemos é construir
memória, uma promessa frágil ao futuro.
E pensar que na vida acumulamos tanta coisa,
sobretudo se por hábito não deitamos nada fora.

Mas ninguém pode travar a grande máquina.
Diz-se que a viagem conta mais do que o destino.
Perscruto as águas envolventes, em busca de
sombras, enquanto o mar revolto bate no casco.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado originalmente em 26/05/2018

Charlotte Mew – Quartos

Lembro-me de quartos que tiveram relação
     Com o constante esgotamento do coração.
O quarto em Paris, o quarto em Genebra,
O quarto pequeno e úmido com cheiro de algas
E aquele som da maré, enlouquecedor e perenal —
     Quartos onde as coisas morriam — para o bem ou para o mal.
Mas há um quarto onde nós (duas) mortas jazemos,
Embora a cada manhã pareça que despertamos e pareça que de novo repousamos
     como o faremos algures no outro catre mais silencioso e poeirento
     lá fora, ao sol - ao relento.

Trad.: Nelson Santander
Rooms 

I remember rooms that have had their part
In the steady slowing down of the heart.
The room in Paris, the room at Geneva,
The little damp room with the seaweed smell,
And that ceaseless maddening sound of the tide—
Rooms where for good or ill—things died.
But there is the room where we two lie dead,
Though every morning we seem to wake and might just as well seem to sleep again
as we shall somewhere in the other quieter, dustier bed
out there in the sun—in the rain.

Nuno Júdice – Passado

Passou o vento, passou o dia,
passou a noite e a manhã,
passou o tempo, passou a gente,
passou cada hora de amanhã;

passou um canto esquecido
nos cantos de cada passo,
passou ao dizer que passo
sem se lembrar do compasso;

passou a vida como se nada fosse,
só passou e foi-se embora,
passou à pressa, sem demora,
e passou tudo a quem ficou;

e se mais não passou
no fim de tudo ter passado,
foi porque algo se passou
no último passo que foi dado.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 25/05/2018

Ted Kooser – Fazenda Abandonada

Ele era um homem grande, diz o tamanho
dos seus sapatos sobre uma pilha de pratos quebrados junto à casa;
um homem alto também, diz o comprimento da cama
no quarto do andar de cima; e um homem bom e temente a Deus,
diz a Bíblia com a contracapa arruinada
no chão abaixo da janela, empoeirada de sol;
mas não um fazendeiro, dizem os campos
cobertos por pedregulhos e o celeiro com goteiras.

Uma mulher vivia com ele, dizem as paredes do quarto
forradas com lilases e as prateleiras da cozinha
cobertas com oleado, e eles tinham uma criança,
diz a caixa de areia feita de pneu de trator.
O dinheiro era escasso, dizem os frascos de geleia de ameixa
e de tomates em conserva lacrados no buraco do porão.
E os invernos, gelados, dizem os trapos nos caixilhos das janelas.
Era solitário aqui, diz a estreita estrada rural.

Algo deu errado, diz a casa desabitada
no quintal sufocado por ervas daninhas. Pedras nos campos
dizem que ele não era um fazendeiro; os frascos ainda fechados
no porão dizem que ela partiu precipitadamente.
E a criança? Os brinquedos dela estão espalhados pelo quintal
como ramos depois de uma tempestade — uma vaca de borracha,
um trator enferrujado com um arado quebrado,
um boneco de macacão. Algo deu errado, eles dizem.

Trad.: Nelson Santander

Abandoned Farmhouse

He was a big man, says the size of his shoes
on a pile of broken dishes by the house;
a tall man too, says the length of the bed
in an upstairs room; and a good, God-fearing man,
says the Bible with a broken back
on the floor below the window, dusty with sun;
but not a man for farming, say the fields
cluttered with boulders and the leaky barn.

A woman lived with him, says the bedroom wall
papered with lilacs and the kitchen shelves
covered with oilcloth, and they had a child,
says the sandbox made from a tractor tire.
Money was scarce, say the jars of plum preserves
and canned tomatoes sealed in the cellar hole.
And the winters cold, say the rags in the window frames.
It was lonely here, says the narrow country road.

Something went wrong, says the empty house
in the weed-choked yard. Stones in the fields
say he was not a farmer; the still-sealed jars
in the cellar say she left in a nervous haste.
And the child? Its toys are strewn in the yard
like branches after a storm—a rubber cow,
a rusty tractor with a broken plow,
a doll in overalls. Something went wrong, they say.

Manuel António Pina – O Regresso

Como quem, vindo de países distantes fora de
si, chega finalmente aonde sempre esteve
e encontra tudo no seu lugar,
o passado no passado, o presente no presente,
assim chega o viajante à tardia idade
em que se confundem ele e o caminho.

Entra então pela primeira vez na sua casa
e deita-se pela primeira vez na sua cama.
Para trás ficaram portos, ilhas, lembranças,
cidades, estações do ano.
E come agora por fim um pão primeiro
sem o sabor de palavras estrangeiras na boca.

REPUBLICAÇÃO: poema publicado no blog originalmente em 24/05/2018