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Aleksandr Blok – Cleópatra

Cleópatra O museu triste da rainhaHá um, dois, três anos já se abriu.Bêbada e louca a turba ainda se apinha…Ela espera no túmulo sombrio. Jaz na sinistra caixaDe vidro, nem morta nem viva.Sobre ela a multidão salivaPalavras torpes em voz baixa. Ela se estende preguiçosamenteNo sono eterno a que se recolhera…Lenta e suave, uma serpenteMorde…
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Ian Hamilton – A Tempestade

Longe, uma tempestade irrompe. Ela avança em ondas até o nosso quarto.Olhas para a luz, de modo que ela ilumina um ladoDo teu rosto, tua boca contraída, teu assustado olhar.Voltas-te para mim e quando chamo, tu vensE ajoelhas-te ao meu lado, desejando que eu tomeTua cabeça entre minhas mãos, como se fosseUma delicada tigela que…
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Faith Shearin – Lição de Piano

Meus olhos se abrem antes que o sol derrame sua gema no céu;uma garota no andar de cima pratica escalas. Imagino o arcode sua mão, a sua saia que paira acima do joelho. Na rua, ouço um indigente, um copo de papel, um homem que discutefísica com um pombo; um par de meninas sopra bolas…
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Francisco Brines – Aquele verão da minha juventude

E o que restou daquele velho verãonas costas da Grécia?O que resta em mim do único verão da minha vida?Se pudesse escolher, de tudo o que vivi,algum lugar, e o tempo que o ata,sua milagrosa companhia me arrasta até lá,onde ser feliz era a razão natural de estar vivo. Perdura a experiência, como um quarto…
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Kim Addonizio – Para a mulher que chora descontroladamente no banheiro ao lado

se você já acordou vestida às 4 da manhãfechou as pernas para alguém que amava abriu-as para alguém que não roçou-se contraum travesseiro no escuro ficou miseravelmente em uma praiaalgas agarradas em seus tornozelos pagouuma boa grana por um corte de cabelo ruim se afastoude um espelho que queria matá-la sangrouno banco de trás por…
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Paulo Henriques Britto – de “Duas autotraduções”

(CADERNO, XIV)II Isto, também, será lembrado um dia,porém não tal qual é sentido agora.Não que as lembranças sejam distorcidasde propósito; é só porque a memória,entre o vivido e o lembrado, interpõecomo que um filtro, com pequenas falhasou até mesmo substituições –nem tanto por mentiras deslavadas,mas por versões plausíveis do ocorrido.São mudanças sutis, que se desculpam,como…
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Tony Harrison – Longa distância II

Embora minha mãe há dois anos já fosse falecida, papai mantinha junto ao fogão os chinelos dela, quentes,colocava ao seu lado na cama bolsas de água aquecidae ainda ia renovar seus passes e bilhetes Não podíamos simplesmente aparecer. Era necessáriotelefonar. Ele adiava a visita por uma horapara poder arrumar as coisas dela e parecer solitário,como…
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Joan Margarit – Amor e tempo

Lembras quando ainda desconheciasque a vida não teria piedade de ti?Amor e tempo: o tempo nos habitacomo a areia do rio que, lentamente,vai moldando a forma da margem.O amor, que refletiu em teu olharo esplendor da ilha do tesouro.Sensual, solitária, cercadapela sonora senectude do mare os gritos militares das gaivotas.O sonho clandestino dos cinquenta anos.…
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Emily Jungmin Yoon – Entre o equinócio de outono e o solstício de inverno, hoje

Li um poema coreanocom o verso “Hoje você é o mais jovemque jamais será”. Hoje sou a mais velhaque já fui. Hoje bebemos chá de trigo sarraceno. Hoje há calorem meu apartamento. Hoje pensona palavra coreana chada.Significa frio. Significa estar cheio.Significa bater. Vestir. Hoje estamos gastos.Hoje você veste o frio. Sua pele gelada.Meu coração bate…
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Manuel António Pina – As vozes

A infância vempé ante pésobe as escadase bate à porta – Quem é?– É a mãe morta– São coisas passadas– Não é ninguém Tantas vozes fora de nós!E se somos nós quem está lá forae bate à porta? E se nos fomos embora?E se ficamos sós? REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 12/02/2019 Mais…