foi por volta do meu 70º aniversário
que percebi que já não tinha 40
que o lastro que me mantivera estável por tanto tempo
se deslocara
que as pessoas que eu evocava dos meus 20 anos
já não eram dínamos carnais
reanimados em encontros amorosos revisionistas atemporais
no meu 70º aniversário velhos amigos começaram a me ligar
recordando
camaradas e amantes mortos
um devorado vivo pelo câncer de cólon, esquálido e com dor; outro pendurado numa corda passada
por cima da porta do banheiro; outro, entorpecido pelas drogas, abandonado num hospital para pacientes com AIDS;
outro com um câncer crescendo no cérebro, fazendo piadas até quase o fim, em agonia;
outro sangrando à margem de uma estrada rural, atropelado por um garoto bêbado jovem demais para dirigir
que disse não ter visto o corredor porque o sol o ofuscara e tudo mais
quando cheguei aos 40
todos aqueles camaradas
e amantes
ainda estavam vivos e achavam que viveriam para sempre
indiscretamente curiosos sobre como eu ia
se minha vida estava tomando o rumo que eu esperava
porque aos 40
era a hora
aparentemente
de fazer um balanço dessas questões
e acho que o consenso
era que se meu progresso na vida
não chegava a um A
era certamente um sólido B
ou talvez B+
e zaz
deu nisto
minha carreira chegando ao fim
minha coluna se desintegrando aos poucos
e agora
tendo aceitado um pacote de aposentadoria
o espantoso é que eu
ainda me achasse com 40
por tanto tempo
aqueles poucos velhos amigos que ainda restavam
começaram a ligar de novo
porque
aparentemente aos 70
é apropriado recordar amigos mortos
e dar nota à trajetória da própria vida
mais uma vez
Não quero desaponta-los
a todos
ainda assim, deixe-me ser claro
vão se foder
não tenho a intenção de fazer balanço
nem abraçar “minha nova fase”
nem de me desvanecer na névoa como
os mortos-vivos de algum
filme de terror
nem de ficar revivendo sem parar minhas façanhas de juventude com vocês
nem me juntar a vocês para vagar sem rumo
pela reta final
Dei um reset
só isso
apenas um reset
e em tudo o que importa
na verdade tenho só 55
Trad.: Nelson Santander
On Hitting 70
it was around my 70th birthday
that I realized I wasn’t 40 anymore
that the ballast which had kept me steady for so long
had shifted
that the people I conjured from my 20s
were no longer lithe carnal dynamos
reanimated in ageless revisionist trysts
on my 70th birthday old friends started to call me
reminiscing
about dead comrades and lovers
eaten alive by colon cancer gaunt and in pain, dangling from a rope strung
over the bathroom door, foggy with drugs in an AIDS hospice abandoned,
cancer growing on the brain joking until near the end in agony
bleeding by the side of a country road hit by a drunk kid too young to drive
who said he didn’t see the jogger being blinded by the sun and all
when I had reached 40
all those comrades
and lovers
were still alive and thought they’d live forever
unseemly curious about my status
whether my life was turning out as I had hoped
because at 40
it was the time
apparently
to take stock of such matters
and I think the consensus
was that if my life’s progress
was not quite an A
it was certainly a solid B
or maybe B+
and whoosh
it has come to this
my career winding down
my spine slowly disintegrating
and now
having accepted a retirement package
the wonder is that I
still thought of myself as 40
for so long
those few old remaining friends
started calling again
because
apparently at 70
it is appropriate to reminisce about dead friends
and rate the arc of one’s life
once again
I don’t want to disappoint you
all of you
nonetheless let me be clear
fuck off
I have no intention to take stock
or embrace “my new phase”
or fade like the walking dead
from some horror film
into the mist
or endlessly relive my youthful exploits with you
or join you in wandering aimlessly
for the last furlong
I have reset
that is all
just reset
and in all ways important
am really just 55

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