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Jane Hirshfield – O Homem Gentil

Vendi o relógio do meu avô,seu ouro rosado e padrões pontilhados,para ser derretido.Mecanismo irrecuperável.Tampa ausente.Corrente — deve ter havido uma —ausente.Seus números pintadoscom um único e habilidoso pincel.Dei corda à coroaantes de entregá-lo sobre o balcão.O homem gentil recebeuo que lhe trouxe como se fosse à Stasi*.Ele pesou o mel do tempo. * N. do…
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Linda Pastan – O almanaque das coisas derradeiras

Do almanaque das coisas derradeiraseu escolho o lírio-da-aranha-vermelhapela graça de sua efêmerafloração, embora eu mesmatema a brevidade, mas escolho O Cântico dos Cânticospor ter a polpadaquelas romãssobrevivido atoda geada do dogma. Escolho janeiro, com suas friaslições de paciência e desespero – eagosto, muito ensolarado para lições.Escolho um gole de vinho tintopara fazer meu coração disparar,…
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Joan Margarit – Despedida

Retirei tapetes e cortinas,todas as mesas onde há temposnão como nem escrevo.Removi os quadros e pintei as paredespara apagar os vestígios dos anos.Guardo alguns poucos livros. Sei bem quais.Destruícartas de amor que não me amavam mais.Silenciosos agora, os amoressão icebergs errantes do pensar.A casa, sem recantos para o medo,deixa meus olhos mais desnudos.Nada, nem a…
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Michelle Hulan – O universo, como em uma última canção para os corações solitários

Este poema foi inspirado em “People talk and talk more”1, de Eugenio Montale, e no ciclo de vida do nosso Universo. Há uma teoria segundo a qual a fase final do Universo é a denominada Era dos Buracos Negros, na qual esses fenômenos astronômicos deslizam lentamente pelo vácuo frio até não sobrar nada. Essa imagem…
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Lêdo Ivo – O Dia dos Homens

Viver é preciso.Não existe infernonem paraíso. Apenas o chão.E uma persistentechuva de verão. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 10/08/2018
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Hala Alyan – Spoiler

Você pode diagnosticar o medo? A árvore vermelha que cresce do úteroaté a garganta? É um nervo longo, diz o médico. Há uma razão pela quala respiração ajuda: os músculos relaxam como um casamento defunto.Meus medos são básicos. Intoxicação alimentar em Paris. Saguões de hospitais.Meu marido rindo em outro quarto (a porta fechada).Durante dias, amparei meu…
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Sonja Åkesson – Primavera e Outono, Verão e Inverno

A grade que enferrujou.O pão que empedrou.O vento que correu em buscade uma caixa d’água. Primavera e outono, verão e inverno.Isso foi tudo. E é claro, a morte tambémsonolenta e bem empanturradacomo um gato castrado bocejandoenquanto as estações do ano vão e voltamdeixando um gosto amargoem nossas bocas. Trad.: Fernanda Sarmatz Åkesson REPUBLICAÇÃO: poema publicado…
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W.S. Merwin – Desejo

Por favor, um últimobeijo na cozinhaantes de apagarmos as luzes Trad.: Nelson Santander Nota sobre o poema: Merwin escreveu este pequeno poema imediatamente após a morte de sua esposa. Como é simples o desejo… de experimentar uma vez mais essa ocorrência aparentemente comum e cotidiana. Imagino isso como uma rotina noturna, um beijo ligeiro antes…
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Nuno Júdice – Carpe Diem

Confias no incerto amanhã? Entregasàs sombras do acaso a resposta inadiável?Aceitas que a diurna inquietação da almasubstitua o riso claro de um corpoque te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,os instantes; e nos lábios dessa que amastemorre um fim de frase, deixando a dúvidadefinitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,para que o…
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David Wagoner – O silêncio das estrelas

Certa noite, no deserto de Kalahari, quando Laurens van der Post1 disse aos bosquímanosQue não conseguia ouvir as estrelasCantando, eles não acreditaram. Eles o olharam,Meio sorridentes. Examinaram seu rostoPara ver se ele não estava brincando Ou enganando-os. Então dois daqueles homenzinhosQue nada plantam, que quase Nada têm para caçar, que vivemDe quase nada e não…