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Joan Margarit – O ano em que ela morreu

Na fotografia em sépiaés jovem e sorri. Faz-me lembraras mulheres dos filmes de guerrada minha infância:barcos na neblina, trens noturnose grandes cidades sob o alarme aéreo.Na lápide está escrito que ela se foino inverno de 44,aos vinte anos, quando me apaixonavapela sufocante escuridãocruzada por um raio de luz, a heroínados sonhos de amor de minha…
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Tomas Tranströmer – Postais Pretos

I O calendário está repleto; o futuro é incerto.Os fios entoam uma canção folclórica apátrida.A neve cai sobre o mar cinzento. Sombrascombatem no cais. II No meio da vida, eis que a morte chegae tira nossas medidas. Essa visita logoé esquecida, e seguimos com a vida. Mas a vestesegue sendo silenciosamente cosida. Trad.: Nelson Santander…
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Manuel António Pina – Corpo Presente

Toda a casa suspenderaa respiraçãoincapaz de contertamanha desproporção, e eu próprio desapareceraalgures na sala, entre a tua vida e a tua morte.Atenderam o telefonefalando baixo, temendo que regressassecada coisa do teu lugarsem estar prontos aindapara a tua solidão. Faltava muitopara podermos perceber,muitos passos para chegarmosaonde sempre estivéramos: mais perto do tédio do que da esperança,da…
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Jan Heller Levi – Nada mal, pai, nada mal

Acho que você é mais você mesmo quando está nadando;cortando a água a cada braçada,o jeito engraçado como respira, a boca tortacomo se estivesse bocejando. Você não é nem ótimo nem péssimoem ir daqui até ali.Não ganharia nenhuma medalha, pai,mas não se afogaria. Penso em como tudo poderia ter sido diferentese eu tivesse julgado seu…
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Luís García Montero – Resumo dos fatos

Resumo dos fatos, um poema de Luís García Montero, reflete sobre a comunicação moderna, a efemeridade das mensagens digitais e a permanência dos grandes temas humanos, afirmando que, no fim, apenas o amor e a morte realmente importam.
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Paul Guest – 2020

Talvez seja preciso abraçar a decepção.Da maneira como você não consegue dormir à noite,sonhando com a poeira nos móveise o agradável odor de madeira compensadae como é a sensação de descascar a peledo polegar. Talvez você deva começaraquele romance perfeito que irásalvá-lo. Livrar você das rubras garrasde um monstro que está bem alialém de sua…
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Carlos Poças Falcão – A luz coada num pano negro

Lamenta-te, pois já não é alegreo vento sobre os campos.Não há descoberta nem transfiguraçãoquando o calendário vem com as primícias. Lamenta-te, lamenta-te.Já não tens a nudez certanem a fragrância antiga. REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 03/04/2019 Mais do que uma leitura, uma experiência. Clique, compre e contribua para manter a poesia viva em…
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Chad Frame – Área de Fumantes

Área de fumantes VA Medical Center em Wilkes Barre, Pennsylvania: lado de fora da enfermaria Páscoa, e o recinto de vidro está embaçadocomo um olho remelento. Os velhos fumam,ofegantes em seus bonés e cadeiras de rodas. Trouxemos o cachorro do meu pai. Eu sei que não éum cachorro de homem, anuncia ele, o chihuahuarepousando na colcha azul…
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Vicente Gaos – Esquecei

Esquece, homem… Esquece que és cinzase em cinzas te tornarás. Esquece esta quarta-feirae o in pulvis reverteris. Pois embora sejas cinza e pó,há vida, amor, beleza ao redor. É verdade: beleza, amor, vida,fugazes flores de um dia. Mas flores, sim. Enquanto durara magia verdadeira de seu perfume, esquece o pó e a morte.É melhor não…
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Manuel António Pina – Sexta-feira Santa

A conversa era sobre Deus,embora o teólogo estivesse inclinadoa pensar que fosse sobre outra coisa,pois era hora de jantar.Pegou num cigarro e perguntou às senhoras se podia fumar.Tinha devorado o pargo com honesto apetitee elogiava as virtudes do cozinheiro.Só Deus, algures, chorava sobreos despojos da sua pequena criatura na travessaa caminho da copa, antes da…