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Maureen Seaton – Preparem-se para dias melhores

Preparem-se para dias melhores — Virgilio, Eneida Não vou me guardar para dias melhores.Vou me consumir agora – e depois vou me consumir novamente amanhã.É por isso que mantenho os olhos abertos a noite toda e meu coração se precipita em direção às estrelas.Para ver quais decidem permanecer imóveis e criar uma constelação ao meu redor…
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Mario Benedetti – Currículo

A história é muito simplesvocê nascecontempla aturdidoo vermelho-azul do céuo pássaro que emigrao desajeitado besouroque seu sapato esmagarádestemido você sofrereclama por comidae por hábitopor obrigaçãochora isento de culpasexaustoaté que o sonho o desqualifique você amase transfigura e amapor uma eternidade tão efêmeraque até o orgulho se torna ternoe o coração proféticose converte em escombros você…
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Li-Young Lee – O grande relógio

Quando o grande relógio da estação parou,as folhas continuaram a cair,os trens continuaram a circular,o cabelo da minha mãe continuou a crescer, ainda mais comprido e mais negro,e o corpo do meu pai continuou a encher-se de tempo. Não consigo ver o ano no calendário da estação.Dormimos sob os ponteiros parados do relógioaté a manhã,…
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Nicanor Parra – Esquecimento

Juro que não me lembro nem do seu nome,Mas morrerei chamando-a de Maria,Não por mero capricho de poeta,Pela sua aura de praça de província.Que tempos aqueles!, eu, um esquisitão,Ela, jovem pálida e sombria.Ao voltar certa tarde do LiceuSoube de sua morte imerecida,Notícia que me causou tal desalentoQue derramei uma lágrima ao ouvi-la.Uma lágrima, sim, quem…
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Emily Montgomery – Algo Bonito

Algo Bonito para Chris Eu quis reservar algo bonito para você.As últimas três joias de romãs reluzentesequilibradas na palma da minha mão antes que eu as comesse.O canto matinal dos pássaros no limoeiro depois de você ter ido trabalhar,a lembrança da chuva da noite passada ainda impressa no gramado.Ou antes, a enigmática esfericidade da luasobre…
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José Fernando Guedes – Coeso é o tempo

Coeso é o tempo em cada tênue segundoQue logo se desfaz e se reconstróiComo uma linguagem de gestos que o universoElabora sem que percebamos. E mesmo no interior de cada segundoHá suficiente espaço para se fazer o bem ou o malPorque é assim mesmo que acontece: o mal ou o bemInfinitesimais, germinam e brotam no…
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Caitlyn Siehl – Uma carta ao amor

O primeiro poema que escrevi que não era sobre vocêestava todo em maiúsculascomo se estivesse tentando compensara sua ausência. Era sobre um mundo distante desteonde todas as plantas eram aterrorizantes,mas tinham poderes de cura se tivéssemos a coragemde tocá-las. O primeiro poema que escrevi que não era sobre vocêinflou a garganta como um sapo-boie implorou…
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Raymond Carver – A carteira do meu pai

Muito antes de pensar em sua própria mortemeu pai dizia que gostaria de descansar pertodos seus pais. Sentia muita falta delesdesde que tinham partido.Falou isso o bastante para que minha mãe se lembrasse,e eu me lembrasse. Mas quando o ardeixou seus pulmões e todo sinal de vidase extinguiu, ele se encontrava numa cidadea 512 milhas…
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Raymond Antrobus – Duas armas no céu para Daniel Harris

Quando Daniel Harris saiu do carro1,o policial estava à espera. Arma erguida. Uso o pretérito, embora seja irrelevantena língua de Daniel, que é a dos sinais. Sinais não têm futuro nem pretérito; é língua do presente.Nunca se está mais presente do que quando uma arma é apontada para você. Que língua expressa issose não a…
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Francisco Brines – A Piedade do Tempo

Em que escuro recanto do tempo que morreuvivem ainda,a arder, aquelas coxas? Dão luz aindaa estes olhos tão velhos e enganados,que voltam agora a ser o milagre que foram:desejo de uma carne, e a alegriado que não se nega. A vida é o naufrágio de uma obstinada imagemque já nunca saberemos se existiu,pois só pertence…