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Spencer Reece – Portofino

Prometa-me que não esquecerá de Portofino.Prometa-me que encontrará a ilusão de óticanas paredes do Splendido.As paredes que criam uma cena inacessível. Talvez assim compreenda esse anseiopor permanência que mencionei tantas vezes.Do outro lado do porto? Uma capela amarela. Um penhasco.Prometa-me que testemunhará o dia se dissipar. E quando os telhados escurecerem, quando as estrelas vagarematé…
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José María Zonta – Não entres como turista no coração de uma mulher

Não entres como turista no coração de uma mulher, tirando fotosdeixando latas de cervejaprocurando apenas imensas catedraise estátuas transparentes com a mochila cheia de mapase fazendo refeições rápidas há um paíssete cidadesuma cordilheira e um invernono coração de uma mulher não bebas ali só uma taça de mar não entres em aviãotoma o trem da…
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Jesús Jiménez Domínguez – A Ponte no Nevoeiro

Detenho-mea meio do caminhoe ouço. Num extremoaquele que fui grita-me:Espera-me! No outro,aquele que serei sussurra-me:Segue-me. E a ponte, eterna,não aguenta o peso dos três. Trad.: Maria Sousa REPUBLICAÇÃO: poema publicado na página originalmente em 04/10/2018 El Puente en la Niebla Me detengoa mitad del recorridoy escucho. En un extremoaquel que fui me grita:¡Espérame! En el…
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Ann Fischer-Wirth – Milagre de um coração sagrado e três folhas de faia, cada uma machada de verde e carmesim

Agora, as traças comeram seu triste dicionário.Uma vez, você esteve atrás do balcão, laços em seus cabelos, medindo e cortando tecidospara as damas rechonchudas. E agora uma pilha de Kleenex sobe pelo seu cotovelo enquanto você lida com sua rinite.Você se tornou uma caixa de sobras, cabelos ralos e sem viço, unhas azuis de cianose.Isso…
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Chico Amaral e Samuel Rosa – As Noites
As ruas desse lugarConhecem bemAs noites longas, as noites pálidasQuando eu te procurava As casas desse lugarSe lembrarãoDo nosso abraço, da sombra insólitaEspelho azul no chão As ruas desse lugarAgora eu seiSempre escutaram a nossa músicaQuando eu te respirava As pedras municipaisSe impregnaramDa dupla imagem, da dupla solidão,A sombra ali no chão E, lá no…
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Fady Joudah – Mimesis

Minha filha não faria mal a uma aranhaQue se aninhouEntre as manoplas de sua bicicletaPor duas semanasEla esperouAté que a aranha fosse embora por conta própria Se você desmanchasse a teia, eu disse,Ela simplesmente saberiaQue este não é um lugar para se chamar de larE você poderia andar de bicicleta Ela disse: é assim que…
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Pierre de Ronsard – Quando fores bem velha…

Quando fores bem velha, à noite junto à vela,Sentada ao pé do fogo, enovelando e fiando,Dirás, cantando os versos meus e te enlevando:“Ronsard me celebrava ao tempo em que era bela”.Então nem haverá, ouvindo o recital,Serva, ao fim do trabalho e semi-sonolenta,Que, com som do meu nome, não desperte atentaA saudar o teu nome em…
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Otto D’Sola – Plenitude

Da formiga à estrela mais alta, fomos capazes de tecer uma longa história que nunca acabará;da rocha aos pinhais,dos pântanos ao berço de um tênue vento recém-nascido, fomos capazes de dar ao solo duro e seco a alegria de contemplar uma estrela e uma flor aberta. Permeada de canções, beijos e mariposas, nossa história é…
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Joan Margarit – Era Rubra

A Àlex Susanna Levaste tanto tempo para aprenderque chegas tarde ao grande amor:nunca viveste uma era de ouro.As rosas de Ronsard*jamais perfumarão teu olhar,nenhum outono desfolharámorosas pétalas nos braços de ninguém.Com negligência ocultas os espelhoscomo se fazia nas casasonde havia um defunto.Não voltam as mulheres com as quaistrocaste anos de solidãopor um fugaz momento de…
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Jane Mead – Eu me pergunto se sentirei falta do musgo

Quando eu voar para longe, me perguntose sentirei falta do musgo como agora sinto,só de pensar em partir. Havia pedras de muitas cores.Havia gravetos hospedandolíquen e musgo.Havia portões vermelhos com antiquadasferragens forjadas à mão.Havia campos de capim secocom o cheiro das primeiras chuvase então de lama fresca. Havia lama,e havia a caminhada,toda a bela caminhada,e…