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Dorianne Laux — A travessia

Os alces de Orick aguardam para atravessar a pista pacientemente,e meu marido de seis meses, que pensa ser o próprio São Francisco, desce do carro para ajudar.Espírito de São Francisco, camiseta esvoaçante, pisa o asfalto delicadamente e eles começam sua jornada,cabeças erguidas, narinas dilatadas, cada passo um testemunho do momentum interrompido, graciosamentehesitantes, enquanto dois caminhões,…
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Wislawa Szymborska – Mapa

Plano como a mesana qual está colocado.Debaixo dele nada se movenem busca vazão.Sobre ele – meu hálito humanonão cria vórtices de are deixa toda a sua superfícieem silêncio. Suas planícies, vales, são sempre verdes,os planaltos, montanhas, amarelos e marronse os mares, oceanos, de um azul delicadonas margens fendidas. Tudo aqui é pequeno, próximo, acessível.Posso tocar…
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Linda Gregg – Perdida

Poderiam ter nos tomado por um casalviajando de trem de Manhattan a Chicagona última vez que estivemos juntos. Lembro-me deolhar pela janela e louvar a belezado banal: os lugares de passagem, o mundode costas para nós, as pequenas estaçõesesquecidas de nossa história. Dormi sobre seupeito e sua barriga sem pedir permissãoporque eram as últimas horas.…
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Jorge Sousa Braga – Litania

Estava sentado numa sala anexa ao bloco operatórioe uma enfermeira passou com o teu útero num saco de plástico transparenteCom o teu útero com a minha primeira casa e a de meus irmãosainda escorrendo sangueUma pequena construção toda em pedracom divisões de tijolo e cal hidráulicae janelas abrindo para o valeCom o teu úteroCom a…
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Nathan McClain — Nighthawks, de Edward Hopper

Nighthawks*, de Edward Hopper Vê como ela está sentada perto do homemde terno azul? Vê como as mãos delesquase se tocam? Como ela me lembraminha mãe — uma mulher de vermelho tomando café. Vê?Hopper obviamente se sentia só.Por que outro motivo pintaria ela, minha mãe,sentada ali assim? E isso me faria o quê?O balconista de…
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Nuno Júdice – Nostalgia de setembro

Quando vinham as nuvens de setembro, jáos pássaros tinham emigrado para além dos mares,o campo ficava em longos silênciosque só a passagem dos rebanhos, a caminhodo matadouro, cortava num tropel que ecoavaainda, depois da paisagem, com os gritosdo pastor e o ladrar dos cães. Eu gostava dessas nuvensquando começavam as primeiras chuvas, e podiaouvir o…
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Leon Stokesbury – Mensagem não enviada a um irmão em sua dor

Por favor, não morra agora. Escute.Ontem, nuvens de tempestade avançaramdo oeste como músculos espessos.Relâmpagos floresceram. Um espetáculode cores. Você devia ter visto.Uma mulher assistiu comigo, e depois fomos dormir.Quando acordei primeiro, vino rosto dela que o descanso é possível.O céu – de repente pareceimportante lhe dizer – o céuestava rosa como uma concha. Ouça-me. Há…
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Maria do Rosário Pedreira – À avó

Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nosque não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.E, desde então, as nossas feridas têm a espessurado teu silêncio, as visitas são desejadas apenasa outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapetecontinua engelhado, como à tua ida.Provavelmente ficará assim para sempre. No outro Natal, quando a…
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Ted Kooser – Pais

Meus falecidos pais tentam se manter fora do meu caminho.Quando entro em um cômodo, eles já o deixaram,foram procurar o que precisa ser feitoem outra parte da casa, meu pai com o aspirador,minha mãe com pano de pó e o lustra-móveis. Às vezes,ouço seus velhos chinelos tamborilandopelo corredor, ou vejo por um breve instanteo que…
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Czesław Miłosz – Uma descrição honesta de mim mesmo com um copo de whisky num aeroporto, digamos, em Minneapolis

Meus ouvidos captam cada vez menos as conversas, meus olhos vêm se tornando fracos, embora sigam insaciáveis. Vejo suas pernas em minissaias, em calças compridas, em tecidos ondulantes, Observo uma a uma, separadamente, suas bundas e coxas, acalentado por sonhos pornô. Velho depravado, é chegada a hora da cova, não dos jogos e folguedos da…